Equilibrium

11 Capítulo 10 - Sinais


Pela primeira vez na minha vida, juro, tive insônia, mas isso não é muito surpreendente. Vanessa também não estava dormindo direito, eu conseguia ouvir ela mudando de posição na cama a cada 2 minutos pelo menos. Fiquei olhando para o teto e planejando. Saudades da época que meus problemas podiam ser solucionados com equações.

— Idia, acorda — Sacudi a gata que estava compartilhando o travesseiro comigo. Isso parecia bem mais fofo quando eu não sabia que ela era uma onça.

— Deuses, vá dormir.

— Noo.

Levantei da cama, peguei meu celular e coloquei o modo lanterna. Vasculhei as gavetas da Vanessa até achar uma boa quantia de grampos de cabelo.

Peguei Idia no colo na marra e abri a porta. Sim, sou corajosa, tente pegar um gato contra sua vontade e você verá isso.

— Onde você está indo? — Vanessa parecia bem desperta.

— Não é da sua conta — Cantarolei — Vou deixar para sua imaginação.

Por alguns momentos, pensei que a criatura ruiva iria me seguir, mas não. Acho que ela chegou a conclusão que não queria ter nenhuma parte no que eu estava fazendo de madrugada.

Desliguei a lanterna e fui andando no escuro pleno.

— Idia, me avise se alguém estiver nos seguindo — falei — e também quando chegar o lance de escadas certo.

Ela soltou um miado mau-humorado, provável que fosse um sim.

Coloquei a mão no corredor e fui descendo as escadas. Ligar a lanterna do celular era uma tentação, mas eu não queria correr o risco de chamar a atenção de alguma criatura insone por aí.

Depois de uma eternidade de degraus, cheguei milagrosamente ilesa até a porta da sala de treinamento.

— Você acha que eles colocaram alguma defesa mágica? — perguntei para Idia.

— Só sei que nada sei.

Maldito dia em que Sócrates deu um tutorial para respostas vagas.

Bem, levou 3 grampos de cabelo e um tutorial de abrir portas legendado no YouTube. Nada de proteção mágica ou uma fechadura mais complexa. Mas pensando bem, uma escola acostumada a executar alunos indisciplinados nunca iria pensar que alguém iria ter audácia suficiente na alma para invadir uma sala durante a noite.

Não acendi os interruptores, que os deuses me livrasse de uma criatura insone me descobrir dando um tour por lá em plena madrugada.

Fui até as estantes de armas usando a lanterna do celular, iluminando sabres, espadas, lanças, tridentes. Parei na frente de uma estante com punhais e me abaixei para olhar os menores, que ficavam na parte debaixo. A localização deles ainda era vantajosa para mim, ninguém iria notar que sumiram dois punhais pequenos da parte debaixo da estante.

Eram pequenos suficiente para caber em um bolso de casaco e a espessura do punho era pequena. Certamente poderiam gerar um dano considerável se acertassem a região certa.

Coloquei um em cada bolso da minha jaqueta de moletom para testar, não aparecia formato externo e eram ótimos para sacar. Uma jovem com as mãos no bolso lança sinais de timidez, medo e nervosismo em linguagem corporal, ninguém iria prever que eu estava com duas lâminas afiadas prontinhas.

— Esperta — Idia sussurrou.

Sorri maléficamente.



Depois de mais uma descida e subida de escada, meu corpo pifou na cama. Acho que o cansaço de todos aqueles tours infernais pelas escadas mais o da luta se somaram. Aí, mesmo preocupada e estressada, apaguei igual uma morta.

— Christine! Christine — Ouvi uma voz distante me invocando.

— Me deixe dormir, mãe.

— Não sou sua mãe, mamute.

É, minha mãe usualmente não me chamava de mamute. Abri os olhos e olhei para Layla.

— Você está atrasada.

Pisquei, minha alma ainda estava tentando voltar para o corpo.

— Mas coloquei o celular para despertar — Não sou igual aquele povo estranho que têm despertador biológico, se nada faz som, durmo até a tarde. Ou um pouco mais.

Ela pegou meu celular e jogou no meu colo. Idia estava me encarando com a maior cara de morta viva, aparentemente, gatos não são despertadores confiáveis.

