Era Uma Outra Vez...
63 Ecos do passado
Notas iniciais
Flaviana se revirou na cama e jogou o lençol para o lado. Com esforço, sentou-se se arrependendo logo em seguida quando uma forte náusea fez tudo ao seu redor girar. Sentia-se cansada e enjoada, a camisa que vestia grudando-se à pele devido a transpiração e os cabelos emaranhados. Ela estava péssima e só a ideia caminhar até o banheiro a fazia gemer mentalmente, mas precisava chegar lá de alguma forma. Apoiando-se na mesa de cabeceira, ela levantou com alguma dificuldade. Estava fraca não só pela doença, mas também porque havia passado o dia inteiro sem comer nada. Parecia que existia um buraco negro no lugar do estômago, mas não tinha vontade de por nenhum alimento substancial na boca. Apenas pensar na possibilidade fazia-a querer vomitar.
Reunindo forças, ela deu o primeiro passo em direção a porta e esbarrou num skate esquecido pelo chão que acabou colidindo com a parede. O barulho despertou Sidney que, sem que ela tenha percebido, dormia do outro lado da cama.
— O que tá fazendo fora da cama? – Indagou o loiro com a voz rouca pelo sono. – Você tá doente!
Flaviana ignorou a pergunta assim como a preocupação demonstrada por ele. Apenas a raiva era maior do que seu mal-estar e por nada no mundo aceitaria a ajuda de alguém que disse com todas as palavras que ela não passava de um estorvo. Disse a si mesma que preferia cair dura no chão a ter alguma solidariedade de Sidney. O que não pôde evitar e que o rapaz tinha seus próprios planos e que em questão de segundos lá estava ele ao seu lado.
— Você não deveria tá de pé. – Sidney tentou tocar a testa da garota para sentir a temperatura, mas ela afastou-se abruptamente. A reação exagerada ao toque dele reavivou o remorso que o loiro sentia. – Eu fiquei preocupado. – Explicou-se com resignação.
— Não deveria... eu... vou ao banheiro.
Com dificuldade, ela deu alguns passos desequilibrando-se logo em seguida. Sidney a segurou em apoio sendo fulminado com o olhar por ela.
— Não... quero sua... ajuda. – Balbuciou entre dentes, o rosto vermelho de raiva. – Eu... não preciso de uma... babá.
— X —
Pedro continuava dormindo. Na última hora, Serguei tinha se encarregado de fazer com que o menino tomasse o remédio, comesse alguma coisa e depois descansasse. Júlia e Anita estavam trancadas no quarto e Benjamim não foi visto desde a discussão na sala. Com um suspiro, o ruivo seguiu pelo corredor e entrou no quarto. Por sorte, Sofia permanecia do mesmo jeito que a deixou um tempo atrás. O ruivo recostou-se contra a porta, apenas observando-a dormir.
— Eu já falei que é meio aterrorizante você me olhar dormindo, né?
Sofia abriu os olhos, o rosto iluminado por um sorriso. Serguei aproximou-se da namorada beijando-a na cabeça e sentando na cama. A loira também sentou-se e o abraçou aspirando o perfume que era tão dele.
— Como se sente?
— Melhor... embora a dor não tenha sumido completamente. – Carinhosa, descansou a cabeça no ombro do ruivo enquanto fazia movimentos nas costas dele com a mão. – Como vão as coisas?
— Está tudo sob controle, por isso não se preocupe.
— Sinceramente, eu não estou.
— Tem certeza que não quer que eu busque o seu remédio?
— Tenho! Só fica um pouquinho aqui comigo?
Sofia deu espaço para que o namorado deitasse ao seu lado. Com a cabeça sobre o peito do ruivo, a loira relaxou enquanto trocavam carinhos. Imersos numa paz que os protegia dos problemas mal lembravam da discussão que haviam tido aquela tarde. O silêncio que preenchia o espaço era reconfortante e eles sentiam-se mais conectados do que nunca. A uma certa altura, Serguei fez Sofia ficar de costas para ele envolvendo-a com os braços. Era um gesto simples, mas capaz de fazê-la suspirar e fechar olhos sentindo o calor do corpo masculino emanar diretamente no seu. A respiração do ruivo atingia sua nuca causando-lhe arrepios. A sensação de ternura em pouco tempo deu lugar ao desejo.
— Hum... lembra da última vez que estivemos aqui?
