Era Uma Outra Vez...
53 Decepções
Notas iniciais
— Você não vai sair antes de termos essa conversinha!
— Já mandei você me soltar!
Flaviana tenta novamente se livrar de Amanda, mas não tem sucesso. A outra parecia disposta a tudo e se as unhas fincadas no seu braço lhe demonstravam isso. Se pelo menos ela não se sentisse tonta por causa do champanhe que bebeu ou estivesse sozinha e emocionalmente perturbada... tudo conspirava contra ela naquele momento
— Não acredito em nada do que disser!
— Se você acredita ou não, não importa. Mas vai escutar sim! Nunca ouviu dizer que é falta de educação deixar alguém falando sozinha? – Amanda riu irônica do desespero da morena. Para ela, Flaviana não passava de uma ratinha assustada sem a proteção de Sofia. O seu rosto ainda ardia pela lembrança do tapa que a loira havia lhe dado e embora tenha esperado quase a noite toda, teria a sua vingança, de uma forma ou de outra. – Eu e a Sofia nos cruzamos hoje... ela não ficou nada satisfeita com a minha presença.
— Posso imaginar o motivo!
— Ela também não gostou nada de me ver beijar... o Serguei.
Flaviana encarou Amanda com expressão confusa. Não sabia onde a outra queria chegar e não lhe interessava, em absoluto. O mundo girava numa espiral, seu braço preso doía e sentia um liquido quente escorrer de onde Amanda a prendia. Estupidamente fugiu de Otávio e agora estava a mercê daquela víbora que se divertia com suas tentativas fracassadas de escapar.
— Você não faz ideia, não é?
— Não sei onde você quer chegar, mas não vai sair impune dessa! – Flaviana tentou soar confiante, mas existia um tremor na sua voz. Todo o corpo estremecia naquele momento. – Não vai... – murmurou com os olhos lacrimejando.
— Sabe, você é patética! – Amanda ri ainda mais alto diante das lágrimas da garota. Com um olhar de desdém, avalia Flaviana de cima abaixo detendo-se no rastro de lágrimas evidenciado pela maquiagem borrada. – Sempre na sombra da Sofia! Implorando a intenção do Martin... Sabe, ele é bem gostosinho e o sexo é muito, muito bom!
— Até parece que ele... – A morena se cala diante da expressão da outra.
— Ah, por favor! O Martin é um canalha. Bem gostoso e rico, é verdade, mas um canalha... mas a idiota como você é, tinha que romantiza-lo! Por que é tão difícil pra você entender que ele não tá afim de você? Sério, é muito engraçado!
— Fala isso porque nunca amou ninguém.
— Amor?! Você quer me fazer rir? Acorda, amor é só uma desculpa que as pessoas inventaram para justificar as próprias fraquezas! – Amanda assume um ar condescendente. – Certo, supondo que exista mesmo... ainda assim, o Martin não te ama. E a amizade da Sofia não passa de uma farsa! – Ela ignora a palidez no rosto da morena e continua o ataque. – Nesse momento, é bem provável que a Sofia esteja “amando” o Serguei pelas suas costas. Um ótimo enredo de filme romântico não acha? A amiga traíra e o seu ex envolvidos secretamente enquanto você não sabe de nada.
— Não é verdade... – Flaviana engole em seco um nó formado em sua garganta. Não queria acreditar no que Amanda dizia, não por sentir algo por Serguei, mas porque isso significaria que Sofia a enganou o tempo todo. – Ela não faria isso.
— Ah, faria sim! E deve tá fazendo muitas coisas nesse momento também.
Amanda libera Flaviana que tropeça alguns passos para trás. O braço ardia e estava sujo de sangue, mas ela mal notou. Todo os eventos da noite pareciam cobrar seu preço nesse momento e ela sentia-se presa num pesadelo. Nada fazia sentido e ela sequer poderia cogitar acreditar em Amanda.
— Continue negando, se isso te faz se sentir melhor. Mas se fosse eu no seu lugar, procuraria descobrir onde está a Sofia e porquê ela sumiu da festa. – Amanda se encaminha para a saída do banheiro com um sorriso triunfante. – Ah, que distração a minha... feliz aniversário!
— X –
— E meu irmão não falou nada?
— Nada, Gio... não sei o que fazer.
