Equinócio
1 Epílogo
Notas iniciais
Narrado por Renesmee
Nunca conheci ninguém como eu. Na verdade, nem mesmo sei o que sou.
Carlisle passou anos tentando descobrir. Livros antigos, documentos esquecidos, relatos de povos que existiram antes mesmo dos Volturi. Sempre que encontrava alguma pista, ele passava noites inteiras estudando, mas todas as buscas terminavam da mesma forma: sem respostas.
Meu coração bate. Meu sangue corre pelas minhas veias. Eu respiro, durmo, sonho e acordo como qualquer pessoa. Ao mesmo tempo, existem coisas em mim que desafiam qualquer explicação. Meu cheiro não é humano, meu corpo não é humano e, ainda assim, também não sou uma vampira. Cresci depressa demais e, quando completei seis anos, meu desenvolvimento simplesmente parou. Desde então, meu reflexo nunca mais mudou.
Hoje tenho quinze anos. Quinze anos de vida e nove com o mesmo rosto.
Durante muito tempo, essa diferença me incomodou. Eu observava as pessoas crescerem, mudarem o corte de cabelo, ganharem novas marcas no rosto, amadurecerem. Enquanto isso, eu permanecia exatamente igual. Aprendi a aceitar que algumas perguntas talvez jamais tenham resposta, mas isso nunca impediu Carlisle de continuar procurando.
Ele e Esme me encontraram quando eu ainda era um bebê. Não havia documentos, roupas que revelassem minha origem ou qualquer pista sobre quem me deixou ali. Eles simplesmente me levaram para casa e me deram uma família. Nunca fizeram distinção entre mim e meus irmãos. Edward, Alice, Emmett, Rosalie e Jasper nunca me trataram como uma estranha. Cresci cercada de amor e isso sempre foi suficiente para mim.
Também cresci sabendo que minha existência precisava permanecer em segredo.
Carlisle nunca escondeu seus medos. Se os Volturi descobrissem alguém como eu, dificilmente aceitariam me deixar em paz. A curiosidade de Aro era conhecida por todo o mundo vampírico e meu pai não estava disposto a descobrir até onde ela poderia chegar. Por isso, quando tive idade para escolher onde viver, Paris pareceu a resposta perfeita.
Eu nunca gostei de Forks. Chovia demais, a cidade era pequena demais e todo mundo parecia saber da vida de todo mundo. Paris era o completo oposto. As ruas estavam sempre cheias, os cafés permaneciam abertos até tarde e ninguém prestava atenção na garota que passava horas caminhando às margens do Sena ou desaparecia dentro de uma livraria por uma tarde inteira. Pela primeira vez, eu podia sentir que levava uma vida quase normal.
Visitava minha família sempre que podia e voltava para Paris poucos dias depois. Funcionava para todos nós. Eu permanecia protegida e os Cullen continuavam longe da atenção que minha existência poderia despertar.
Depois de tantos anos, Paris deixou de ser apenas a cidade onde eu morava. Ela se tornou meu refúgio. Enquanto Forks parecia pequena e silenciosa demais para alguém como eu, Paris fazia o favor de me lembrar todos os dias que era possível desaparecer no meio da multidão. Ninguém fazia perguntas. Ninguém me observava por tempo suficiente para notar que havia algo diferente em mim.
Naquela manhã, saí cedo do apartamento e caminhei sem destino pelas margens do Sena. Gostava de fazer isso quando a cidade ainda despertava. Os barcos cortavam o rio lentamente, alguns corredores passavam por mim com fones de ouvido e os primeiros turistas já enchiam as calçadas, apontando câmeras para tudo o que viam. Atravessei a Pont des Arts, passei algum tempo folheando livros antigos em uma pequena livraria perto do Quartier Latin e, como fazia quase todos os sábados, terminei a manhã comprando flores em uma banca de rua. Esme dizia que qualquer lugar ficava mais bonito com flores. Eu nunca admitiria isso para Rosalie, mas ela tinha razão.
À tarde, caminhei sem pressa pelo Jardim de Luxemburgo, observando crianças brincando enquanto os pais conversavam nos bancos espalhados pelo parque. Às vezes eu me perguntava como teria sido minha infância se eu fosse apenas uma garota comum. Talvez tivesse caído de bicicleta, colecionado cicatrizes nos joelhos ou reclamado da escola como qualquer adolescente. Em vez disso, aos seis anos meu corpo decidiu que já havia crescido o suficiente e nunca mais mudou. Hoje eu tinha quinze anos, mas carregava o mesmo rosto havia quase uma década.
Esse pensamento já não me machucava como antes. Era apenas mais uma das muitas perguntas sem resposta que faziam parte da minha vida.
Quando o sol começou a desaparecer atrás dos prédios, entrei em um pequeno café que costumava visitar sempre que queria terminar o dia em silêncio. Escolhi uma mesa próxima à janela, pedi um cappuccino e fiquei observando o movimento da rua. Casais passavam de mãos dadas, amigos riam alto enquanto atravessavam a calçada e um músico de rua tocava violino na esquina. Era estranho como a normalidade dos outros podia ser tão agradável de assistir.
Eu estava distraída quando alguém parou ao lado da minha mesa.
- Este lugar está ocupado?
Levantei os olhos e encontrei um homem que devia ter pouco mais de trinta anos. Bem vestido, sorriso confiante e perfume forte o suficiente para qualquer humano notar.
