Era Uma Outra Vez...
73 De volta...
Notas iniciais
Parecia uma outra vida, pensou Flaviana assim que deixaram o aeroporto. Após horas intermináveis de viagem, ela finalmente estava de volta para tentar resolver o que deixou inacabado há dois meses. Sentia-se apreensiva, mas estava infinitamente mais feliz do que quando foi obrigada a partir. Esse tempo longe e a convivência com a avó haviam lhe proporcionado um maior senso de segurança. Ela não duvidava que ainda enfrentaria problemas em casa, mas já não era tão vulnerável quanto antes.
— Como se sente?
A morena desviou o olhar absorto da janela e fitou o primo, sentado ao seu lado no carro.
— Feliz! Não via a hora de chegarmos.
— Posso imaginar. Seus olhos estão brilhando... as coisas vão ser melhores agora. – Otávio sorriu para a prima. Ele também estava feliz em voltar ao Brasil, principalmente nos termos que Margot havia estipulado para os dois. – Só acho que nós devíamos ter avisado antes à Sofia sobre a nossa chegada.
— Eu sei que você tá morrendo de saudades dela, mas eu quero fazer uma surpresa. Você sabe, nós mal tivemos tempo para uma conversa desde a viagem para Londres.
A verdade é que Flaviana também estava com muitas saudades, mas queria encontrar a amiga com mais tranquilidade do aquela que poderiam ter em um saguão de aeroporto. E afinal, elas tinham muito a esclarecer depois de tudo.
— Ok, eu também adoro surpresas! A sweetie vai amar quando nos encontrarmos.
— Sim! Eu não vejo a hora.
— X —
— Como você se sente?
— Melhor... ontem, eu conversei com o Serguei e ele me apoiou, disse que posso contar com ele.
— Isso é ótimo, Sofia! – Raissa respirou mentalmente aliviada. – É sempre bom contar com uma rede de apoio.
Há algum tempo que a garota estava mais introspectiva nas sessões que tinham e a orientadora temeu que talvez ela estivesse retrocedendo nos avanços que fez. Felizmente, Sofia confiava nela e estava aberta aos conselhos de Raissa. Elas haviam estabelecido um laço de compreensão que ela julgava essencial para o momento em que poderia finalmente revelar a verdade.
— Além disso... Eu tenho pensado em uma coisa.
— Sobre a sua irmã?
— Não... É sobre mim. – Sofia fitou a mulher nos olhos transparecendo total sinceridade. Ela não sabia porquê, mas confiava na orientadora ao ponto de falar coisas que preferia não pensar. – Eu andei pensando sobre meus pais biológicos. Há um tempo, aconteceu algo que me fez pensar sobre eles, mas resolvi recalcar essa sensação... só ultimamente isso tem se tornado mais forte.
— Quando você diz que algo aconteceu... o que foi exatamente?
— Eu soube por acaso sobre a filha de alguém que só descobriu a existência dela anos depois.
Raissa sentiu o coração perder uma batida, mas controlou-se para não demonstrar o quanto aquelas palavras a desestabilizaram. Ela não precisou que a garota explicitasse o nome de João Luís para saber que era sobre ele que ela falava. Ela recordava de seu medo quando Vera falou que João foi até a sua casa e encontrou Sofia. Por um instante, ela acreditou que seus esforços em se aproximar da filha estavam perdidos, mas por sorte João recuou de seu propósito e não falou nada para a garota. Entretanto, a orientadora sabia que ele não esperaria muito mais e seu ressentimento por ela não o faria ser flexível quantos as circunstâncias que envolvem a verdade sobre a origem da filha. Alheia a inquietação da mulher, Sofia continuou normalmente.
— Foi tudo meio esquisito e eu não quis dar importância, mas lembro de sentir o quanto foi cruel a mãe afastar a filha dele. Então, eu me questionei pela primeira vez se também não fui cruel ao definir quem seriam meus pais com base no mágoa que sinto deles quando eu sequer sei qual é a história por trás do meu nascimento.