— Lembro. – Sussurrou o ruivo. – De cada detalhe, inclusive, de como acabei estragando o nosso momento.
— Você não estragou... não completamente. – A loira riu da auto recriminação do namorado. – E afinal, eu devia ter sido sincera sobre ser minha primeira vez. O que nos leva a questão de como a comunicação é importante num relacionamento.
— Sobre o que você tá falando?
— Eu tô falando que a nossa comunicação é um problema. Hoje, por exemplo... e não entenda isso como uma acusação, mas não quero ser pega de surpresa sobre assuntos que me envolvem.
— Entendo.
Sofia girou entre os braços do namorado ficando de frente para ele. Ele tinha a testa franzida como se pensasse em algo importante. Não tinha sido a intenção da loira iniciar aquela DR, mas ela estava certa ao acreditar que ambos deveriam ter aquela conversa. Quanto mais claros fossem sobre como se sentiam, menos chances existiriam para aqueles que quisessem prejudicá-los em algum momento.
— Amor, não quero que se sinta culpado! – Afirmou beijando-o de leve. – Eu não sou o melhor exemplo de diálogo, mas quero te pedir um favor: mesmo que algo pareça muito ruim e que eu vá sofrer por conta disso... eu ainda prefiro a verdade. Prometo fazer o mesmo.
— Você tem razão! Eu também não quero que existam mentiras entre a gente. – Concordou Serguei desfazendo-se do semblante sério. – Mas agora eu quero que você relaxe, pois foi um longo dia e nós temos muito tempo para conversar sobre coisas desagradáveis.
Dito isso, Serguei puxou a loira para mais perto moldando-a ao próprio corpo. Sofia riu passando os braços em torno do pescoço do namorado, um sorriso divertido iluminando a sua face. Ela mordeu-o de leve no maxilar e sentiu namorado responder prontamente ao estímulo deixando escapar um gemido rouco.
— Ah... e você acha que eu vou fazer o que você quer, por quê?
— Porque você me ama.
— Amo? – Sofia fingiu pensar no assunto. – Gosto do seu beijo... – Beijou-o de forma provocante prendendo o lábio inferior entre os dentes. – Adoro o som da sua voz... o toque da sua pele. – Desceu uma mão até o abdômen do rapaz puxando a camisa e abrindo alguns botões.
Sob os dedos, podia sentir a tensão dos músculos do ruivo que institivamente uniu-os ainda mais quase a fundindo à ele.
— Você me chamou de amor. – Foi a vez de Serguei mordiscar os lábios e apalpar um dos seus seios sobre a regata que ela usava. – Duas vezes.
— Não aconteceu. Você está louco querido!
Rindo, a garota se desvencilhou de Serguei escorregando para o outro lado da cama. No entanto, antes que ela tivesse escapatória, o ruivo a puxou novamente pela cintura usando uma das pernas para prendê-la junto ao colchão e mantendo as mãos da loira lado a lado da cabeça.
— Isso foi golpe baixo!
— Você disse. – Insistiu Serguei mordendo a orelha da garota. – Falou amor.
— Falei? – Sofia tentou resistir, mas um gemido escapou dos seus lábios quando o ruivo começou a beijar e dar pequenos chupões em seu pescoço. – Amor?
— Uhum... Amor.
— Amor.
— De novo.
— Meu amor.
— Meu amor.
Serguei tomou a boca de Sofia em um beijo longo e possessivo. Rendida, a garota puxou-o para perto até que o ruivo estivesse sobre ela, o peso do seu corpo pressionando-a contra o colchão. Com os quadris na mesma altura, foi fácil perceber a excitação dele o que a fez esfregar-se contra o namorado numa tortura deliciosa. O clima entre os dois era quente e a julgar pelos sinais físicos, as únicas coisas que os impediam de consumarem o desejo que sentiam eram as indesejáveis roupas que usavam. O que não representaria um grande obstáculo caso não tivessem sido flagrados pela pessoa que entrou no quarto.
— Sofia! – Exclamou Vera, surpresa.
— X —
As paredes pareciam se fechar em volta dele. Irritado, Benjamim deixou o quarto garagem e seguiu até o portão. A noite havia chegado sem que ele sequer notasse, o seu senso de realidade prejudicado pelos sentimentos sombrios que alimentava no peito. O ódio que sentia era quase físico e quanto mais pensava em Sofia e Serguei, mais furioso ficava. Eles estavam juntos. Há quanto tempo? Ele não poderia dizer. Não quando até noite passada acreditou que a loira estivesse envolvida com Antônio. No entanto, fosse um ou outro, não havia diferença em como julgava-se traído por ela. E nada lhe importava naquele momento: sua família ou Anita, tudo não passava de vagas lembranças na sua mente conturbada. Ao seguir pela rua, acabou encontrando com Antônio que estacionava a moto e não escondeu a satisfação por vê-lo mal.
