Equilibrium
8 Capítulo 7 - Brincando com lâminas
— Meu pobre corpo felino não aguenta mais degraus — Idia suspirou e se deitou e virou as patas para o alto. Apesar de ser uma gata siamesa, as patinhas dela eram brancas igual botinhas.
Sempre achei Idia fofa. Uma gata mau-humorada e fofa. Porém, depois de subir tantas escadas por causa dela, eu só queria arremessar ela escada abaixo.
— Cabeça que não pensa, corpo que padece — e se fosse só o corpo dela, estaria bom.
Ela soltou um miado de protesto.
— Vou ficar aqui e ir para o quarto. Não arranje problemas na próxima aula, ok?
O dilema da minha vida é que eu não caço problemas, são eles que me caçam. Mas, verdade seja dita, que problema eu poderia arranjar em uma aula de defesa? Sempre fiz karate e já treinei com katanas, então, eu não seria 100% inexperiente com lâminas e lutas. Não tinha nada para dar errado e nem motivo para passar vergonha.
Tenho que admitir, aquela aula era exatamente o tipo de coisa que eu gostava. A sala era circular e tinha arquibancadas semelhantes a do Coliseu, havia uma arena com chão de areia e um outro espaço repleto de armas e tatames jogados no chão.
— Vem cá, tem algo que você vai gostar — Layla apareceu do nada e arrastou meu braço.
Eu ainda estava fazendo um esforço para ficar mau humorada com ela, mas isso acabou dissipando quando vi as katanas brilhantes e prateadas. Nunca lutei com uma que tivesse corte de verdade.
Discretamente, porque não sabia se podia mexer nas armas ou não, tirei ela da prateleira e segurei. Era leve e parecia perfeitamente balanceada.
— Você sabe lutar com isso? — alguém sussurrou bem atrás de mim.
Alex estava lá, apoiado na prateleira e com os olhos azuis brilhando em zombaria. Como podem ver, é a encrenca que vem atrás de mim.
Ele não sabia que eu já tinha treinado, devia estar achando que achei a espada bonitinha.
— Quer testar? — perguntei, minhas sobrancelhas arquearam e abri um sorriso de Cheshire.
Sou uma criaturinha competitiva e estava estressada, então, uma luta era uma excelente maneira de gastar toda essa irritação. Chutar a bunda de Alexander vinha como bônus.
Layla me encarava como se eu fosse louca.
— Vrykolakas são mais fortes que descendentes de deuses comuns, Chris — ela alertou.
Estralei a língua. Já lutei com gente mais forte que eu fisicamente, se você for rápido o suficiente, dá para ganhar. Inclusive, é possível acabar com o Hulk se você for esperto e rápido.
— Espere o professor chegar, pelo menos — ela avisou enquanto eu pegava duas katanas.
— Calma, Layla, eu prometo que vou deixar ela inteira — Alec disse — Talvez o orgulho fique um pouquinho danificado.
Segurei o riso. Ah, tá.
Layla me segurou pelos ombros e me sacudiu.
— Estou com um mau pressentimento. Não vá fazer besteira, mamute.
Ao longo do tempo, aprendi a respeitar os maus pressentimentos de Layla. Uma vez, depois dela ter dito isso, uma árvore caiu no carro em que iríamos ir para a Olímpiada de Linguística e perdemos a segunda fase por causa do atraso. Outra vez, cai de uma árvore que ela disse para não subir. Em uma, tive reação alérgica ao pó de mico que coloquei na gaveta de calcinhas de Vanessa — algo que ela expressou bem claramente que era má ideia. Ela também previu que o metrô iria alaga, mas bem, isso não é de todo imprevisível.
Talvez metade dos casos citados sejam apenas sensatez — Aai, que dor admitir isso — e não intuição. De qualquer forma, dei os ombros.
— Talvez seu sexto sentido esteja avisando que vou quebrar o nariz de Alec — sussurrei bem baixinho para ela — e ele não vai ficar mais tão bonito depois disso.