Sofia focalizou um ponto qualquer na sala e deixou que seus sentimentos, antes reprimidos, assumissem forma através das palavras. Ela estava lutando há muito tempo contra pessoas que não tinham rosto e ela apenas estava cansada de deduzir hipóteses que mais a machucavam do que reconfortavam. Talvez estivesse certa e seus pais apenas a abandonaram. Ou talvez houvesse alguma outra explicação como aconteceu com o João Luís e a filha. No fundo, Sofia aceitava que foi covarde sobre a própria dor apenas porque tentou se poupar de mais sofrimento. No entanto, isso pouco adiantou para protegê-la. E afinal, já tinha vivido tantos dilemas que após alguns aprendizados ela finalmente se sentia mais forte para entender a parte que faltava da sua história.
— Eu quero deixar ir, entende? Tenho tentado conciliar tantos sentimentos conflitantes que agora eu só pretendo deixar ir.
— E de que forma você espera conseguir fazer isso? – Questionou Raiva apreensiva.
— Eu não sei exatamente... – Admitiu Sofia com um suspiro. Ela fitou novamente Raissa antes de dizer. – Tenho medo ainda de não conseguir processar tudo, de me decepcionar com o que possa descobrir. Estou tentando a cada dia ficar um pouco mais forte.
— Todos nós temos nossas fragilidades, Sofia, é natural. Sentimentos que nos confundem, situações das quais sentimos medo... o importante é termos confiança de podermos superar.
— Eu entendo e por isso quero virar essa página.
— Você pensa em procurar seus pais?
— Eu... – Sofia se calou sem saber ao certo o que responder. Então, ela lembrou da promessa que um dia fez à mãe. – Eu acho que não iria atrás deles, mas acho que hoje eu estou disposta a ouvir caso um dia eles apareçam.
— O perdão é um processo, Sofia. Não é sobre esquecer o que alguém nos faz, mas é escolher vivermos em paz com isso sem rancor, sem ressentimentos.
— É o que eu quero.
— Eu fico feliz por isso.
— Eu sei que já falei disso antes, mas... você tem me ajudado muito. Eu realmente agradeço por tudo.
Tomada pela emoção sincera da garota, Raissa deixou a formalidade de lado e segurou a mão da filha por sobre a mesa.
— É muito bom ouvir isso.
Sofia sorriu apesar dos olhos marejados. Já não se sentia sozinha ou incompreendida. Ela tinha os amigos, a família e o namorado por quem faria tudo. E ela sentia que também tinha Raissa, sempre conciliadora e tão afetuosa, lhe proporcionando uma segurança inexplicável como se já se conhecessem há muito tempo, de outra vida.
— X —
— Você precisa de ajuda?
Anita parou no meio da escada. Ela carregava uma caixa com alguns materiais de decoração que pretendia levar para o quintal e trabalhar um pouco para se distrair. Não tinha ido ao colégio, pois acordou um pouco enjoada e achou melhor ficar em casa. Há alguns dias que ela vinha passando um pouco mal, sentido algumas náuseas e tonturas, certamente consequência do descaso com a própria saúde por não dormir e nem se alimentar corretamente. Somente hoje, após muito refletir ela decidiu que não continuaria mais no looping de sofrimento em que se encontrava. Não era justo com ela e com as pessoas que amava. Já estava cansada de ser um fardo e de ficar trancada no quarto como uma princesa presa na torre. Ela não se tornaria uma vítima das circunstâncias.
— Eu... tudo bem.
Ela entregou a caixa para Antônio estranhando um pouco a gentileza do rapaz. Mesmo na época em que era namorada de Ben, eles nunca foram próximos, tendo trocado mais que poucas palavras. Ela não sabia bem como definir Antônio, uma vez que a visão que tinha foi formada através dos comentários do ex, e como ela bem aprendeu, nem tudo o que Ben dizia era exatamente a realidade.
— Você deve tá se perguntando porque eu me ofereci pra ajudar, certo? – Antônio sorriu ironicamente quando a garota corou. Ele deu de ombros caminhando com a caixa para a saída dos fundos. – Eu pensei que como meu irmão já não pode te influenciar, a minha presença já não te incomodaria.
— Antônio, desculpe... – Anita o seguiu de perto, sem saber bem o que dizer. — Eu não quis dar a entender que estava incomodada. É só que...
— Nós não somos exatamente amigos?
— Bom... sim.
— Entendo.
