Narrado por Renesmee


Os primeiros dias em Forks passaram mais devagar do que eu gostaria. Eu já sabia que isso aconteceria antes mesmo de deixar Paris, mas uma parte de mim ainda alimentava a esperança de que a cidade tivesse mudado um pouco durante minha ausência. Não mudou. Continuava pequena, silenciosa e cercada por árvores em todas as direções. Depois de uma semana, eu já conhecia novamente a rotina de todos naquela casa. Carlisle passava boa parte do tempo no hospital, Esme se ocupava da casa, Rosalie vivia na garagem com Emmett, Jasper e Alice desapareciam durante horas e Edward... Edward passava praticamente todo o tempo possível com Bella.

Eu ainda não tinha decidido se aquilo me irritava ou me preocupava mais.

Talvez as duas coisas.

Acabei percebendo que minha presença em casa não mudaria o comportamento dele. Se Edward pretendia agir como um adolescente apaixonado depois de mais de um século de existência, nenhuma bronca minha resolveria isso em poucos dias.

Foi Alice quem acabou me salvando do tédio.

Ela apareceu na porta do meu quarto logo depois do café da manhã, já segurando a chave do carro.

— Vamos fazer compras.

Nem levantei os olhos do livro.

— Não.

— Vamos, sim.

— Alice...

— Você está há três dias reclamando que Forks é entediante.

— Porque é.

— Então vamos para Port Angeles.

Fechei o livro e olhei para ela.

— Você está tentando me convencer de que Port Angeles consegue competir com Paris?

Ela abriu um sorriso.

— Claro que não. Mas é o melhor que o estado de Washington consegue oferecer.

Acabei rindo.

Era difícil dizer não para Alice quando ela colocava alguma coisa na cabeça.

Pouco mais de uma hora depois, estávamos caminhando pelo centro de Port Angeles. Não havia grandes avenidas, museus ou cafés centenários como em Paris, mas era bom sair um pouco de Forks. As ruas estavam movimentadas, algumas lojas exibiam promoções de verão e Alice parecia conhecer absolutamente todos os vendedores.

Passei a manhã inteira acompanhando minha irmã de loja em loja. Em algum momento deixei de tentar entender por que ela precisava experimentar vinte casacos diferentes para comprar justamente o primeiro que havia visto. Alice dizia que fazia parte da experiência.

Eu dizia que era loucura.

Ela ignorava.

Quando finalmente conseguimos sair de uma livraria sem que Alice inventasse outra desculpa para entrar em mais uma loja, já carregávamos sacolas suficientes para deixar Esme orgulhosa.

— Você percebe que comprou roupas para os próximos cinco anos? — perguntei.

— Exagerada.

Olhei para as sacolas em suas mãos.

— Quer mesmo discutir isso?

Ela sorriu, mas não respondeu.

Continuamos caminhando pela calçada quando, de repente, seus passos diminuíram.

Conhecia Alice bem demais para não perceber.

Seu sorriso desapareceu.

Os olhos perderam o foco por um instante.

Ela simplesmente parou no meio da calçada.

Segurei seu braço antes que alguém esbarrasse nela.

Esperei.

As visões nunca duravam muito.

Poucos segundos depois, Alice piscou algumas vezes e voltou a me olhar.

Seu rosto estava completamente diferente.

— Alice?

Ela respirou fundo.

— Precisamos ir embora.

Franzi a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

— Depois eu explico.

Ela já caminhava em direção ao estacionamento antes mesmo de terminar a frase.

Acompanhei seus passos sem insistir. Durante todos aqueles anos, aprendi que pressionar Alice logo depois de uma visão era inútil. Se ela ainda não queria falar, existia um motivo.

Entramos no carro e ela deu partida tão depressa que mal tive tempo de colocar o cinto.

O caminho até Forks começou em um silêncio estranho.

Alice mantinha os olhos fixos na estrada e, pela primeira vez desde que eu chegara, parecia genuinamente preocupada.

Pegou o celular no console central e discou um número que conhecia de cor.

Carlisle atendeu quase imediatamente.

— Alice?

— Carlisle, preciso que você faça uma coisa.

Ela ouviu a resposta por alguns segundos.