Anita sorriu triste para a Giovana sem fazer questão de esconder seus sentimentos. Era egoísmo seu envolver a irmã, mas àquela altura dos acontecimentos nada lhe importava muito. Se pelo menos ela não fosse tão covarde, refletiu com pesar. Todos sempre a alertavam, mas era tão fácil acreditar quando Benjamim dizia amá-la. Ela precisava se agarrar a isso do que pensar que havia se entregado completamente à uma mentira.
— Vocês não vão terminar, vão?
— Talvez seja o melhor... o Ben não é mais o mesmo. Eu não sou mais a mesma.
— NÃO! Não, não faz isso! – Giovana saiu da própria cama e foi até Anita. Sentou-se ao lado da princesa e a encarou decidida. Precisava convencer a irmã a não desistir do namoro com Ben. – É o que ela quer! O caminho livre, você não vê?
— Pela primeira vez estou supondo que minha irmã não seja o problema.
— Ah, pelo amor de Deus! É a Sofia... ela tá armando!
A ruiva tentava convencer Anita do que dizia. Embora não tivesse certa, Giovana conhecia Sofia e sabia exatamente do que ela era capaz. Só de pensar em Ben envolvido com a loira sentia a ira se elevar ao extremo. Existia tantas coisas em jogo e ela previa que sua família seria a mais afetada. Vera estava magoada, mas não era imune as chantagens da loira e o pai não admitira que Ben se envolvesse com outra irmã. Sofia estragaria a sua família e coloria uns contra os outros. E o pior e que ela não se importava, porque aquela era uma família que ela nunca desejou ou amou.
— Será?
— Claro! Eu não sei como ela enrolou o Serguei, mas eu vou descobrir!
— Não quero que você se meta, Giovana! – Anita suplicou diante da postura resoluta da ruiva. Giovana era muito impulsiva e todas as vezes que enfrentou Sofia, o desfecho não era nada agradável. – Por favor, fica de fora.
— E o que sugere?
— Se a Sofia estiver realmente planejando algo, eu vou impedi-la. Agora promete esquecer essa história.
— Tá... – Giovana concorda a contragosto, mas apenas para não preocupar a ‘irmã postiça’. – Mas não desiste do Ben... meu irmão te ama.
Mentalmente, Giovana já estava certa de que não deixaria Sofia atrapalhar o namoro de Ben e Anita. Afinal de contas, não era a primeira vez que agia pelo bem de todos no casarão. Somente Clara sabia que a ela foi a responsável pelas mensagens anônimas e o vídeo da briga de Sofia e Júlia postado no 2.0. Anita certamente não ficaria nada feliz se soubesse do que ela tinha feito, mas também não tinha nenhuma intenção de contar. Era para o próprio bem da garota, refletiu Giovana.
— Eu vou tentar.
— Você vai ver... vai ficar tudo bem.
Era uma promessa que Giovana não tinha intenção de quebrar.
— X –
As portas do elevador abriram e finalmente Flaviana soltou a respiração que prendia inocentemente. Ela hesitou alguns segundos em sair para o andar onde ficava a suíte que dividiria com a amiga e que para todos os efeitos, era onde Sofia estava dormindo.
Talvez fosse um erro estar ali. Certamente, ela não tinha motivos para acreditar em Amanda. O melhor a se fazer nesse momento seria voltar para festa e procurar Otávio e apagar o desagradável encontro de poucos minutos. Então, eles iriam para a suíte do primo e brindariam. No dia seguinte, ela não lembraria de Martin ou Amanda e de nada o que escutou sobre Sofia e Serguei. Mas por algum motivo, ela havia dado ouvidos as mentiras e seguido até ali. Estava agora de frente para a suíte, porque após ficar sozinha começou a relembrar todas as vezes que ela mesma acreditou existir algo entre a amiga e o ruivo. No entanto, Sofia sempre negou e Flaviana nunca pensou a fundo sobre o assunto. Eram somente suspeitas infundadas que não deveriam preocupá-la. Até aquele momento.
Munida de coragem, Flaviana abriu a porta sem fazer barulho entrou no local. Tudo parecia normal, da mesma maneira de quando esteve ali mais cedo ao brindar com Otávio e Sofia. Pensar nisso a fez dar meia volta, se recriminando mentalmente por ter duvidado de Sofia quando horas antes a amiga dizia amá-la e desejava-lhe felicidades. Porém, antes de chegar a saída, Flaviana ouviu vozes. Sofia não estava sozinha.
