Era Uma Outra Vez...
50 Festa - Parte III
Notas iniciais
Anita sentia um mal-estar quando ela e Júlia deixaram a festa a procura de Benjamim. Algo dentro dela a avisava de que algo ruim iria acontecer essa noite e a garota tentou não pensar nisso antes de encontrar Ben. Mas no fundo, estava desconfiada porque desde que o namorado sumiu, não viu Sofia em nenhum momento. Como para alerta-la de algo, ouviu a voz de Sofia vinda do lado de fora.
— Por favor! – Pedia a loira. – Parem!
Um mal pressentimento atingiu a Princesa. E tudo só piorou quando ela se deparou com Ben e Serguei, dentro da piscina do hotel, brigando. Ela não podia acreditar no que os olhos viam... Ben não era um cara violento e tampouco Serguei. Sabia que nos últimos tempos os dois não estavam bem, apesar de não serem tão amigos, mas não conseguia entender como acabaram daquela forma. Só se... Encarou Sofia, atordoada, convicta de que a irmã estava mais do que envolvida naquela história.
— Anita, faz alguma coisa! – Pediu Sofia. – Chama alguém!
— Vocês dois parem com essa loucura! – Exclamou Júlia, descrente.
— Serguei... – A voz de Sofia saiu num sussurro, mas não passou desapercebido por Anita o fato dela ter falado o nome do seu melhor amigo e não de Ben. – Eu vou pedir ajuda!
— Ben! – Chamou Anita em um fio de voz. – O que você fez Sofia?!
Sofia que já seguia para o interior do hotel, parou onde estava e se voltou para Anita. A irmã a olhava acusadora como se intuísse que culpa pela briga dos dois rapazes fosse dela. Embora Sofia fosse o “motivo”, não poderia ser responsabilizada pelos atos de Benjamim. E se Serguei precisou intervir foi somente para defende-la.
— Não é hora para os seus ataques, Anita! – A loira não estava disposta a enfrentar a irmã. – Por que não faz algo de útil e manda seu namoradinho recobrar a sanidade?
— X –
Relutantemente, Flaviana tinha cedido ao pedido do primo de dançar com Sidney. Otávio parecia decidido a se livrar dela ao ponto de jogá-la nos braços do loiro usando dos argumentos sobre como sua reputação seria abalada – “Você não vai querer que comentem como você ficou sozinha na sua festa, vai?” Ele disse.— No entanto, o que a fez acatar a ideia de Otávio foi quando ele tocou no seu ponto fraco: Martin.
Por mais que lhe magoasse, era obrigada a admitir que ele não viria mais. Depois de tantas ligações, mensagens... teria até feito sinal de fumaça, mas Martin sequer se incomodou de inventar uma desculpa. Tudo o que fez por ele perdeu o sentido e acabar sozinha amargando sua dor não era algo que a agradava. Bom, dançaria com Sidney, sorriria para seus convidados, comemoraria com Sofia e Otávio. Faria tudo o que esperavam dela e depois choraria sozinha por mais uma decepção.
— Você tá muito calada.
— Será que é porque é uma dança e não uma conversa?
Encarou Sidney pela primeira vez. Ele tinha um ar divertido como se soubesse exatamente o quanto estava sendo difícil para ela estar ali. Por azar ou uma piada sem graça do destino, os dois foram para a pista de dança no exato momento em que o infeliz do DJ tocava uma música lenta. O tipo de música que a obrigava passar os braços ao redor do pescoço de Sidney enquanto ele a segurava pela cintura.
— Você tá detestando essa situação, né patricinha? – Apesar da pergunta e de saber exatamente a resposta, Sidney não pareceu incomodado. Para Flaviana, estava claro que o ogro tava adorando cada segundo.
— Como assim não dá para notar minha expressão de felicidade? – Falou Flaviana sustentando o olhar do loiro. – Tudo o que eu mais queria hoje era estar ao lado do cara mais tosco que já conheci na minha vida!
— Agora entendo porque o Martin de deu um perdido... – Sidney a puxou para mais perto do próprio corpo. Flaviana arfou surpresa pelo gesto. – Quem aguenta uma garota como você?
— Posso dizer o mesmo sobre você. – Murmurou olhando com ódio. – Só a Sofia para achar que você saberia se comportar em um ambiente como esse, com pessoas civilizadas, mas o que esperar de um ogro como você? – Flaviana ri sem humor. – Não importa o que você vista, o que você faça... nada vai mudar sua natureza.
