Equinócio

2 De volta pra casa


Narrado por Renesmee

A ligação com Alice terminou poucos minutos depois. Ela insistiu para que eu não me preocupasse porque Edward estava em casa e tudo havia acabado bem, mas aquilo não diminuiu a inquietação que se instalou dentro de mim. Conhecia meu irmão bem o suficiente para saber que, quando deixava as emoções falarem mais alto, perdia completamente o bom senso. O problema era que, dessa vez, ele não tinha apenas colocado a própria vida em risco. Tinha batido à porta das únicas criaturas que jamais poderiam descobrir a minha existência.

Voltei para o apartamento apenas para arrumar uma mala. Não precisei pensar muito no que levar. Algumas roupas, documentos e um livro que provavelmente continuaria fechado durante toda a viagem. Antes da meia-noite eu já estava dentro de um táxi seguindo para o aeroporto Charles de Gaulle.

Paris continuava viva como se nada tivesse acontecido. As avenidas permaneciam iluminadas, os cafés ainda recebiam clientes e pessoas caminhavam pelas calçadas sem imaginar que, do outro lado do oceano, existiam criaturas capazes de transformar aquela cidade inteira em um enorme banquete. Às vezes eu invejava essa ignorância. Os humanos dormiam tranquilos porque não sabiam o que existia escondido nas sombras.

Enquanto aguardava o embarque, fiquei observando as pessoas ao meu redor. Uma família discutia sobre o excesso de bagagem. Um casal de idosos dividia um pacote de biscoitos enquanto conferia as passagens pela terceira vez. Uma menina tentava convencer a mãe de que precisava comprar um urso de pelúcia na loja do terminal. Eram cenas comuns, pequenas demais para chamar a atenção de qualquer um, mas eu gostava de observá-las.

Havia algo reconfortante na simplicidade da vida humana.

Quando anunciaram meu voo, entrei no avião e ocupei meu lugar próximo à janela. Nunca consegui dormir durante viagens longas. Não porque meu corpo não precisasse descansar, mas porque minha mente simplesmente não desligava. Passei boa parte do voo olhando as nuvens pela janela enquanto lembrava da última vez em que estivera em Forks. Edward ainda nem conhecia Bella.

Sorri sozinha.

Se alguém tivesse me contado que meu irmão centenário perderia completamente a razão por causa de uma adolescente humana, eu provavelmente teria rido da história. Agora já não tinha tanta vontade de rir.

Horas depois, o comandante anunciou o início da descida para Seattle. O céu cinzento do estado de Washington apareceu através da janela como um velho conhecido. Algumas paisagens nunca mudavam. As nuvens pareciam morar ali. Assim que desembarquei, respirei fundo. O cheiro da chuva me atingiu antes mesmo de deixar o aeroporto. Era isso. Eu tinha voltado para casa.

Peguei minha mala, atravessei o saguão e chamei um táxi. O motorista colocou minha bagagem no porta-malas e perguntou para onde iríamos. — Forks.

Ele me lançou um olhar curioso pelo retrovisor. — Vai passar férias?

Sorri. — Algo assim.

As primeiras horas da viagem foram silenciosas. A cidade ficou para trás rapidamente e deu lugar às estradas cercadas por pinheiros intermináveis. Conforme nos afastávamos de Seattle, o movimento diminuía e a paisagem se tornava cada vez mais familiar.

Pequenas cidades apareciam pelo caminho, sempre parecidas umas com as outras, até que o verde começou a dominar tudo novamente. Eu nunca entenderia como Edward conseguia gostar daquele lugar. Paris era feita de luzes, pontes, museus e ruas que pareciam nunca dormir. Forks era feita de árvores.

Muitas árvores. Talvez árvores demais.

