Era Uma Outra Vez...
5 Eu te amo?
Notas iniciais
POV Ben ON
O dia já amanheceu e ate agora nada da Sofia aparecer. Varei a madrugada procurando por ela, na rua, bares, qualquer canto em que ela pudesse ter se escondido, mas nada. Era como se a terra a tivesse tragado sem deixar pistas. Eu estou exausto, não voltei para casa, mas pelo telefone Anita me avisou que a policia já foi informada. Senti um aperto no peio ao pensar em Sofia sozinha e desorientada pelas ruas da cidade. Temo pela sua integridade numa cidade tão perigosa... Se ao menos eu a encontrasse. Se pelo menos, eu pudesse ter evitado todo esse sofrimento.
– Cadê você, Sofia? – Olhei para o mar tão grandioso a minha frente. Na minha busca, acabei chegando à praia e embora tivesse poucas esperanças de encontrá-la ali, continuei andando pela areia fofa.
POV Ben OFF
– X –
– Que horas são? – Sofia sentou-se na areia e esfregou os olhos. Não se lembrava de ter dormido, mas Sidney ao seu lado a fez recordar todos os fatos do dia anterior.
– Não sei... Mas importa? Olha só esse paraíso, Sofia!
– Eu... Preciso voltar para casa. Minha mãe deve estar preocupada... – “Mãe.” Quando que ela imaginou que essa palavra lhe doeria tanto? Vera não era sua mãe, nunca foi. Como Giovanna mesmo tinha lhe jogado na cara, ela não era de ninguém... Ninguém a quis – Eu nem tenho mais casa. – Concluiu penalizada.
– Não fala assim... A sua família não vai te virar as costas.
– AH, ate parece! Nenhum deles, com exceção da minha mãe... Com exceção da Vera me queria naquela casa. E agora que nem mais parente deles eu só, como acha que eu posso continuar lá?
– Não seja tão dura, Sofia. Você fala como se o sangue fosse tudo o que te ligasse a eles... Sabe, eu via sua família, tão unida e eu sentia um pouco de inveja. Eu daria tudo para ter um pouco do que vocês tinham... Você deveria prestar mais atenção a isso, na sorte que teve por ter encontrado tantas pessoas legais na sua vida... Você não sabe como é não ser querido por quem você deveria ser mais amado.
– Fala da sua mãe? – Perguntou, envergonhada. Ela nunca tinha prestado muita atenção em Sidney, mas agora, depois do tempo em que eles estiveram juntos, Sofia pode perceber o quanto o garoto sofria com a frieza da mãe e a distancia do pai – A Maura parece bem difícil...
– Difícil? Isso é elogio! A dona Maura é uma megera!... Só liga para o que ela quer, o que tem a ver com ela. Eu nunca fui bom o bastante, educado o bastante... É como se qualquer um fosse melhor, menos eu. E olha que ela é minha mãe. Para completar, meu pai não dá sinal de vida há anos... Deve já ter outra família, por isso não se importa comigo. Ele deve ter me esquecido.
– Quem diria, hein? Eu e você, dois rejeitados! – Brincou Sofia aliviando a tensão. Sidney passou a mão nos olhos marejados e sorriu. Ela era um raio de sol no seu mundo tão escuro.
– Sofia? – Ben se aproximou do casal que ria sentados na areia. Era Sofia e Sidney e vê-los juntos e felizes colocou um peso sobre seu coração.
– Ben?... O que tá fazendo aqui? Como me encontrou? – Perguntou ela levantando depressa. Sidney fez o mesmo e parou atrás dela.
– Isso não vem ao caso, agora. Pode me explicar o que faz aqui enquanto tá todo mundo louco te procurando?
– Eu, eu... Eu só queria ter um tempo sozinha.
– Sozinha com o Sidney? – Perguntou sarcástico.
– Não é o que você tá pensando – Apressou-se em explicar. Sidney não gostou nada do interrogatório e decidiu intervir.
– A Sofia não precisa explicar nada. Pelo o que ela me contou foram vocês quem a trouxeram ate aqui... Então, porque não a deixam em paz? Será que o que ela passou já não é suficiente?
– Sidney fica de fora dessa história! Esse assunto só interessa a nossa família.
