Equilibrium
7 Capítulo 6 - Manhã de um dia ruim
Segui Layla por aquelas intermináveis escadas até o lugar onde era o refeitório. Só posso dizer que os descendentes de deuses estavam sempre em forma por causa daquelas escadas.
O refeitório parecia comum. Uma mesa gigantesca estava repleta de doces, bolos, jarras com suco.
— Vem, vou te apresentar para meus amigos — Layla puxou meu braço.
Eu ainda estava irritada com ela. Muitíssimo irritada.
— Não vou ficar aqui. Só vou pegar uma gelatina e vou ir para a sala da Ilithya — Idia tinha falado que eu precisava ver a regente do Campus, então, eu iria.
Layla bufou.
— Você pode ver Ilithya depois que comer.
— Estou com pressa.
Peguei um copinho de gelatina e dei as costas para o refeitório.
— Christine! — Layla chamou.
Me virei.
— Lamento todas a vezes que te chamei de mamute, Vossa Alteza — ela disse.
Involuntariamente, ri. Eu era péssima em guardar rancor. Mesmo assim, saí do refeitório.
Eu estava no meio do corredor quando notei algo.
— Idia, você sabe onde é o escritório da Ilithya? — Olhei para a gata que me seguia disciplinente como um guarda-costas.
Idia me olhou com aquele olhar penetrante sei-de-todos-os-seus-pecados que só um gato pode produzir.
— Se não mudou desde a última reforma, sei sim.
Dica de vida: Nunca confie em um felino. Idia me guiou pelos corredores e escadas até a ponta do rabo do dragão e pasme… o escritório de Ilithya era na cabeça do dragão. Talvez vocês não tenham ideia do quanto sofri, mas o Campus era realmente grande e para piorar, não era um dragão medieval, era a porcaria de um dragão chinês, aqueles que parecem serpentes. É possível traçar uma linha reta entre a cabeça de um dragão medieval, já um dragão-serpente tem várias curvas.
Minha vontade interior era esganar a gata. Uma vez, em um dia bastante estressante, passei por uma ponte e senti uma vontade louca e aleatória de jogar meu celular que apitava toda hora com ligações de outro estado — É claro que não fiz isso, caso vocês estejam se perguntando. Dessa vez, eu queria jogar a gata escadas abaixo.
Depois de um bom tempo, suada e carregando um potinho amassado de gelatinas, cheguei na porta de Ilithya. Idia estava com os olhos azuis mais angelicais do mundo.
— Eu juro que não sabia…
Joguei o potinho na orelha felina dela e abri a porta bem rapidinho, como ela dava rugidos de felinos grandes, ela podia fazer mais coisas talvez.
As paredes da sala eram de vidro transparente e polido, o que explicava o porquê do dragão parecer ter uma jóia no lugar dos olhos. A visão do alto era aterradora, naquela altura era possível ver, literalmente, as nuvens igual ocorre com alguns edifícios de Dubai.
Sentada em uma mesa de mogno, estava uma mulher jovem, embora pudesse ter alguns séculos de idade, segundo Idia me falou sobre os descentes de deuses. A moça era albina, a pele dela era muito branca e o cabelo dela era de um loiro que tendia muito mais para o prateado do que para o dourado. Até os cílios dela eram claros. O rosto dela não mostrava expressão nenhuma, totalmente apática.
Aí estava uma pessoa que não iria me reverenciar nem se eu fosse a reencarnação do Buda, desconfiei.
— Você está atrasada.
Lancei um olhar fulminante para Idia. Ó que bonito, a dona do lugar me achava uma adolescente mimada e atrasada sendo que eu nem tinha comido café da manhã para chegar no horário certo.
— Desculpe-me. Idia se confundiu com a localização.
Idia ergueu ambas patas em sinal de rendição.
— Faz alguns séculos que não entro aqui, em minha defesa.
— Devia ter me dito isso antes.
— Eu falei e você nem prestou atenção.
Ilithya cruzou as pernas e ficou nos olhando até que paramos de discutir.
— Bom, lá vamos nós. Sente-se por favor.
Ela estendeu a mão e uma cadeira que estava na extremidade da sala se moveu e parou de frente para a mesa dela. Legal, telecinese. Eu praticamente podia sentir meus olhos brilhando.