Encostei a cabeça na janela enquanto a chuva fina começava a marcar o vidro. Apesar de reclamar daquela cidade desde a adolescência, existia algo reconfortante em voltar. Era impossível olhar aquelas estradas sem lembrar das corridas com Emmett pela floresta, das tardes em que Alice insistia em renovar meu guarda-roupa inteiro ou das aulas intermináveis de Carlisle tentando me ensinar tudo o que sabia sobre medicina. Até Rosalie encontrava um jeito de implicar comigo por qualquer motivo quando eu aparecia.

Sentia falta deles mais do que admitia.

Quando a placa indicando a entrada de Forks surgiu na estrada, meu coração acelerou discretamente. Faltava pouco. Conhecia aquele caminho de memória. Cada curva, cada trecho cercado por árvores e até o momento exato em que a estrada de terra levava à casa dos Cullen. Sorri antes mesmo de o táxi fazer a última curva. Edward já sabia que eu estava chegando. Não era preciso nenhum dom para perceber isso. Depois de tantos anos convivendo com vampiros, eu aprendera a reconhecer quando seus sentidos já estavam voltados para mim. Em algum lugar daquela casa, meu irmão provavelmente escutava o motor do carro muito antes de qualquer humano conseguir.

O táxi reduziu a velocidade até parar em frente à casa. Antes que o motorista pudesse descer para abrir o porta-malas, a porta principal se abriu. Esme foi a primeira a aparecer. Depois Carlisle. Alice praticamente correu escada abaixo. Emmett surgiu logo atrás com o sorriso de sempre, Rosalie tentou manter a pose indiferente por exatamente dois segundos e Jasper permaneceu alguns passos atrás, observando tudo em silêncio. Edward também estava lá.

Fiquei alguns segundos parada antes de abrir a porta do carro. Não importava quantas vezes eu fosse embora. A sensação de voltar para casa continuava exatamente a mesma. Assim que coloquei os pés para fora do táxi, senti o cheiro da floresta me envolver. O ar úmido de Forks continuava exatamente como eu lembrava, carregado pelo perfume dos pinheiros e pela promessa de mais chuva. O motorista ainda caminhava até o porta-malas quando a porta da casa se abriu e minha família apareceu na varanda.

Carlisle foi o primeiro a se aproximar. Esme caminhava ao lado dele com aquele sorriso que conseguia me fazer sentir em casa antes mesmo de qualquer palavra ser dita. Não consegui conter o sorriso quando os dois pararam à minha frente. Carlisle me abraçou com carinho, como fazia desde que eu era pequena.

— Você deveria ter avisado que estava vindo.

Sorri, ainda abraçada a ele. — Se eu avisasse, deixaria de ser uma surpresa.

Ele riu baixinho enquanto se afastava apenas o suficiente para me olhar. — Continua exatamente a mesma.

— Você esperava alguma mudança?

— Um pouco de juízo, talvez.

— A culpa é de quem me criou.

Esme balançou a cabeça, divertida, antes de me envolver em seus braços. O abraço dela continuava sendo o lugar mais acolhedor do mundo.

— Eu senti tanta saudade de você.

— Também senti, mãe.

Ela acariciou meu rosto com delicadeza e sorriu daquele jeito que só ela conseguia sorrir.

— Paris está cuidando bem de você.

— Não tão bem quanto você gostaria.

— Ninguém cuida.

Antes que pudéssemos continuar, ouvi a gargalhada inconfundível de Emmett.

— Finalmente resolveu aparecer!

Ele me puxou para um abraço tão forte que meus pés deixaram o chão.

— Emmett! Minha reclamação só fez com que ele risse ainda mais. — Você continua pesando menos que uma mochila.

— E você continua sem saber receber visitas.

Ele me colocou no chão, ainda sorrindo. — Agora sim. Minha irmã voltou.

Rosalie aproximou-se logo em seguida. Diferente de Emmett, ela nunca foi muito de demonstrações exageradas, mas havia um carinho silencioso em cada gesto seu. Ela passou os olhos por mim da cabeça aos pés e sorriu satisfeita. — Paris fez bem para você. Está linda.

— Você fala isso porque sabe que continua sendo impossível competir com você.

