Era Uma Outra Vez...
76 Confiança...
Notas iniciais
— Tenho uma confissão a fazer!
Sofia voltou-se para a entrada da varanda onde estava apreciando a noite. Com um sorriso, esperou Serguei se aproximar de onde estava.
— Ser rico tem lá suas vantagens.
— Concordo plenamente.
Ela riu e aceitou a taça que ele lhe entregou ensaiando um pequeno brinde. Eles tinham deixado o apartamento onde morava e seguido para o apartamento de Otávio onde poderiam de desfrutar de relativa privacidade. Sem Bernadete, sem Caetano ou outra pessoa que os interrompesse. Só de estar distante alguns quilômetros, fazia Sofia se sentir aliviada.
— Só uma taça. — Falou Serguei trazendo-a para si e a beijando. — Prefiro você sóbria.
— Tá bom, senhor certinho!
Ele fez uma careta, mas acabou rindo. O vinho e a atmosfera os envolviam calmamente. Era um momento bom e seu humor estava ótimo e nem mesmo a pequena discussão com Benjamim estragaria a alegria de estar com Sofia. Eles ficaram em silêncio por um tempo, curtindo a tranquilidade da noite. Sofia recostou-se no namorado que a envolveu com um dos braços pela cintura.
— Foi uma boa proposta.
— Uma ótima proposta, admito. — Concordou Serguei beijando-a no pescoço.
— Eu queria poder ter mais momentos como esse.
— Eu também. — Ele a fez ficar de frente para ele. — Pode dizer ao Otávio que se ele me recompensar sempre dessa forma, ele pode me dar quantos socos ele quiser... Aí!
— Palhaço! — Sofia deu um tapa de leve nele. — Só eu posso te bater.
— Eu tinha esquecido que nós éramos... como a Bernadete disse? — O ruivo fingiu puxar pela memória irritando propositadamente a garota. — Hostis um com o outro.
— Você sempre foi hostil comigo... Eu só me defendia. — Argumentou Sofia, manhosa.
— Ah... sim. E todos aqueles golpes foram fruto da minha imaginação. Sabia que até hoje a minha perna dói pelo chute que você me deu?
— Você mereceu. — Disse a loira com uma expressão travessa. — Aquele dia foi divertido... A irmã Carmem me deu um susto.
— Meu susto foi maior do que te ouvir dizer que estava apaixonada. Eu achei que tinha enlouquecido.
Sofia voltou ao passado e aos momentos em que ela e Serguei tiveram que fingir uma história maluca. Tudo isso apenas para explicarem para freira a razão de estarem burlando aula na sala de música. Naquela época, eles se detestavam por motivos que ela não conseguia mais lembrar. Fitou Serguei e seu riso tomou forma quando lembrou da expressão confusa de dele quando ela disse que estava apaixonada.
Se as palavras tinham algum poder, a pequena mentira tinha cobrado seu preço e se tornado realidade agora.
— Foi o destino, meu amor.
— Destino, é?
Serguei retirou a taça de vinho da mão de Sofia e depositou junto à sua no balcão da sacada. Num movimento rápido, ele a pegou no colo fazendo com que envolvesse sua cintura com as pernas e a carregou para dentro do apartamento. O riso de Sofia foi interrompido por um beijo capaz de entorpecer sua mente mais do que o álcool do vinho.
Ela estava certa. Somente a ação do destino poderia explicar o que aconteceu desde o dia da sala de música até então. Desde o primeiro beijo, pareceu surgir entre os dois uma força invisível que os atraíam um para o outro. Em sua opinião, as coisas aconteceram como deveriam acontecer, fosse pelo destino ou o acaso.
— X —
Flaviana abriu a geladeira e pegou exatamente o que precisava. Colocou uma grande quantidade de sorvete numa tigela e despejou calda de chocolate por cima. Era uma medida extrema, porque estava triste, mas já não chorava como mais cedo. Não valia a pena se afundar mais uma vez num mar de autodepreciação. Sidney era um idiota e ela iria superar. Nem que para isso tivesse que consumir todo o estoque de sorvete do Rio de Janeiro.
