Era Uma Outra Vez...
51 Festa - The End
Notas iniciais
— Eu estou apaixonado por você.
Sofia pisca os olhos algumas vezes não acreditando no que acabou de ouvir. Serguei não disse... ele não diria... diria? Confusa, ela interrompe o abraço com o ruivo e se levanta do sofá. Precisava mais do que nunca de um pouco de espaço para assimilar aquela informação. Talvez tivesse escutado errado, pensou com certo desespero, não querendo se aprofundar naquela questão.
Notando a surpresa de Sofia, Serguei quebra o silêncio.
— Eu acho que te surpreendi.
— Você acha?! – “Por que eu estou soando histérica?”— Você viu o Ben me beijando e diz que tá apaixonado por mim?!
— Bem, você também viu a Amanda me beijar.
Serguei se aproxima devagar de Sofia. Ela parecia ter dificuldade em acreditar no que ele dizia. Ela o encarava com os olhos muito abertos e respirava de maneira irregular. Certamente não era a reação que ele esperava, mas dado aos últimos acontecimentos da noite, não poderia exigir muito. E afinal, a garota sempre fez questão de manter a “relação” dos dois no campo físico. Ele, ou melhor, seu coração não quis entender as regras. Estar apaixonado por ela, estava além do alcance da sua vontade e teria que ser o mais sincero possível se quisesse convencê-la disse.
— Você me ignora há dias! Me ignorou a noite toda!
— Eu estava com ciúmes de você e do Sidney.
— E isso justifica?
— Não, claro não... A verdade é que fui pego de surpresa também, não sabia como agir.
— Entre você e eu é... era só sexo! – Sofia estava bem perto agora, mas só fisicamente. Emocionalmente, tentava erguer todas as suas barreiras. – Desejo... atração, sei lá!
— Nunca foi só sexo. – Fala convicto. Serguei a enlaça com os braços trazendo-a novamente para perto. Ela tenta resistir, mas acaba cedendo. Apesar da resistência, existia entre eles uma força invisível sobre a qual nenhum dos tinha controle. – Embora o sexo seja muito bom. – Brinca o ruivo. Sofia o encara completamente dividida. Serguei podia sentir a luta interna da garota para não se render. Ela estava disposta a mantê-lo afastado emocionalmente, mas antes que ela encontrasse algo para rebater o que ele disse, beijou-lhe a boca ternamente. – Eu estou apaixonado por você. O que eu sinto por você é muito forte e me fez agir irracionalmente algumas vezes, até de maneira injusta. Mas eu quero me redimir e quero que você acredite no que eu digo, porque entre tantos maus entendidos, essa é a única certeza que eu tenho.
Sofia fita Serguei nos olhos. Ela queria muito acreditar nas palavras dele, mas não sabia como. Passou tanto tempo se negando a aceitar o que o coração já sabia, mas agora, tendo ele dito todas as palavras, seria covardia continuar ignorando o seu amor. Como ela poderia fugir se tudo o que mais queria era ficar com ele? De alguma forma, ela sabia que mais cedo ou mais tarde aconteceria. Todos os enfrentamentos, os momentos de “paz”... o sentimento que foi crescendo pouco a pouco e tomando lugar dentro dela, ocupando o vazio deixado por Benjamim. Estava nas suas mãos a decisão e, embora tenha se prometido a não mais se apaixonar, o seu coração traidor não lhe deu ouvidos. Era tarde demais, já estava apaixonada demais para abrir mão dele.
Muito emocionada para usar a voz, Sofia passa os braços ao redor do pescoço do Serguei. Os dedos da loira se engancham nos fios vermelhos enquanto ele a uniu ainda mais ao corpo. Entre os braços dele, unida a ele, era onde Sofia queria estar. E para demonstrar isso, ela o beijou.
— X –
— Príncipe!
— Agora não, Anita!
Anita ficou parada enquanto o namorado ia para o quarto garagem sem lhe dar uma explicação para o ocorrido na festa. O percurso de volta ao Grajaú foi feito em um silêncio tenso repleto de sentimentos conflitantes. Júlia tinha descido primeiro do táxi, mas mesmo estando só os dois, Benjamim não parecia disposto a esclarecer o motivo da briga com Serguei.
A sala estava escura e era tarde demais para ter alguém acordado. Cansada, ela praticamente se arrastou até a cozinha em busca de um copo de água. Engoliu o líquido e a aspirina para sua dor de cabeça com grande esforço. Internamente, a Princesa remoía os fatos que montavam aquele estranho quebra cabeças. Seu namorado e seu amigo brigaram por algum motivo que envolvia Sofia. Mais uma vez a irmã se interpunha em seu relacionamento, mas no fundo Anita sabia que dessa vez era diferente. Serguei e sua atitude com Sofia foi revelador demais para ela ignorar. Desconfiava que Júlia sabia de algo e que não quis lhe contar. Anita sentia como se todos escondessem um segredo que impactaria diretamente na sua vida.
