Era Uma Outra Vez...
57 Inimigo?
Notas iniciais
— Não é nada disso que você... – Flaviana balbuciou sem jeito, empurrando Sidney para o lado. Em movimentos desordenados, ela conseguiu ficar de pé. – Quero dizer... bom, eu... – A morena se calou diante do olhar frio de Rosana.
Sua sempre contida mãe estava ali, na sala do apartamento, olhando-a com uma mistura de indiferença e repugnância. Era o pior cenário possível, embora a Flaviana admitisse que nenhuma explicação que começasse com a frase clichê “não é nada disso que você tá pensado” poderia ser levada a sério. Não que ela esperasse que sua mãe acreditasse na verdade. Ainda que ela tivesse um alto poder de convencimento, o que com toda certeza Flaviana não tinha, a batalha já estava perdida antes mesmo de começar. Se Sofia estivesse ali se sairia melhor naquela situação, pensou a morena, com um pouco de raiva. A sua situação já era complicada demais para pensar na ex amiga traidora.
— Estou pensando? Eu estou vendo perfeitamente bem. – A nota de ironia na voz da mulher foi proposital. – Não vai me apresentar o seu convidado? – Não era um pedido.
Sidney não pode ignorar o olhar da mulher sobre ele. O loiro que nunca se preocupou com convenções sociais, pela primeira vez, sentiu-se constrangido na presença de alguém. E ele tinha a leve suspeita que fato de estar semi nu era um dos principais motivos disso. A atmosfera na sala era de pura tensão e olhando a patricinha de esguelha, ele podia jurar que ela estava perto de um ataque de nervos.
— O Sidney tá indo embora. Agora!
O loiro identificou na ordem imperativa da garota certa vulnerabilidade. Sem querer, lembrou-se da noite e dos insultos trocados por eles na festa. Esse fato acabou por desencadear outras lembranças, outros insultos, sempre com ela o olhando de forma superior. Ele vislumbrou, com certa maldade, uma chance de devolver a ela um pouco da gentiliza com a qual sempre o tratara.
— Por que, gatinha? A gente tava se divertindo tanto, juntinhos... – Ele deu um sorriso sacana não deixando dúvidas sobre o sentido de “juntinhos” – Meu nome é Sidney. – Ele estendeu a mão para cumprimentar a mulher, mas foi completamente ignorado. – Eu sou amigo da sua filha... um grande amigo, se é que me entende. – Completou dando de ombros e ainda sorrindo.
— Quando você acabar com seu amigo pode me encontrar no escritório.
Rosana lançou um último olhar para Sidney antes de deixar a sala. O loiro riu cinicamente enquanto se ocupava de recolher a roupa e os sapatos. Era a sua deixa para cair fora. E embora quisesse fazer isso o mais rápido possível, não perderia sua última chance de prolongar a pequena vitória contra Flaviana.
— Pelo visto, sua coroa não gostou de mim! – Ele riu esperando a reação irada da garota, mas ela não veio. – ‘Qualé’ patricinha, ‘cê’ não tá com medo da tua mãe, tá?
Flaviana olhou diretamente nos olhos de Sidney. Medo? Oh... ela não estava com medo. Na verdade, estava aterrorizada, pois sabia que o pior estava por vi no momento que entrasse no escritório. Se sua mãe tinha alguma dúvida sobre a relação deles, Sidney fez questão de distorcer tudo com aquela insinuação idiota. E agora ela ia sofrer as consequências.
— Você não tem ideia do que fez, não é? – Sussurrou antes de desviar o olhar. Podia sentir as lágrimas prestes a escaparem dos olhos, mas não daria esse prazer a ele. – Vai embora.
Em seguida, a garota deixou a sala para encontrar a mãe.
Sidney não entendeu o que ela quis dizer com aquela pergunta e não dava a mínima. Concluiu se tratar de mais um drama da “menina rica que foi pega pela mamãe fazendo coisa errada”... ainda que ele tenha que admitir que a maior responsabilidade fosse sua, não daria à morena sua simpatia. Em sua opinião, ficar ferrada com a mãe era o mínimo que a garota merecia. No máximo, ela teria o cartão de crédito sem limites confiscado por uma semana.
— X —
Sofia subiu a escada de dois em dois degraus. Ela podia ouvir a batidas do próprio coração descompassado e que não se acalmaria enquanto não visse o irmão. Não era o melhor momento para voltar ao casarão, depois da noite passada. No entanto, correr o risco de encontrar Anita ou Ben pouco lhe importava desde que pudesse estar com Pedro. O remorso a corroía por dentro ao pensar que o irmãozinho estava doente e que havia enviado mensagens pedindo para vê-la e que somente soube disso quando religou o celular, já ao chegar a Barra. Imediatamente solicitou um Uber com destino ao Grajaú.
