Era Uma Outra Vez...
19 Emocionalmente incapaz?
Notas iniciais
– Será que podemos conversar?
– Sobre?
– Eu ser uma pessoa estúpida.
Sidney piscou duas vezes rápido e franziu a testa num claro sinal que duvidava do que havia ouvido os lábios da garota proferirem. Ou aquele era um sonho muito estranho ou Sofia estava realmente em frente a sua casa pedindo para conversar com ele e admitindo ser estúpida.
– Você é estúpida? – Sidney saiu fechando a porta atrás de si. Ele encarou Sofia, descrente. Ela podia parecer um anjo, mas não era de verdade um, e acreditar no que ela dizia era pedir para ser passado para trás de novo... E de novo sempre que conviesse a ela.
– Não, mas o mundo acha isso de mim e como não dá para remar contra a maré, resolvi entregar os pontos. – Ela deu de ombros como se não desse importância. Um sinal de alerta soou na cabeça do rapaz.
– E isso significa que?
– Eu quero pedir... Desculpas. É, é isso. Eu vim pedir desculpas.
Ela estava desconfortável e por isso foi impossível para ele cogitar sequer acreditar que o que ela dizia era verdade. Sidney já tinha passado por aquilo e não seria tão burro de cair mais uma vez, ainda que um instinto protetor bem estúpido quisesse que ele a abraçasse com força para apagar a expressão desolada que ela tinha no rosto. Sofia era uma ótima atriz, concluiu.
– Por quê? Tá querendo minha ajuda para explodir o Grajaú?
– Ah... Pelo amor de Deus, eu sei que não sou santa, mas acha que mandar um bairro pelos ares já é um pouquinho demais?
– Não foi um problema mandar o casamento da sua mãe pelos ares! – Falou irônico a amargura presente em cada palavra.
Sofia deu dois passos para trás absorvendo o golpe. Ela merecia isso, afinal, ele não mentia, mas para ela ainda era muito complicado falar do que havia feito à mãe.
– Eu não devia ter te pedido para explodir o cano.
– Correção: você não devia ter me enganado usando o que eu sentia por você para fazer o seu trabalhinho sujo.
– Não foi bem assim que aconteceu! – Negou envergonhada. Sidney estranhou esse detalhe na menina já que ela não tinha consciência.
– Então, me explica como foi, porque para mim está tudo bem claro. Afinal, o que é que você quer de mim?
– Eu já disse: Vim pedir desculpas. Eu vacilei, tá legal? Eu já fiz um monte de besteira, te usei, menti, enganei... – Ela levantou as mãos em derrota – Eu sou uma pessoa terrível. Eu vou pro inferno, minha alma não tem salvação... Eu já to cansada desse papo. Acredite ou não, eu me sinto mal pela forma como te tratei, ainda mais depois da força que você me deu quando eu descobri que sou ado-adotada... – Ela gaguejou essa ultima palavra – As coisas que eu te disse... Você não precisa acreditar, mas eu to tentando me enquadrar. Fazer a coisa certa... E pareceu certo me desculpar com você.
– Você está arrependida?
– Parte de mim está.
– Uma pequena parte, suponho.
– O que você queria? Seria mais verdade eu aparecer aqui e me ajoelhar diante de você pedindo para que me perdoasse por tudo que é mais sagrado?
Sidney pensou bem na pergunta, sua resposta foi um balançar lento de cabeça em negativa. Certamente, ela seria incapaz disso. Mas então, por que pedir desculpas?
– Nem eu esperaria tanto de você.
– Uau, acho que todo mundo tem esse pensamento negativo sobre mim. Você, a Giovanna, o mundo... Pelo visto, tentar mudar não conta nada a meu favor, né?
– Você não pode culpar as pessoas por isso, pode? Não depois do que você já fez.
– Tem razão... – Admitiu a contragosto. Ela suspirou recostando-se contra a parede. – Ser do lado bom da força vai me custar muito, né?
Ele não disse nada e focalizou um ponto qualquer da rua. Aquela conversa, e ela principalmente, o estava perturbando.
– Acho que o lado negro é mais a sua cara.
– Pode ser... – Ela não negou – Mas aqui do meu lado, pode ser tão solitário, às vezes... Não que isso faça alguma diferença pra mim, você sabe.
– Sorte a sua poder viver assim. Ser autossuficiente e emocionalmente incapaz deve ter lá suas vantagens... – Ele a olhou de canto de olho a espera de uma resposta mordaz, mas ela absorveu as suas palavras e ficou num silêncio tenso.
– Bom, eu já deveria estar preparada para esse tipo de comentário... E ser você a pessoa a dizer torna isso um pouco mais... Como dizer?
– Idiota?
– Justificável... Com exceção da Anita e da minha mãe, você é a pessoa que mais tem motivos para não querer me ouvir ou acreditar em mim. Acho que nem eu acredito, para ser sincera.
– Vem cá, o que é que tá acontecendo com você?! – Exasperou-se Sidney pelo teor confuso da conversa.
