Era Uma Outra Vez...
58 Amigo?
Notas iniciais
Sofia passou mais uma vez a mão sobre a testa tentando livra-se de mais uma fisgada de dor, as últimas palavras de Antônio ecoando por sua mente cansada. Ela sentia-se inquieta após a conversa, pois no fundo temia que o que ele disse tivesse algum fundo de verdade. Lembrou-se da briga com riqueza de detalhes, Serguei machucado e o olhar cheio de ódio de Ben para eles. A loira nunca havia visto Benjamim fora de si daquela forma e lhe custava entender como ele tornara-se alguém tão distante do cara por quem um dia foi apaixonada.
— Eu trouxe um lanche! – Sofia deu salto de onde estava ao ouvir a mãe. Estava tão entretida que mal percebeu a chegada de Vera. – Aconteceu alguma coisa? Você está nervosa.
— Não, não aconteceu nada... é que eu não te vi chegar. – Desconversou com um sorriso sem graça. – O Pedro não está mais com febre.
— Verdade? Isso é um bom sinal! – Vera entregou a bandeja que trazia a filha e tocou a testa do menino adormecido. – Acho que te ter perto ajudou muito.
Por um instante, Sofia esqueceu de todos os problemas e sorriu verdadeiramente pela primeira vez desde que chegou ao casarão.
— Eu não fiz nada.
— Você está aqui e ele sente isso.
Como para confirmar as palavras da mãe, Pedro abriu os olhos.
— Oi. – Falou com a voz rouca fitando Sofia timidamente.
— Oi, pequeno... – Sofia largou a bandeja sobre a cômoda e se aproximou do irmão. – Você me deu um susto, sabia? Desculpa não ter vindo antes.
— Eu estava com saudade de você, mas não queria te atrapalhar.
Sofia sentiu o coração afundar no peito com angustia causada pela culpa. Os erros que cometeu em relação a Ben acabaram por afastá-la do casarão e das pessoas mais importantes em sua vida. Pedro deveria odiá-la por não ter estado presente durante semanas.
— Desculpa... – A voz saiu num murmúrio. As lágrimas caíram dos olhos verdes com facilidade. – Eu sou tão idiota.
Pedro sentiu a lamentação da irmã mais velha e sem dizer nada a abraçou com força. Sofia estava em casa e era isso o que importava para ele.
— X —
— EU NÃO VOU PARA AQUELE LUGAR DE NOVO!
Sidney viu a porta ser aberta bruscamente e Flaviana surgir de repente. Os olhos azuis estavam repletos de angústia quando ela o fitou. A garota tentou passar por ele, mas mal conseguiu dar dois passos antes de quase cair. Por sorte, o loiro a segurou a tempo nos braços e sentiu o corpo feminino estremecer.
— Eu... não posso... – Flaviana tentou desvencilhar-se, mas Sidney a manteve no abraço protetor. – Por favor... por favor!
— Já chega dessa cena Flaviana! – Rosana diante deles o que fez a garota se encolher contra Sidney. – Você é a única responsável pela minha decisão. E nem pense que vai me comover com esse teatrinho!
Pela primeira vez na vida, Sidney se viu tentado a bater numa mulher. Ele não era um cara legal, mas até ele era humano o suficiente para perceber a diferença entre fingimento e uma pessoa completamente aterrorizada. Flaviana teria que ser a melhor atriz do universo para fingir aquela reação. A pele da garota estava pálida e ela tremia convulsivamente, algo muito além de um mal-estar meramente físico.
— Eu menti! Não é culpa dela... O que eu disse mais cedo era mentira! – Falou o loiro com uma mistura de raiva e culpa. – Eu armei tudo para parecer o que você viu!
— Eu não quero suas desculpas. A Flaviana é minha filha e como tal vai fazer exatamente o que eu disse! – Rosana, num acesso de fúria, puxa Flaviana dos braços de Sidney e começa a arrastá-la em direção ao quarto. – É o cúmulo que eu tenha que lidar com gente desse tipo por sua causa! Você sempre encontra maneiras de me afrontar, não é? Acha que a Margot pode interferir agora? Está muito enganada!
Rosana joga a filha contra a cama com violência. Flaviana não consegue conter as lágrimas ao ver a mãe arrancar as roupas do closet. Ela não tinha ninguém a quem recorrer, mesmo Sofia não poderia ajudá-la naquele momento. Enquanto a mãe pegava as malas ela tentou escapar do quarto, mas Rosana a pegou pelo braço antes que tivesse chance.
— Por favor... eu não posso... por favor! – Implorou mais uma vez. Em resposta, a mulher mais velha lhe deu um tapa no rosto. – Por favor.
Foi a gota d’água pra Sidney que observava a cena do corredor. Ele entrou no quarto e se interpôs entre as duas. A mulher o fulminou com o olhar de ódio.
— Saia da minha casa antes que eu chame a polícia, marginal!
— Faça isso, eu vou adorar falar sobre o abuso parental que você tá cometendo, que tal? – Ameaçou o rapaz. – E o único marginal aqui é você por tratar sua filha dessa forma!