– Família? Que família? Aquela é a sua família, não a minha! – Gritou Sofia a beira das lágrimas. Ben se condoeu pelas palavras dela – Desde sempre, eu sempre soube que não me encaixava... Que aquele não era o meu lugar, e agora eu entendo por que. Porque eu não pertenço a vocês, não pertenço a ninguém. E sabe, embora vocês devam estar muito contentes... Afinal, eu sou um monstro né? Eu não queria que fosse assim. Eu não queria.
Sidney abraçou a loira que chorou no seu ombro. Ben assistiu a cena, contrariado pela proximidade dela e do outro cara. Ele se martirizou pela sua incapacidade de evitar que ela sofresse. Ben sentia que estava perdendo Sofia e, por mais errado que fosse, ele não poderia permitir que ela saísse da sua vida.
– Não é assim, Sofia! Nós amamos você... Somos a sua família e nada nunca vai mudar isso. Por favor, a Vera tá preocupada, o seu irmão... A Anita também. Volta comigo para casa.
Sofia enxugou as lagrimas e olhou para o rosto de Ben. Ele era realmente único... Tão preocupado com a madrasta e namorada que ate aceita a presença dela e faz questão de enfatizar que ela também é parte integrante da sua ‘família’. Sofia riu fraco... Não era por ela, era por Anita. Sua irmã sempre estaria em primeiro lugar na vida dele.
– A Sofia só vai aonde ela quiser! – Disse Sidney se pondo na frente da loira.
Ela colocou uma mão no seu ombro, um sorriso triste no rosto.
– Tá tudo bem, Sidney. Eu tenho que ir para casa... Não é justo preocupar tanta gente. Obrigada por tudo. – Ela o abraçou para a irritação de Ben. Sidney deu-se por vencido.
– Você sabe que pode contar comigo, não sabe?
– Sei sim... Valeu.
– X –
– Filha! Sofia, minha filha!
Emocionada, Vera correu para abraçar a filha. Sofia não teve reação, com os braços presos ao corpo se deixou ser envolvida pela ‘mãe’. Próximo, Anita respirava aliviada pelo retorno da irmã.
– Sofia, nunca mais some desse jeito! – Pediu, carinhosa. Após abraçar a irmã, ela foi ate o namorado – Obrigada por trazê-la de volta, Príncipe.
– Não foi nada, Princesa – Respondeu automaticamente, sem desviar os olhos de Sofia.
– Vem, você deve estar cansada. Vai querer tomar um banho, trocar de roupa... – Vera puxou Sofia pela mão, mas ela não saiu do lugar. Antes de tomar qualquer atitude, a garota queria a verdade – Sofia?
– Eu não quero banho nem nada. Eu preciso falar com você, saber tudo... Toda a minha história.
Lágrimas brotaram nos olhos da mulher. O momento que ela tanto temeu havia chegado e não da forma que ela imaginou.
– Você tem razão... Você merece isso.
– Nós vamos deixar vocês a sós – Anita olhou para Ben num consenso mudo de que as duas deveriam ter privacidade. E foi com relutância, que ele seguiu a namorada para fora do quarto, mas não antes de olhar Sofia uma ultima vez.
Já sozinhas, Vera iniciou a conversa.
– Eu sei que foi um erro esperar tanto para te falar a verdade, mas eu nunca encontrei uma boa maneira de dizer uma coisa dessas.
– Eu só quero a verdade.
– X –
– Amor, vem! – Chamou Anita. Ben continuou a olhar para as escadas na ânsia de ver Sofia descer. Há mais de uma hora que ela e Vera conversavam e ele estava aflito por noticias da loira.
Anita serviu um prato com biscoitos e café bem forte para ele. Depois de uma noite em claro, Ben precisava repor as energias, e mesmo ela tendo pedido para ele ir descansar um pouco, o rapaz se manteve firme em não sair dali enquanto sua mãe e sua irmã não voltassem.
– Acha que ela vai entender?
– Entender o quê?
– Toda essa história de adoção. Deve ser uma barra saber que seus pais não são seus pais.
