Era Uma Outra Vez...
11 Entre o amor e o ódio
Notas iniciais
POV Sofia ON
“Se nem o amor é infinito, o sofrimento também não é.”
Eu queria poder acreditar nisso, mas mesmo que fosse mais fácil me iludir, a realidade me impede de enxergar uma saída para tudo o que tenho vivido desde a minha briga com Anita, há um mês, até o presente momento. Agora eu sei o significado da expressão ‘inferno na terra’ e o meu atende por nome de Grajaú. Se eu já considerava esse bairro uma droga, agora então... Mas eu sou a responsável pelo meu próprio castigo. Ah... Por que eu tinha que fazer aquilo com a Anita? Por que eu tinha que amar aquele idiota fracassado?! Porque é isso o que ele é, um imbecil ‘caga regra’ que adora apontar o dedo na minha direção como se, por acaso, fosse melhor que eu. Mas ele não é, nem eu merecia tudo o que estou passando, mas que foda-se, não vou me deixar abater por causa deles.
Não me importa que a Bernadete, a Giovanna, Vitor, todo o colégio tenham se voltado contra mim... Até o Pedro. Meu pequeno também me condenou, ele escolheu a Anita. E eu fiquei sozinha. Sem ninguém com exceção da Flaviana... Aquela maluca é mesmo uma grande amiga e se não fosse ela a me dar força, eu não sei... Às vezes sinto vontade de sumir desse lugar, desaparecer para sempre. Quem sabe assim eles não seriam mais felizes sem a minha detestável presença? Um mundo sem Sofia deve ser um mundo melhor.
POV Sofia OFF
– Alunos, por favor, entreguem os trabalhos – Pediu João Luis.
Sofia pegou o seu e foi até a mesa do professor entregando o trabalho nas mãos dele.
– Espera, Sofia... É em grupo. Aqui só tem o seu nome.
– É o que parece.
– Por quê?
– Por que será, né? Será que é por que fui eu quem fez? – Ironizou para a irritação de João.
– Háháhá... Como eu sou distraído, nem me passou pela cabeça essa possibilidade. Mas pode levar de volta. Um trabalho em grupo é para ser feito em grupo, caso contrario, você fica sem a nota – Determinou ele sem piedade.
Sofia sentiu o pânico tomar conta dela por alguns instantes como vinha acontecendo ultimamente... A sensação de impotência e solidão tomando espaço na sua vida. A sua vida já estava uma merda e se isso se refletisse nas suas notas, aí é que ela não poderia escapar de dar explicações a Vera por tudo o que tem vivido.
Ela não podia permitir que a mãe soubesse a verdade, não depois de tanto esforço para poupá-la... Mas o que aconteceria se Vera soubesse que a filha dela era inimiga Nº 1 do colégio inteiro? Ou que era constantemente hostilizada pelos colegas? Ou que ninguém mais falava com ela ou a aceitava por perto? Sofia se lamentava por causar apenas preocupação para a mãe. A garota sentiu as lágrimas brotarem, mas a raiva chegou primeiro e com mais força.
– Olha, professor... Eu fiz, não fiz? Isso não é alguma coisa? Eu não to lidando muito bem com pessoas a minha volta, por isso fiz o trabalho sozinha – A verdade é que ninguém a quis no grupo e que Flaviana até se ofereceu para fazer dupla com ela, mas Sofia não quis prejudicar a amiga – Pode pelo menos, dar uma olhada, valorizar o meu esforço?
– Não quero desculpas. Ou você se encaixa num dos grupos ou fica sem nota.
– Ai meu saco! A porcaria do trabalho tá feita, dá a nota e pronto, OK? – Exclamou impaciente. João Luis não gostou nada da atitude da garota.
– Chega! Eu não admito que me faltem com respeito, Sofia. Agora, para a sala da orientadora.
– Oi? Pirou?
– SOFIA! Já para sala da Raissa ou vou ser obrigado a relatar a diretoria o seu comportamento. E você sabe que seus pais serão informados, não sabe?