— Era isso o que você queria, Flaviana?! Um escândalo! – O ódio de Rosana emanava do olhar e impregnava suas palavras. – Se acha que esse moleque pode me deter, está muito enganada.
— X —
— Eu pensei que não fosse abrir o salão hoje.
— Não vou... só vim guardar alguns recibos por causa da contabilidade.
Julia se aproximou de Serguei, incerta sobre o que dizer. Suspirou pesadamente ao fita-lo odiando o constrangimento que pairava entre eles. A primeira coisa que havia notado foi o rosto machucado do ruivo, resultado do confronto do amigo com Ben. Era uma situação delicada na qual se sentia decidida a intervir, pelo bem de Serguei. Ele era o seu amigo, amava-o e não conseguia compreender o comportamento dele em relação a Sofia. Logo ela, por quem ele nunca nutriu nenhuma simpatia. Ou pelo menos, foi assim antes.
Tudo parecia tão mais complicado agora, porque por mais contraditório que fosse Serguei estava verdadeiramente envolvido pela loira. Se por um lado Júlia desconfiava dos reais motivos da garota, por outro também era obrigada a admitir que a reação dela durante a briga não foi a de alguém que tenha premeditado o ocorrido. Sofia aparentava estar preocupada com Serguei como se realmente se importasse com o ruivo.
— Sobre ontem... – Júlia começou sem jeito. – O motivo da sua briga com o Ben... foi a Sofia?
— Foi Júlia.
— O que eles dois faziam juntos? – A garota sentia-se horrível interrogando-o daquela forma. – Não foi coincidência eles estarem ali, sozinhos, foi?
— Não. – Confirmou Serguei. Ele passou a mão pelos cabelos ruivos. – É complicado, mas diferente do que possa parecer, o Ben foi o responsável e não a Sofia.
— Ela te disse? Quero dizer, ela culpou o Ben? – Indagou descrente. Parecia absurdo demais que Sofia fosse inocente. Ainda que não houvessem argumentos, após tantos anos de armações e mentiras, tornava-se difícil acreditar que a loira fosse a vítima. – Falou por que eles estavam juntos?
— Ela não precisou, eu vi Júlia. E ainda que não fosse assim, eu acredito nela. – Falou o rapaz com sinceridade. – Ela não é como você pensa.
— Você não pensava assim.
— Isso foi antes... Antes de conhecê-la e me apaixonar por ela!
O silêncio pesou sobre eles após a confissão. Júlia abriu a boca algumas vezes para falar, mas sua mente não parecia apta a formar uma frase coerente.
— Isso foi inesperado... – A garota conseguiu dizer, por fim. – Muito inesperado.
— Eu também fui pego de surpresa. – O ruivo tentou sorrir, mas conseguiu apenas uma careta. – Eu nunca me senti assim por ninguém.
Era mais sério do Júlia um dia supôs. E mesmo que quisesse muito acreditar nos sentimentos do amigo seus sentidos diziam que, assim como Ben, ele não era imune a Sofia. E por isso talvez não conseguisse enxergar que estivesse sendo usado por ela. Ela esteve certa ao temer a aproximação dos dois.
— O que você pretende fazer agora?
— X —
— Se acha que esse moleque pode me deter, você está muito enganada.
Flaviana sabia da ameaça contida nas “entrelinhas” da fala da mãe. Era muito sério e ela não desacreditava que Rosana fosse capaz do pior quando contrariada. Por mais que a garota e Sidney não tivessem uma boa relação, ela não queria que ele fosse prejudicado naquela história. O remorso que ela sentia por outro episódio como aquele já era o suficiente. Ela precisava fazer o loiro ir embora o quanto antes.
— Eu... eu me excedi. Eu peço desculpas. – Flaviana tentou soar firme, mas falhou miseravelmente. Seu corpo ainda tremia e respirando fundo tentou se controlar. – Sidney, é melhor você ir embora agora... vai ficar tudo bem.
Sidney ignorou o pedido da garota. Ele não era estúpido para acreditar que “ficaria tudo bem” quando via no olhar da mãe de Flaviana que tudo só pioraria quando elas estivessem sozinhas. Ele não pensou que existiriam mães piores que a sua, mas pelo visto, aquela mulher era bem mais cruel que Maura.
— Você ouviu minha filha. – Rosana falou voltando a indiferença habitual.
— Ouvi, porque não sou surdo. E não se preocupe, não fico mais um segundo aqui!
Sidney voltou-se para Flaviana e a segurou pela mão, sem dizer nada, caminhou a passos largos para fora do quarto junto com a morena. Ele escutou o arfar descrente da mulher, mas não se importou. Sua vontade de sair daquele apartamento era maior do que a raiva que ela sentia, mas não poderia deixar Flaviana a mercê dela.
Em poucos segundos, os dois já estavam na sala. Surpresa, Flaviana não conseguia formular nenhum pensamento coerente deixando-se ser levada como uma boneca sem vida. A cena parecia absurda demais para sua mente confusa compreender o que se passava. Quando a garota deu por si, já estavam diante do elevador.