— Hum... — Ela fechou os olhos após a primeira colherada que levou à boca.
Como Sofia bem já havia dito não a dor que dure com um bom sorvete. Não importava quantas dores tenha enfrentado, ela estava mais forte agora. De uma forma torta, ela conheceu seu próprio coração pela primeira vez. Por muito tempo foi apaixonada pela ideia de amar Martin, mas aquilo foi só uma ilusão tola que ela deixou para trás. Embora seus sentimentos ainda não fossem correspondidos por Sidney, preferia sofrer por algo real desta vez.
— Você ainda está acordada?
A garota esperou a mãe se aproximar de onde estava, sentada no balcão da cozinha. Era a primeira vez que se viam desde que voltou para casa e aquele com certeza era o lugar menos óbvio para rever Rosana, pensou Flaviana com uma pontada de amargura.
Rosana deixou a bolsa sobre o balcão e sentou-se ao lado da filha. Flaviana a olhou de esguelha tentando prever as ações a seguir, mas a mulher nada fez. Apenas ficou sentada lá sem falar nada. Analisando mais detidamente, Flaviana notou sinais de cansaço no rosto da mãe, apesar da maquiagem ainda impecável. Ela parecia distraída e até mesmo triste.
— Seu pai pediu o divórcio.
— Eu... — Flaviana se calou.
Não tinha nada reconfortante para dizer. No fundo, sempre soube que os pais não eram felizes juntos. Eles sequer viviam uma vida de casados, passando a maior parte do tempo em um espaço diferente.
— Eu acho que ele tem uma nova amante.
— Isso é... errado.
— Não para algumas pessoas... — Rosana suspirou pesadamente, a postura altiva sendo quebrada por um momento. — Não é a primeira vez, mas eu não achei que seria a última. Você sabe... por causa das aparências. Seu pai sempre se importou com isso.
— Você o ama? — Indagou Flaviana, incerta.
Ela e a mãe nunca foram próximas ao ponto de a mulher fazer confidências como as que fazia agora. Se fosse sincera, diria que nunca foram próximas em nenhum sentido ainda que fossem mãe e filha. Às vezes, ela se questionava se realmente houve algum momento em que os pais tenham se importado com ela, mas nunca conseguiu obter uma resposta. Entretanto, lá estavam elas, juntas, perto da meia noite tendo um tipo de diálogo que Flaviana nunca pensou ser possível.
— Nós nos casamos por causa das responsabilidades, o amor nunca foi uma opção. — Rosana levantou de onde estava e como se voltasse a si, seu olhar se tornou frio. — Amor é uma desculpa que pessoas medíocres usam para justificar os próprios erros. Lembre-se disso, Flaviana, e você se sairá melhor do que eu.
Flaviana empurrou a tigela de sorvete para o lado, tinha perdido completamente o apetite. Apenas ficou lá, o queixo apoiado em uma das mãos enquanto refletia sobre as últimas palavras de Rosana. A garota podia não ser tão experiente e ainda acalentar desejos bobos sobre felicidade, mas sabia que sua mãe estava errada. Como Amanda, sua mãe trazia muita amargura em si e com certeza a recriminaria caso ela se atravesse a contestá-la. No entanto, sabia que talvez o divórcio fosse realmente a melhor opção tanto para Rosana quanto Flávio. Eles eram a prova do porquê duas pessoas não deveriam permanecer juntas.
O amor nem sempre acontece como esperamos ou é correspondido, ela sabia, mas se é um sentimento verdadeiro nos faz melhores do que antes, mais fortes. Se nem amor existe numa relação, todo o resto acaba desmoronando. Não há mediocridade no fato de amar alguém, apenas sinceridade e confiança. E acreditando nisso, um dia talvez, ela esperava cometer menos erros e ser mais feliz do que Rosana nunca tenha sido.
— X —
— É muito importante que você tenha vindo.
— Eu não tive muita escolha. — Falou Sidney, sentado diante do pai.