Ela tirou um cristal em formato de pirâmide da gaveta. Pelo brilho da pedra, poderia muito bem ser um diamante.
— Como sua mãe nunca te treinou, vamos começar do básico — Ilithya disse — A telecinese é uma característica básica de todos os marem. A maioria tem poderes extras que variam de intensidade. Eu, por exemplo, tenho poderes curativos. Esse cristal era usado para treinar crianças é mais fácil para sofrer interferência de poderes.
Olhei para a pedra. Particularmente, eu não sentia nada. Era bonito, mas, tão normal como a mesa abaixo dele.
Ilithya fez o cristal flutuar dois centímetros acima da mesa.
— Tente mover com a mente.
Foi aí que a jurupoca começou a piar, como diria minha professora de matemática que era uma velhinha caipira.
Encarei fixamente a pedra e imaginei ele indo para o canto direito. Nada, nem uma oscilação. Fechei os olhos e tentei imaginar ele subindo. Nadinha.
Momento da vergonha.
— Uhn, como eu devo fazer para mover — perguntei, torcendo para não parecer a bruxa mais incompetente do século.
Ilithya piscou, ela parecia surpresa.
— É como estender o braço, não se pensa como se faz, é um comando, simplesmente ocorre. Você nunca sentiu a sensação que podia fechar uma porta sem precisar das mãos?
Bom, eu só podia fechar uma porta sem as mãos caso usasse os pés. Ou o vento, caso estivesse ventando e a janela estivesse aberta.
— Não.
— Tudo bem — ela ainda parecia intrigada — Talvez ter sido criada como mortal tenha gerado um bloqueio. Tente comandar com mais afinco.
Continuei encarando a pedra. Praticamente fiz um mantra mental de: mova-se, mova-se, mova-se, mova-se…
Resultado? Nenhum. Eu já estava começando a sentir meu estômago contrair de ansiedade. E se eu fosse uma marem com defeito?
Ilithya estava começando a ficar ansiosa também. Ela estava mexendo os pés para lá e para cá por debaixo da mesa e estava com as sobrancelhas franzidas.
— Tente imaginar que tem uma mão movendo os objetos. Pode ajudar — ela aconselhou.
Imaginei minha mão deslocando o maldito cristal para a esquerda. Preciso dizer que não ocorreu nada? Fechei os olhos e tentei novamente, quem sabe se de olhos fechados melhora, pensei.
Quando abri os olhos, a pedra continuava no exato lugar. Comecei a me desesperar.
— Existe alguma frase em latim para ajudar? — tentei sorrir educadamente e falhei miseravelmente.
— Só em Harry Potter.
Consolador.
Chegamos a um trágico ponto que Ilithya desistiu do cristal e eu estava me sentindo vesga de tanto olhar para aquilo. Ela pegou um livro e cortou uma folha de papel no meio.
— Isso é mais leve, pode ser melhor para o início.
Encarei o papel e imaginei ele deslocando para frente. Fechei os olhos e tentei de novo. Imaginei uma mão imaginaria puxando o papel para lado. Nada.
Não sei quanto tempo fiquei tentando, só sei que em dado momento meu mantra era: mova-se celulose maldita, mova-se celulose maldita, mova-se logo caralho da puta que pariummm. E minha mão imaginaria estava amassando o papel.
Um pouquinho perturbador, eu diria.
Ilithya, pobre Ilithya, devia estar cansada de olhar para minha cara. Em algum momento, o papel se amassou em uma bolinha e saiu voando pela sala.
Como sou uma idiota, comecei até me sentir feliz achando que tinha sido eu.
— Fui eu — ela falou.
— Ah.
Ilithya passou um tempo me encarando. Eu, sem graça e me sentindo patética, fiquei observando a mesa de mogno. Era praticamente impecável, mas tinha um E.K riscado em um dos pontos da mesa.
— Alguns poderes se manifestam em situações de emergência, susto e etc. Talvez você precise de mais adrenalina.
Não gostei muito daquela ideia.
— Fique de pé e se afaste um pouco — Ilithya segurava um livro.
Balancei a cabeça.
— Não vou não.
Ela piscou, indiferente.
— Tudo bem, você pode desistir e viver como uma mortal comum.
Eu, burra do jeito que sou, me levantei e fiquei parada no lugar que ela queria.