— Pode ficar com seu senso de humor. Eu vou tomar banho.
— Hum... banho.
— Dessa vez sozinha.
Flaviana caminhou até o quarto e foi nesse momento que viu Serguei e Sofia juntos, como Amanda disse. Ficou parada imóvel, observando a amiga deixar a cama enrolada num lençol enquanto o ruivo permanecia na cama.
— Não era o que você queria uma hora atrás... – Sofia jogou um beijo para Serguei. – Isso vai ter volta!
— Claro que vai!
Sofia ria sem notar sua presença. Então, essa era a indisposição sobre qual Otávio havia falado e ela idiota acreditou. Deus, como era ingênua, gemeu mentalmente. Não precisava imaginar muito para saber exatamente o que aconteceu ali. E o estado de nudez do ruivo e da própria Sofia eram provas mais que evidentes. E pensar que seu primo ajudou a amiga a enganá-la só tornava tudo pior. Todos haviam mentido para ela e foi preciso uma pessoa horrível como Amanda para lhe abrir os olhos.
— Então... é verdade. – Flaviana encarou Sofia que se voltou imediatamente para ela. A culpa brilhou nos olhos verdes instantaneamente. – Espero não estar atrapalhando. – Murmurou sarcástica ignorando completamente Serguei e focando a amiga.
— Fla... – Sofia se aproximar, mas Flaviana recuou antes que ela a tocasse. – Eu posso explicar.
— Pode? – A morena ri, sem humor, lágrimas idiotas descendo por seu rosto. Amanda estava certa sobre isso também, ela era patética, pensou voltando para a sala. – Mas não se preocupe, eu já entendi tudo. Minha amiga mentindo pra mim, o tempo todo... e com a ajuda do Otávio!
— Eu não queria que você soubesse assim... – Sofia seguiu Flaviana depois de fazer um sinal para Serguei ficar onde estava. – Tenta me entender.
— Entender?! – Flaviana pra e encara Sofia, a fuzilando com o olhar. O ressentimento e decepção que sentia eram tão fortes que sentia um mal-estar físico atingir o seu corpo. E ter que presenciar Sofia lhe suplicando enquanto segurava um lençol com dificuldade junto ao corpo só tornava sua dor maior. – Por que não me contou? Eu te perguntei, te dei a oportunidade... por que deixou a Amanda me jogar na cara que você estava mentindo?
— O que aquela vaca tem a ver com isso?!
— Ela me procurou e falou sobre vocês... – Amanda tinha dito muitas coisas e todas eram verdades. As lágrimas caíam incessantemente dos seus olhos azuis nublando a visão. – Era para ser um dia feliz. Com as pessoas que eu amo, mas acabou que eu descobri que nenhum de vocês se importa. Você, Sofia, a minha melhor amiga... me conhece mais do que ninguém. A pessoa que eu mais confio e que não confia em mim.
— Eu confio, claro que confio! – Sofia não suportou a expressão decepcionada da amiga. Tentou mais uma vez se aproximar de Flaviana, em vão. Novamente a morena rechaçou o seu toque. Só então notou o sangue já seco. – Flaviana, o seu braço! – Exclamou horrorizada.
— Isso? – Flaviana olhou para o ferimento. – Está preocupada com meus machucados quando me feriu muito mais profundo?
— Eu nunca quis mentir ou te magoar... não sei como aconteceu, mas eu me apaixonei pelo Serguei. Eu tive medo de você não aceitar por causa da história de vocês, mas eu juro, juro que não tive intenção.
— Engraçado... você soa tão sincera. Como quando disse que amava o Ben e que depois de tudo que ele te fez não se arriscaria a se apaixonar novamente. E aí, está você, dizendo que está apaixonada pelo Serguei que, não por acaso, é o melhor amigo da Anita, a irmã que você odeia! Que conveniente!
Flaviana viu o choque no rosto de Sofia por causa de suas palavras. Ela própria não se reconhecia ou sabia de onde vinha todo aquele veneno impregnado no que dizia. Um gosto amargo se instalou na sua boca por sua crueldade contra a pessoa que até momentos atrás era sua melhor amiga. Não gostava do que estava fazendo, mas ela estava tão farta e decepcionada que não se incomodou com os danos que poderia causar.