Ela não parecia ela, e a não ser que Sofia tivesse uma irmã gêmea ou uma sósia muito parecida da qual ele não tivesse conhecimento, seria menos difícil para ele entender o que se passava. Aquela garota ao seu lado, definitivamente, não era a loira má que habitava seus pensamentos a maior parte do tempo
– Cadê aquela Sofia que eu conheço tão determinada, tão imoral, tão...
– Sozinha? – Ela torceu o nariz com desgosto. Admitir isso era demais para o seu ego já tão fragilizado. Mas era isso ou dar adeus para sempre às pessoas que ela amava, e a ultima alternativa estava fora de questão – Surpreso?
– Digamos que sim... – Sidney passou as mãos nervosamente pelos cabelos – Não me julgue, não é todo dia que a princesa do Grajaú desse do seu pedestal.
– Irmã errada, seu tosco! – Pela primeira vez, desde que apareceu na sua porta, ela sorriu verdadeiramente, sem ironia ou desgosto, só um pouco de alegria iluminando o seu rosto – Anita é que é a princesa, esqueceu?
– Como poderia? O Ben é... Era, enfim. Ele é meu amigo e esse papo de príncipe e princesa é muito broxante para mim. Que me desculpem os dois, mas eu não teria coragem de sair na rua se alguém soubesse que eu sou chamado por alguém assim.
– Sei... ‘Cê’ é mais do tipo capacho! – Cutucou Sofia, maliciosa, o velho brilho sarcástico ainda refletido nos olhos verdes. Ah... Aqueles olhos! Sidney não foi capaz de resistir.
– Só com você... – Falou com a voz rouca se aproximando da garota. Sofia tinha um magnetismo único que o atraía como o a luz atrai um inseto.
Não era a melhor das comparações, mas era exatamente assim que ele se sentia. Ela era como o sol, lindo e instigante, mas tão distante da sua realidade, e a menor tentativa de tocá-lo, ele acabaria queimado até virar cinzas. Mas não custava nada sonhar, não é? E Sidney ainda sonhava com a garota mais linda que já conheceu e que adorava esmagar seu coração com o salto do sapato.
– Acho bom! – Brincou Sofia dando uma cotovelada de leve no braço do rapaz.
– Então, é isso?
– Pelo visto... To feliz de ter vindo aqui, saber que você não mentiu.
– Menti? Sobre o quê? – Questionou curioso.
– Sobre eu te ter... – Ela revirou os olhos – Naquela tarde, lá na praia, você disse que eu não estaria sozinha, porque eu sempre ia te ter.
– Por acaso você duvidou disso?
– Bom, eu não fiz muito esforço para te ter perto. Acho que para mim ia ser mais simples acreditar que você vai me dar às costas. De certa forma, eu forço as pessoas a isso. Eu as mando embora antes que as veja partir.
Sofia engoliu em seco as lágrimas que se formaram nos olhos, odiando-se por isso. Ela nunca foi uma pessoa muito sentimental e orgulhava-se disso, mas ultimamente suas glândulas lacrimais nunca estiveram tão ativas. Agora, ela chorava por qualquer coisa. E se não fosse o bastante, ela estava retomando a sua ‘amizade’ com Sidney. As coisas deviam estar piores do que ela pensava ou finalmente ela entrava nos eixos. Para Sidney também não estava sendo cômodo ter que lidar com esse lado frágil da garota. Sofia nunca fez o tipo ‘donzela em perigo’, mas se é como dizem que até os fortes tem seus medos, não seria ele a negar o que ela lhe pedia.
– Tá desculpada! – Ele ensaiou um abraço, preparado para a recusa dela, mas para sua alegria, Sofia não resistiu e deixou-se envolver pelos braços de Sidney.
Foi um abraço rápido, apenas alguns segundos que significaram muito para ambos. Logo após, eles se separaram, felizes e envergonhados.
– Quer sair comigo? Sei lá, ir ao cinema... – Arriscou ele, esperançoso. Ele podia sonhar, não podia?
– Pode ser... Mas antes, acho melhor esclarecer umas coisas.
– O quê, por exemplo?
– A gente... É só amizade, por isso se tiver pensando que isso pode evoluir para algo a mais, digo desde já que não vai rolar.
– Por que você não gosta de mim, certo? – Ele não conseguiu esconder a decepção.
– Não... Não desse jeito. Então, preciso saber se você tá preparado para ser somente meu amigo.
– Caso contrário, eu to fora do jogo?
– Mais ou menos isso! – Admitiu sem rodeios. Sidney suspirou pesadamente em lamentação.
– Tudo bem, acho que sou capaz de manter sobcontrole a minha louca obsessão por você. Não vai ser preciso tanto esforço! – Brincou com um risinho nervoso.
– Tem certeza? – Indagou Sofia ainda incerta.
– Absoluta, eu juro! – Falou pondo a mão sobre o coração.
– Cinema é uma boa ideia... – Ela pôs as mãos nos bolsos traseiros da calça e fitou o chão.
Ela tinha conseguido, afinal, e mais do que feliz, Sofia estava orgulhosa de si mesma. Sidney era um cara bacana, um amigo com quem ela podia contar
– Mas a gente pode ir comer alguma coisa primeiro? – Questionou sem jeito. Logo em seguida o seu estômago roncou de fome fazendo Sidney rir alto.