Ele não sabia exatamente o que o tinha levado até ali, mas se viu indo para o hotel onde Cláudio estava hospedado. E agora, lá estava ele encarando o pai. Para tentar uma reconciliação? Dificilmente. Buscar o pai não significava que ele tenha esquecido e muito menos perdoado. Entretanto, a lembrança de Flaviana e as lágrimas que ela não conseguiu esconder quando foi embora o atormentavam além da conta. O fato de Cláudio ter presenciado a cena só acrescentava um peso maior sobre seus ombros. Talvez estivesse se punindo pelo que tinha feito a ela e ido ali para tomar sua própria dose de sofrimento, voluntariamente.
— Você quer alguma coisa? Um suco? Refrigerante?
— Eu tô bem.
— Eu acho que preciso de um drink.
Sidney viu o pai andar até o pequeno bar do loft e aproveitou para olhar em volta. Tudo era limpo e organizado, além de ter custado uma nota. Era a primeira coisa que descobriu sobre Cláudio, ele tinha algum dinheiro. Cláudio retornou um tempo depois com um copo de whisky.
— Eu tenho esperado muito para termos essa conversa. — Começou o homem, sem jeito. Sidney estava diferente do que ele se lembrava, mas ele aceitou que a culpa era sua. — Eu passei muito tempo pensando sobre você, filho. Sentido a sua falta.
— Deve ser... você tem sido insistente nas suas tentativas de me ver. — Sidney deu de ombros. Ele percebia a emoção do pai, mas era difícil se comover. — Talvez a minha recusa em retornar às suas ligações não tenha deixado as coisas claras, mas eu não quero nenhum contato com você.
As palavras foram disparadas como bala tendo o efeito esperado ao atingir o alvo. Cláudio descansou o copo de whisky sobre a mesa de centro e encarou o rapaz.
— Você me odeia tanto assim?
— Eu precisaria te conhecer primeiro para te odiar, mas você não me deu a oportunidade.
Ele não queria ter dito daquela forma, parecer que sentiu a falta dele... Mas as palavras só saíram sem que ele pudesse processá-las bem.
— Vamos falar a real... você foi embora e nunca, em seis anos, se importou em dizer onde estava. Nenhum contato, nada.
— Eu sei que te decepcionei. — Concordou o homem, humilde. — Eu pensei que minha presença não traria nenhum bem e fiz a coisa mais fácil... Eu fugi como um covarde.
Cláudio pegou mais uma vez a bebida nas mãos e fitou o copo por um longo momento. Suas escolhas no passado foram tomadas pelo impulso e vergonha, mas nunca quis machucar Sidney. Ele era a melhor coisa que fez em sua vida.
— Não espero que me perdoe.
— Eu não vou. — Falou o loiro diretamente.
— Mas se eu posso pedir... Eu gostaria que você me escutasse. — Pediu com humildade.
Sidney aquiesceu com a cabeça, esperando que Cláudio prosseguisse. Era a primeira e última vez que o ouviria contar a sua versão, depois disso ele enterraria tudo e não pensaria mais no assunto.
— Eu passei grande parte da minha vida tentando me encontra... entender a pessoa que eu sou, mas tendo que viver de acordo com o que esperavam de mim. Eu sei que a maior parte da culpa sempre foi minha... Mas é difícil ser diferente, Sidney.
— Diferente?
— Sim... — Cláudio fitou o filho nos olhos azuis como o seus. — Eu fiz tudo o que esperavam de mim.... constitui uma família, tive você, mas nunca fui realmente livre. Então, há sete anos as coisas se tornaram mais e mais confusas e eu já não conseguia ter uma vida.
Apesar da determinação em esquecer, Sidney teve pequenos vislumbres daquela época. As brigas ente Cláudio e Maura eram constantes e ele sempre ficava triste ao ver o semblante abatido do pai. Alguns meses antes de ir embora, Cláudio já não interagia com a esposa e passava a maior parte do tempo no quarto. Sidney chegou a pensar que o pai estava doente, mas não se atrevia a perguntar à mãe sempre nervosa.