E Antônio realmente entendia a reação dela, embora não estivesse satisfeito. Até certo ponto, ele admitia nunca ter feito nenhum esforço para se enturmar com as pessoas do casarão, com exceção de Sofia, mas a conversa que tinha ouvido por acaso entre Anita e Júlia o fez lembrar de uma época obscura da sua vida. Ver mais uma garota arrasada por Ben trouxe um sentimento amargo fazendo-o esquecer sua natureza torta e ser simpático com ela. Mas era óbvio que Anita não desejava nenhum tipo de gentileza da parte dele.
— Onde você quer que eu deixe a caixa?
— Aqui, por favor. – Ela apontou para a pequena mesa que mantinha no quintal para poder realizar seus trabalhos de restauração. – Obrigada.
Antônio não respondeu ao agradecimento e apenas foi embora sem dizer nada, o que deixou Anita confusa. Ela passou um tempo olhando para a porta por onde o rapaz tinha sumido tentando entender a motivação do pequeno interlúdio. Confusa, deu de ombros e começou a organizar as tintas, sprays e lixas que ela precisava para customizar a mesa de cabeceira do seu quarto.
— X —
— Resolvam os exercícios para a próxima aula. Vocês estão liberados.
João ignorou a pressa com que os alunos deixaram a sala, ocupado em organizar e guardar o material didático. A semana de aulas tinha finalmente acabado e ele poderia ter um descanso. O último mês foi bastante exaustivo para o professor, que teve que retornar ao colégio após quatro semanas de licença. Esse tempo afastado foi essencial para João por suas expectativas em jogo e refletir de que forma poderia lidar com a informação que tinha uma filha com Raissa sem enlouquecer no caminho.
Como antes, ele ainda era obrigado a conviver com a antiga namorada. Também foi obrigado a fingir sempre que via Sofia na aula e era tomado por um desejo muito grande de se revelar. Essa era com certeza a pior parte, a que teve que engolir sua frustração porque estava ciente de que qualquer passo em falso poderia afastar Sofia, como Vera o alertou. Antes de saber a verdade, João achava que não existia mais nada que o ligasse ao passado, nenhum vínculo duradouro com outro ser humano. Então, lá estava ela o encarando nas aulas e fazendo-o se sentir completamente perdido por ser pai de uma garota de dezesseis anos sobre quem não sabia nada.
Após o que pareceu muito tempo, João finalmente deixou a sala de aula e seguiu pelo corredor a caminho da saída. Foi quando ele a viu, mas ela não estava sozinha.
— X —
Ben esperou até que ela saísse da sala de Raissa. Já fazia um tempo que ele observava os passos de Sofia e notou que ela ia frequentemente à orientação depois das aulas. Então, lá estava ele esperando um momento para poder falar com ela sem que fossem interrompidos.
— Sim... Não, eu vou pra casa agora. Te ligo mais tarde, ok? – Ela esperou a confirmação da pessoa ao telefone antes de responder. – Eu também te amo.
O rapaz sentiu a raiva tomar conta de si ao ouvir aquelas últimas palavras e supor com quem Sofia falava ao celular. Ele não queria admitir que mesmo quando ninguém estava por perto para presenciar o show, ela se mantinha no personagem que assumiu. Só podia ser mentira o que ela disse, pensou Ben com ironia. Assim como um dia ela também disse que o amava, o namoro com Serguei não passava de mais um passatempo para ela. Quando Sofia se entediasse, Serguei seria descartado como ele foi.
— Eu fico me perguntando como ele caiu na sua conversa.
Sofia parou imediatamente ao ouvir a voz de Ben. Ela estava tão distraída falando com Serguei que não notou a aproximação do rapaz. Por um instante, ficou paralisada, mas então lembrou que não sentia medo de Benjamim. E que muito menos lhe devia qualquer tipo de explicação sobre sua vida.
— Eu poderia perguntar o mesmo para a Anita, mas acho que nós dois sabemos como. – Sofia ergueu o rosto em desafio, apesar de estar tremendo por dentro. – Você está me seguindo? Não seria a primeira vez, certo?
— Eu pensei que não teria outra forma de falar com você já que seu namorado não te deixa respirar. – Ben se aproximou de Sofia que não recuou. – Nós precisamos conversar.