— Dia difícil?
— Não enche! – Vociferou passando direto pelo rapaz.
— ‘Qualé’, Ben! Eu estou apenas sendo gentil com meu maninho. – Ironizou Antônio. – Ou eu não posso me preocupar?
— E desde quando o que se passa comigo te importa? – Indagou Benjamim voltando-se para o irmão. – Você me detesta desde sempre!
— E por que será, hein?!
Antônio deixou qualquer traço de ironia de lado e fuzilou o irmão postiço com o olhar. A raiva que sentia era palpável e não tinha a mínima intenção de esconder. Ben estava certo, ele o detestava... não, o odiava, mas não pelos motivos que todos acreditavam serem os certos. Não era inveja, embora o ressentimento entre ambos fosse real. No entanto, somente os dois sabiam disso.
— Não começa! Eu fiz o que era certo!
— Certo? Você me julgou segundo o que acreditava ser a verdade. – Acusou Antônio. – Guiado pela sua moral.
— E não era?
Benjamim encarou o irmão de modo desafiante. O outro sempre havia sido um “problema” em sua vida e mais do que nunca, ele não tinha paciência para as recriminações sobre algo que a própria justiça americana já tinha decidido. Assim como Ben, todos aceitaram a culpa de Antônio e que ele deveria pagar por seus erros, mas o próprio não via assim.
— Foi o que eu pensei! – Falou o príncipe diante do silêncio do outro. – Não me culpe pelos seus erros.
— Que discurso bonito! – Ironizou Antônio voltando a usar a sua habitual máscara. – Mas é como dizem: “faça o que eu digo e dane-se o que eu faço”! Estou errado?
— Não sei sobre o que você está falando e não me interessa!
— Acredito que não. – Concordou o rapaz com um sorriso torto. – Mas sabe mano, a diversão tá apenas começando.
Finalizada a conversa, Ben deu as costas para o outro pronto para ir embora. Aquele assunto estava encerrado há mais de dois anos e ele não tinha a mínima intenção de revivê-lo. E fosse o que fosse o que Antônio queria lhe dizer com aquelas palavras, não lhe importava nem um pouco.
— X —
— Você pode não querer minha ajuda, mas precisa dela. – Argumentou Sidney já sem muita paciência. – E a menos que queria me ver realmente irritado, vai fazer o que eu disser.
— Você não manda em mim!
Determinada, Flaviana se livrou dos braços de Sidney e sem equilíbrio acabou caindo de joelhos no chão. Desconsolada, a garota tentou evitar as lágrimas, mas diante de mais um golpe para sua dignidade foi impossível. Prontamente, o loiro a ergueu nos braços como se o já tivesse feito muitas vezes.
— Por que você é tão teimosa? – Irritou-se o rapaz.
— E por que você não pode me deixar em paz? – Choramingou a morena encolhendo-se contra o corpo masculino. – Por que é tão cruel comigo?
Culpado, Sidney a pôs sentada na cama odiando ver as lágrimas que escorriam pelo rosto de Flaviana. Ela estava arrasada: os cabelos bagunçados, os olhos inchados e um tom róseo coloria as bochechas e nariz devido a febre. E ainda assim, ela era uma das visões mais bonitas que ele já teve o prazer de ver.
— Flaviana, eu não sou um cara legal.
— Eu não pensei que fosse.
— Mas isso não quer dizer que tenha o direito de descontar minha raiva em você.
— Você foi um idiota sem motivo nenhum.
— Exatamente! – Concordou o rapaz com um sorriso torto. – E caras idiotas fazem idiotices. A forma como eu te tratei hoje foi uma delas, não foi nada pessoal. Peço desculpas por isso.
Flaviana fitou o rapaz ajoelhado diante dela de modo desconfiado. Era a primeira vez desde que se conheciam que ele admitia estar errado em relação à ela. Ou a febre estava lhe causando alucinações ou realmente Sidney estava pedindo desculpas por ser um imbecil. Porém, independente de qual fosse a explicação ela sentia-se mal até mesmo para discutir com ele ou fazer as pazes.
