Equilibrium

9 Capítulo 8 - Sombra


O som de palmas únicas mandou um sinal de ferrou para o meu cérebro. Lembrei que Layla tinha falado de um professor… alguma coisa sobre não partir para o MMA antes dele chegar?

De qualquer forma, desfiz minha cara de capeta, saí da posição comprometedora — Eu não só estava em cima de um garoto, estava segurando uma katana na garganta dele também — e fiz a minha melhor cara de Madre Tereza de Calcutá.

Alec teve a audácia de ficar sentado no chão e esfregando o pescoço com a maior cara de vítima.

O professor se apoiou no limite da arena e olhou para nossa cara. Ele parecia jovem como Ilithya, mas podia ter sei lá quantas décadas também. Tinha olhos castahos, cabelo levemente cacheado e pele morena. Seria bonito se não parecesse mortalmente entediado. Provavelmente não curtia muito lecionar.

— Você — Ele apontou para Alec — Tá suspenso por uma semana.

Alec soltou um grunhido indignado. Controlei minha musculatura facial para não demonstrar ar de riso.

— E a raposinha pode ir subir para conversar com Ilithya sobre areia.

Ah, ele tinha visto. Não escutei o momento que a criatura entrou na sala, afinal, eu estava lutando para manter minha cabeça grudada no meu pescoço e minha dignidade viva. Mas, bem, não parecia tão ruim. Não seria o primeiro esporro que eu levaria de uma diretora — Pasme, apesar de ser uma aluna exemplar, sempre tive uma queda por tachinhas e pó de mico. Bom, todo mundo tem um lado negro.

Alec tentou reclamar, falando alguma coisa sobre não ter sido nada sério e que ele nunca iria machucar a reencarnação de Diana. Ah, tá. Ele pode parecer inteligente para você, caro leitor, mas ele não é. Qualquer ser com inteligência sabe que não adianta reclamar com professores, isso atiça ainda mais a vontade interior que eles têm de estrangular alunos. Quem nunca pediu revisão de prova e veio com a nota menor, por exemplo?

Como sou esperta, fui andando antes que ele mudasse de idéia e decidisse me fazer lavar toda a louça do Campo por uma semana, sei lá. Antes de fechar a porta, virei e vi Layla dizendo "Se lascou, mamute" em linguagem labial.

Aí eu notei que eu estava lascada. O castigo não era ouvir Ilithya reclamando, o castigo era ter que subir até Ilithya.

Inegavelmente, a criatura era ardilosa.

Idia estava me esperando nos pés da escada. Ela ergueu as duas patas simultaneamente.

— Arranjou encrenca?

— Advinhe…

Ela balançou a cabeça e começou a subir. É, até minha gata falante me achava um caso perdido.

Massageei as pernas e comecei a subir. Quantos degraus eu tinha subido e ainda subiria naquele dia?

Me encostei no corrimão. Me sentia acabada, só o pó. Acho que meus músculos da perna e do braço eram ácido lático purinho. Que dia… Aparentemente sem poderes — Sou pessimista, não espere lá muito otimismo de mim — em um universo com gente mais forte, mais rápida e que move coisas com a mente. Supostamente, eu deveria estar no topo daquele meio, mas me sentia estranhamente fracassada.

Praticamente nada tinha dado certo naquele dia. Só ganhei a luta porque trapaceei e só durei algum tempo porque Alec estava querendo me azucrinar — Síndrome de Oberyn Martell.

Olhei para as escadas acima. Era um caminho interminável até a sala de Ilithya. Depois, olhei para baixo do corrimão. Apesar do setor de lutas estar no nível do solo, as escadas se estendiam para o subsolo e terminavam em uma escuridão sem fim.

Por algum motivo altamente aleatório, pensei em como seria pular lá embaixo.

Depois disso, comecei a me sentir insana. Será que bati a cabeça?, pensei. De qualquer forma, continuei subindo as escadas.