— Eu entrei numa depressão profunda e, no limite, busquei a saída mais viável... — Cláudio engoliu em seco antes de confessar. — Eu tentei suicídio.
— X —
"Boy you know that you always do it right. Man, fuck your pride, just take it on back, boy... Take it on back boy, take it back all night!"... ♡
Sofia se afastou de onde Serguei estava, sentado na cama, e começou a se mover ao som da música. Sentindo a batida, ela sabia que o rosto estava corado, resultado das cinco taças de vinho e de uma primeira rodada de sexo alucinante.
De onde estava, devagar, Serguei a olhou dos pés à cabeça como se a visse pela primeira vez. Ela usava sua camisa e nada, os cabelos soltos e os quadris se movendo para que ele a apreciasse. Seus olhos se encontraram e um sorriso sensual iluminou o rosto de Sofia. Ela queria seduzi-lo esta noite, exercer poder sobre ele e o melhor é que estava conseguindo. Era a visão mais sexy que ele já tinha visto e quando ela entreabriu os lábios para cantar o refrão enquanto abria alguns botões deixou-o excitado novamente.
"What are you willing to do? Oh, tell me what you're willing to do? Kiss it, kiss it better, baby"... ♡
Gemendo baixinho, ele avançou sobre ela prendendo-a contra a parede próxima. Sofia sorriu ofegante quando Serguei ergueu suas mãos sobre a cabeça para ter acesso livre ao seu corpo.
— Tão linda... — Sussurrou o ruivo comprimindo a boca no pescoço dela. — Se a sua intenção era me deixar louco, parabéns por conseguir!
— Ei, eu não acabei minha dança. — Protestou a loira enquanto o namorado enfiava a mão entre suas pernas. — Serguei... — Gemeu ao senti-lo acariciar seu clitóris.
— A menos que você queira me ver ter um ataque por estar bombeado sangue demais no meu pau, amor, você acabou sim! — Ele levou uma das mãos dela até seu membro que pulsava. — Mas eu estou só começando!
Sofia mordeu os lábios quando Serguei a ergueu contra a parede e num movimento rápido se introduziu dentro dela. Um grito de prazer foi sufocado quando ele aprisionou sua boca num beijo possessivo.
"What are you willing to do? Oh, tell me what you're willing to do? Kiss it, kiss it better, baby"... ♡
— X —
Flaviana se remexeu entre os travesseiros buscando uma posição confortável em que pudesse dormir. Não estava realmente com sono e sua mente ainda não tinha parado de pensar nos acontecimentos do dia. Dormir era a única forma de deixar as coisas para trás uma vez que não podia contar com Sofia, pois a amiga estava com o namorado e não queria ser inconveniente atrapalhando o clima entre eles. A culpa era de Sidney, pensou com um suspiro.
Desistindo de lutar, ela fitou o teto deixando que os pensamentos vagassem para aquela tarde e as respostas que tristemente conseguiu. Sua situação não era melhor do que há dois meses, mas curiosamente não se sentia arrependida de procurá-lo. Por coincidência, o seu celular começou a tocar trazendo-a de seus devaneios. A garota esticou o braço para pegar o aparelho da mesinha de cabeceira e foi com surpresa que viu que o motivo da sua insônia era quem ligava tão tarde.
Olhando para o celular, Flaviana ponderou se deveria atender. Eles não tinham... nunca tiveram nada realmente. Com um nó na garganta, ela lembrou-se das palavras duras e simplesmente recusou a chamada. Não permitiria que Sidney brincasse daquela forma com seus sentimentos. Ele ligou mais uma vez e o ela novamente recusou a chamada. Após outro tentativas, Sidney enviou uma mensagem.
Eu tô na frente do seu prédio. Você desce em 5 minutos ou eu vou subir. ✔✔
— Subir? — Flaviana sentou-se, apreensiva não esperando aquela atitude. — Ele ficou louco?