— Chegou quem não devia! – Giovana falou assim que avistou a loira apressada pelo corredor. Mas diferente do que ela esperava, Sofia a ignorou e passou reto por ela indo diretamente para o quarto dos meninos. – Cobra mal educada!
A loira adoraria devolver o veneno da ruiva, mas não perderia tempo. Abriu a porta deparando-se com a mãe e Pedro deitado na cama.
— Sofia... – Surpreendeu-se Vera. – Quando você chegou?
— Ainda há pouco... – Sussurrou emocionada. Jogou a bolsa numa das camas e se aproximou dos dois. Pedro dormia sob o olhar vigilante de Vera. – Eu não sabia que ele tava doente... – Uma lágrima escapou dos olhos da garota quando sentiu a fronte quente do menino. – Eu devia ter vindo antes!
— Ei, tá tudo bem... – A mulher tranquilizou-a com um sorriso. – o médico disse que é uma virose e que ele logo vai ficar bem. Só precisa se alimentar, tomar os remédios e descansar.
— Tem certeza?
— Tenho! Eu cuidei de vocês a vida inteira, lembra?
— Uhum... – Um pouco aliviada, a loira sorriu fracamente para a mãe. – Ele nunca fica doente.
— O Pedrinho é saudável, mas não está imune a doenças, filha. Não se preocupe, ele vai ficar bom.
Sofia suspirou soltando o ar lentamente dos pulmões. Um peso enorme parecia ter saído do seu coração com as palavras de Vera. Pedro era um dos seus maiores pontos fracos e sequer cogitar que o irmão esteve passando por algum tipo de sofrimento a deixava arrasada.
— Eu posso ficar com ele um pouquinho?
— O tempo que você quiser! – Vera se levantou da cama e deu lugar a garota. A mágoa que ainda pesava entre elas foi esquecida. – Ele vai gostar de te ver quando acordar.
— Espero que sim... – Sofia sorriu emocionada.
Vera analisou a garota abertamente notando os sinais de tensão, os olhos verdes semicerrados, a boca formando uma linha fina.
— Você parece exausta. Já comeu hoje?
— Não, eu vim... – Sofia se calou para não dar a impressão de que queria ser cuidada. – Eu tô bem. – Na verdade sentia a cabeça doer, mas não queria parecer vulnerável quando Pedro merecia toda a atenção. – Não precisa se incomodar comigo.
— Você não me incomoda. – Falou Vera com emoção evidente. – Eu sou sua mãe e me preocupo com você.
— Você se preocupa com todo mundo. – Sofia sorriu para Vera. Era da natureza da mãe ser protetora com todos ao redor dela, uma qualidade que a loira admirava imensamente. – Não pode evitar.
— E você não pode evitar ser durona. – Afirmou a mulher também com um sorriso. – Nunca dá o braço a torcer.
— Nunca... – Sofia sentia-se perigosamente a beira das lágrimas. – Mas eu me rendo se em troca tiver uma fatia daquele seu bolo de chocolate.
Sofia e a mãe trocaram um olhar cheio de significados. Era uma trégua para a conturbada relação que viviam. E embora quisesse mais, Vera entendia que era o máximo que a garota cederia naquele momento, por isso aceitou com humildade aquele gesto. Sua filha poderia ser muito independente e orgulhosa, mas a mulher sabia que ela encontraria o caminho de volta. Era uma questão de tempo.
— Eu volto daqui a pouco.
— X —
— Seu amigo... como ele se chama?
— Sidney... e ele não é meu amigo. – murmurou Flaviana. – E não aconteceu nada entre a gente.
— Você está dizendo que os meus olhos não viram o que eles viram? – Rosana sorriu sarcástica para a filha. – Não me tome por uma idiota, Flaviana. Eu não sou e você não é mais nenhuma criança para mentir para mim.
— Eu não estou mentido... eu nunca menti! – Falou a morena com veemência.
Um estremecimento perpassou pelo corpo da garota ao pensar no peso daquelas palavras. Sua mãe tinha razão, ela não era mais criança e sabia mais verdades do que gostaria. Verdades que as vezes lhe sufocavam ao ponto de não conseguir respirar e sobre quais ela nunca falava. Nem mesmo para Sofia.