Rosalie sorriu de lado. — Finalmente aprendeu alguma coisa. Alice praticamente se jogou em cima de mim logo depois.

— Você demorou uma eternidade!

— Eu saí de Paris poucas horas depois da sua ligação.

— Mesmo assim demorou. Revirei os olhos. — Você continua dramática.

— E você continua teimosa.

Nós duas rimos ao mesmo tempo.

Mais atrás, Jasper permanecia parado com aquele sorriso tranquilo de sempre.

— Não vai me dar um abraço? — perguntei.

Ele ergueu as mãos em rendição. — Acho melhor manter uma distância respeitosa.

Não consegui evitar a risada. Desde que eu era criança aquela brincadeira existia entre nós. Jasper nunca confiava totalmente no próprio autocontrole quando eu passava muito tempo longe. Meu sangue tinha um cheiro diferente e, embora ele jamais tivesse perdido o controle perto de mim, preferia não desafiar a própria sorte. Caminhei até ele antes que pudesse recuar.

— Você exagera.

— Prefiro exagerar do que testar minha disciplina.

Mesmo assim, dei um beijo em seu rosto. Ele soltou um suspiro resignado.

— Um dia você vai me colocar em apuros.

— Você sobrevive.

Quando me virei novamente, encontrei Edward parado alguns metros atrás dos outros. Ele me observava com um sorriso discreto, mas havia culpa suficiente em seu rosto para que eu soubesse que nossa conversa ainda estava apenas começando. Caminhei até ele sem dizer nada. Edward abriu os braços e me abraçou. Por alguns segundos, toda a irritação que senti durante a viagem simplesmente desapareceu. Eu ainda estava brava com ele. Muito brava. Mas continuava sendo meu irmão.

— É bom ter você aqui — disse ele em voz baixa.

— Não pense que esse abraço significa perdão.

— Eu nem sonharia com isso.

Sorri de canto.

Foi então que um aroma completamente diferente chamou minha atenção.

Humano.

Meu olhar atravessou a varanda e encontrou a porta da casa. Uma garota estava parada ali, observando tudo em silêncio. Ela parecia desconfortável diante de tantos vampiros reunidos, mas ainda assim havia curiosidade em seus olhos. Bastou um instante para juntar as peças. A famosa humana.

Voltei os olhos para Edward.

— Você não vai me apresentar sua visita? Ele acompanhou meu olhar e sorriu antes de caminhar até ela.

— Renesmee, esta é Bella Swan. Bella deu um pequeno passo à frente.

— Oi.

Sorri educadamente. — Então você é a garota que conseguiu convencer meu irmão centenário a esquecer completamente o bom senso.

Bella arregalou os olhos, claramente sem saber se aquilo era uma brincadeira ou uma crítica. Edward apenas passou a mão pelo rosto.

— Eu sabia que essa conversa não seria fácil.

Eu ainda nem tinha começado.

O silêncio que se formou durou apenas alguns segundos. Emmett passou um braço pelos meus ombros e me puxou para perto antes que Edward pudesse responder qualquer coisa.

— Pronto, já começou. Eu disse que ela não pisaria nesta casa sem brigar com alguém.

— Eu nem briguei ainda.

— Ainda. Ele sorriu daquele jeito convencido de sempre.

— Mas você chegou na hora certa.

Olhei para ele sem entender. — Hora certa para quê?

— Para a votação da nova integrante da família.

Franzi a testa imediatamente. — Votação?

Edward lançou um olhar atravessado para Emmett. — Valeu, Emmett.

— O quê? Ela ia descobrir de qualquer jeito. Emmett pegou minha mala como se não pesasse absolutamente nada e saiu andando em direção à casa.

— Vamos entrar. Essa conversa já estava começando antes de você chegar.

Atravessei a porta ainda tentando entender do que se tratava. O cheiro humano ficou mais intenso assim que entrei na sala. Bella permanecia perto do piano, visivelmente desconfortável por estar cercada de vampiros. Eu não podia culpá-la.