5 minutos. ✔✔
Ela olhou para porta do quarto tentando ouvir algum som, mas tudo estava em silêncio. Sua mãe provavelmente estava dormindo sob o efeito de algum calmante forte, mas ela tinha certeza que nem isso impediria Rosana de ouvir caso Sidney resolvesse fazer uma cena em seu apartamento. Mas ele não faria isso, não é? indagou-se por um momento. Ele não poderia ser tão estúpido. Só que conhecendo aquele idiota, subir lá para discutir era exatamente o tipo de coisa que um cabeça oca como ele faria. Tudo o que ela não precisava agora era outra briga com a mãe e se Rosana visse Sidney outra vez com certeza iria ter um ataque.
Sem alternativa, por fim, a garota pulou da cama tomando todo cuidado para não fazer barulho enquanto andava pelos corredores e saia apressada do apartamento.
No elevador, sua apreensão foi substituída por uma raiva intensa e irracional. Quem ele achava que que era para ameaçá-la daquela forma? Ele a mandou embora sem nenhuma consideração e agora se achava no direito de exigir algo? Quando passou pela portaria, Flaviana já não se importava que estivesse de pijama ou que o porteiro da noite a tenha olhado com curiosidade. Tudo o que ela queria nesse momento era matar Sidney.
Ele a viu marchar em sua direção como se estivesse prestes a arrancar a sua cabeça e de alguma forma isso o reconfortou. Ela foi a primeira pessoa em quem ele pensou, o primeiro nome que sua mente formou quando ficou perdido após o relato do pai. E só ela poderia pôr sua mente no lugar, mesmo que ele não saísse vivo desse embate.
— Você deve achar divertido agir que nem um babaca... — A longa lista de insultos que Flaviana tinha preparado ao sair do apartamento foi interrompido quando Sidney a puxou para ele. — O quê? Ficou louco?!
A garota tentou escapar do abraço empurrando-o com raiva, mas Sidney a segurou firme e sorriu resignado.
— Não se atreva!
— Você sabe que não funciona assim... — Ele abaixou a cabeça até que seus rostos estivessem à centímetros. — Você sabe como acaba, por isso está aqui.
Ele também sabia, por isso estava ali. E tendo aceitado sua derrota, ele a beijou.
— X —
Enquanto esperava o resultado, Anita recostou-se na pia, apreensiva. Estava num estado deplorável, os olhos vermelhos de tanto chorar e com os cabelos revoltos depois de vomitar o jantar. Se não fosse suficiente, seu semblante transparecia uma mistura de tristeza e nervosismo. A única certeza que tinha no momento é que precisava acabar com aquela dúvida o quanto antes.
Um bebê.
A possibilidade parecia absurda, mas os enjoos eram cada vez mais frequentes, o sono, seus seios doloridos, a menstruação... os sintomas se encaixavam. Mesmo que quisesse fingir, não poderia continuar se afligido com a possibilidade. Ela precisava saber. Segurando o teste entre as mãos trêmulas, Anita respirou fundo exalando o ar lentamente dos pulmões.
"Um traço... por favor, um!" Pediu silenciosamente enquanto o medo se espalhava pelo seu corpo. Sua vida e suas relações mudariam drasticamente em poucos segundos e por mais consciente que estivesse do seu descuido, ainda não podia imaginar sua vida a partir daquele momento. Reunindo um pouco de coragem, ela olhou para o teste.
"Dois traços. Grávida. Grávida de um filho de Ben".
Sentindo o peso daquela verdade, Anita escorregou para o chão do banheiro sentando-se sobre as próprias pernas. Sua cabeça girava enquanto a verdade caía como uma bomba. Sua vida estava acabada e ninguém poderia ajudá-la.
Antônio a viu sair do banheiro parecendo desorientada. Estava tarde e provavelmente todos no casarão estavam dormindo, mas a Anita não. Ela segurava algo com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos até para a parca iluminação do local.