Sofia cerrou os punhos e respirou fundo buscando por controle. João Luis se manteve impassível e apenas indicou a saída com um movimento de cabeça. A passos largos, ela andou ate a carteira pegou a bolsa e saiu pisando forte. Os demais alunos a olharam extasiados pelo fato da garota ter se dado mal, já que para eles, qualquer penitencia seria pouca depois do que ela fez para a irmã.
Cegamente, ela chegou ate a sala da orientação e bufou diante da porta. Ela não precisava de orientação, ela precisava de uma vida nova bem longe daquelas pessoas. Sofia queria virar a pagina, mas não fazia ideia de como.
– Entra! – Pediu Raissa ao ouvir batidas na porta – Sofia?
– É, eu – Ela revirou os olhos e sorriu irônica – Finalmente, eu fui mandada para sua sala.
– Por quê? – Indagou a mulher tentando conter a emoção. Ela estava lá, a sua Sofia.
Raissa sentiu o coração acelerar. Há semanas ela esperava por uma aproximação com a menina, mas seu medo de ser rejeitada sempre a impedia de dar o primeiro passo. Mas agora, Sofia tinha ido ao seu encontro.
– Ah... Por bobagem. O João cismou com meu trabalho e achou que seria interessante eu vim falar os meus motivos por não ter feito em grupo. Sabe como é, né? Ele deve ter acordado com o pé esquerdo e me pegou pra ‘cristo’. – A garota sentou na cadeira que Raissa lhe indicou – Mas então, como é que funciona? Eu digo que sinto muito e você me passa um sermão e eu posso voltar para aula?
– Sofia, não é assim que eu trabalho. Eu to aqui para conversar, ajudar os alunos que tem problemas. Não precisa dessa atitude comigo.
– AH, tá! Foi mal aí, me esqueci que eu tenho que parecer um pouco com a culpada... – Ela riu sem humor – Tanto tempo convivendo com uma eterna ‘vitima’ não me adiantam de nada nesse momento.
Sofia olhou em volta da sala. “Chata!” concluiu após a inspeção. A decoração tão monótona quanto à mulher a sua frente.
– Vamos lá, me fala o que aconteceu – Se dispôs Raissa.
– Nada, de verdade, e eu não quero falar... Sabe, não me julgue mal, mas se eu quiser falar sobre os problemas da minha vida eu vou num psicólogo ou algo do tipo. Eu não te conheço.
A mulher tentou não demonstrar a decepção que sentiu pela indiferença da jovem. Sofia parecia mais inatingível do que ela imaginou e isso causou uma certa preocupação na orientadora. Ela queria ajudar a menina, pois mais do que seu dever, era uma forma de se estar ligada a ela, de compensar todos os anos em que esteve longe. Raissa acreditou que quando Sofia e ela se encontrassem a menina fosse sentir o que ela sentia, o profundo amor que guardou por tanto tempo e que sempre pediu para ser liberto e que via nesse reencontro uma oportunidade de se concretizar. O sentimento que sempre deveria ter sido dela, mas que lhe foi negado.
– Tudo bem.
– Tudo? – Questionou a loira confusa. Raissa sorriu, cúmplice.
– Aqui ninguém é obrigado a nada. Se você quiser falar, fala. Se não quiser, tudo bem. Eu espero ate você estar pronta.
– Hum... – A garota olhou a mulher desconfiada – Então, tá beleza se eu escutar musica?
– Claro... Acho uma boa ideia.
Sofia não entendeu nada, apenas pegou os fones e conectou ao seu celular. Era de conhecimento que a orientadora fazia a linha ‘amiguinha’ dos alunos, mas Sofia não pensou que fosse tanto. Ao debochar dela, pensou que seria repreendida, mas teve uma grata surpresa com a reação da mulher. Talvez Raissa não fosse tão chata como ela imaginava.
– X –
O terceiro ano estava com uma aula vaga por causa da falta de um professor, e por isso foram liberados para ficarem no pátio do colégio. Anita, Júlia e Serguei conversavam sobre assuntos escolares quando Benjamim se aproximou do trio.
– Oi! – Disse meio sem graça passando a mão pelos cabelos. Serguei ignorou o rapaz, Júlia sorriu solidária e Anita não demonstrou nenhuma reação.
– Oi... – Falou ela, por fim.
– Posso falar com você? A sós?