— Está dizendo que eu minto? – Era uma pergunta capciosa. E tudo o que Flaviana queria gritar era que sim, muitas vezes sim, mas não pôde. As palavras formavam um nó na garganta. – Garota idiota, ainda querendo chamar a atenção.
“Garota idiota, quando vai entender que ele não se importa com você?”
O passado era um lugar perigoso que ela sempre evitava, mas algumas vezes os ecos chegavam até ela alto o suficiente para tornar o coração frio. Seus ombros pesaram e os braços caíram ao longo do corpo. Ela ainda era a garota idiota a espera de coisas que não podia ter.
— Se você acha que vai conseguir me desafiar ao se envolver com qualquer delinquente que encontra na rua, está muito enganada.
— Te desafiar? – Fla riu do pensamento infeliz. Como se alguma vez ela tenha tido esse poder, constatou com amargura. – Você foi a última pessoa em quem eu pensei quando trouxe o “delinquente” pra cá. – A morena sabia que estava percorrendo um caminho perigoso, mas estava tão cansada de sentir culpa. – Como ontem foi meu aniversário, eu sequer esperava te ver.
— Por favor, me poupe das suas recriminações. O nosso assunto é sobre você e o seu amigo... na minha casa. Espero que esteja feliz por me obrigar a mudar mais uma vez o nosso staff.
— O quê?! Eles não sabem de nada! Todos os empregados receberam folga ontem!
— Isso significa que você planejou tudo de antemão, não é mesmo? Eu realmente não me surpreendo mais com você. – Rosana levantou-se da poltrona onde estava sentada. – E como sempre, seus atos tem consequências, lembra? Melhor fazer suas malas, você deixa o país hoje.
“Por favor! Por favor, não me deixa aqui!”
— Eu não... – Flaviana sentiu a pele se arrepiar e as mãos ficarem úmidas com as lembranças tristes. – EU NÃO VOU! – Gritou como se sua vida dependesse que fosse ouvida. E no fundo ela sabia que dependia. – EU NÃO VOU PARA AQUELE LUGAR DE NOVO!
— X —
Sofia ouviu os passos no corredor. O barulho fez com que franzisse a testa por causa da dor de cabeça que começava a sentir.
— Ele continua dormindo. – Falou de costas para a porta, deixando escapar outro suspiro. – Mas a febre baixou.
— Que cena tão comovente... Pena o Ben não estar aqui para ver sua atuação.
A garota se virou e fulminou Antônio com o olhar. Estava tão absorta com a doença do irmão que havia apagado qualquer pensamento sobre Ben estar sob o mesmo teto que ela. E não precisava do irmão dele lembrando-a do risco de encontrá-lo.
— Não estou interessada na opinião do seu irmão... ou na sua.
— Não precisa mostrar as garras pra mim, gatinha! – Antônio deu um sorriso discreto e recostou-se na porta. Aquela atitude irritou ainda mais Sofia. – Pelo seu humor, parece que ele perdeu alguns pontos ontem à noite.
— Como você sabe... – A loira calou-se compreendendo as palavras dele. Não fingiria não saber ao que ele se referia. – Por que não a surpreende que você estivesse por perto? Não pensou em me ajudar?
— E perder a diversão? – Ele arqueou uma sobrancelha em questionamento. – Bom, o que eu posso dizer? Meu maninho não fez questão de ser discreto... – Ele riu ao dar de ombros. – Demorou, mas pelo visto o Ben se deu conta que você é bem mais interessante que a namorada. Você venceu, afinal.
— Não se trata de uma disputa... nunca foi.
Antônio observou Sofia. Ela passou uma das mãos pela testa fazendo uma careta como se tentasse aliviar a tensão. Era óbvio que o que os acontecimentos da noite a deixaram mais abalada do que estava disposta a admitir. Se Sofia ainda gostava de Ben, ele não saberia dizer, mas o que havia presenciado foi uma reação nada apaixonada, quase desesperada, em resposta a atitude do irmão. E diferente do que ela pudesse achar, ele ia interferir, mas Serguei apareceu antes que ele tivesse a oportunidade de dar uns socos em Benjamim. No fim, só lhe coube avisar alguns seguranças sobre a briga e continuar a noite ao lado da garota burra chamada Bruna.
— Não importa mais... – Sofia respirou profundamente. A tensão estava piorando sua dor de cabeça e discutir sobre Ben, Anita e o que tinha acontecido não a ajudava em nada. – Ele fez as escolhas dele e eu fiz as minhas.