Por hora, ela não tinha muito o que fazer e não lhe restou opção senão ir para o quarto que dividia com Giovana e dormir.
— X –
Ben socou a parede com toda a força. A dor causada pelo golpe foi suplantada pela raiva que sentia. Arrancou com brusquidão a roupa molhada, resultado do embate com Serguei... “Serguei e Sofia juntos!”. Ainda era difícil de acreditar, mas não podia mais ignorar o que viu aquela noite. Era uma realidade da qual não poderia fugir, principalmente, sendo o ruivo o melhor amigo de Anita e tendo que cruzar com ele tanto no colégio quanto na própria casa.
O que lhe intrigava eram as razões pelas quais se deu essa relação. Sofia era esnobe e sempre lhe jogou na cara o quanto o dinheiro era importante. Mesmo que Serguei fosse dono de um salão, ele não tinha o status que atraía a loira. Serguei por sua vez nunca simpatizou com ela e sempre defendeu Anita dos ataques de Sofia. Então, como, contra todas as probabilidades, eles estavam juntos?
Benjamim se joga na cama de forma displicente. Coloca um braço sobre os olhos enquanto a mente vagava em direção as lembranças.
— O que você quer que eu faça?! Você escolheu minha irmã. É tão responsável por essa história quanto eu!
– Nada do que aconteceu muda o que eu sinto. Eu sei que você me ama.
– Não amo você... NÃO AMO!
— Eu não vou perder você, Sofia.
— X –
— Atrapalho?
Sofia e Serguei interromperam o beijo ao ouvir a voz de Otávio. Envolvidos, não perceberam a entrada do rapaz que agora encarava o casal com um sorriso zombeteiro. Não foi preciso ele dizer para que a garota e o ruivo soubessem que ele estava ali há algum tempo. Com Serguei segurando-a pela cintura, Sofia fita o amigo.
— Espero que esse beijo signifique que está tudo bem e que eu devo me retirar.
— Muito engraçado! – Falou Sofia tentando ser dura, mas com um grande sorriso. – Aposto que você tem muito a ver com o fato do Serguei estar aqui.
— Admito, sou culpado! – Otávio levanta as mãos em “rendição”. – Em minha defesa, digo que o seu ruivo insistiu muito em falar com você.
— Insistiu?
— Você não me deixou alternativa. – Confirmou Serguei.
— A paixão faz isso... – Comenta Otávio. – Bem, vim informar que o “casal encantado” e a acompanhante já foram embora. E se não for pedir muito, conversar alguns minutos com você, Sweet.
— Eu vou tirar essa roupa molhada... – Serguei dá um selinho na loira e segue para o quarto.
Sofia o observa se afastar. Ainda precisavam conversar e esclarecer muitos pontos, mas estava cada vez mais segura de que ficar com Serguei era sua melhor decisão. Todos os problemas que teria que enfrentar pareciam pequenos diante da perspectiva de ele amá-la.
— Tirar a roupa, é?
— Por favor, para!
– Foi ele quem disse!
Sofia acompanha o amigo até o sofá.
— O que quer conversar?
— Não é bem uma conversa, mas um esclarecimento... sei que permitir o ruivo vir até aqui, mas quero saber se você quer que ele fique. Minha equipe de segurança está de prontidão caso queira se livrar dele. – Ele pisca para Sofia de forma cumplice. – Mas por esse sorrisinho e a cena que eu vi, duvido que você aceite.
A loira revira os olhos pela da proposta do amigo. Otávio era um cara incrível e ela não tinha como lhe agradecer o apoio e amizade durante todo o tempo. Aprendeu a amá-lo e a confiar nele, o que foi muito importante para ela. Diretamente, Otávio havia contribuído muito para que ela e Serguei finalmente se acertassem. Sofia tinha certeza que ele ficaria ao seu lado na hora de ‘abrir o jogo’ com Flaviana. O que com certeza, não seria nada simples.
— Ele disse que está apaixonado por mim.
— Isso é obvio.
— Eu não esperava... Depois de toda a confusão, pensei que ele fosse ficar do lado da Anita.
— Foi o seu maior medo. – Completou Otávio lendo os pensamentos da garota. – Mas ele está aqui e quer ficar com você... E você? O que sente?
— Bom... digamos que você tinha razão e eu só não queria admitir antes. Sendo sincera, ainda é um pouco difícil colocar em palavras. Como se não fosse real, entende?
— Entendo... pelo menos estamos fazendo progressos, não é mesmo? – Otávio segura as mãos de Sofia para transmitir-lhe confiança. – Você é uma garota linda e merece viver esse amor. Espero que você diga a ele o que me disse.