Anita pensou em recusar, mas Ben a olhou quase que implorando ela não pode resistir. Ainda que doesse muito estar perto dele e lembrar tudo o que ele e a irmã fizeram, Anita sentia falta de Ben, das suas conversas, de dividir os momentos juntos.
– Tá... Eu não demoro – Disse para os amigos.
– Sério, Anita? – Questionou o ruivo descontente. O que Ben ainda poderia querer com ela?
– É só uma conversa – Ela levantou-se de onde estava e seguiu com o ex.
– Você deveria se controlar, Serguei. A Anita sabe o que faz, confie nela.
– Será que sabe mesmo?
Já afastados, Anita e benjamim procuraram um lugar confortável para sentarem.
– Senti saudade – Disse o rapaz olhando para o céu. A garota aproximou as pernas do corpo e olhou para qualquer lugar temendo focalizar o rosto de Ben e confessar que ela sentia o mesmo.
– Por quê? Eu não fui embora.
– Mas é como tivesse ido... Eu sinto muito por ter feito o que fiz. E sinto mais por ter te magoado, eu juro que não queria.
– Eu acredito – Admitiu sincera – Mas mesmo assim você não pode me pedir para esquecer tudo e fingir que isso não me machuca. Eu ainda estou muito ferida, Ben. Não só pela forma como aconteceu, mas também pela mentira. Se você tivesse me falado que estava apaixonado pela Sofia... Eu, eu ia entender. Eu teria deixado o caminho livre para vocês, embora fosse doer. Só que doeu mais vocês terem feito tudo pelas minhas costas.
– Eu não estou apaixonado pela Sofia – Falou ele, decidido. Anita estranhou a firmeza do rapaz.
– Então, porque a beijou?
– Bom, eu... A verdade é que eu não sei.
Ben não amava Sofia, não amava... Era o que dizia insistentemente para si mesmo quando se pegava a observando no casarão ou quando sentia raiva por ela praticamente correr dele quando eles se esbarravam. Foi sua decisão que ela não se aproximasse, mas ser atendido não o deixava mais feliz. Sofia era uma garota sem caráter e egoísta, como ele poderia ter se apaixonado por ela? Bem não entendia como. Ela tinha valores completamente avessos aos dele, era tudo o que ele mais desprezava... E ainda assim, ele não conseguia parar de pensar em Sofia. Ou no quanto ela estava estranha e triste, e mesmo ele tendo a consciência de que ela merecia a frieza com que era tratada, lhe doía saber que ela sequer se importava com isso.
– Eu conheço você, ou acho que conheço... A questão é que você não é do tipo que beija uma garota apenas para trocar saliva com ela. Você tem que sentir algo. Atração, pelo menos.
– Quer que eu admita que me senti atraído por ela? Pois bem, acho que foi isso. Não foi legal o que eu fiz, eu também a beijei, não foi só ela... Mas isso não quer dizer que eu a ame. A sua irmã é muito diferente de mim. Ela é o oposto do que eu desejo para mim... Ela não é você, Anita.
– Ah... Tá explicado então! – Debocha Anita – O que quer? Uma Sofia com alma de Anita?
– Lógico que não!
– Pois é o que tá parecendo! Olha, eu não sou a maior fã da Sofia, mas ate eu sei que ela tem alguma coisa de bom dentro dela. E embora eu não vá lá procurar, peço que, pelo menos, não nos compare. A vida toda, as pessoas tem feito isso conosco, e sabe, acredito que essa raiva que ela sente de mim tem muito a ver com isso. Eu não to numa disputa com ela, não quero rivalizar nada com minha irmã, e seria bom você entender isso. Eu e ela somos pessoas diferentes, não tem para quê a Sofia ser mais parecida comigo.
– Desculpa, eu não quis dizer isso... Eu só me expressei mal. Mas não foi para falar dela que eu te procurei, e sim para pedir perdão por tudo. Eu sei que eu não tenho o direito, mas será que a gente pode voltar a ser amigo? Eu não quero te perder.