Ela suspirou, resignada.
— Se matem logo de uma vez.
Ri e tirei as sapatilhas antes de pular para dentro da arena. O lugar estava calmo, havia poucos alunos que tinham chegado e todos eles estavam perdidos em conversinha.
Joguei as duas katanas para o ar de forma que elas se cruzaram acima da minha cabeça antes de caírem nas mãos opostas. Outro fato sobre mim: talvez eu seja um pouquinho exibida. Também sou ambidestra.
Não há conversa que resista a deusa da beleza que sou brincando com lâminas. Em menos de dois segundos, ganhei a atenção total.
— Pode vir, Alec.
Meus músculos queimavam em expectativa. Eu estava tão irritada por ser a reencarnação de uma feiticeira lendária que nem conseguia mover um papel. Não sou uma inútil, nem uma fracassada, pensei enquanto empunhava as katanas.
Alec escolhei uma espada medieval simples e pulou para a arena. A espada estava na mão esquerda, canhoto então.
— Não quer desistir? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Ignorei ele e me posicionei, concentrada nos movimentos dele. Eu podia estar irritada, mas há um nível necessário de racionalidade nas lutas.
Quase conseguia sentir ele me analisando, tentando avaliar um ponto fraco na minha postura. Quase sempre começo na defensiva nos meus combates, mas estava me sentindo um tanto impulsiva no dia. Deslizei para o lado e tentei dar uma rasteira nele.
Anotem, nem sempre uma luta com lâminas incluem apenas lâminas. Uma rasteira é um método bastante eficiente de encerrar as coisas rápido.
Ele deslizou para trás, evitando meu pé e lançou um ataque lateral de espada bem no lado oposto ao que me inclinei. Girei o punho esquerdo antes que a lâmina dele ficasse íntima do meu fígado. Ah, tá parecendo engraçado, mas posso garantir que não foi nada cômico.
Consegui conter a espada longe do meu corpo, mas parecia que eu tinha segurado um impacto de um caminhão. Até o meu ombro doeu.
Provavelmente foi nesse segundo que notei que Layla não estava exagerando quando falou que os vrykolakas são fortes. Só acho que ela devia ter ressaltado mais isso. Talvez, ela devesse ter me amarrado para evitar que eu voasse alegremente para cima da encrenca.
Enfim, a culpa era todinha de Layla. E de Idia, principalmente de Idia e minha mãe, que deveriam ter me dado um manual sobre as características de descendentes de deuses.
De qualquer forma, não adiantava mais. Para meu azar, as lâminas tinham corte de verdade. Eu teria que ser esperta para não sair com nenhum pedaço faltando.
Puxei minha katana para trás e recuei para a lateral esquerda com um salto. Ele era forte demais para ser passivo de segurar. Normalmente, meu truque padrão nas lutas de 2 katanas versus 1 katana é prender a única espada entre as duas e dar um belo chute no estômago do adversário. Vitória garantida.
Bom, sem chances de prender ele. Acho que ele conseguia pressentir minha ansiedade, então, lançou mais uma onda de ataques.
Apesar das duas espadas, eu quase não podia usar elas para barrar os ataques, afinal, o choque refletia por todo o meu braço e eu não queria distender a musculatura ou correr o risco — que os deuses me livrem — de me cortar com minha própria lâmina que foi empurrada pelo impacto. Então, só me restava a boa e velha e esquiva.
Eu estava suando pra caramba e minha musculatura estava toda dolorida. Lutar depois de descer um mol de degraus não foi a melhor idéia do dia. Sabe o que eu disse sobre o Hulk? Esqueça, dou péssimos conselhos. Jamais escute algo que titia Christine fala.
— Acredite ou não, eu estou pegando leve — Alec falava de modo distraído enquanto girava a lâmina na direção do meu pescoço. Maldito seja, ele nem parecia ter começado a suar.