— Tente parar os livros — Ela segurou um em posição de lançamento. Acho que ela não quis jogar com a mente por pura gentileza de não me acertar na cara logo na primeira tentativa.
O livro parecia pesado.
— Não pode começar com as bolinhas de papel? — sugeri.
— Não. Adrenalina.
O primeiro livro voou na altura do meu braço. Por instinto,desviei do objeto voador.
— Não se mova — ela suspirou e fez o livro voltar para mão dela.
É necessário muito auto-controle para ficar paradinha quando tem coisas vindo na sua direção. Praticamente todo o seu corpo se contrai para se mover. Mas eu estava disposta a tentar. Encostei minhas costas na parede e coloquei as mãos atrás das costas.
Fixei o olhar no livro.
— Pode mandar.
Ela jogou. Pude ver o livro vindo na minha direção, mas não me movi. Imaginei ele batendo em uma parede.
Ele bateu no meu estômago. Foi horrível.
Ilithya puxou o livro de novo por mágica. Eu queria jogar ela e mais o livro para voar pelas nuvens. Se bem que a culpa não era dela.
— Vou tentar de novo — Para o crédito dela, teve a decência de avisar.
O livro voou. Antes de acertar minha cara, peguei ele no ar. Existe limites para tudo, quebrar o nariz estava fora deles.
— Pare o livro com a mente.
Cerrei os dentes para me forçar a ser educada.
— Minhas mãos são controladas pela minha mente.
Idia, que estava paradinha vendo meu show de vergonha, deu uma risadinha. Fiquei mais triste ainda quando lembrei que tinha testemunhas oculares.
— Vou tentar mais tarde — E deixei a sala.
Não critique minha falta de educação, eu tinha levado uma livrada bem no estômago, uma pessoa com menos classe teria dado uns berros, pelo menos.
Desci as escadas com a maior de ânimo possível. Queria sentar em um degrau e chorar igual uma jovem mimada. O fato é que eu era uma jovem mimada, mas nessa vida, o importante é parecer e não ser. Desde que eu não parecesse mimada, tudo estava ok.
Meu estômago estava doendo, mas meu orgulho parecia estar mais ferido ainda. O fracasso era totalmente novo para mim. Desde pequena, sempre fui a melhor em tudo.
Não é um exagero. As melhores notas eram minhas no primário. Assim que descobri a existência das olimpíadas científicas, ganhei várias medalhas. Cheguei a ir para olimpíadas internacionais. Meus colegas me chamavam de garota de ouro, porque eu só pegava ouro.
Não era só no meio acadêmico que eu era boa, quando comecei o karatê, aos 8 anos — eu era uma coisinha fofa treinando — era a melhor da turminha dos pirralhos e ganhava todas as competições de kata. Todos os campeonatos pra valer que fiz quando mais velha, ganhei primeiro lugar e com pouquíssimos hematomas. No Muay Thai também. Em todas as lutas de katanas — sem corte, obviamente — das aulas de ninjutso, ganhei.
Além disso tudo, aprendi a tocar piano decentemente em menos de uma semana e tendo só o Google como instrutor. E nessa leva de aprendizado virtual, aprendi um pouco de grego e latim para biologia, um pouco de italiano e francês e então me tornei genial nas olimpíadas de linguística.
Em resumo, sempre fui boa e a melhor em tudo que eu tentava.
E cá estava eu, a filha da deusa primordial da noite, reencarnação de uma feiticeira poderosa, sem a capacidade de mover um mero papelzinho por telecinese. Era como se eu fosse boa em tudo, menos no que importava.
Talvez, se eu usasse uma filosofia de vida bem de Layla, fosse castigo divino pelas minhas maldades e arrogância.
— Calma, você estava cansada mais cedo — Idia devia estar sacando meu estado de espírito — Vai ser melhor na próxima vez.
— Eu espero que sim — Na verdade, eu não estava nem um pouco convencida. Eu sentia literalmente nada. Nem um puxão de energia ou arrepio. Talvez eu tivesse uma mutação que anulasse meus poderes.
— Agora vamos para a aula de armas. Você vai gostar.
Bom, se alguém quisesse ver os magníficos poderes da Diana, eu iria arranjar um piano e tocar uma variação de Für Elise.
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