– É... Nem imagino como ela tá se sentido. Se para mim foi um choque quando descobri, imagina para ela – Anita lembrou-se do dia em que ouviu os pais discutindo. Vera insistia com Caetano que eles deveriam falar a verdade para Sofia, mas ele negava-se a dizer qualquer coisa. O pai temia que a filha não compreendesse e que os rejeitasse – Foi há alguns meses, e desde então tenho vivido uma batalha entre proteger minha mãe ou contar a verdade para minha irmã.
– Eu sei que você só queria o bem das duas – Ben segurou a mão da garota que sorriu agradecida – Você é maravilhosa.
– Eu te amo. – Falou Anita. Ben absorveu a declaração da Princesa Plebeia e embora quisesse dizer o mesmo, ele não conseguiu. Algo havia mudado entre os dois e ele sabia que Sofia era o motivo disso.
Anita ficou um pouco decepcionada por Ben não ter correspondido a sua declaração e dito que também a amava, mas o desculpou usando como motivo toda a confusão que eles viviam no momento.
– X –
De banho tomado, Sofia fechou a pequena mala que tinha feito. As palavras de Vera ainda pesavam fundo dentro dela, mas ela agradecia pela verdade. E embora fosse doloroso, ela sabia que era o melhor. Após guardar a ultima peça, ela fechou a mala e sentou na cama. Sofia olhou ao redor do quarto que dividia com Giovanna e Anita... As lembranças brincando na sua mente confusa. Mais do que nunca ela se sentia uma estranha entre eles. Alguém que não pertencia aquela casa nem aquelas pessoas.
– Eu te amei desde o primeiro momento.
A afirmação emocionada de Vera comoveu Sofia. Sidney tinha razão, ela teve sorte por ter encontrado uma pessoa tão maravilhosa quanto à mãe que desprendida de qualquer preconceito ou julgamento, acolheu a menina na sua casa e vida.
– Eu olhei para você... Você parecia tão assustada que meu coração se partiu. Eu prometi que nunca te deixaria sofrer, que te amaria para sempre.
E foi o que ela fez desde que a tirou do abrigo para crianças abandonadas. A mãe nada sabia sobre os pais biológicos de Sofia, apenas que ela tinha sido entregue com alguns dias de vida a assistência social, e que se não fosse por Vera, ela ainda estaria sozinha nesse mundo.
– Posso entrar? – Perguntou Ben da entrada. Sofia enxugou a lágrima que escorreu por seu rosto.
– Claro... – Ela se pôs de pé e pegou a mala.
– A sua mãe disse que você vai passar um tempo na casa da Flaviana.
– É... Eu acho que vai ser bom para assimilar tudo o que desabou sobre mim.
– Tem certeza que isso é o melhor? – Perguntou sem querer ficar longe dela.
– Tenho sim... Eu preciso ficar comigo mesma.
– Você não vai demorar, vai?
– Não... Não sei, mas veja pelo lado bom, vocês vão se ver livres de mim por um bom tempo. “Férias indefinidas da chata da Sofia!” Já escuto os fogos sendo queimados!
– Não precisa falar assim! Ninguém quer te ver pelas costas, Sofia.
– Ben, Ben... Dá um tempo, tá? Não é porque eu to numa crise que você nem ninguém precisam fingir que gostam de mim. Eu ainda sou a mesma garota fútil e egoísta que você conhece e detesta. E apesar de você ser muito bonzinho, eu dispenso sua caridade. O papel de pobre menina órfã não combina comigo.
– Será quem nem agora você perde essa pose, Sofia? – Questionou triste pela atitude dela.
– Não, Benjamim! Porque essa sou eu e se eu não sou boa o suficiente, que se dane o que os outros pensam. Eu não vou mudar para me encaixar... Se isso é tudo, me dá licença que o carro da Flaviana já tá chegando. Se for por falta de adeus... Ate logo Benjamim.
Ben olhou para a garota e não soube o que dizer. Sofia era um enigma, e quanto mais ele tentava se aproximar, mais ela se afastava. Ela parecia escorregar por suas mãos e tudo o que ele sabia e sentia sobre ela era uma complicação na sua vida. Sem mais o que fazer, ele deixou o quarto em silêncio.
Sofia pegou a mala e desceu. Na entrada, o motorista de Flaviana pôs a bagagem no porta-malas e ela entrou no carro. De longe, Ben observou Sofia partir.
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