Era Uma Outra Vez...
42 Expectativa
Notas iniciais
Foi impossível impedir que Sofia partisse pra cima de Amanda. Mesmo se pondo entre as duas, Serguei não evitou que a loira desse uns bons tapas na outra garota. Sofia estava bem irada, mais do que em qualquer momento que ele lembrava-se.
– ME SOLTA! – Exigiu Sofia enquanto Serguei a segurava firmemente pela cintura. – Essa vaca tá me devendo há muito tempo! ME SOLTA!
– Calma, Sofia!
Porém nada do que ele dizia funcionava. Sem alternativa, Serguei arrastou a loira para longe de Amanda antes que acontecesse o pior. E sem nenhuma dúvida, a loira estava disposta a ir até as ultimas consequências.
– Fica longe de mim! – Gritou mais uma vez quando chegaram perto da saída.
Alguns alunos que não estavam em horário de aula pararam pra observar, mas ao invés de uma discussão viram Sofia se afastar de Serguei e ir embora.
– O que foi que eu te fiz? – Perguntou enquanto ela ia embora.
Sofia não respondeu.
– X –
"And another one bites the dust. Oh, why can I not conquer love?"
– Sofia, telefone pra você!
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Por que na sua vida tinha que ser tudo tão complicado? Por que ela simplesmente não baixava a guarda e deixava suas emoções virem à tona? Sofia não sabia.
Nada com ela era simples. A sua forma de amar, odiar e ser feliz era somente sua e cheia de falhas. Em todas as vezes que se arriscou tudo o que conseguiu foram algumas cicatrizes. E agora ela sentia algo novo, sem propósito e que a deixava mal.
Odiou ver Serguei e Amanda juntos. Quis matá-la por tocar no ombro dele. Quis morrer por ele ter escutado as ofensas da garota contra ela sem dizer nada. No final, nada mudou. Eles eram as mesmas pessoas de sempre. E agora ela estava ali ouvindo a mesma música até anoitecer sem sair da cama. A Sofia de antes não se incomodaria tanto com insultos, não brigaria por causa de nenhum garoto. A Sofia de antes se protegeria melhor. Como ela faria para a sua 'antiga eu' voltar?
– Sofia... – Soraia entrou no quarto com o telefone na mão. – É a sua mãe.
Sofia pegou o aparelho, mas esperou até Soraia sair. Respirou fundo.
– Alô?
– Sofia... – Ela ouviu a mãe suspirar aliviada. – A Anita me falou o que te aconteceu no colégio. Você está bem?
A loira recordou a ultima vez que esteve com a mãe. As palavras duras de Vera ainda pareciam ecoar em sua mente.
– Não morri. – Não era a mesma coisa que estar bem.
Silêncio.
– Pode vir até aqui em casa?
Ela pensou em recusar, inventar qualquer desculpa para não ter que encarar a mãe e reafirmar o que já sabia: nada nunca mais seria igual.
– Daqui à uma hora... Eu estarei aí.
E desligou sem despedir-se.
Enviou uma mensagem para Flaviana antes de sair para desmarcar o jantar das duas e foi para o Grajaú. Não sabia bem o que esperar, ao descer do táxi em frente a sua... A casa de Vera. Pensou em todos os moradores dali e o pouco apreço que sentiam por ela, pensou em dar meia volta, mas não era covarde. Não se esconderia, embora fosse mais fácil.
Entrou e encontrou a mãe sentada a mesa com Ronaldo, Ben e Anita.
– Você chegou! – Vera veio até a filha, mas não a abraçou como fez tantas outras vezes. Manteve certa distância, sem conseguir encarar a filha. – Senta, a gente precisa conversar.
Sofia não se moveu. Sentiu-se presa numa armadilha.
– Pra quê esse comitê de recepção?
– Por favor Sofia, só queremos conversar com você. – Foi a vez de Ronaldo se pronunciar.
Ele indicou o lado ao seu à mesa, porém mais uma vez a garota ignorou o pedido para sentar-se.
– Sobre?
– A relação entre você, sua irmã e o Ben e a forma como ela afeta a nossa família.
Era um tribunal. Vera e Ronaldo os juízes, Ben e Anita os promotores e vítimas, e ela a réu e, consequentemente, a culpada. Por que será que isso não a surpreendia?
– Eu achei que quisesse me ver. – Falou com o olhar fixo em Vera.
– Precisamos resolver essa situação. Amo você e seus irmãos, mas não posso permitir que nossa família acabe assim.
– E vai fazer o quê?
– Antes de qualquer decisão... – Vera parou, a voz vacilante. – Quero entender, saber exatamente o que aconteceu. Só assim poderemos lidar com o problema juntos, como toda família deve fazer.
Pela primeira vez Sofia olhou para Ben. Calado e de cabeça baixa, ele parecia concordar com a opinião da sua mãe. Ou apenas quisesse tirar o dele da reta. Tão previsível... Já Anita a encarava, altiva, como a senhora da razão. Como ela queria arrancar aquela expressão do rosto da 'Princesa'.
Ronaldo se mostrava um pouco compreensivo, mas ainda assim muito contrariado por toda a situação. E voltando a olhar a mãe se perguntou o que estava fazendo ali.
– Pensei que quisesse me ver.
Cada palavra era carregada de mágoa, porque ela realmente acreditou que a mãe queria vê-la. Porque se atreveu a confiar que as palavras da mãe sobre ela ser um monstro não eram verdade.
– Não se preocupem, vocês não precisam lidar com nenhum problema.
E tendo dito isso, ela se encaminhou para a porta.
– Sofia, por favor!
Mas nem o apelo da mãe a fez voltar atrás. Quando chegou ao portão, as lágrimas já nublavam sua visão. Na calçada, uma moto parou à sua frente.