— Não importa como. Só preciso que Edward esteja em casa quando chegarmos.

Meu olhar encontrou o dela por um breve instante.

Alice apertou ainda mais o volante.

— É importante. Muito importante.


Fiquei na sala durante todo o tempo. Ninguém parecia disposto a continuar uma conversa comum depois da ligação de Alice para Carlisle. Esme tentou manter a tranquilidade preparando chá, Emmett ocupou o sofá como se estivesse assistindo a um jogo de beisebol e Rosalie permanecia encostada na janela, observando a floresta do lado de fora. Jasper era o único que parecia acompanhar a ansiedade de Alice. Eu podia ver que ele tentava acalmá-la, mas nem mesmo seu dom parecia surtir muito efeito.

Alice andava de um lado para o outro desde que voltáramos de Port Angeles.

Aquilo começou a me incomodar.

Ela nunca ficava nervosa sem motivo.

O som de um carro interrompeu o silêncio da casa.

Alice parou de andar no mesmo instante.

— Ele chegou.

Poucos segundos depois, a porta da frente se abriu.

Edward entrou sozinho.

Pelo menos uma boa notícia.

Bella não estava com ele.

Meu irmão nem precisou perguntar o que havia acontecido. Bastou um olhar para Alice e eu percebi que ele já sabia do assunto. Seu rosto continuava impassível, como sempre, mas eu o conhecia bem demais para não perceber a preocupação escondida atrás daquela expressão perfeitamente controlada.

Ele fechou a porta e caminhou até o centro da sala.

— Conte para todos, Alice.

Ela respirou fundo.

— Eu vi Victoria.

O nome fez Carlisle erguer discretamente a cabeça.

— Ela está voltando.

O silêncio tomou conta da sala.

Alice continuou.

— Ela não desistiu. Continua atrás de Bella.

Edward cruzou os braços.

— Jacob tinha razão.

Olhei para ele.

— Jacob?

Edward assentiu lentamente.

— Há alguns dias ele vem dizendo que Victoria está rondando a região. A matilha encontrou rastros perto das terras da reserva, mas ela nunca permanecia tempo suficiente para ser localizada.

Franzi a testa.

Até aquele momento eu estava tentando organizar todas aquelas informações.

— Espera aí.

Todos olharam para mim.

— Essa Victoria é a mesma vampira que tentou matar Bella?

Carlisle respondeu com calma.

— Sim.

— E ela voltou por vingança?

— James era seu companheiro. Ela responsabiliza Bella pela morte dele. Enquanto Bella estiver viva, Victoria não vai desistir.

Soltei um suspiro.

— Então realmente existe alguém mais teimoso que Edward.

Emmett riu baixo.

Ignorei.

Outra pergunta chamava muito mais minha atenção.

— E quem é Jacob?

Rosalie foi a primeira a responder.

Um sorriso divertido apareceu em seu rosto.

— O rival do Edward.

Olhei de Rosalie para Edward.

Depois voltei para Rosalie.

— Rival?

— Eles discordam em praticamente tudo.

Não consegui conter a risada.

— Impressionante...

Cruzei os braços e balancei a cabeça.

— Os homens desta região realmente têm uma queda por garotas caipiras e completamente sem sal.

Por um segundo, a sala inteira ficou em silêncio.

Então Emmett explodiu em uma gargalhada tão alta que quase fez a casa tremer.

Ele precisou apoiar uma das mãos no sofá para recuperar o fôlego.

— Essa foi boa! Muito boa!

Rosalie levou a mão à boca, claramente tentando esconder um sorriso.

Até Jasper desviou o olhar para disfarçar.

Edward, por outro lado, me lançou um olhar que teria feito qualquer humano recuar.

— Ela não é sem sal.

Dei de ombros.

— Ainda estou tentando descobrir onde está a graça.

— Você acabou de conhecê-la.

— Exatamente.

Emmett voltou a rir.

— Eu gostei dela ainda mais agora.

— Como se isso fosse novidade — murmurou Edward.

Olhei para meu irmão com a maior inocência que consegui fingir.

— O quê? Estou apenas tentando entender o que fez um vampiro de mais de cem anos atravessar meio mundo disposto a morrer por uma garota que mal consegue sustentar uma conversa sem corar.