— Tá desligado.

E pior que o bendito estava mesmo. Provável que a harpia ruiva tivesse desligado só para me fazer perder a hora.

— Talvez eu tenha que curar a infantilidade interior daquela criatura na porrada.

Layla suspirou.

— Nem tenha ideias, você vai apanhar.

Ah, é, eu era uma criatura sem poderes e sem superforça. A realidade me deu um tabefe na cara; a mesma garota que desligou meu celular para me azucrinar tinha torturado um menino ontem a noite.

— Hum, eu tenho que falar com você, é um pouco sério.

Layla já estava jogando um pente para mim.

— Vamos rápido, sua mãe comprou passagens agendadas para 7:30.

Minha mãe e Layla tinham uma paixão em comum por acordar cedo, aparentemente. Senti vontade de me jogar na cama e começar a desabafar com Layla, mas eu não podia fazer isso. Minha mãe, que sempre aparentou ser uma excelente e ética professora, ficou observando caladinha enquanto uma tortura quase medieval acontecia. Alex e Vanessa, que eu conhecia desde criança, tinham matado e torturado um garoto. Como eu podia confiar em Layla? Se eu falasse sobre minha indentidade falsa, talvez ela contasse para Ilithya. No máximo, podia contar sobre a tortura e observar a reação dela.

E depois, deixei pra lá. Minha alma ainda não tinha voltado para o meu corpo, então era meio impossível tomar decisões inteligentes.

— Você quer mesmo vir? — perguntei, cautelosamente. Algo me dizia que essa viagem não seria só flores, talvez eu tivesse feito burrada em arrastar ela para isso.

— Claro que quero — Ela sorriu de lado, mostrando as covinhas. Ah, apesar de ser contida, eu podia notar que ela estava animada como um leprechaun. Eu também estaria se não soubesse os podres — Preciso de adrenalina na minha vida de programadora.

— Talvez eu possa fazer um quizz enquanto seu computador com tooodos os seus arquivos está em um sistema em cima de uma piscina — sugeri.

Me levantei, finalmente e coloquei meu pé direito na pantufa. Foi aí que notei que o dia iria ser uma merda.

Porque tinha uma merda de cachorro dentro da minha pantufa. Era praticamente um outdoor divino dizendo que iria dar merda. Provavelmente, daria tanta merda quanto a existente no cérebro de Vanessa, porque chihuahuas não cagam dentro de pantufas. A filhote da meretriz teve a audácia de pegar aquilo e colocar na minha pantufa.

— Eita — Idia disse, soturnamente.

— Bom, minha presença é substancial para evitar homicídios — Layla completou, olhando do meu pé para minha cara.



— Você está atrasada — Alec me informou assim que entrei na área do estacionamento.

— Sim, digníssima besta — sussurrei quando passei por ele — Inteligentíssima observação.

Layla me deu uma cotovelada e ele simplesmente revirou os olhos. Pelo visto, estava tendo crise de criatividade matinal.

Vanessa estava empoleirada nas malas e me observava com aquela cara de harpia ardilosa dela. Não dei a menor impressão de raiva e jamais admitirá que coloquei meu lindo pezinho em uma pantufa cagada. Para todas as instâncias, a pegadinha dela não funcionou.

Agora, tinha uma coisa de iria funcionar: dois frascos especialmente endereçados para Vanessa que sacolejavam na minha mochila.

— Vamos — Layla disse.

Alec começou a caminhar para um carro vermelho e Vanessa soltou um berro:

— No meu carro não.

— Mas ele está mais perto.

— Sem chances de levar meu carro para isso.

— Mas é só duas horas até o aeroporto.

— Não!

Ele bufou e começou a carregar as malas para o carro dele. Na hora, achei que a Vanessa estava sendo fresca como sempre, afinal, a especialidade dela é reclamar de tudo e arranjar mimi em tudo. Hoje, sei que ela é uma mulher sabia.

Depois disso, comecei a ficar indignada. O pai deles não tinha senso nenhum, pra quê dar dois carros para dois adolescentes? Aposto que eles andavam sozinhos na maior parte do tempo, era uma espécie de desperdício de espaço. Maldita indústria automobilística que incultiu a ideia que todo jovem deve ter um carro como símbolo de emancipação.