A música parou e Flaviana estava pronta para deixar Sidney e apagar a lembrança daquela dança, mas ele não a soltou como esperado. Ele a matinha firmemente entre os braços enquanto ela tentava em vão se desvencilhar. O corpo dela tremeu com a força com que Sidney a mantinha presa. Talvez... talvez ela tivesse ido um pouquinho longe, pensou diante da reação do rapaz.
— Eu não sou igual os playboys que você conhece. – Sidney abaixa o rosto até o dela. Flaviana sustenta o olhar dele com um misto de medo e expectativa. – Não tenho educação. – Ele encarava seus lábios com um brilho esquisito nos olhos azuis que assustou muito a garota. – Não sou a pessoa que você queria essa noite... Mas você tá tão gostosinha nesse vestido.
— Seu estupido... – A voz de Flaviana saiu em um sussurro. Por algum motivo desconhecido, lágrimas marejavam seus olhos. Sidney riu enquanto aproximava a boca da dela. – Não ouse!
— Espero que lamente por isso pelo resto da vida. – Então, sem que Flaviana pudesse impedir, Sidney a beijou.
— X –
— Senhor, temos um problema.
Otávio revirou os olhos em um claro sinal de impaciência. Pelo visto, seu papel essa noite seria apagar os “incêndios” cometidos pelos convidados. Com a ajuda de seguranças, impediu uma briga entre dois rapazes alcoolizados, socorreu uma garota vítima de assédio e retirou da festa um penetra que estava com drogas.
— O que é dessa vez? – Perguntou ao segurança.
— Outra briga, na piscina do hotel.
— Ótimo... Só me faltava mais essa. – Deixou o copo de whisky intocado e acompanhou o segurança.
Ao passar pelos convidados viu ao longe, a prima beijando o loiro gato com quem dançava. “Pelo menos alguém está aproveitando a festa.” Pensou, passando uma mão pelos cabelos. Definitivamente, depois daquela noite, tiraria férias prolongadas em Ibiza na companhia de Jordan.
— Não muda de assunto!
— O que você quer que eu diga?! Que a culpa é minha?
Otávio apressa o passo ao ouvir vozes femininas alteradas. Sabia muito bem que uma dessas vozes era de Sofia o que significava que ela não estava com o ruivo como acreditou mais cedo. Já no local, não foi surpresa para ele ver a loira e Anita discutindo. Havia outra garota que segurava a irmã de Sofia para que esta não avançasse contra ela. Felizmente, ao que parecia os outros seguranças já haviam lidado com o problema da briga e tanto Ben quanto Serguei, completamente encharcados, eram segurados por eles. Certamente, muita informação para Otávio assimilar em tão pouco tempo. Ainda bem que ele herdou a habilidade do pai em contornar situações de crise, pensou com sarcasmo parando ao lado de Sofia.
— Então, quem é o primeiro a explicar essa confusão? – Questiona encarando Ben e Serguei. – Aviso para a explicação ser boa para eu ter deixado meu whisky intocado no bar.
— Otávio... – Sofia segurou o braço do amigo. Ele não precisou que ela dissesse para saber que ela tinha sido o pivô da briga. – Eu sinto muito por tudo isso.
— Sente?! – Otávio fuzilou Anita com o olhar. Era a primeira vez que se cruzavam e não gostou nada dela. E o fato de amar Sofia não tinha nada a ver com seu julgamento. – Ah, me poupa Sofia!
— Tudo bem, Sweet... acho que quem deve sentir alguma coisa aqui são os dois envolvidos na briga, ou não? – A pergunta foi feita diretamente pra Anita que corou sem conseguir sustentar o olhar de Otávio. – Por favor, Roberto... – Otávio se voltou para o chefe dos seguranças. – Eu resolvo esse... mal entendido. Obrigado.
Os seguranças liberaram Ben e Serguei e saíram sem mais perguntas. Sofia caminhou até Serguei sem esconder a preocupação com o ruivo. Não lhe importava que ele tivesse beijado Amanda, só queria se certificar de que ele estava bem.
— O que você tem na cabeça? – O que deveria ser uma repreensão saiu como um choramingo. Havia um corte no supercilio do ruivo e a região ao redor do olho direito estava vermelha. – Seu idiota!
Ignorando a presença de Anita, Júlia e Ben e o que eles poderiam deduzir do seu ato, Sofia abraça Serguei. O ruivo a agarra pela cintura sem esconder o contentamento com a preocupação da loira. Com o polegar enxuga carinhosamente uma lágrima teimosa que escorre dos olhos dela.