— Não vai falar nada?
— Me sinto estranha.
— Bom, é compreensível depois do que eu disse.
— Não... eu realmente... me sinto... – Antes que a garota completasse a frase, acabou vomitando sobre Sidney. – Ai meu Deus!
— X —
— Como se sente, Gio?
— Bem... como se tivesse rachado a cabeça. – Brincou a garota apesar do olhar repreensivo do pai. – Ah... qual foi? O médico disse que eu tô inteira!
— Por sorte, né dona Giovana? – Argumentou Ronaldo passando a mão pelos cabelos curtos. – Eu já perdi a conta dos cabelos brancos que você e seus irmãos fizeram nascer na minha cabeça.
Ele estava no Embaixada do Gol quando recebeu o telefonema sobre o acidente da filha e largou o estabelecimento nas mãos dos funcionários para ir ao hospital com Vera. Após horas de apreensão e alguns exames, o médico havia liberado Giovana expressando surpresa ao relatar que fora o corte superficial não havia nenhum indício da queda da menina. O que Ronaldo não podia imaginar é que aquela história não passasse de uma armação da garota que viu no “acidente” uma oportunidade para afastar Benjamim de Sofia.
— O importante é que tá tudo bem. – Amenizou Anita com um sorriso.
— Até porque vaso ruim não quebra! – Emendou Vitor com uma risada.
Irritada, Giovana arremessou uma das almofadas do sofá contra o irmão que desviou com facilidade.
— X —
— Então, qual dos dois vai me explicar o que está acontecendo?
Sofia e Serguei entreolharam-se antes de fitarem Vera mais uma vez. Eles estavam em pé, lado a lado, após recuperarem-se da surpresa de serem pegos numa situação um tanto quanto “comprometedora”. Por sorte, os “amassos” não tinham evoluído para algo mais íntimo e eles ainda podiam contar com as roupas que vestiam. No entanto, os cabelos bagunçados e o leve tom vermelho dos lábios de ambos revelassem a natureza daquele relacionamento.
O semblante de Vera era sério enquanto, de braços cruzados, esperava uma explicação para o fato da sua filha mais nova e o amigo de Anita estarem no quarto sozinhos. Não apenas isso, mas estarem na cama a ponto de... a mulher preferiu apagar aquela visão indesejada da mente.
— Bom, mãe... – Começou Sofia constrangida. – Eu e o Serguei, bem, nós estamos juntos.
– Isso eu notei. Juntos até demais. – Falou a mulher com um sorriso incômodo. – Eu vi o quanto.
— O que a Sofia tá querendo dizer é que nós estamos namorando. – Esclareceu Serguei.
— Nós? Namorando?
— Sim, eu e ela. – Confirmou o ruivo segurando a mão da Sofia e entrelaçando na sua. Sem se incomodar com o olhar surpreso de Vera, ele deu um selinho na namorada fazendo-a sorrir. – E eu quero tornar nosso compromisso oficial pedindo sua permissão.
— Pelo amor de Deus, você não tá fazendo isso... – Exclamou a garota morta de vergonha. Quem nos dias atuais precisava oficializar um namoro com a “permissão” dos pais de alguém? Pensou com uma careta. – Eu me recuso a acreditar!
— É a sua mãe, é importante.
— Estamos no século XXI! – Argumentou a loira completamente vermelha. Quem diria que seu namorado era do tipo “antigo”? – E você tá pedindo a permissão da minha mãe pra me namorar?!
— Sofia, o que a Vera vai pensar?
— Que o meu namorado é brega?
Vera olhou de um para o outro sem conseguir esconder o sorriso. Sua filha parecia querer cavar um buraco no chão para se esconder enquanto Serguei a olhava entre divertido e contrariado. Puxando pela memória, a mulher recordou dos momentos em que presenciou a interação entre os dois. Embora fosse melhor amigo de Anita, Serguei e Sofia sempre nutriram uma antipatia um pelo outro e não escondiam isso de ninguém. O rapaz frequentava a casa da família há anos, mesmo antes deles mudarem-se para o casarão, e Vera admitira que chegou a ter esperanças que Anita acabasse se encantando pelo ruivo. No entanto, contrariando as expectativas, foi Sofia a conquistar o rapaz. E ela, como mãe, não poderia estar mais feliz por ver sua menina vivendo algo tão especial.