— Simples assim?
Não era simples, admitiu a loira em pensamento. Houve muita dor e sofrimento envolvidos nas suas ações e escolhas, mas ela não se arrependia de nenhuma delas. Não era covarde e não se desculparia por ser quem era. Graças a isso ela estava com Serguei.
— Simples assim. – Falou com total segurança. – Nossa história foi encerrada há muito tempo. E depois do que ele fez, agora percebo que o Ben é tão abusivo quanto você e não precisam de um compartilhamento genético para confirmar isso.
— Não me culpe pelos erros dele... – Antônio sorriu cinicamente. – Eu e você também somos parecidos... se queremos algo, pegamos. A diferença é que eu não peço desculpas por isso. Muito menos nego meus desejos... você sabe disso.
— A única coisa que eu sei é que não vou me envolver em nenhum joguinho que você esteja tramando. Então, se a sua aproximação tem outras intenções... acaba aqui.
— Do que você tem medo? – Indagou Antônio com um olhar sombrio. – Nós seriamos bons juntos.
Sofia revirou os olhos, impaciente. Apesar do que dizia e dos maus momentos que tiveram, ela sabia que Antônio era inofensivo para ela. Podia lidar facilmente com ele... diferente de Benjamim que, no fim das contas, revelou-se um completo estranho.
— Acho que não... Eu fico melhor com outra pessoa.
— O ruivo que te salvou?
— Sim, o ruivo que me salvou e que é meu namorado. – Sofia sorriu para o rapaz com satisfação. Logo, não só ele, como todos no casarão saberiam que ela e Serguei estavam namorando. – Não que seja da sua conta.
— Tem razão, não é. – Antônio dá uma risada estranha e se prepara para deixar o quarto. – Na verdade, acho que vai ser bastante divertido ver o Benjamim perder a cabeça por causa disso.
— X —
A luz do dia não tirava o ar sombrio daquele apartamento. Era tudo muito caro, mais do que ele poderia imaginar, mas o ambiente em si era opressor... ou talvez fossem os moradores? Pensou Sidney com certo sarcasmo. Não era um lar, mas o que ele sabia sobre lares? Sua casa mesmo era só um lugar onde ele ia para dormir ou comer, preferindo ficar longe o maior tempo possível. E era esse mesmo sentimento de inadequação que o fazia querer dar o fora dali. Ele só precisava achar o maldito celular que havia se perdido em algum lugar.
— Se você acha que pode me desafiar ao se envolver com qualquer delinquente que encontra na rua, está muito enganada.
Sidney parou em frente a uma porta fechada quando ouviu a voz da mãe de Flaviana. Com toda certeza ela não tinha gostado dele e isso era um problema só dela. Mas daí taxá-lo como delinquente... talvez ele devesse pegar alguma coisa valiosa daquela casa para fazer jus ao julgamento daquela mulher.
— Te desafiar? – Era a voz de Flaviana. Ela riu de uma forma estranha o que fez o loiro franzir o cenho.— Você foi a última pessoa em quem eu pensei quando trouxe o “delinquente” pra cá. – Sidney riu, porque delinquente era um xingamento novo na lista da Patricinha.— Como ontem foi meu aniversário, eu sequer esperava te ver.
— A mãe do ano! – Falou o loiro com ironia.
Ele estava de saco cheio daquela história e nem mesmo um celular valia o incomodo de permanecer ali. Flaviana que lidasse com a maluca da mãe dela, pensou decidido a se afastar.
— Por favor, me poupe das suas recriminações. O nosso assunto é sobre você e o seu amigo... na minha casa. Espero que esteja feliz por me obrigar a mudar mais uma vez o nosso staff.
— O que?! Eles não sabe de nada. Todos os empregados receberam folga ontem!
— Isso significa que você planejou tudo de antemão, não é mesmo? Eu realmente não me surpreendo mais com você. E como sempre, seus atos tem consequências, lembra? Melhor fazer suas malas, você deixa o país hoje.
Sidney se sentiu mal por Flaviana e as palavras de mais cedo voltaram a mente do loiro.
“Você não tem ideia do que fez, não é?”
O que poderia ser tão terrível? Ele estava indiferente até então, mas agora a reação da garota parecia esconder mais do que ele gostaria de saber. No entanto, antes que ele encontrasse uma resposta ouviu-a gritar dentro do escritório como se estivesse apavorada.
— EU NÃO VOU! EU NÃO VOU PARA AQUELE LUGAR DE NOVO!
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