— Precisamos? Eu achei que já tinha deixado tudo claro, mas se você insiste. Vamos lá, o que você quer?
A loira cruzou os braços frente ao corpo e esperou que Ben falasse. Sua vontade era ir embora e deixá-lo remoendo as próprias paranoias, mas estava tão cansada daquela situação. Se ouvi-lo por alguns minutos a livraria dele definitivamente, então Sofia estava disposta a esse sacrifício.
— O que mudou, Sofia? Eu ainda lembro daquela tarde no seu quarto em que você me pediu para escolher e eu...
— Desistiu? É, eu também lembro daquele dia em que você se manteve calado enquanto eu era massacrada. – Ela sentiu as bochechas esquentaram de raiva. Era raiva não só dele, mas principalmente de si mesma por ter sido tão estúpida em confiar em Ben. – Eu não sei se você esqueceu ou se só está deliberadamente sendo sonso, mas aquele momento explica tudo, não?
— Eu tinha visto o vídeo no 2.0. – Defendeu-se Ben. Ele tinha ficado decepcionando com a gravação e simplesmente fechou os olhos para todo o resto. Era um arrependimento com o qual convivia desde então. – Eu acreditei que era só um jogo. Eu achei que você só se importava em vencer a Anita.
— Bom, isso só mostra que você nunca me conheceu de verdade.
A obsessão por Ben a havia cegado a tal ponto que ela se submeteu a receber migalhas como se fossem afeto genuíno. Agora olhando pra ele, Sofia entendia que se tivesse visto antes o que enxergava nesse momento teria se poupado e poupados todos os envolvidos naquela história de maiores sofrimentos. Ben nunca a enxergou como ela era e pior, ele se ressentiu por ela não ser o que ele esperava. E tantas vezes pisou no orgulho e confiança que um dia ela teve, que a fez acreditar que nunca poderia ser boa o suficiente. E lá estava ele, com mais desculpas para as escolhas que ele mesmo tinha feito, agindo como Antônio falou que ele faria. Era demais para Sofia suportar.
— Olha Ben, sinceramente... tudo o que aconteceu já não importa mais. Não tenho motivos para me apegar ao que passou.
— Mas eu tenho... Eu gosto de você. Sempre gostei!
— Jeito estranho esse de gostar... – Sofia suspirou cansada de toda aquela conversa. – Nós dois já não temos mais nada o que conversar. Daqui pra frente, eu espero que você siga o seu caminho e eu sigo o meu.
Ela deu às costas para a Ben encerrando o assunto, mas antes que desse um passo ele a segurou pelo pulso. Seus olhos se arregalaram em surpresa lembrando-se de quando ele a tinha abordado na festa de Flaviana.
— Me solta! – Sibilou a loira entredentes.
— Espera, me escuta por favor! – Implorou Ben. – Você precisa me entender.
— Entender? Eu não tenho que fazer nada! Agora, me solta!
— Não!
— Ela disse para você soltá-la.
A voz grave de João tomou conta do ambiente surpreendendo Sofia e Ben. Foi com alívio que ela viu o rapaz se afastar e olhar desconcertado para o professor. Típico dele, como Sofia já havia percebido. Ben não passava de uma fraude.
— Nós estávamos conversando.
— Não foi o que pareceu. — João encarou o rapaz com animosidade antes de virar Sofia. – Você esqueceu de entregar o trabalho da aula de hoje.
— Trabalho? – Sofia levou apenas um segundo para entender. – Ah... sim, me desculpe, eu estava distraída mais cedo.
— Você pode me acompanhar?
— Sim... tudo bem.
Sofia acompanhou João sem saber ao certo para onde iam, mas isso não importava. O professor havia dado a ela desculpa perfeita para se livrar de Ben e sua insistência que mais do que incômoda, era totalmente indesejada. Ela lançou um último olhar para Ben e notou com apreensão que algo na postura dele dizia que eles ainda não haviam acabado com aquela conversa.
Para seu alívio, em pouco tempo ela e João chegaram à sala dos professores. João abriu a porta e esperou que ela entrasse primeiro, fechando-a em seguida.
— Você está bem?
— Eu... sim.