— Você está sendo injusta!
— Estou dizendo o óbvio! Quem me garante que o plano para separar o Martin e a Micaela não foi apenas um pretexto para me manter ocupada enquanto você vivia seu... romance?
— Tudo bem, você está magoada e não está raciocinando bem... – Sofia respirou fundo buscando controle. Sabia que tinha errado, mas lhe doía a forma como Flaviana estava a tratando e menosprezando os seus sentimentos. – Pode não acreditar, mas eu gosto muito do Serguei e não importa o que pensem, eu vou ficar com ele. Espero que aceite minha decisão... você sabe que é muito importante para mim.
— Não tenho que aceitar nada... – Já não haviam lágrimas. Com uma frieza que nunca sentiu, Flaviana fitou a loira. – Você estava certa, eu tenho que parar de esperar que as pessoas me amem. Você, o Martin, o Otávio... todos me mostraram que eu só posso contar comigo mesma e que nunca ninguém vai me colocar em primeiro lugar. Demorou, mas eu finalmente entendi.
— O que quer dizer?
— Eu não quero dizer, eu estou dizendo que não precisa se preocupar comigo, com a minha opinião ou meus sentimentos... nada do que diga vai apagar o que aconteceu hoje. A Flaviana ingênua e patética morre aqui.
Com essas palavras, Flaviana deixou a suíte e uma Sofia mortificada para trás. Após trancar a porta, ela seguiu para o elevador como um autômato sem tomar ciência do que fazia. O lugar estava vazio e quando as portas fecharam, ela se recostou na parede sentindo o impacto do que acabou de acontecer. Já não haviam mais ilusões para protege-la da triste realidade. Ainda que quisesse, já não se sentia capaz de encontrar um lado bom em toda aquela história. E a verdade disso era tão forte, que sem conseguir sustentar o próprio peso, Flaviana escorregou até o chão e chorou.
— X –
— Sofia?
Sofia se volta para Serguei, parado na entrada do quarto. Diferente de quando foi flagrado por Flaviana, o ruivo vestia a calça e a olhava preocupado. O ruivo não estava certo de que ela o quisesse por perto nesse momento. Serguei escutou sem querer a conversa da duas e sentia-se responsável pela briga. Talvez Sofia também o responsabilizasse. No entanto, espantando as dúvidas do ruivo, a ela correu até ele e o abraçou. Apesar de toda a situação, Serguei sorriu aliviado pelo gesto de Sofia.
— Você ouviu? – Sofia enterrou o rosto no peito de Serguei. Tê-lo ali junto dela era o suficiente para não desmoronar. – Ela me odeia!
— Ela está magoada, mas não te odeia.
— Eu queria acreditar que não, mas a forma como ela me olhou... eu nunca a vi tão decepcionada. – Sofia encarou Serguei, os olhos marejados. – Se eu tivesse contado antes... a culpa é minha.
Claro que a culpa era sua, pensou. Deixou tudo na mão do acaso e da mesma forma que se entendeu com Serguei por obra do destino, o destino se encarregou de que Flaviana soubesse sobre eles. Porém, refletindo sobre o que Flaviana lhe disse, foi Amanda a responsável por aquele desastre. Sofia podia imaginar muito bem a maneira distorcida como aquela vagabunda devia ter falado sobre ela e Serguei tornando tudo cruel e sujo.
— Sofia, nós dois erramos, mas a Flaviana precisa entender que é a nossa vida e o que sentimos. Apesar de ser sua amiga, ela não tem o direito de controlar as suas decisões.
— Eu vou falar com ela quando estiver mais calma. – Sofia sorriu para o ruivo. Ela sabia que inevitavelmente muitas outras pessoas tentariam interferir no relacionamento dos dois. Ver a determinação com que Serguei defendia o que eles tinham a fortalecia para enfrentar todos os possíveis obstáculos. – Obrigado.
— Pelo quê?
— Por me entender e me apoiar. É muito importante para mim... você é muito importante.
Sofia confessou num sussurro. Todas as pequenas declarações feitas por ela até então saíam sussurradas, mas com grande facilidade. E a cada instante que passava ao lado de Serguei sentia-se cair ainda mais, porém não tinha medo... ele era o seu amor.
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