Em determinado momento, notei que estava andando cada vez mais próxima do corrimão. E pensei idiotice novamente. Eu sei que tinha sido um dia estressante, ok, mas não tendo a ser muito suicida. Quem me conhece poderia dizer que sou um ser mais capaz de cometer homicídio que suicídio. Minha têmpora começou a latejar.

— Idia, tô me sentindo estranha.

— Você é estranha — ela resmungou com aquele humor divino.

— Eu tô sentindo vontade de pular lá embaixo — sussurrei, porque ninguém gosta de dizer essas esquisitices em voz alta.

Aí ela parou. Olhou para mim e depois olhou para trás de mim.

Aí tudo ocorreu rápido demais. Em um instante, tinha uma gata me encarando e em outro, uma onça de tamanho anormal estava saltando no ar em direção de um garoto parado no corredor. Ela aterrissou com as garras no ombro dele e a cabeça da criatura se chocou no chão. Depois disso, o corredor começou a ficar escarlate.

Para ser sincera, nem fiquei muito surpresa. Minha gata falante também vira uma onça? Ok. Um vrykolaka aleatório tentando me matar? Bem, não seria a primeira pessoa.

Fiquei parada na escada, encarando. Que dia, meus amigos, que dia. Lado positivo: Eu não estava pirando, só tinha um ser tentando colocar pensamentos na minha mente.

— Chame Ilithya — Idia rosnou — Não pode deixar ele morrer.

— Por quê? — perguntei.

Deve parecer frio para vocês, pessoal certinho. Mas ele tentou violar minha mente e me fazer cometer suicídio. Eu só não estava surtando pelo fato de existir gente com tal poder só porque estava cansada demais para isso. Deve parecer estranho, mas eu me sentia vazia, lá, parada e encarando o sangue de um garoto desconhecido que tentou me matar.

— Para interrogar.

— Ah, é. Faz sentido.

Ilithya estava a um mol de degraus acima. Nunca conseguiria chegar lá rápido o suficiente, no máximo, iria ganhar um infarto no meio da escada. Aí lembrei que eu até que estava perto da sala de lutas e que Vrykolakas são mais rápidos.

Comecei ir para lá.

— Para onde você tá indo?! — Idia gritou, talvez ela tenha pensado que pirei de vez.

— Vou falar para o professor chamar ela, ué.

— Você usar trabalho terceirizado para isso? — Idia suspirou — Vá, Raphael vai ser mais rápido que você.



Eu não sabia como começar a frase. Como explicar o que aconteceu e pedir para notificar Ilithya? Decidi por ser direta. Abri a porta, coloquei um pé para dentro da sala e falei.

— Professor, Idia falou para você chamar Ilithya — Tudo bem que Iria não tinha falado nada, mas assim que ele visse a onça no corredor, ele não iria questionar nada — Infelizmente, ocorreu uma tentativa de homicídio no corredor. Então, o cara que tentou me matar está sangrando muito… Idia disse que vocês podem querer interrogar ele mais tarde.

Imediatamente, a aula parou. O povo começou a falar, afinal, não há nada que o povo goste mais do que comentar tragédias — No caso, uma quase tragédia para mim.

— Fiquem todos na sala, não é para sair ninguém — Raphael gritou — Vanessa, acompanhe Christine para o quarto dela.

Ui, eu precisava de segurança.

Aí ele trancou os alunos na sala e subiu as escadas bem rápido, bem mais rápido que um humano normal poderia fazer.

Vanessa olhou para o cara caído e depois para mim.

— O que aconteceu? — Os olhos dela praticamente brilhavam de curiosidade. Novamente, nada atiça mais os seres humanos do que tragédia.

Mordi minha língua para não falar um suave "não é da sua conta".

— Minha filha, nem sei explicar as coisas que me ocorrem — Resolvi falar a verdade.

Ela riu.