A loira corou um pouco constrangida sem saber exatamente o que dizer. João Luís nunca foi particularmente simpático com ela então a sua ajuda foi recebida com certo estranhamento pela garota.
— Tudo bem. – João fitou Sofia para ter certeza que nada tinha acontecido. — Mas eu não gostei do que eu vi. Se o Benjamim está te incomodando...
— Não! – Interrompeu-o não querendo que aquela história se estende-se mais que o necessário. – Foi um mal-entendido, mas ele não me fez nada.
João não parecia muito certo sobre aquilo, mas preferiu não interferir ainda mais. No fim, ele era simplesmente o professor dela e o fato de ter tido alguma mostra de instinto paterno quando a viu em possível risco e que não poderia ser explicado no momento.
— Certo. Então, é melhor você ir para casa agora.
— Ok... – Sofia caminhou rapidamente para porta e a abriu, mas não saiu. Antes de ir embora, se voltou para João que permanecia parado no mesmo lugar. – Obrigada.
O professor observou em silêncio a filha ir embora.
— X —
Algum tempo depois, Sofia chegou em casa. Tudo o que precisava no momento era um banho e relaxar um pouco a tensão que não a abandonou mesmo depois de deixar o colégio. Hoje João a ajudou, mas nem sempre teria alguém para impedir Ben de ser inconveniente. Ela ainda não sabia se deveria contar à Serguei sobre o ocorrido, pois temia que ele acabasse brigando mais uma vez por sua causa. Cansada, pegou as chaves do apartamento e abriu a porta... deixaria aquele assunto para outra hora.
— Soraya, eu cheguei! – Falou alto a caminho do quarto. Mal entrou no cômodo e estacou com uma imensa surpresa. – FLA?! Quando você...
— Oi! – Falou Flaviana meio sem jeito. – Eu voltei hoje e passei aqui para te ver.
— Eu não sabia que você voltaria hoje!
— Eu... senti sua falta. Você pode me perdoar? — Completou com os olhos marejados.
Sofia não precisou de mais nenhum incentivo para correr até a amiga e abraçá-la fortemente. Flaviana correspondeu ao abraço, dando vazão as lágrimas que tentou inutilmente segurar. Estava tudo bem agora, sempre esteve, mas ela sentiu muito a falta da amiga. Em meio aos soluços elas diziam palavras desconexas, só entendiam que em algum momento Sofia começou a chorar também. A certa altura, os ânimos se acalmaram e elas se encararam, ambas um completo desastre de rímel borrado e narizes vermelhos.
— Estou tão feliz por você ter voltado. – Falou Sofia, já mais calma, mas sem largar a amiga em nenhum momento. – Eu senti tanto, tanto a sua falta.
— Eu também, mas tudo aconteceu tão rápido... A festa, a viagem pra Londres. Eu acabei fazendo uma confusão e tanto. – Lamentou-se Flaviana arrependida por suas atitudes. – Você me perdoa?
— Pelo amor de Deus, Flaviana Maria! – A loira a repreendeu irritada puxando a amiga para se sentaram na cama. – Eu não tenho nada do que te perdoar.
— Mas eu... – Flaviana se calou quando Sofia levantou a mão para interromper as suas desculpas. – Eu preciso pedir desculpas.
— Fla, tá tudo bem... – Assegurou-a a loira segurando a mão da amiga na sua. — Aquela noite você estava mal por conta do idiota do Martin e a vaca da Amanda usou minha história com Serguei para te atingir. O que aconteceu, o que foi dito... – Sofia sorriu afastando qualquer dúvida. – Eu nunca aguardaria rancor de você. Nunca. Você é minha melhor amiga, minha parceira de crimes. É a irmã que eu escolhi amar.
— Eu também te amo!
Agora foi a vez de Flaviana se lançar sobre a amiga fazendo-as cair sobre a cama. As lágrimas se misturaram com risos de alegria que tomaram conta do quarto. Flaviana contou os detalhes de sua viagem, os lugares que visitou com Otávio e o quanto Margot foi maravilhosa com ela.
— Lembre-me de dar um beijo na sua avó quando ela vier novamente ao Brasil.
— Nossa, sim! Fazia tanto tempo que não a via... – Fla sorriu ao pensar na mulher. – Você vai amar conhecê-la.
— Imagino.
