Equilibrium
10 Capítulo 9 - Tutorial para o Apocalipse
Todo mundo saiu da sala e eu fiquei alternando entre encarar o teto e o pó no chão. Até mesmo minha mãe se teletransportou por mágica.
Alec entrou na sala novamente e colocou a mão no meu ombro. Notei que um dedo dele se enroscou em uma onda do meu cabelo.
Cravei as unhas na minha palma da mão.
— Não encoste em mim.
Ele tirou a mão, puxou uma cadeira para perto de mim e se sentou na minha frente.
— Eu queria falar com você — Ele passou a mão pelo cabelo — Não é o que você está pensando...
Ele não estava mais com aquela postura indiferente, parecia vulnerável até. Mas isso podia ser apenas meu cérebro tentando me tapear, deixar as coisas menos traumáticas.
E há um fato: 95% das vezes que alguém diz "não é o que você está pensando", bem, é exatamente o que você está pensando.
Se alguém desse ordem para ele me incinerar, ele faria. Eu não duvidava. Isso gerava uma dorzinha estranha, saber que meus companheiros de infância tinham se tornado assassinos e me matariam facilmente. Será que Vanessa me faria arrancar minhas próprias unhas?
Provável que ela apreciasse a vista.
Encarei Alec, parecendo tão intocável e perfeito após matar um garoto. As pessoas deveriam ficar horrendas depois de algo como isso.
— Só suma da minha frente.
E ele sumiu.
Desci as escadas para o meu quarto com o maior sentimento de vazio e decepção. Ah, não podemos esquecer da neurose também, quase fui induzida a pular escadas abaixo, então, aquele lugar não era o antro mais seguro. Enfim, apesar da minha pouca energia, desci as escadas quase correndo. A força do desespero.
Inclusive, quase tropecei na Idia.
— Parece que tá fugindo do Grim Reaper — a gata comentou.
Encarei aquela criaturinha aparentemente fofa. Olhos azuis cristalinos, focinho pequeno, patinhas manchadas de branco. E virava uma onça gigante nas horas vagas.
— Eu não me surpreenderia se o próprio Papa quisesse minha cabeça.
— Eh, o Papa dos humanos não, pelo menos. Mas eu não apostaria nos nossos sacerdotes…
Maravilhoso. Afinal, tudo o que sacerdotes querem é que seus mitos se encarnem em corpos humanos e falhos. Ou, melhor ainda, versões falsificadas do seu mito e com poderes escassos.
— Você parece perturbada — Idia fez a inteligentíssima observação.
Antes de tudo, vou recapitular alguns pontos principais da minha perturbação, caso você, querido leitor, seja insensível ou tenha problemas de memória:
Ponto 1: Eu tinha acabado de ver uma execução. A propósito, eu vivia no mundo em que biopolitíca e direitos humanos eram entrelaçados. Execuções e tortura eram coisas lá das monarquias absolutistas.
Ponto 2: Apesar do cara ter quase me feito pular uma boa metragem, eu não tinha certeza se ele era um espião ou um adolescente babaca. Meu sexto sentido gritava que era a segunda opção.
Ponto 3: Eu não era Diana. E não bastando isso, minha mãe me colocou para fingir ser uma figura mítica em um universo onde adolescentes babacas são torturados e executados.
Ponto 4: O problema dos poderes. Até o momento, eu tinha manifestado um total de 0 poderes. E se isso fosse permanente? Como um bando de bárbaros reagiria sabendo que a lenda deles é inútil?
Ponto 5: Minha mãe assistiu uma execução de boas. Meus colegas de infância cometeram tortura e assassinato tranquilamente. Inegavelmente traumático.
Ponto 6: Ah, sim, o ponto filosófico: Almas podem ser destruídas? Isso me perturbava pra caramba.
Acho que era só isso.
— Um pouco — afirmei — Você sabe o que aconteceu?
— Execução? — Ela disse com uma indiferença notável.
Aparentemente, tudo acabava em execução. Não era o sinal mais positivo do dia, digamos.
— Você sabia que havia uma chance dele ser só um adolescente ridículo tentando uma pegadinha tosca — falei — Igual eu fui muitas vezes. Me deixar socar a cara dele até arrebentar os dentes poderia ser uma punição adequada. Agora essa coisa de arrancar as próprias unhas e apagar a alma é demais.
Idia suspirou.
— Provavelmente ele era. Mas tudo aqui gira em torno de exemplos. Ninguém mais vai encostar na reencarnação de Diana — ela olhou para mim com aqueles olhos penetrantes que podiam ver minha alma. Será que ela sabia? — Tudo é uma questão de aparência, postura e medo, se acostume com isso.
E saquei a dica. Sem poderes, eu era presa fácil. Qualquer descendente de deuses de quinta categoria poderia resolver me testar, infernizar, fazer pegadinhas. O primeiro que tentou, teve a alma apagada.