— Há algo seriamente errado com o mundo esses tempos.

Ela falou zoando, mas nem tinha ideia que quão certa estava.



Obviamente, depois disso, não fui para a escola. Fiquei no meu quarto, fingindo que lia um livro de bioquímica. Fingindo, afinal, eu não conseguia me concentrar em nada. Vanessa jogava no celular e ocasionalmente me olhava como se eu fosse um experimento.

— Christine, venha aqui, por favor — Ilithya abriu a porta e me convidou para o corredor.

Era possível farejar a curiosidade de Vanessa no ar.

Levantei da cama lentamente para não aparentar o quão ansiosa estava por dentro e fui para fora do quarto. Minha mãe estava lá, o que não era nada surpreendente já que tinham tentado me assassinar. Ela parecia estar com um humor particularmente maléfico e Ilithya estava transpirando.

— Nós temos um problema — Minha mãe falou.

Que grande surpresa.

— Suspeito que Trivia tenha reencarnado também e agora tem controle sobre a sacerdotisa da balança.

Daquilo, eu só sabia que Trivia era minha antagonista perversa e um projetinho de Hitler cretense. Provavelmente minha mãe notou minha cara de paisagem e começou a explicar.

— Existem 3 reinos paralelas. O dos deuses, conhecido como Asgard, Olimpo e etc. O reino dos descendentes, a que você está agora e a dos mortais. Há tênues véus entre esses lugares e níveis de dificuldade para passar de um lugar para o outro dependendo da força. Muito raramente, um mortal pode vir parar por aqui por engano, aí eles ficam doidos ou extremamente criativos — ela acenou com desdém — Mas esse não é o caso. Há uma balança que controla a barreira entre reinos, se alguém manipular ela, pode fechar todas as fronteiras. Aí, ficamos presos onde estamos.

Sim, pessoal, pasme, existe o conceito de pedágio até aqui.

— Então, Erébo vai ter certo controle sobre os outros deuses e descentes. Se ficamos no Olimpo, estamos no reino onde somos mais fortes, porém, vamos perder toda a influência nos reinos mortais e por consequência vamos enfraquecer. Se um deus interfere diretamente em uma ação de mortais, ele se torna mortal durante a ação. Então, se ficarmos presos aqui ou no reino mortal, cedo ou tarde acabaremos interferindo em algo e fornecendo a chance ideal de Erébo nos executar.

Enfim, caso você tenha dormido na explicação, Satã e sua filha ocuparam os pedágios como o pior movimento sem-terra existente.

— E eu preciso que você deponha a sacerdotisa atual. Só um descendente de Erébo ou Nix pode entrar no templo. Não vai ser difícil. É um tanto arriscado ir até lá por aqui mesmo, mas tem duas adagas no reino mortal que vão ser úteis para abrir um portal direto para lá. Fácil, fácil.

Eu não deveria ter caído nessa. Mas, sejamos sinceros, quem nunca quis a adrenalina daquelas clássicas missões de encontrar itens perdidos. Clichê, mas me parece altamente legal desde o Ladrão de Raios.

— Hum, parece bom. Posso levar Layla?

Sempre tem que levar um companheiro de viagem, né? Layla certamente não deixaria um lacaio de Trivia arrancar minha cabeça.

— Idia também. Acho bom levar mais alguns alunos como guarda-costas e outros em um caminho diferente para despistar Trivia, caso ela esteja espionando? Você tem alguma metamorfa boa por aí, Ilithya?

— Ah, sim, Mare, ela é ótima — Ilithya ainda parecia preocupada — Meus sobrinhos são excelentes, eles seriam ótima defesa. Eles ainda são jovens, Trivia não conseguiria rastrear eles pelos poderes ainda.

Vanessa e Alec provavelmente me matariam e me enterraram em uma vala no meio de algum fim de mundo.

— Nepotismo, nepotismo, nepotismo — cantarolei alegremente.