— Eu vou... – Garantiu. – Obrigada por tudo.
— Well, não vou mais incomodar. – Sofia acompanha Otávio até a porta. – Não se preocupe com minha priminha, eu vou entretê-la nesse fim de festa. Aproveite a noite e não faça nada que eu não faria!
Otávio dá um selinho na loira e vai embora. Após fechar a porta, Sofia vai até o quarto, mas não encontra Serguei. Ela escuta o barulho do chuveiro e segue para o banheiro. Talvez não fosse a melhor hora e nem o lugar mais indicado para iniciar aquela conversa, mas não poderia esperar sequer um minuto a mais. A loira gira a maçaneta e entra.
Serguei estava no box, de costas para ela e não percebe sua presença. Sofia se recosta na porta e observa o ruivo sem nenhuma reserva. Um sorriso se forma em seus lábios enquanto o olhar percorre o corpo de Serguei. Movida por um impulso, a loira se livra do vestido que usava ficando só de lingerie. Segundos depois, entra no box surpreendendo o ruivo ao agarrá-lo por trás.
— Acredito em você. – Sofia sussurra beijando-o no ombro. Serguei gira o corpo e fica de frente para ela. A loira morde o lábio inferior enquanto ele a avalia abertamente com o olhar. Apesar da água que os molhava, ela sentia o corpo quente. – E nós precisamos conversar.
— Mas não agora?
— Não... nesse momento, quero que você me beije.
Serguei a puxa para ele e a encosta na parede. Sofia enlaça o pescoço do ruivo com os braços. Com a mão, Serguei ergue uma das pernas dela tornando-a ainda mais consciente da nudez dele. Sofia fecha os olhos enquanto ele a beija no pescoço. Ela sentiu tanto a falta do toque ele... desesperadamente. E o queria unido a ela como da última vez que estiveram juntos. Só que agora existia a certeza de que não era apenas físico o que existia entre eles. Era amor.
— X –
— Essa é a centésima mensagem que eu te envio!
Flaviana fita o telefone com o enorme desejo de arremessa-lo para longe, mas infelizmente para ela destruir o aparelho não vai fazer com que Martin se materialize diante dela. Com um suspiro exasperado, a garota faz sinal para o barman trazer outro drink. Talvez estivesse um pouco bêbada, rindo consigo mesma pensando se não seria melhor chorar. Os convidados ao redor ignoravam os seus conflitos e os únicos amigos, Otávio e Sofia, simplesmente sumiram.
— Ok, já chega! – Otávio chega no exato momento em que a morena iria esvaziar outro copo. Ele toma a bebida da prima e senta-se ao lado dela. – Vamos lá, o que aconteceu dessa vez?
— Ele não vem... – Flaviana sente as lágrimas escorrerem por seu rosto. – Aquele idiota me beijou!
— Como ele te beijou se não está aqui? – Questionou Otávio confuso.
— Ah, você não entende... – Reclama fazendo sinal para o barman trazer outro drink. – A Sofia não me entende, ninguém me entende!
— Fla, você está se comportando como uma menina mimada.
— MIMADA?! – Exclama ofendida. – Cala a boca, Otávio!
— Nossa, além de mimada se tornou mal-educada também.
— EU TE ODEIO! – Flaviana não consegue segurar as lágrimas. Suas emoções e o álcool no organismo a faziam perder o controle. Não sabia mais em que pensar, no que acreditar e tudo que menos precisava era de julgamentos. – Você por acaso já se apaixonou?
— Já... – Otávio oferece um lenço a prima para que ela enxugue as lágrimas. – E por isso posso dizer que se essa sua “paixão” pelo Martin fosse tão forte assim, você não teria beijado aquele loirinho com tanta vontade!
— Eu não! Ele, eu... Ele me beijou! – Tentou argumentar. Flaviana fecha os olhos ao pensar no beijo e um arrepio passa por sua coluna. Dizia a si mesma que se tratava de nojo, raiva... o que quer que fosse e que preferia beijar um sapo a ter que repetir aquela experiência. Mas no fundo, sentia-se ainda desnorteada pelo “gesto” de Sidney. Devia estar louca, pensou com um soluço. – No dia do meu aniversário, o único beijo que recebo é de um ogro estúpido!
— Bem, de uma forma torta, ainda é um conto de fadas. – Brincou Otávio.
Flaviana fuzilou o primo diante da “brincadeira” sem graça. Sequer podia imaginar quem mais tinha visto a cena patética e o sorriso sarcástico do primo não a ajudava em nada. “Até parece que eu e o tosco... NUNCA!” Disse a si mesma.
— X –
— Nós tínhamos um acordo.