"Segredos, Princesa?", indagou-se o rapaz com malícia. Talvez ele pudesse ter alguma vantagem sobre Ben se descobrisse o que a ex namoradinha estava escondendo. Pouco lhe importava se ela parecia arrasada no momento. Dando de ombros, ele a seguiu lentamente enquanto ela subia as escadas sem notar sua presença. Então, num milésimo de segundo, ele a viu parar no meio da escada e oscilar, quase perdendo o equilíbrio. Os dedos trêmulos se agarraram no corrimão, mas não foi o suficiente para sustentá-la. Rápido, Antônio correu até a garota segurando-a no instante exato em que ela perdeu os sentidos.
— X —
— O Ben me procurou hoje.
Sofia levantou a cabeça do travesseiro e fitou Serguei. O ruivo estava parado de braços cruzados, os cabelos molhados após um rápido banho. O semblante do ruivo não transparência muitas emoções, mas ela podia ver o brilho da raiva brilhando nos olhos dele.
— Vocês brigaram? — Indagou a loira sentindo-se.
— Não... — Serguei sentou-se ao lado da namorada e lhe deu um rápido selinho para espantar sua preocupação. Sofia se aninhou ao namorado, descansando a cabeça no ombro dele. — Curiosamente, ele não quis confusão.
— E o quê exatamente o Ben queria?
— Na mente dele, me alertar que você ainda sente algo por ele.
Sofia encarou o namorado dividida entre rir ou gritar de raiva. Quando, no passado, ela poderia imaginar que Benjamim se tornaria aquele tipo de pessoa? Além de inconveniente, era frustrante tê-lo atacando abertamente seus sentimentos por Serguei. Com um suspiro resignado, a loira se recostou contra os travesseiros desejando não pela primeira vez nunca ter se envolvido com Ben.
— Não estou surpresa... ontem, ele esperou até que eu saísse da sala da Raissa para me abordar. — Disse por fim.
— Você não falou nada sobre isso. — Pontuou Serguei incomodado com a informação.
— Não achei que valia a pena.
— Sofia...
— Serguei, eu estive presente nas últimas vezes que vocês se enfrentaram. — Interrompeu-o, embora entendesse o desconforto do namorado. — Fiquei preocupada de que isso pudesse iniciar outra briga. E afinal, não aconteceu nada... só pude comprovar mais uma vez que o que o Benjamim diz sentir por mim não passa de ego ferido.
— Mesmo assim, não confio nele.
— Eu também não. — Ela concordou. Reunindo coragem, resolveu tocar no assunto que a estaca incomodando. — Por isso acho importante sermos sinceros um com o outro. Hoje, por exemplo, aconteceu algo... — Ela pegou o celular e mostrou a foto que havia recebido mais cedo para Serguei. — A pessoa que mandou a foto só tem uma intenção.
— Que nós brigássemos. — Concluiu Serguei irritado. — Você acha que o Ben tem alguma coisa a ver com isso?
— Não sei... não parece o modus operandis dele... sem falar que, não faz muito tempo alguém usou 2.0 para postar o meu vídeo brigando com a Júlia. Pode ter sido a mesma pessoa.
— Seja quem for, tá claro que essa pessoa quer nos prejudicar de alguma forma.
— Sim.
— Sobre a foto... — Serguei pairou sobre a loira encarando-a nos olhos. Não imaginou que o momento em que ajudava Anita quando ela quase desmaiou fosse ser usado para machucar Sofia. — Não passa de um mal entendido.
Talvez ela não acreditasse antes, mas conhecia Serguei o suficiente para saber que ele não era esse tipo de cara. E por isso não deixaria que seus ciúmes de Anita a fizessem perder essa certeza, por mais difícil que fosse.
— Amor, eu sei que você e a Anita são amigos há muito tempo. Não nego que a foto me incomodou, mas confio em você. Eu sei que você nunca me machucaria dessa forma.
Serguei se sentiu aliviado com as palavras da namorada, mas ele também sabia que ela estava se esforçando para agir daquela forma. Ele esperava que agora que tinha finalmente se entendido com Anita, isso acabasse trazendo problemas para seu namoro com Sofia.
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