E era nepotismo mesmo. Ela queria beneficiar os sobrinhos dela colocando eles para defender a reencarnação da preciosa Diana. Nada melhor do que salvar o mundo para ter um currículo excelente.

Minha mãe ergueu uma sobrancelha.

— Chris tem razão.

— Posso demonstrar que eles são os melhores.



O conceito de demonstração de Ilithya me parecia um pouquinho arcaico. Estávamos todos nós em uma sala aleatório. E quando digo nós, eu digo que até o garoto que tentou me matar.

A propósito, ele estava amarrado com umas correntes de ferro. A roupa dele estava completamente ensanguentada mas não havia nenhum arranhão aparente nele e tinha uma mesinha com instrumentos um tantinho apavorantes. Minha mãe tamborilava os dedos na mesa.

— Demonstre.

Ilithya lançou um olhar para Vanessa. A ruiva se levantou da cadeira e desalgemou o garoto.

— Parado.

Pensei que ele iria tentar fugir, mas ele continuou imóvel. Os olhos verdes dela estavam fixos dele. Ela jogou um alicate no colo dele.

— Arranque suas unhas.

E ele cravou o alicate nas pontas e tirou a unha. Ele estava gritando, mas as mãos dele continuavam fazendo.

Era perturbador. Ele tentou fazer coisa similar comigo mais cedo, praticamente tentou me induzir ao suicídio, mas tinha algo horrendo em ver alguém se mutilando enquanto gritava. É muito diferente ver cenas de tortura em filmes e ver na vida real.

Naquela época, eu ainda me importava com os direitos humanos.

— Você está ficando pálida — Alec disse suavemente.

— São seus olhos.

O cara arrancou um pedaço de unha com um naco de carne. Comecei a ficar levemente enjoada.

— Então, como foi o interrogatório mais cedo? — Eu tenho uma tendência a falar quando estou ansiosa.

— Ah, não foi muito produtivo — Ilithya disse — Ele alegou que foi uma simples brincadeira.

Quase pulei da mesa.

— Uma brincadeira? Ele queria me fazer pular de sei lá quantos metros.

— Ele disse que iria parar quando visse que você iria fazer algo. Ele viu você saindo da aula de lutas e quis testar a reencarnação de Diana. Alegou que não tem contato com Trivia, mas ela certamente pagaria um vrykolaka para colocar um bloqueio na mente dele que fosse forte suficiente para resistir a tortura. Enfim, acho que ele deve ter recebido ordens de Trivia, ninguém seria burro o bastante para tentar um trote com você.

Olhei para o garoto sentado na cadeira e arrancando as próprias unhas, ele tinha aproximadamente minha idade.

Admito que o conceito de brincadeira dele parecia um tanto mortal, mas quem sou eu para dizer isso? Ao longo da minha vida, coloquei tachinhas em cadeiras, poltronas e até mesmo um ferro enferrujado em um dia de maldade extrema. Alguém poderia ter perfurado uma artéria e daria caso de hospital.

Eu conseguia me colocar no lugar desse garoto, facilmente conseguia me imaginar colocando uma tachinhas na cadeira da preciosa reencarnação de Diana. — E eu pareço bastante arrogante para quem me vê, mesmo que eu não seja tanto — Se eu estivesse na posição inversa e feito algo do tipo, será que minhas mãos estariam arrancando minhas unhas involuntariamente?

— E ele disse que observou você durante a luta. A família dele coordenou um projeto sobre poderes e manifestações — Ilithya estreitou os olhos — e ele alegou que sentiu uma ausência de poder em você.

Me levantei da cadeira e abri a boca. Eu iria dar uma ordem para pararem aquilo e também iria me defender da alegação — Admito que não sei em qual ordem. Gosto de pensar que eu não seria egoísta e falaria para pararem primeiro.