– Hey gata faz tempo que eu não te vejo! Então, veio pedir por mais um beijo?
– Sofia! – Ouviu a voz da mãe chamá-la da entrada.
– Não importa, me tira daqui!
– X –
– Soube que você e a Sofia discutiram hoje.
A rede de fofocas do colégio era algo a ser considerado, pensou Serguei mordaz, espantado com a rapidez com que uma simples situação se tornava de conhecimento público.
– Nós não discutimos. – Limitou-se a dizer.
Concentrado em terminar uma tintura de cabelo em uma cliente, preferiu não pensar em Sofia.
Júlia tentou não pressionar o amigo, mas desconfiava de algo importante sobre ele e Sofia e precisava ter certeza. Ela não podia mais ignorar a maneira estranha como Serguei estava agindo com a loira. Assim como também não poderia deixar o amigo se envolver numa história que só acabaria mal. Por vários motivos, especialmente Anita.
– Bom, menos mal.
– X –
– Não vai falar nada?
– Você entenderia?
Antônio não entendeu o porquê da pergunta, mas não questionou. Ela parecia confusa quando a encontrou e agora parecia uma maluca sem rumo. Andaram por quase uma hora de moto pelas ruas da cidade e já estava ficando tarde. Pararam para dar uma volta na praia, e em todo esse tempo ela não havia dito muita coisa. Ele não se preocupou em perguntar, porque também não era de muitas palavras e se ela queria ficar calada, então tudo bem.
O que o surpreendeu foi mesmo o pedido dela para levá-la para qualquer lugar. Claramente estava chateada com alguma coisa e se arriscou pedir sua ajuda foi porque não tinha mais ninguém a quem recorrer.
– Não.
– Supus que não.
– O que não significa que eu não posso ouvir.
Ela sorriu ácida por alguém como Antônio se dispor a ouvir seus problemas. Ele era nada menos que o irmão maluco do fracassado do Ben, o psicopata que a beijou a força não uma, mas duas vezes e ela nem levou isso em consideração ao subir na moto dele.
– O que você sabe de família?
– Não muito. – Foi a vez de Antônio sorrir mordaz.
A pouca família que ele tinha ficou nos Estados Unidos enquanto ele estava no Brasil por ser um cara problemático. A desculpa do desenho serviu apenas para ele ter onde ficar, mas a verdade é que Hernandez não sabia mais o que fazer para controlá-lo. Qual a melhor maneira de resolver um problema que não seja se livrando dele? Foi o que o padrasto fez.
Quando chegou à casa do irmão de criação não sabia bem o que esperar, mas sabia que teria que fingir por um tempo ser um cara recuperável. Mas de todas as suposições, não imaginou encontrar a versão feminina de si mesmo.
Sofia e Antônio eram iguais, como ele próprio havia dito. Não sabiam quem eram os seus pais e não se encaixavam em suas respectivas famílias. Ela até poderia considerá-lo um maníaco, mas não fazia diferença. Sofia era a única pessoa por quem conseguiu sentir certa simpatia.
– Meu pai chutou minha mãe quando ela estava grávida de mim. Anos depois foi a vez da minha mãe me chutar.
– Amor maternal. – Ironizou Sofia.
Antônio não se preocupou com a crueldade. Ele já experimentou muito disso na vida pra não ser mais afetado. E ouvir de Sofia era diferente, porque talvez ela fosse uma das poucas pessoas que entendessem.
– Essas pessoas não sabem nada de amor. Eu também não.
– E quanto ao seu padrasto? O Ben falou que ele era um cara legal.
– Um cara legal que não é nada meu. – Antônio parou de andar e focalizou o mar. Sofia parou ao seu lado.
Ela entendia aquele sentimento. Era mais novo pra ela, talvez ele já tivesse superado, mas a garota ainda não. Como aceitar que as pessoas que dizem te amar não são nada sua? Como aceitar que por mais amor que você tenha, nada nunca vai preencher o vazio?
– Todo mundo diz que entende, que é difícil, mas que devemos seguir com nossa vida. Pensam que sabem como é sentir-se como nós... Eles acreditam que o que mais machuca é o abandono, mas nós dois sabemos que não é isso, não é?
Sofia tentou não chorar, mas ninguém tinha sido tão direto quanto a forma como ela se sentia. Antônio foi a primeira pessoa que acertou em cheio. Diferente de Sidney, ele não tinha sido tão suave. Ele estava certo, não era o abandono, pelo menos, não apenas isso. Era a expectativa que a perseguia.
– Esperar por alguém que talvez nunca chegue. Pensar que hoje pode ser o dia que eles vão aparecer arrependidos... Hoje, amanhã, daqui cinquenta anos. E você vive preso a expectativa desse momento, porque por mais que você diga não se importar, só a possibilidade disso acontecer marca sua vida pra sempre. Um rosto, um nome, uma desculpa, qualquer coisa que faça você existir ter sentido. E você nunca tem paz, não até acontecer. E se não acontece, você acaba morrendo com isso... Como se fosse uma doença.
– Você os perdoaria? Sei lá, se um dia eles voltarem?
– Já perdoei. – Disse seguro. Sofia o olhou descrente. Antônio sorriu. – Só que eu ainda os odeio. E não interessa o que digam, eu posso viver com isso.
Sofia riu entre lágrimas de Antônio. Era uma tragédia o que ele vivia, mas ele aprendeu a lidar com a dor. Talvez ela não fosse tão forte ou tão insensível, mas um dia ela também conseguiria anestesiar seu coração.
Voltaram a caminhar em silêncio.
– Tem planos para o próximo fim de semana?
– Não. É minha folga, então pensei em encher a cara num bar qualquer.
– Ótimo, porque nós vamos fazer isso em grande estilo!
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