– Vem, vamos lá! Eu vou alimentar você! – Falou Sidney a puxando pela mão.
– X –
Serguei acabava de fechar o salão mais cedo que o normal quando avistou Sidney e Sofia andando de mãos dadas pela rua. Ele esfregou os olhos para ter certeza do que via ou se sua mente, por exaustão, começou a fantasiar cenas improváveis. Mas quando voltou a abri-los era exatamente a mesma imagem inacreditável que via. Não, Sidney não estava sequestrando Sofia ou coisa assim, muito menos Sofia parecia incomodada com a presença do outro rapaz. Pelo contrário, ela parecia muito alegre a se julgar pelos os risos de ambos, como se por acaso se tratassem de dois grandes velhos amigos... Ou namorados. A ultima opção era tão mais absurda que a primeira, mas como a vida da ‘loira má’ do Grajaú tão pouco a de Sidney eram da sua conta, ele seguiu para casa.
– X –
– Mãe, a Sofia ligou para avisar que não vem jantar.
– Menos, mal! – Falou Giovanna mal humorada enquanto fazia uma pesquisa no computador.
– Eu não entendo essa sua implicância gratuita com minha irmã, Giovanna! – Reclamou Pedro de braços cruzados em defesa de Sofia.
Giovanna bufou com impaciência sem conseguir achar uma resposta convincente para a pergunta do mais novo. “Por quê?” Perguntou-se... Bom, a única coisa que ela podia pensar era porque era Sofia. E para a ruiva isso já era motivo mais que suficiente para fazer da vida da loira um inferno.
– É porque não gosto de cobras, só por isso. – Disse com um ar superior.
Pedro abriu a boca para falar algo, mas logo desistiu. Era inútil, Giovanna já estava convencida que Sofia era a pior pessoa do mundo, e nada do que ele falasse a faria mudar de opinião. Talvez, ela precisasse se convencer que estava enganada por si mesma.
– Desculpa por isso Antônio, como pode ver... Meus filhos brigam quase todo o tempo. – Vera suspirou desanimada. Quando casou com Ronaldo, acreditou que os filhos dele e os dela conviveriam em harmonia, mas o tempo lhe mostrou que suas previsões eram fracassadas. Principalmente em se tratando de Sofia.
– Tudo bem, acho que todas as grandes famílias são assim... – O jovem passou a mão pelos cabelos pretos observando disfarçadamente para Anita e Ben sentados no sofá rindo e conversando sobre alguma coisa.
A seu ver, seu ‘maninho’ tinha tido muita sorte na volta para o Brasil. Além de estar novamente com a família, ele parecia ter encontrado em Anita a garota ideal... Por um instante, ele começou a ter ideias sobre isso. Benjamim sempre conseguia tudo e para Antônio estava na hora de igualar a situação.
– X –
Após o jantar, Anita e bem escaparam da presença dos parentes e foram namorar em frente ao casarão.
– Feliz? – Perguntou o rapaz passando um dos braços pela cintura da namorada.
Anita sorriu contente levando a mão ao rosto dele a escorregando por seus cabelos. Ben a apertou mais contra seu corpo.
– Muito! – Ela deu um breve selinho nele – Tudo está dando certo, agora.
– Após muitos desencontros... – Ben vagou o olhar de volta a casa a espera que alguém saísse e atrapalhasse seu momento com Anita.
Por ‘alguém’ entendesse Sofia. Por algum motivo, ele queria que ela os visse ali dizendo para si mesmo que era para tirar da cabeça dela qualquer pretensão que tivesse em relação a ele. “Mas e se acontecesse?” Questionou uma voz na sua mente. E se Sofia visse ele e Anita, o que Ben esperava que ela fizesse? Gritasse, esperneasse, o puxasse para si, dissesse que o amava? Por um momento, Ben vislumbrou a imagem de Sofia diante dele, frágil e magoada, seus olhos verdes e profundos o mirando com o amor de quem teve o seu coração partido. Ele viu esses mesmos olhos fecharem com força em descrença, rasos d’água, a dor sendo lançada para ele próprio. Ele a imaginou correndo para longe dele que ao tentar detê-la com a mão a viu desaparecer como fumaça. Pareceu tão real que era quase como se ela estivesse lá.
– Hey, o que aconteceu? Você está pálido, ‘Príncipe’! – A voz de Anita o fez recobrar a consciência, mas a dor que sentia no peito ainda era muito vivida para não ser real. Algo estava errado, muito errado com ele. E por mais que tentasse compreender a causa, Ben não conseguia identificar a razão para se sentir assim.
– Eu... Eu to bem. Tava pensando em algumas coisas, mas não importa. Que tal nos concentrarmos em nós?
– Será um prazer! – Anita enlaçou o pescoço dele com os braços e uniu a sua boca a dele num beijo apaixonado.
Ben a segurou firme retribuindo rapidamente o beijo como se temesse que ela escapasse dos seus braços. Mas mesmo com Anita colada a si, a sensação de que perdeu algo muito importante continuou.
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