Diante da cena, Anita e Júlia se entreolham. A confusão no semblante de Anita era evidente, ela não conseguia entender a reação de Sofia muito menos a de Serguei... aos seus olhos, parecia até que eles tinham algum tipo de relação quando na verdade ambos sempre se detestaram. Júlia, por sua vez, não estava surpresa, aparentando mais resignação. Ben fuzilava o ‘casal’ com tanto rancor que nem notou Anita tocá-lo no braço. Era óbvio para qualquer um no local que SerFia era um casal romanticamente falando.
Benjamim fez menção de falar, mas Otávio levantou a mão para que ele se calasse. Ele não estava nem um pouco interessado em ser diplomático com o ex príncipe.
— Ok, vamos esquecer o que aconteceu aqui. Sofia é melhor você levar seu ruivo para a suíte para cuidar desse olho. E sugiro aos demais irem suas para casas.
— É melhor nós irmos, Anita. – Fala Júlia conciliadora.
— Serguei... – Anita fita o amigo em expectativa. – Você vai me dizer por que brigou com o Ben?
— Por que não pergunta ao seu namorado? – Irrita-se Sofia. Serguei lança a loira um olhar significativo. – Dane-se, façam como quiser!
Otávio detém a loira antes que ela deixe o local.
— Me espera na suíte. – Sofia acena afirmativamente para o amigo. – Eu vou em seguida.
Serguei vê Sofia partir irritada. Sente os olhares dos demais sobre si: Anita ainda a espera de uma resposta, Ben querendo matá-lo, Júlia decepcionada e Otávio sarcástico. Estava encurralado e qualquer atitude tomada agora ou magoaria Anita ou afastaria Sofia ainda mais.
— Então... vai me falar? – Anita se aproxima de Serguei.
O ruivo encara a amiga e pela primeira vez, apesar da amizade de anos com a garota, sente-se impelido a ignorá-la. No fim, acabou fazendo sua escolha.
— Amanhã, Anita... eu prometo falar tudo.
— X –
Sofia entrou na suíte de Otávio. Não a que ele residia, mas uma igualmente luxuosa e no mesmo andar a qual ele tinha oferecido para ela e Flaviana passarem a noite. Devido ao seu nervosismo, demorou mais do que o necessário para passar o cartão magnético na fechadura. As mãos ainda tremiam quando tirou os sapatos e se encaminhou para a varanda. O frio da noite a atingiu com força fazendo-a tremer ainda mais por causa do vestido parcialmente molhado.
“Agora todos sabem...”
Fechou os olhos por um momento pensando na própria reação. Ela o abraçou e chorou na frente da irmã, Ben, Júlia... seria muita ingenuidade da sua parte esperar que eles não deduzissem ou, pelo menos, especulassem sobre o que existia ou existiu entre Serguei e ela. E ainda por cima tinha Amanda e a ameaça dela de contar tudo para Flaviana. Quanto tempo ainda lhe restava até que todos soubessem?
Suspirou pesadamente em busca de acalmar as batidas do coração. Escutou o barulho da porta sendo aberta. Pelo menos poderia desabafar com Otávio, pensou, seguindo para a sala.
— Ainda bem que você che... – Sofia interrompeu-se ao avistar Serguei.
Eles se encararam por alguns segundos tensos e antes que a loira falasse alguma coisa, o ruivo se pronunciou.
— Eu não vou embora.
— X –
— Me solta!
Flaviana consegue afastar Sidney. Dá alguns passos para trás, os olhos marejados. Assim como ela, Sidney estava bastante perturbado com o beijo. A princípio, quis castiga-la por todos os insultos, mas não esperou que o encontro fosse tão... explosivo. Quando a beijou foi como se uma corrente elétrica passasse por todo seu corpo, fazendo seu sangue correr mais rápido.
— Como você se atreveu?
Flaviana toca os lábios com as pontas dos dedos. Não podia acreditar no que tinha acontecido... no que sentiu. Encarou o loiro, perturbada, por ter por um momento correspondido a ele com a mesma intensidade. Inconscientemente, põe a mão no peito numa vã tentativa de acalmar o coração.
— O que, dona do mundo, foi tão ruim me beijar?
— Odeio você... – Sussurra o encarando com raiva. Sente as lágrimas escorrem pelo rosto sem que pudesse detê-las. Ninguém nunca havia a subjugado daquela forma cruel. Como aquele “ninguém” podia beijá-la a força? – Seu ogro!