Ninguém iria tentar de novo por um longo tempo, obviamente. No entanto, meu status não mudava: sem poderes, sem ser a reencarnação de uma deusa e seriamente lascada se alguém descobrisse. Minha mãe era uma deusa, podia aliviar a punição ou me resgatar, mas será que chegaria rápido o bastante? Eu não pagaria para ver.
A solução era entrar no personagem. Agir exatamente como uma rainha poderosa reencarnada agiria. Não confiar em ninguém, manter a boca fechada e manter a postura.
Afinal, não importa ser, o importante é parecer.
Mais tarde, encontrei um papel na minha cama quando cheguei no quarto. Letra de mamãe.
Era incrível, mal tinha assumido que era uma deusa e já não aparecia mais para mim. De qualquer forma, vou colocar os trechos da carta aqui para vocês.
"Para Christine, minha filha"
Ahh, cartas são tão antiquadas. E o aposto? Será que ela achou que eu esqueceria que sou filha dela?
"Produzi um manual de instruções e passo a passo de como tudo deverá ser feito"
Enfim, a era de profecias acabou, acho. Nos tempos modernos, tudo vem em tutorial, até mesmo como salvar o mundo. Eu deveria me sentir agradecida que ela não tinha feito uma live no Instagram sobre isso.
"Caso todos os passos sejam seguidos rigorosamente, não haverá dano colateral. Em primeiro lugar, você deve manter a postura e a racionalidade nesse momento difícil"
Ah, sim, danos colaterais. Se a palhaça de salvar o mundo fosse tão segura e básica — Ui, ui, siga o manual —, ela mesma faria isso.
“Você deve manter a postura e evitar conflitos com seus colegas que vão garantir a sua segurança. Conheço você, sei que adora encrencas, mas não é hora. Pode retornar a programação usual mais tarde.
O plano é básico:
Uma garota metamorfa, chamada Mary, irá assumir sua forma e dois garotos, Sam e Damien, irão viajar com ela na direção oposta a sua. Claramente, Trivial terá problemas em distinguir a verdadeira, caso esteja espionando — e ela está, não tenha dúvidas — e o esforço dela será dividido em dois focos.
Infelizmente, não temos metamorfos capacitados e suficientes para gerar mais dúvidas. Mas isso basta.
Por sua vez, você irá para os lugares destinados no verso no mapa. Lá, você irá encontrar dois deuses: Hermes e Thanatos.
O ponto onde está a balança é fechado e só há duas adagas em forma de chave que podem abrir o local. Para evitar tirania, eu e Erébo, na época que vivíamos em harmonia, dividimos as duas chaves para dois deuses que se odeiam e jamais se uniriam para arquitetar contra nós.
Hermes é mais maleável, ele gira em torno da indiferença em relação a mim. Não me ama, mas tampouco me odeia. O problema é que ele quer lucrar com tudo, se ele notar um interesse na adaga, vai querer até sua alma e mais alguns extras em troca. Posso estar sendo esperançosa, ele tem mania de colecionar, as chances dele dar a adaga de boa vontade são baixas. Ele continua desinformado, até onde sei. Os deuses, em sua maioria, não notaram que Erébo está se articulando, então, eles continuam na sua vida de normalidade.
Ele é o ponto mais fácil. Vive em festas, uma esbórnia pura, não vai achar estranho se surgir mais jovens descendentes de deuses para o adorar.
Engane o deus da trapaça e pegue sua adaga."
Ahh, moleza fazer isso. A última que pensou que podia vencer um deus em seu domínio virou uma aranha.
" Thanatos é mais complexo. Temos uma relação instável, ele é meu filho também e tende a me culpar por tudo que deu errado na vida dele. É o filho divino mais adorado de Erébo, é certo que ele sabe de tudo que ocorre e deve estar informado da sua possível tentativa de recuperar a adaga.
Ele é tão neurótico quanto um imperador romano com saturnismo. Pode ser complicado extrair a adaga dele, mas ele tem um defeito: É perfeccionista."
Olha que beleza, meu povo, um perfeccionista. Nunca conheci um, embora tenha ouvido que é o defeito ideal e clichê para se dizer em uma entrevista de emprego. Quem diria que o deus da morte era um perfeccionista.
"Ele vai querer fazer o trabalho completo. Caso você apareça, ele vai querer ter certeza que você estará capturada ou morta para enviar ao pai dele. Serviço 100% completo. Nessa brincadeira, ele pode se distrair lhe caçando e perder o foco da adaga.
É isso. Atrás estão as dicas de trajeto e rota, só posso dizer isso sobre os deuses, é o que me vem na cabeça agora.
Seja esperta e não confie em ninguém.
Estou confiando em você, assinado, Mamãe."
Fantástico. Aquilo nem era mesmo um manual com etapas.
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