Equilibrium

42 Capítulo 42 - O preço


Em algum momento, minhas lágrimas se esgotaram. Não, eu não estava melhor, só parecia que o corpo tinha uma capacidade limitada de produzir lágrimas. Fiquei olhando o nada, depois, o jardim artificial do hotel. Alguns pequenos flocos de neve começaram a cair. Logo, eu teria que sair de lá. Voltar para o quarto me dava arrepios, preferia a neve e o frio.

Em algum momento, Alec se sentou do meu lado. Sabiamente, não falou nada. Há situações que não há nada que pode ser dito.

— Não é sua culpa — Por fim, ele sussurrou.

Quase senti vontade de rir.

— "No primeiro ano do Ensino Médio, eu tinha uma amiga chamada Dalila. Bom, ela não era minha amiga mais próxima — Engoli um soluço, esse era o título de Layla — mas ela era legalzinha. Ela amava animais, gatos um pouco mais do que cachorros.

A avó dela tinha um sítio e ela passava as férias lá. Um dia, os cachorros estavam ensandecidos atrás de uma coisa e ela foi ver. Era um gatinho preto, aparentemente, algum filho da puta tinha abandonado um filhote lá no meio do mato.

O gatinho se escondeu debaixo de um tanque artesanal que tinha lá. O filhote era arrisco, ficava fazendo tshhh tshhg, aquele barulhinho que gatos fazem quando estão irritados. Bom, Dalila ficou lá por hora e conseguiu pegar o gatinho em fim.

Ele era muito pequeno, tinha que comer papinha para bebês de 3h em 3h e não gostava muito de humanos. Mas, ela persistiu. Continuou com o filhote, mesmo com ele miando a noite inteira para a porta e metendo as unhas nela.

Em uma semana, ele já dormia nos pés dela. Um tempo depois, o gato já aceitava carinho.

E o Zoom acabou virando um doce de gatinho eventualmente. Dormia com a língua de fora, era mais bonzinho que muito cachorrinho. Seguia ela pela casa inteira. Era o bebê dela.

Mas ela teve que se mudar para a capital por causa da escola. Onde ela morava era 4h de viagem até a escola e aquela escola era excelente. Ela queria fazer faculdade fora do país um dia, só na minha escola teria essa oportunidade, com olimpíadas científicas e tudo mais.

O apartamento que ela iria morar tinha janelas grandes. Os pais dela não tinham dinheiro para telar. E você sabe como é no verão.

O gato, mesmo castrado, iria ir para aquelas janelas. Poderia cair, escapar e morrer.

Então, ela preferiu deixar o gatinho que ela criou desde bebê, o bichinho favorito dela, com os pais e passar três anos quase sem vê-lo. Era melhor longe e vivo. Foi a coisa mais abnegada que ouvi".

Fitei o céu escuro acima de mim. Lembrei de quando falei para minha mãe e Ilithya que só iria ir nessa viagem estúpida se Layla viesse comigo.

— Ela estaria plena e bem se estivesse longe de mim. E agora, estou sozinha.

Me custaria passar alguns dias sem ela? Mas, não, estava com medo de que Vanessa e Alec me deixassem morrer — ou me matassem — na viagem. Não queria enfrentar o desconhecido sem ninguém que eu gostasse junto. Ela estava morta pelo meu egoísmo. Dalila se conteve e conseguiu manter o gatinho vivo.

Eu não pude fazer o mesmo pela minha amiga.

Então, estava oficialmente sozinha naquele universo louco, a única pessoa que gostava de mim de verdade, que dizia que eu era a irmã encapirotada dela, se fora. Minha mãe descartava filhos como se fossem peões, quem poderia garantir que eu não seria o próximo Hipnos, caída em algum tapete quando ela achasse alguém mais promissor? Idia era estranha, parecia que ia com minha cara, mas não dava para ter muita certeza. Vanessa? Eu nem queria pensar nela e acabar entrando na cabeça dela acidentalmente, correndo o risco de descobrir que alguém além de mim me achava indiretamente responsável pela morte de Layla.

— Você não está sozinha – Alec disse – Você tem eu, Nessa e até minha tia, se um dia conseguir levantar uns sulfites.

Olhei para ele. Os olhos estavam vermelhos, talvez ele gostasse de Layla no fim das contas.

— E um dia, você vai me matar, provavelmente, em algum golpe de Estado ou conspiração.

— Prometo que você pode confiar em mim – ele estendeu a mão.

Apertei a mão dele. Mais porque estava quente e meus dedos congelando.

— Perder as extremidades não vai te ajudar muito – ele observou.

Bufei.

Ele encostou a cabeça no meu ombro. Imediatamente, o ar começou a esquentar. Enfim, o filho da puta funcionava como aquecedor também.

— Se for me matar, pelo menos espere até tque eu tenha me vingado de Trivia.

Ele revirou os olhos. Possivelmente pensava que uma garota sem poderes, quase uma mortal, nunca teria como matar Trivia. Involuntariamente, passei a mão na vértebra presa no meu colar. Talvez eu realmente fosse mortal, mas no outro sentido da palavra.

— Um dia, vai melhorar – ele disse – Talvez, aconteça tantas vezes que uma hora você vai perder a sensibilidade para isso. O preço do amor é a perda.

Notas finais
Bom, esse veio mais rápido e é bem curtinho. Pode parecer encheção de linguiça haha mas se vocês notarem, tem uma frase que já foi repetida na história e vai fazer muito sentido no futuro. Dica: a frase já esteve em momento semelhante Maaas, duvido que vocês tenham captado bwahahahhah (Pra quem já leu a versão anterior, saiba que mudei bastante o final dessa, então nada é uma certeza)