— Você rompeu nosso acordo.
— O que queria que eu fizesse? Te vi beijando aquela vagabunda! – Sofia senta na cama, irritada. – Quis matar você! Há dias que mal nos falávamos e eu te enviei a mensagem para me encontrar, mas você sequer veio falar comigo... E por cima aquilo!
— Você não me deixou explicar. – Serguei senta na cama também e passa uma mão pelos cabelos, nervoso. – Eu te vi com o Sidney hoje.
— O Sidney é só meu amigo! – Ela o encara e com raiva puxa o lençol para cobrir-se. Sofia tenta deixar a cama, mas Serguei a segura pela mão. – Muito engraçado você dizer que eu não te deixei se explicar, quando você não faz muito tempo me deu as costas porque me viu abraçar um amigo!
— Eu sei que errei e peço desculpas por tudo, mas é que se tratando de você eu não sei como agir.
— Te disse que não haveria mais ninguém. – Murmura com o rosto corado. Sem que Sofia esperasse, Serguei a puxa fazendo-a cair no colchão. Ele tira o lençol que a cobre, expondo o corpo da loira. O ruivo se põe sobre a loira, colocando uma perna entre as dela. – Isso não é justo... – Reclama fracamente.
— Eu ia embora quando a Amanda apareceu. Ela me beijou de surpresa antes que eu pudesse reagir.
— Eu percebi... – Um gemido fica preso na garganta de Sofia quando Serguei morde levemente sua orelha. Ela o agarra pelos ombros, cravando levemente as unhas na carne do ruivo. Eles tinham transando no chuveiro, um encontro bastante intenso e apesar do leve cansaço, o simples fato dele tocá-la era suficiente para ela querê-lo outra vez. – A vagabunda olhou para mim antes de te puxar. Eu sou loira, mas não burra. Fiquei com muita raiva na hora, mas depois refleti sobre o que aconteceu até que... – Até que Ben apareceu e teve início toda a briga.
A lembrança do toque de Benjamim deixou o corpo de Sofia tenso. Sentindo a mudança da garota, Serguei buscou seus olhos. O olhar dela era distante como o de alguém perdido nos próprios pensamentos e o tremor do seu corpo indicavam que eles não eram nada bons. Serguei a libera e rola para o lado da cama. Puxou-a para ele fazendo com que a cabeça dela ficasse sobre seu peito.
— O Ben te viu sair da festa?
— Ele me seguiu... – Murmurou sentando-se novamente na cama. Sentiu Serguei sentar logo atrás dela, sem fazer menção de tocá-la. – Me acusou de estar usando o Antônio para atingi-lo, mas não é verdade. O Antônio e eu... compartilhamos algo, nós fomos abandonados pelos nossos pais. Apesar de já tê-lo beijado, isso não quer dizer que eu me envolveria com ele ou com o Sidney. – Sofia abraça o próprio corpo. Com o canto do olho tenta ver a expressão de Serguei sem coragem para encará-lo. Tinha medo dele não acreditar no que dizia, de ver desprezo em seus olhos. – Ele disse que eu o machuquei, mas ele me machucou também. Me decepcionou muitas vezes... todas as vezes. Ele sempre desistia de mim. A Anita, a nossa família, os meus erros... ele nunca os superou. E hoje, ele me disse que o ele sente não mudou, mas eu mudei. Não em relação a quem eu sou, mas ao que eu sinto. Eu fui apaixonada pelo Benjamim e fiz coisas ruins por causa disso, mas o que existia entre a gente acabou há muito tempo... agora eu entendo que nunca teria dado certo. Eu precisaria ser outra pessoa e eu não quis isso de verdade.
Uma lágrima escorre pelo rosto de Sofia. Ele afagou os fios loiros com as mãos. Apesar de doloroso, ela sabia aquela confissão era necessária. Ela estava libertando-se do seu passado e erros, e principalmente, do que sentiu por Ben.
— Depois de hoje... acha que ele ainda teria uma chance? – As palavras de Serguei saíram sem emoção, mas em seu peito uma opressão lhe esmagava por dentro. As palavras de Sofia esclareciam muitas dúvidas que ele tinha sobre ela e Ben. E em nenhum momento ele duvidou da sinceridade dela. Era claro que houve um sentimento e não apenas rivalidade entre as irmãs. No fim das contas, ele se abriu com ela, mas ela não falou sobre o que sentia por ele. Precisava saber se Sofia ainda pensava em Ben. – Você ainda é apaixonada por ele?
Um silêncio pesado se instalou entre eles. Serguei esperou pela resposta, e após o que pareceu uma eternidade, Sofia virou em sua direção olhando-o nos olhos.
— É tarde demais. Não há mais espaço... – Ela suspira. – No meu coração só existe... você.
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