Qualquer humano em sã consciência estaria. A sala logo voltou a ficar ocupada por todos nós. Carlisle sentou-se em sua poltrona habitual enquanto Esme permanecia ao lado dele. Alice acomodou-se no braço do sofá, Jasper preferiu ficar um pouco mais afastado e Rosalie cruzou os braços perto da janela. Emmett largou minha mala perto da escada e se jogou no sofá como se estivesse prestes a assistir ao filme mais divertido do ano.

Edward aproximou-se de Bella. — Acho melhor eu te levar para casa.

Antes que ela pudesse responder, olhei para os dois.

— Espera.

Edward voltou-se para mim.

— Que votação é essa?

Rosalie respondeu antes dele. — Você faz parte desta família, Renesmee. Não faz sentido decidir uma coisa dessas sem você.

Bella olhou para todos nós, respirou fundo e juntou coragem para falar. — Eu pedi para ser transformada.

A frase ecoou pela sala. Olhei para Edward quase no mesmo instante. Ele não parecia feliz. Muito pelo contrário. Seu maxilar estava tenso e seus olhos demonstravam uma insatisfação que ele nem tentava esconder.

Aquilo me deu um pequeno alívio. Talvez ainda existisse esperança. Talvez meu irmão ainda não tivesse perdido completamente o juízo. Preferi não dizer nada. Ainda.

Bella passou os olhos por cada um de nós. — Eu queria saber quem é a favor.

Carlisle foi o primeiro a falar. — Eu sou. Bella sorriu discretamente.

Carlisle continuou antes que ela pudesse agradecer. — Não porque ache que essa seja uma decisão simples, mas porque já vi Edward partir uma vez. Não quero correr o risco de perdê-lo novamente.

Esme segurou a mão do marido. — Eu também sou a favor. Acima de tudo, quero ver minha família unida.

Alice nem precisou pensar. — Sim. Bella sorriu para ela.

— Obrigada. Alice deu de ombros. — Eu já me acostumei com a ideia faz tempo.

Todos olharam para Jasper. Ele soltou um pequeno suspiro antes de responder. — Sim.

Bella pareceu surpresa.

Jasper sorriu sem graça. — Não leve para o lado pessoal, Bella. Mas você faz um esforço enorme para não se cortar perto de nós e eu faço outro esforço enorme para não pensar nisso. Acho que a convivência seria muito mais tranquila para nós dois.

Bella soltou uma risada tímida.

Rosalie continuava imóvel. Quando todos voltaram a atenção para ela, sua resposta veio firme. — Não.

Bella abaixou os olhos.

Rosalie prosseguiu com a mesma sinceridade de sempre. — Você é humana. Tem uma vida inteira pela frente. Está disposta a abrir mão de coisas que nunca mais poderá recuperar. Eu jamais desejaria isso para alguém.

A sala mergulhou em silêncio por alguns instantes.

Emmett foi o próximo. — Eu voto sim.

Rosalie lançou um olhar de reprovação para o marido. Ele apenas sorriu. — Ei, alguém precisava equilibrar a votação.

Agora todos olhavam para mim. Respirei devagar antes de cruzar os braços. Bella aguardava minha resposta com expectativa. Edward também.

Sorri de leve. — Embora eu ache que, nesta sala inteira, só a Rosalie esteja usando o bom senso... Olhei diretamente para Bella. — ...meu voto é não.

Ninguém disse uma palavra. Mantive meus olhos nela enquanto continuava. — Você ainda é humana. Ainda pode envelhecer, viajar, construir uma vida, ter filhos, fazer escolhas que deixarão de existir no instante em que abrir mão da sua humanidade. A imortalidade parece fascinante quando observada de fora, mas eu convivo com ela desde criança. Sei muito bem o preço que ela cobra. Voltei meu olhar para Edward. — E, sinceramente, acho que meu irmão está apaixonado demais para enxergar esse preço com clareza.

Edward fechou os olhos por um instante, como quem já esperava que aquela conversa fosse tomar exatamente aquele rumo.