- Não. Pode sentar.
Ele agradeceu e puxou a cadeira.
A conversa começou inocente. Perguntou se eu era francesa. Respondi que não. Quis saber de onde eu era. Disse apenas que vinha dos Estados Unidos. Em poucos minutos, o interesse dele deixou de ser uma simples conversa entre desconhecidos.
- Confesso que não consegui deixar de reparar em você. Uma mulher bonita sozinha em Paris é um convite difícil de ignorar.
Sorri por educação.
Se ele soubesse o convite que realmente estava ignorando, provavelmente teria escolhido outra mesa.
Enquanto ele falava, eu ouvia muito mais do que suas palavras. O coração dele batia firme dentro do peito, marcando um ritmo constante que meus ouvidos captavam com perfeição. O sangue percorria suas veias como um rio silencioso, quente, vivo. Era um som familiar. Um som que eu aprendera a reconhecer desde criança.
Minha garganta ardeu por um breve instante.
Nada que eu não soubesse controlar.
Carlisle havia me ensinado cedo que autocontrole era uma escolha diária, não um dom. Eu nunca machucara um humano e não pretendia começar naquela noite.
- Foi um prazer conversar com você — falei com delicadeza. — Mas estou esperando uma pessoa.
Ele pareceu decepcionado, embora tentasse esconder.
- Talvez em outra ocasião.
- Talvez.
Ele se levantou, desejou uma boa noite e desapareceu entre as mesas.
Esperei alguns segundos até que o som do coração dele se misturasse aos de dezenas de outras pessoas do lado de fora. Então levei a xícara aos lábios e tomei um gole do cappuccino, sorrindo comigo mesma.
Os humanos realmente tinham uma coragem impressionante.
Ou uma falta absoluta de instinto de sobrevivência.
Foi nesse momento que meu celular vibrou sobre a mesa. O nome de Alice apareceu iluminando a tela.
Ela nunca ligava àquela hora.
Meu sorriso ainda estava no rosto quando deslizei o dedo pela tela.
— Se você estiver ligando para perguntar se eu já jantei, saiba que estou ofendida. Achei que finalmente tinha conquistado minha independência.
Ouvi a risada de Alice do outro lado da linha.
— Às vezes você parece o Emmett de saia.
— Isso foi um elogio ou uma ofensa?
— Ainda não decidi.
Ri baixinho e recostei na cadeira. Sempre era assim com Alice. Mesmo quando estávamos separadas por um oceano inteiro, bastavam alguns segundos para parecer que ela estava sentada na minha frente.
— Então me conta. Qual é a fofoca do dia para justificar uma ligação a essa hora? Não me diga que o Emmett convenceu o Jasper a participar de alguma competição idiota outra vez.
Do outro lado da linha, o silêncio durou mais do que deveria.
Meu sorriso desapareceu aos poucos.
— Alice?
Ela respirou fundo antes de responder.
— O Edward perdeu o juízo.
Franzi a testa imediatamente.
— O assunto do Ed ainda é a namorada humana?
— É.
Balancei a cabeça, olhando pela janela do café. Desde que Edward conhecera Bella Swan, parecia incapaz de tomar uma decisão sensata. Eu ainda não entendia como alguém tão inteligente conseguia agir de forma tão impulsiva quando o assunto era aquela garota.
— O que ele aprontou desta vez?
A resposta veio baixa.
— Ele foi até o clã Volturi.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Por um instante, deixei de ouvir as conversas ao meu redor, o tilintar das xícaras e até o trânsito do lado de fora. Tudo o que consegui ouvir foi a voz de Alice ecoando na minha cabeça.
Os Volturi.
Senti um frio percorrer meu corpo.
— Alice... você está falando sério?
— Estou.
Fechei os olhos e apoiei um cotovelo sobre a mesa.
Edward só podia ter enlouquecido.
Passamos anos tomando cuidado com cada passo, evitando qualquer situação que chamasse a atenção dos Volturi. Carlisle sempre repetia que o maior erro de um vampiro era fazê-los olhar em sua direção. Eu conhecia aquele discurso desde criança e sabia exatamente por quê. Se Aro algum dia descobrisse que eu existia, minha vida deixaria de me pertencer.
E Edward simplesmente decidira ir até eles.
Por vontade própria.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando manter a calma.
Alice começou a explicar tudo. Bella havia desaparecido por algumas horas, Edward acreditou que ela estivesse morta e decidiu provocar os Volturi para que o matassem. Por pouco não transformou uma tragédia em algo ainda pior.
Quanto mais eu ouvia, mais incrédula ficava.
Quando Alice terminou de contar, permaneci alguns segundos em silêncio, encarando meu reflexo na janela do café.
— Ele realmente perdeu o juízo — murmurei.
— Eu sabia que você diria isso.
Passei a mão pelos cabelos, respirando fundo. Não era apenas a irresponsabilidade de Edward que me incomodava. Era o risco que ele havia feito toda a nossa família correr. Bastava um detalhe fora do lugar, uma pergunta a mais de Aro ou um pouco mais de curiosidade, e quinze anos de segredos poderiam ter acabado em poucos minutos.
Naquele instante, tomei uma decisão.
Paris teria que esperar.
Estava na hora de voltar para Forks e colocar um pouco de juízo na cabeça do meu irmão vampiro.

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