Além disso, fiquei um pouco indignada. Eu, a filha da deusa primordial, já passei incríveis momentos como sardinha em ônibus. Talvez eu tivesse um pouquinho de inveja branca.

Bom, acho que vocês querem um pouquinho de ação. Layla me contou uma vez que quando ela se entediava com um livro, ia pulando os trechos logo para as falas só pra ver se ocorria algo com o personagem.

Não teve muita ação nas duas horinhas seguintes. Inclusive, Alec nem teve a delicadeza de perguntar se eu queria parar em algum delivery para comer, já que não tive tempo de tomar café da manhã. Talvez ele merecesse um presente maléfico só por isso, junto com a irmãzinha dele.

Cochilei apoiada no ombro de Layla enquanto Idia cochilava no meu colo. Vanessa ouvia rock tão alto que eu conseguia ouvir mesmo com ela usando fones, o que provavelmente era a intenção dela. Claramente, a pobrezinha subestimou minha capacidade de dormir em situações adversas.

Aí, depois das duas horinhas, chegamos no aeroporto.

Ele estava fechado. Tinha até uma plaquinha no portão falando que iriam arrumar algumas coisas técnicas e etc. Foi o segundo indício que as coisas não seriam tão fáceis.

Depois da adorável surpresa, tivemos que reprogramar um monte de burocracia sobre passagem via celular e Alec ligou para Ilithya perguntando a localização de um outro aeroporto "ideal". No caso, como Layla gentilmente me informou, era um aeroporto que iria permitir a passagem de malas com armas.

Ok, não me pergunte como isso é feito. Você deve saber que corrupção existe em todo lugar.

O próximo aeroporto era há quatro horas de distância. Em um determinado momento, meu estômago começou a roncar. Idia até acordou com a vibração.

— Alec — chamei e me apoiei na parte de trás do banco dele.

— Preciso de comida.

— Coma no aeroporto — Vanessa falou, empregando o máximo tom de velha reclamona.

"Eu vou comer sua alma, filha da puta", pensei, angelicalmente.

— Você vai me deixar passar fome? — fiz minha melhor cara de anjo quando ele se virou para me encarar. Apoiei a mão no ombro dele, a psicologia comportamental dizia que as pessoas se sentiam mais empáticas quando havia contato físico.

A expressão dele continuava impassível.

— Eu posso ficar realmente terrível quando estou com fome.

Ele suspirou.

— Ah, deuses. Eu sinto que estou transportando um diabrete no corpo de uma garota.

Ele tinha inteligência suficiente para saber que eu arranjaria algum método de torturar ele de alguma forma em um carro em movimento. No fundo, no fundo, ele tinha razão, tenho uma alma de diabrete envolta em uma linda casca de beleza pura.

Logo, ele saiu da estrada e começou a procurar por restaurantes. Infelizmente, estávamos diretamente no meio do cafundé onde Judas perdeu as botas, então não tinha muitos fast foods.

Enfim, milagrosamente, encontramos um restaurante de caminhoneiros na beira da estrada. Vanessa ficava reclamando de atraso e blá blá, mas vi que ela ficou interessada no cheiro.

Eu estava toda alegrinha e feliz olhando o cardápio e aí surgiu o sinal número 3: As luzes se apagaram.

— Viram? Eu avisei que isso iria dar merda! — Vanessa parecia até animada com a possibilidade.

— É só uma queda de energia — rosnei. Meu lado neurótico dava berros, mas meu estômago tinha mais peso na tomada de decisões.

As luzes voltaram. Aí apagaram de novo. E depois acenderam.

— Queda de energia pode sinalizar portais abrindo nas redondezas — Layla disse de modo automático, igual aluno respondendo questionário em sala de aula. Imagino que talvez ela fosse assim na aula de Portais I.

Aí as lâmpadas estouraram.

Notas finais
Oi, pessoal. Estoy viva haha. Fiquei no sítio da minhas avó e lá não pega internet nem com reza e acabei descobrindo que o aplicativo de documentos do Google não salva arquivos sem internet: resultado, perdi um capítulo inteiro e o ânimo