Quando eles chegaram ao térreo, sentiu os olhares de alguns moradores que passavam por eles. A expressão determinada de Sidney não vacilou um segundo e ela não sabia identificar como se sentia naquele momento: se aliviada ou apavorada. Estava de pijama e descalça enquanto era conduzida pelo ogro do colégio.
— Sidney... eu não posso sair assim.
— O que você não pode é ficar com uma pessoa que te trata que nem lixo. – As palavras saíram de forma brusca. Sidney praguejou ao ver o semblante triste dela. Estava com raiva e confuso por seu súbito senso protetor em relação a ela. – Só... vamos cair fora.
— Você nem gosta de mim... – Sussurrou Flaviana tentando entender porque o loiro estava ajudando-a daquela forma. – Não somos amigos.
— Digamos que gosto menos ainda da sua mãe. Vamos?
Flaviana concordou timidamente e continuou seguindo-o para fora do prédio.Para o bem ou para o mal, Sidney era o único apoio com o qual podia contar no momento.
— X —
— Obrigada, filho!
Ben acenou brevemente para Ronaldo antes de seguir para o casarão. A manhã trabalhando no Embaixada do gol tinha o entretido por algumas horas livrando-o um pouco da raiva. Ele já conseguia pensar com mais clareza agora e chegou à conclusão que o modo como havia agido com Sofia na festa não era o certo. No entanto, isso não significava que estava disposto a desistir dela. Ainda que ela lhe detestasse agora, ele buscaria uma maneira de fazer com que a garota o perdoasse. Sua sanidade dependia disso.
— Cadê a Vera? – Perguntou a Giovana quando entrou na sala.
— Com o Pedro, no quarto. – Respondeu a ruiva, sem maiores detalhes.
Giovana analisou o irmão. Era a primeira vez que o via desde a conversa com Anita na madrugada e para sua decepção, ele parecia diferente. “Efeito Sofia” pensou a garota com raiva, perguntando-se por quanto tempo mais a loira iria atrapalhar a paz da sua família.
— O que aconteceu com seu rosto? – Indagou fingindo surpresa.
— Nada importante. – Ben passou a mão pelos cabelos tentando parecer natural. – Eu vou tomar um banho.
O rapaz passou pela cozinha, em direção ao seu quarto garagem. Giovana suspirou pesadamente sabendo que cedo ou tarde ele encontraria Sofia e ela não tinha nenhuma ideia de como evitar aquilo.
— X —
— Melhor?
Sofia suspirou com alivio. Ela tinha a cabeça recostada sobre o colo do irmão enquanto ele lhe fazia carinho nos cabelos. O acesso de choro havia passado depois de alguns minutos e agora eles estavam sozinhos num mundo em que existiam apenas os dois.
— Bem melhor, mas eu quem deveria cuidar de você e não o contrário.
— Você cuidou de mim muitas vezes já. – Lembrou-a com afeto.
— Porque você é meu irmãozinho e eu te amo muito. – Sofia sentou-se na cama fitando Pedro. – Desculpa ter ficado longe esse tempo.
— Tudo bem, eu entendi que era preciso. – Falou de forma compreensiva. – Mas você pode ficar comigo hoje?
A garota sorriu e segurou a mão do irmão mais novo.
— Eu não desejaria estar em nenhum outro lugar... E que tal a gente firmar esse pacto com aquele pedaço de bolo de chocolate? – Apontou para a bandeja sobre a cômoda.
Pedro concordou imediatamente. E em poucos instantes, eles já devoravam o bolo como se o doce pudesse curar qualquer dor.
— X —
— Anita?
Benjamim surpreendeu-se com a presença da namorada em seu quarto. Ela estava sentada em sua cama, a cabeça baixa, e algo lhe dizia que ela já estava ali há algum tempo. E ele sabia exatamente o motivo dela estar ali.
— O que está fazendo aqui?
— Eu estou há meia hora me fazendo essa mesma pergunta. – A garota o encarou, olhando-o diretamente nos olhos. – Ontem, eu respeitei sua decisão de não conversar. Eu fui compreensiva até meu limite. Mas hoje, depois de passar a noite pensando no que eu vi e ouvi, decidi que eu quero a verdade.
Ben sentou-se ao lado de Anita, sem tocá-la. Mais uma vez a namorada dava uma prova de maturidade que o fazia admirá-la. Ela estava ali, sem brigas, apenas tentando entender como estava o relacionamento dos dois. Isso o fazia sentir-se culpado, porque no fundo sabia que as coisas chegaram àquele ponto por sua culpa. No seu desespero de fugir de Sofia e do que ela representava, havia se agarrado a Anita como um náufrago a um bote em busca de salvação.
— Eu estou confuso.
— Em relação a ela? – Anita perguntou num fio de voz. Sentia o coração contrair-se de dor, o desespero formando um no em sua garganta. – Você gosta dela?
Anita aceitou que a resposta de Ben mudaria tudo.
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