– Ben, eu vou ser sincera... Eu não sei se posso ser tua amiga. Eu não to com raiva, e já ate te perdoei, só não me pede mais do que isso. Eu gosto de você, amo, na verdade – Anita tentou conter as lágrimas, mas foi inútil – Não dá para passar uma borracha no que rolou e... Pode me dar um tempo?
– Claro... Eu gosto muito de você também.
Mas não era amor. Não como ele queria que fosse. O rapaz sentia um imenso carinho por ela, admiração, desejo de estar perto... Mas seu coração não disparava quando estava com ela. Suas mãos não soavam frio ou ele perdia o fôlego a espera de uma palavra. Ou ele ficava calado apenas olhando ela sorrir e sorria ainda que não tivesse motivos pra fazê-lo. Não era amor. Ele queria muito que fosse, muito mesmo, mas não era.
Por que ele não amava Anita? Por quê? Ela era tudo o que ele sonhou, então... Mas não. Ele odiava tanto o não, odiava-se tanto por não amá-la, mas não se odiava mais do que odiava a possibilidade de amar Sofia.
– X –
– Posso ir? O a próxima aula foi suspensa porque o professor faltou e por isso a gente ia ser liberado mais cedo.
– Ah... Sendo assim. – Lamentou-se Raissa não querendo ver a menina partir.
Sofia levantou-se e pegou a bolsa que jogou sobre a mesa da orientadora dando-lhe as costas. A garota deu dois passos e parou.
– Eu não sei... Ah, esquece! – Ela balançou a cabeça para espantar o pensamento.
– O quê?
– Eu... – Ela suspirou e sorriu. Um sorriso que pareceu iluminar toda a sala – Eu imaginei que você fosse diferente... Chata, sabe? Mas ate que foi legal passar esse tempo aqui. A pressão dos últimos dias, acho que uma parte foi embora... Valeu.
– Hum... Fico feliz em saber disso. E por isso mesmo, digo que se você quiser conversar, em qualquer momento, sobre qualquer coisa, você pode me procurar... Eu estou a sua disposição.
– É melhor você nem falar isso, quem me conhece sabe que eu adoro abusar das pessoas! Agora eu já vou. Tchau Raissa!
– Tchau!
Sofia seguiu para a porta sem nem se dar conta do sorriso que tomou conta do rosto da mulher. Ela deixou a sala e saiu andando distraída. Ela foi sincera com Raissa, o tempo em que passou com a orientadora foi muito importante para ela. Um pouco de paz num período de guerra, a tranquilidade que a mulher lhe transmitiu foi mais do que ela precisava quando foi mandada para conversar com ela. E embora elas não tenham conversado como seria o certo, ficar lá, longe de tudo, do mundo e das pessoas que a odiavam significou muito para a loira.
– Hey, não olha por onde anda, não?! – Exclamou ela ao esbarrar em alguém.
– Eu olho, e você? – Perguntou Sidney de semblante fechado.
– Eita, educação que é bom, nada né? Cavalo!
– E você que é uma fresca? Soube que foi enquadrada pelo João Luis. Não cansa de se meter em problemas?
– E isso te interessa por quê? Que eu me lembre, você não fala comigo há semanas, não tem para quê você querer saber da minha vida!
– Tem razão. Eu não tenho, então... Tomara que a gente não se cruze mais – O rapaz deu as costas para ela e saiu andando. Sofia apenas observou o ele se afastar. Sidney nunca tinha a tratado daquela maneira tão fria, mas era o que vinha fazendo no ultimo mês.
– Seu estúpido! Vai me deixar falando sozinha?!
– Que barraco é esse, Sofia? – Perguntou Flaviana ao se aproximar da amiga.
– O idiota do Sidney... Acredita que ele me deixou no vácuo?
– É, eu sabia que você tava no fundo do poço... Só não imaginei que o poço fosse tão fundo. Levar toco do ogro do Sidney, amiga?
– Ele é um imbecil! Todos são, aliás! – Bufou irritada. Com ‘todos’ ela queria dizer principalmente Benjamin, pois por mais que tentasse odiá-lo, o seu amor por ele só crescia a cada dia mais – Vem, vamos sair desse colégio antes que eu perca de vez a cabeça.
Flaviana atendeu a garota e a seguiu enquanto ela pisava firme rumo à saída do colégio.
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