Se o olhar pudesse matar, Edward teria conseguido o que Victoria ainda estava tentando fazer.


O sorriso de Emmett demorou alguns segundos para desaparecer. A atmosfera leve que existira por um breve instante se dissolveu tão depressa quanto surgiu.

Edward continuava olhando para mim.

— Você está julgando a Bella sem conhecê-la.

Cruzei os braços.

— Estou julgando as consequências. Isso é diferente.

— Você acha que sabe de tudo porque ficou anos escondida em Paris.

— Não. Eu acho que você deixou de pensar.

Ele deu um passo à frente.

— Você nem conhece a Bella.

— E você a conhece há quanto tempo? Alguns meses? Tempo suficiente para se entregar aos Volturi?

A mandíbula de Edward se contraiu.

— Você não entende.

— Então me explica. Porque, até agora, tudo o que eu vi foi um vampiro centenário colocando uma família inteira em risco por causa de uma garota humana.

— Chega.

A voz dele saiu baixa.

— Ainda não.

Percebi Carlisle se mover discretamente da poltrona, como se já previsse que aquela conversa estava indo longe demais.

Ignorei.

Passei dias atravessando um oceano inteiro para ter aquela conversa.

Não iria parar agora.

— Você passou mais de um século sendo racional. Bastou conhecer uma garota para esquecer tudo o que Carlisle tentou ensinar. Você realmente acha que isso faz algum sentido?

Edward me encarava em silêncio.

Depois de alguns segundos, falou com uma calma que me incomodou ainda mais.

— O problema é que você acha que amar alguém torna as pessoas fracas.

Franzi a testa.

— Nunca disse isso.

— Não precisa dizer.

Ele respirou fundo.

— Bella não tem culpa de...

Edward interrompeu a própria frase por um instante, como se ainda tivesse tempo de voltar atrás.

Não voltou.

— ...você ter perdido quem amava.

O mundo pareceu parar.

Ninguém respirou.

Ninguém se mexeu.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Edward sustentou meu olhar por apenas um segundo antes de continuar.

— Nem toda história precisa terminar de forma trágica, Renesmee.

As palavras acertaram exatamente onde eu passara anos tentando esconder a dor.

Meu peito apertou com tanta força que, por um instante, esqueci completamente onde estava.

A lembrança veio como uma onda.

Um sorriso.

Uma promessa.

Um adeus que jamais deveria ter existido.

Passei anos aprendendo a viver com aquela ausência.

Edward acabara de arrancar a ferida da cicatriz.

O silêncio dentro da sala tornou-se insuportável.

Carlisle foi o primeiro a quebrá-lo.

— Edward.

Havia repreensão em sua voz.

— Já basta.

Esme olhava para mim sem saber o que dizer.

Alice havia perdido completamente a expressão despreocupada de sempre.

Até Emmett, que fazia piadas em qualquer situação, permanecia calado.

Edward fechou os olhos por um instante.

Quando voltou a abri-los, a culpa era evidente.

— Renesmee... eu...

Não deixei que terminasse.

Desviei os olhos dele como se sua presença tivesse deixado de existir.

Não havia raiva suficiente dentro de mim para responder.

Só havia dor.

Virei-me em direção à porta.

— Renesmee... — chamou Esme.

Continuei andando.

Ouvi Carlisle dizer meu nome logo atrás.

Depois Alice.

Depois Emmett.

Nenhuma voz conseguiu me fazer parar.

Abri a porta da casa e o ar frio atingiu meu rosto. Desci a varanda quase correndo e, poucos segundos depois, já estava entre as árvores.

A floresta me recebeu em silêncio.

Corri sem destino, desviando dos troncos conhecidos, saltando raízes e riachos como se meu corpo soubesse exatamente para onde ir, mesmo quando minha mente não fazia ideia.

Eu só precisava me afastar.

Da casa.

Das palavras de Edward.

Da lembrança que eu havia passado tantos anos tentando manter enterrada.

E, pela primeira vez desde que voltara a Forks, percebi que não era apenas meu irmão quem carregava fantasmas do passado.

Os meus também haviam encontrado o caminho de volta.