Inclinei meu corpo para trás. Eu não queria saber como era o pegando pesado.
Eu não podia ficar na defensiva pela eternidade. Eventualmente, acabaria ficando cansada pra valer e corria o risco de cair no chão de cansaço mesmo — altamente vergonhoso.
Dei um passo para trás como se fosse recuar e ganhei impulso para ir para frente, atacando com ambas espadas simultaneamente, acima e abaixo.
Ele parou as duas espadas ao mesmo tempo. Acho que o som foi alto suficiente para o salão inteiro escutar. Aí meus braços, preciso dizer. Ele enganhou a ponta da espada sob a ponta da minha katana esquerda rápido demais para mim notar e girou.
A espada saiu voando da minha mão. Bom, não foi bem assim, eu podia muito bem ter segurado, mas meu pulso iria ir voar junto, então, resolvi largar.
— Não me olhe assim — ele ergueu os ombros — Só quis deixar as coisas mais justas. Uma espada contra outra.
Eu estava queimando de raiva. Levou tempo e esforço para aprender a lutar com uma única katana na mão direita. Depois, treinei mais ainda para me tornar tão boa na mão esquerda quanto na direita, já que apesar de ser ambidestra, eu raramente usava essa mão porque a maior parte dos objetos são moldados para destros. Depois de tudo, tive que treinar para usar as espadas simultaneamente sem uma atrapalhar o movimento da outra. Era algo que demandava raciocínio.
E lá estava ele, me dando uma surra só porque era mais forte mais rápido. Reduzia todo o meu treinamento a pó só porque a biologia favoreceu ele com poderes que não foram dados a mim.
Se a vida não era justa, por que eu devia ser?
Me senti hiperconsicente da areia presa nos meus pés e os olhares de todos os alunos no vexame que eu estava passando. Recuei para trás.
Tinha a barreira da arena. Praticamente encurralada.
Respirei fundo. Joguei toda a minha força e meu peso em um ataque lateral. Não era voltado na direção de cortar ele, era apenas para empurrar a espada dele para o lado enquanto eu lançava um chute alto.
Ele inclinou a cabeça para trás, evitando que meu pé acertasse a cara dele. Eu já previa isso, era óbvio. Por isso, eu tinha capturado areia entre meus dedos do pé enquanto recuava.
Soltei a areia dos meu dedos quando chutei. Ele se desviou do meu pé, mas a areia acertou os olhos dele direitinho.
Não era honesto, eu sei. Mas era impossível aguentar mais uma vergonha no dia, ainda mais, uma vergonha pública. O que seria da minha moral de feiticeira poderosa se eu levasse uma surra de um simples vrykolaka? Todo mundo iria achar que eu era incompetente e seria questão de tempo até ter gente me desafiando para todo o lado.
Até hoje, não sei se eles viram o arremesso de areia, não foi muito comentado. Talvez, eles não ligassem muito para a ética. Mas tenho certeza que aquelas arquibancadas viram Alec erguer as mãos na direção dos olhos e eu acertar ele bem na boca do estômago com um chute.
Ele tropeçou, então, me lancei para cima dele. Derrubei-o no chão e prendi as pernas dele com as minhas enquanto apoiei minha katana na garganta dele. Minha mão estava cerrada no braço em que ele segurava a espada, apesar de não ser muito útil, já que ele podia soltar o braço a qualquer hora. Mas, usualmente, ninguém quer se mover muito com uma lâmina no pescoço.
Sorri e gargalhei. Ele parecia tão surpreso e vulnerável com os olhos azuis lacrimosos por causa da areia.
A musculatura dele contraiu sob meu aperto. Cravei as unhas.
— Para onde foi sua ética, Christine? — ele perguntou, com uma sobrancelha erguida. Aparentemente, tinha superado o choque, parecia estar até divertido.
Me inclinei e sussurrei:
— Para o mesmo lugar em que foi sua esperteza.
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