E o garoto entrou em chamas. Não sei se devo dizer que aquilo era fogo, parecia ser cinzento e com trechos tão escuros quanto um buraco negro. Não sei quantificar o tempo, mas sei que levou pouco tempo para não restar nem pó naquela cadeira.

— Estou me sentindo com sono — Alec disse, indiferente. Aquelas chamas estavam dançando entre os dedos da mão estendida dele.

Minha mãe encarou ele com interesse. Eu queria arrebentar a cara dele com alguma barra de aço e depois ter tempo para ter uma crise de pânico em paz. Conseguia sentir meu coração palpitando no peito.

Alexander, a criaturinha que eu implique a minha infância inteira tinha acabado de cometer um assassinato à sangue frio. Vanessa tinha torturado um cara com a mente e fez ele arrancar as próprias unhas. Minha mãe observou isso com indiferença e achou aquele fogo interessante.

Ele podia ter sido um assecla de Trivia ou era só um besta que fez uma piada na hora errada.

Tudo parecia desbotado pra mim. Poderes, outra dimensão, ser filha de uma deusa. Perdeu a graça.

— Vou ir embora daqui — falei e me levantei.

— Não vá para seu quarto ainda, quero falar com você — Ilithya disse e me perguntei se ela não tinha notado que o ir embora era mais amplo do que ir para meu quarto.

Parei do lado da porta e a encarei. Eram necessárias todas as minhas fibras de autocontrole para não fazer alguma coisa altamente descontrolada com alguém que podia me matar facilmente.

— Andei lendo e vi algo sobre Diana ter uma marca em formato de lua na nuca — ela disse — Não considere um desrespeito, mas depois do que o garoto disse…

Sim, ela achava que eu era uma fraude. Por um momento consegui ver um lapso de preocupação na minha mãe, mas rapidamente as feições dela assumiram um tom colérico.

— Você está acusando eu, a deusa primordial da noite, a primeira dos deuses e a mais poderosa, de mentir para meros mortais?

Ilithya começou a empalidecer o máximo que uma albina podia. O músculo da bochecha dela tensionou.

— Não…

Enquanto isso, eu sentia minha nuca queimar. Trinquei os dentes e me concentrei em parecer o mais normal possível. Se alguém me visse lacrimejando, pensaria que era uma criatura que não controlava as emoções e estava traumatizada com a cena. Melhor que eles pensassem assim do que desconfiassem que sou uma fraude.

Fechei os olhos. Estava tão bom para ser verdade. Por algum motivo que eu não sabia, minha mãe não conseguiu a Diana 2.0 e resolveu tapear todo mundo comigo, eu não tinha dúvidas sobre isso. Se eu fosse a Diana autêntica, não iria ter a necessidade de uma queimadura de última hora no meu pescoço.

A dor passou rapidamente, mas meu estômago estava doendo. Se fizeram aquilo com um garoto que estava brincando em péssima hora, o que fariam comigo, uma fraude?

Jogar para leões comerem?

— Olhe, veja a tão preciosa marca — Me virei de costas e coloquei meu cabelo para frente — Agora fique quietinha que quero ir para o meu quarto.

Bom, Ilithya parecia convencida e envergonhada.

Vanessa saiu da sala primeiro que todos nós. A pele dela estava brilhando de suor e ela parecia pálida. Não sabia se aquilo foi por causa do uso de poderes ou se ela tinha ficado perturbada. Acho que não importava muito, perturbada ou não, ela tinha feito.

— Bom, eles me pareceram ótimos — minha mãe disse — Aquelas chamas…

Ilithya parecia orgulhosa.

— Certa vez, me disseram que as chamas apagam a alma.

Vocês lembram do epílogo? O Sheut é sombra, a marca que alguém deixa no mundo, o conjunto de memórias.

Eu não conseguia me lembrar a aparência do garoto.



Notas finais
Então, agora que as coisas vão ficar um pouquinho mais pesadas, afinal, a realidade não é só flores.