— E você, hein? Como foi tudo nesse tempo?
Sofia suspirou pensando em como resumir para amiga tantos acontecimentos: seu namoro, o rompimento Benita, o clima tenso no casarão, o motivo do ressentimento de Ben e Antônio. Elas almoçaram juntas e passaram quase toda a tarde pondo a conversa em dia. A cada novidade, Flaviana fazia uma expressão mais chocada que a outra, o que divertiu Sofia que mal podia acreditar ainda que sua amiga maluquinha estava ali com ela.
— Hum... quer dizer que o Serguei foi o responsável pela quebra da promessa, hein?
— Foi uma coisa idiota de se dizer... Eu sei.
— Não acho que foi idiota. Naquela época, você estava muito magoada com aquele príncipe fajuto.
— Sim... E agora me dou conta que eu sequer cheguei a conhecer o Ben de verdade.
O episódio daquela manhã voltou à mente de Sofia. Ela não queria se preocupar com as atitudes de Ben, não queria mais que ele interferisse em sua relação com Serguei e Anita, mas ele parecia disposto a insistir naquela história. Sofia não queria chegar à extremos, mas se fosse necessário teria que recorrer à Ronaldo e Vera pra manter Ben longe.
— Bom, isso são águas passadas. Tá na cara que você tá caidinha pelo Serguei. – Flaviana deu uma gargalhada quando Sofia corou e sorriu desconcertada. Não tinha dúvidas de que ela estava apaixonada pelo ruivo. – Então, quer dizer que está tudo bem entre vocês?
— Sim... — Admitiu a loira não escondendo a felicidade. — De verdade, eu nunca pensei que pudesse sentir isso por ninguém.
— Ninguém?
— Ninguém. – Confirmou Sofia. – O que aconteceu com o Ben é completamente o oposto do que eu sinto pelo Serguei.
— Menina, então ele é mesmo um cara de sorte. — Implicou a morena. — Seus olhos entregam tudo.
— Pior que é verdade... ele me faz feliz, Fla. E é tão bom poder compartilhar isso contigo. Eu fiquei mal por não ter dito antes, mas nem eu sabia o que fazer com o que tava sentindo.
— Você não seria você se nao complicasse tudo! Eu entendo... Hoje, eu entendo. – Flaviana suspirou, lembrando-se do próprio dilema. Em algum momento, ela teria que enfrentar Sidney também. – Também tenho algumas coisas para confessar, mas prefiro fazer isso no jantar que o Tavinho planejou para essa noite.
— Ele também voltou?!
— Voltou sim e o melhor é que vai ficar no país um bom tempo. Ele me deixou aqui e foi embora antes porque precisava resolver um assunto na corretora de imóveis.
— Não vejo a hora de encontrá-lo também.
— Então você aceita jantar com a gente?
— Claro, né?!
As duas riram. O celular de Sofia tocou e ela correu para pegá-lo da bolsa que estava jogada no chão. Era Serguei.
— Oi, amor! Você já tá em casa? – Perguntou o ruivo em meio à uma pausa do trabalho. – Te mandei uma mensagem mais cedo.
— Oi! Tô sim. Eu fiquei de ligar, mas acabei me atrapalhando aqui... advinha, a Flaviana voltou! Ela tá aqui comigo. Resolveu me fazer uma surpresa! – Exclamou a loira feliz.
— Oi, Serguei! – Flaviana falou alto para que o ruivo ouvisse. – Hoje eu vou roubar sua namorada.
— Roubar? – Serguei riu.
— O Otávio preparou um jantar de boas vindas.
— Ah... sim. Então não vou atrapalhar vocês. Liguei só pra saber como você tava.
— Eu tô bem, amor. Melhor impossível!
— Fico feliz. Nos falamos depois, ok?
— Tudo bem.
— Bom jantar e divirta-se. Te amo. — Despediu-se.
— Eu também. Beijo.
Sofia desligou o telefone e fitou Flaviana que tinha um sorriso zombeteiro no rosto.
— O amor é tão doce... – Implicou a morena. – Estou vomitando arco-íris.
— Para de ser chata! – Sofia arremessou uma almofada na amiga que desviou rindo. – Então, qual vai ser o look pro nosso jantar?
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