— Não se preocupe, eu não tenho nenhuma intenção de repetir esse sacrifício!
Com essas palavras, Sidney vai embora deixando Flaviana só em meio a um caos interno.
— X –
— Eu não vou embora.
— O quê? Acabaram as explicações? Como minha irmã reagiu ao saber que o amigo dela e o namoradinho entraram em luta corporal por minha causa? – Sofia ri sem vontade. – Você deveria prestar o seu apoio a ela. A Anita é tão frágil!
Encontra-lo no ali no lugar de Otávio foi uma grande surpresa, mas ela não seria pega de guarda baixa. Sofia sabia exatamente como agir naquela situação e afinal não era tão difícil imaginar a conversa entre Serguei e Anita, não depois do que ele viu. A verdade é que Benjamim a seguiu e a beijou a força, mas quem acreditaria na sua versão?
— Eu estou mais preocupado em saber como você está.
Serguei observou-a abrir a boca para falar e depois fechar novamente. Sofia sem argumentos era algo raro, pensou com um pouco de humor. E essa reação só demonstrou que ela não esperava por preocupação por parte dele, como se já estivesse pronta para as acusações. A caminho da suíte, o ruivo havia refletido sobre o que viu e ouviu... lembrou-se da própria situação com Amanda. Há algum tempo, por causa de Sofia, descobriu que nem tudo é o que parece e preferia ouvir de dela sobre o que realmente aconteceu. Depois de como agiu em relação a ela e a Sidney, devia-lhe isso.
— Curioso... por que será que eu não acredito? – Sofia lançou um olhar desconfiado a Serguei. Ele riu fazendo-a corar irritada. – O que é tão engraçado?
— Toda essa situação... estou todo molhado depois de brigar dentro de uma piscina de um hotel de luxo onde tá acontecendo a festa da minha ex por causa da melhor amiga dela que é irmã da minha melhor amiga e namorada do cara com quem eu briguei.
— Um belo roteiro de Fanfic. – Sofia também riu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. – Vou pegar algo para você se secar.
A loira entrou no quarto enquanto Serguei a esperava. Ele aproveitou a ausência dela para livra-se do terno, camisa e sapatos. Depois de todas as emoções, não se arriscaria a pegar uma pneumonia. Quando desabotoava a calça, Sofia voltou com algumas toalhas. Ela parou assim que viu o ruivo semidespido engolindo em seco. Como um autômato, foi até ele e entregou as toalhas desviando o olhar do corpo do ruivo.
— Tem um banheiro para você fazer isso.
Ela segurou na mão de Serguei e fez com que ele se sentar no sofá. Com as mãos trêmulas, umedeceu um algodão em álcool e limpou o corte no rosto do ruivo.
— O que você e o Ben fizeram hoje foi ridículo.
— Defender você... AIII!
— Desculpa. – Pediu a garota com um sorriso de canto pela careta de dor dele.
Tentando não olhar nos olhos dele, Sofia focalizou no peitoral o que lhe despertou lembranças boas. Engoliu em seco ao sentir o rosto corar devido à proximidade com Serguei. Ela estava com raiva pela briga idiota, mas o seu ego estava bem feliz por ele ter a defendido.
— Você ficou exatamente assim na enfermaria. – Brincou Serguei sobre o tom róseo das bochechas dela. – Essa é a segunda vez que acabo numa piscina por você.
— É a segunda vez que vai acabar com o olho roxo também... – Apesar do tom descontraído, lágrimas represadas brilhavam nos olhos verdes. – Sinto muito... – Serguei segura o rosto de Sofia entre as mãos odiando aquelas lágrimas. – A culpa foi minha... é sempre minha.
— Shhh... Tudo bem. – Beijou-a no canto da boca. O corpo de Sofia estremeceu enquanto ele a estreitava entre os braços. – Não precisa falar nada.
E não era preciso. Foi necessário quase perde-la e levar alguns socos para entender que tinha que confiar nela. Afinal, amar é isso, não é? Talvez fosse um idiota por não querer uma explicação, mas mais idiota seria se perdesse. Acreditaria em qualquer coisa: que o mundo é quadrado, que o céu é vermelho e até mesmo que ela o amava se isso significasse tê-la com ele. Assumiria os riscos e lidaria com as consequências quando elas viessem. Por enquanto, só manteria Sofia entre os braços.
— Não é muito inteligente da sua parte falar isso.
— Talvez. – Serguei sorriu e Sofia sorriu de volta. – Não me importo... só sei que eu estou apaixonado por você.
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