— Bom, eu vim chamar a Sofia para jantar e aproveito para convidar você também Serguei. Eu vou esperar lá embaixo.
A mulher encaminhou-se para a porta deixando o casal preocupado em discutir o que era ou não necessário num namoro. Mas por precaução, antes de sair do quarto ela deu um último aviso.
— Dez minutos.
— X —
— Como isso é possível?
Raissa respirou fundo antes de encarar a mãe. As duas tinham deixado o cemitério e ido para a casa da orientadora para conversarem. E após ter lançando a bomba sobre a mãe, Raissa sabia que dificilmente escaparia sem dar os detalhes de como reencontrou Sofia. Felizmente, na sua casa, estavam num ambiente ao qual a deixava segura emocionalmente para falar sobre o passado.
— Eu nunca perdi a esperança de reencontrar a Marcela.
— Raissa, não era para existir um nome.
— E como eu devia chamá-la? Bebê que eu dei para a adoção? – Questionou a orientadora com sarcasmo. Não era uma característica da sua personalidade, mas ela não conseguia evitar agir dessa forma quando junto dos pais. – E afinal, eu dei esse nome a ela em homenagem ao meu irmão.
— Desculpe-me, não foi o que eu quis dizer.
— Desculpa... eu estou um pouco nervosa. – Admitiu Raissa com um suspiro. – Eu sei que se fosse possível você teria me apoiado.
— Eu devia, não é? – Verônica não pode conter as lágrimas diante da filha. A culpa que sentia a consumindo ao longo dos anos. – Eu estava tão mal... eu havia perdido o meu menino. Nada mais parecia importar e eu nunca pude medir forças com o seu pai. Sempre que ele decidia algo ninguém o fazia voltar atrás.
Raissa anuiu em concordância às palavras da mãe. Infelizmente, Verônica sempre foi uma mulher passiva aos desejos de Raul e perder o filho tão estupidamente só a tinha tornado mais frágil na época. Se existiu um algoz em sua vida, essa pessoa era o pai dela.
— Não quero falar sobre ele.
— Eu sei que não. – Concordou a mulher mais velha. – Seu pai cometeu muitos erros e perder você foi o maior deles.
— Não acho que tenha significado tanto. O Marcelo era o filho preferido... – Falou a orientadora sem nenhum traço de inveja na voz. Seu irmão foi uma pessoa muito especial em sua vida e nem mesmo a diferença que seu pai fez entre os dois foi capaz de separá-los. – Eu me perguntei tantas vezes se... se para o nosso pai não teria sido melhor eu ter morrido ao invés dele.
— Raissa!
— O quê? Não parece tão absurdo!
— O Raul tem muitos defeitos, mas ele nunca desejaria tal coisa. Ele a ama!
— Ama? Jeito estranho de amar alguém. O que ele imaginou? Que tudo bem mentir sobre a morte do João e me fazer dar a Marcela para adoção? Que tipo de pai faz isso com uma filha?
— Ele não fez isso por você, fez por causa do João Luís. O fato dele dirigir o carro em que seu irmão estava quando morreu foi suficiente para odiá-lo. Creio que esse sentimento só piorou quando ele descobriu sobre a sua gravidez.
— Mas eu ainda era a filha dele. – Argumentou Raissa não mais escondendo a mágoa. – E a culpa não foi do João. O motorista do outro carro estava na contramão, não faz sentido culpá-lo. Ele também foi uma vítima.
— Às vezes, a dor é tão grande que acabamos cegos pelo rancor.
— Eu sei... E esse é meu maior medo. Eu temo que a Sofia não possa me perdoar quando souber o que eu fiz.
Em uma longa conversa, Raissa contou à mãe como tinha encontrado a filha. A corrente com a foto de Marcelo que ela tinha entregue junto a menina foi a peça que faltava no quebra cabeça que montou há quase cinco anos. Na época, ela havia reencontrado João Luís quando foi contratada para trabalhar como orientadora na escola e finalmente soube como o pai e a antiga amiga, Carmem e atual esposa de João, haviam mentido sobre a morte do seu namorado. Mais do que traída, saber até que ponto Raul tinha chegado para separá-la da filha motivou Raissa a descobrir o paradeiro da menina. O que só aconteceu há alguns meses, por acaso, quando ela tinha uma conversa com Vera sobre a enteada, Giovana.
— E então? O que pretende fazer agora?
— Falar a verdade para o João.
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