Epifanias
6 Capítulo VI
A neve derretia nos montes e as flores ganharam vida novamente. As campinas e prado brilhavam à luz do sol, com gotículas de orvalho deslizando em cada folha. Um céu púrpura e vermelho anunciava o alvorecer. Rylestha limpou o punhal de prata que achara, reluzindo na escuridão, algumas horas atrás. Ergueu a cesta com muitas frutas e dirigiu-se à trilha da tribo, esticando o vestido todo amarrotado.
Encontrou sua tenda com facilidade e entrara antes que alguém acordasse. Vestiu-se como convém a um dia de grande festa; com adornos e flores.
O grande Círculo estava sendo preparado; os guardiões depositavam as pedras, em forma de círculo, erguendo as colunas. Os sacerdotes direcionavam o trabalho e as sacerdotisas faziam músicas com saltérios, harpas e toda sorte de instrumentos. Profetas e profetisas da Luz consagravam-se no Lado da Alvorada.
– Rylestha, filha, precisamos conversar. — disse, firmemente, sua mãe, atrás de si. Kylestha sustentou o olhar curioso da filha, devolvendo-o penetrante e cortante. Ela vestia um vestido amarelo, de seda. Seus ornamentos eram apenas uma coroa de flores e uma folha, parecida com uma fita, colorida e enrolada em seu pulso.
– Diga-me o que deseja, senhora. 0 murmurou, encarando a terra fértil sob seus pés.
– Me acompanhe. — ela ordenou, dirigindo-se para a orla da floresta. — Ouça-me, idiota, você cresceu e tornou-se mulher; homens importantes a desejam e você tem obrigações a cumprir. Pensa que não sei que toda noite adentra a escuridão?
Rylestha pensou, amargamente, que se continuasse a ouvir a mulher, estrangularia-a. Suspirou, e prevendo protestos e justificativas, Kylestha continuou.
– Não sei o que o Sol viu em você, menina, para trazer-te à Sua terra.
"Como ela ousa?", pensou, "pôr-se no lugar de Deus e julgar-me despida de valores..." E quando se lembrou de que era sua própria mãe que lhe provocara ira, lutou consigo mesma para não chorar.
Assim que as fogueiras foram acesas e o Círculo de Fogo concebido, Rylestha saiu para a floresta. O pôr do sol estava mais belo do que jamais vira antes. Andando sem rumo, com o punhal em sua mão, e consciente que encontrava se demasiado longe da aldeia, ela ouviu um som. O som de um ser humano tossindo. Sobressaltada, forçou a visão para conseguir ver algo na penumbra da noite.
Uma silhueta estava em sua frente; uma forma escura e abstrata. Rylestha prendeu a respiração, posicionando-se para um possível ataque. Iluminou-se, como a Filha do Sol que era; chocou-se ao ver um homem cambaleando.
– Para trás, homem! 0 advertiu, tremendo as mãos e tremeluzindo à luz.
Ele continuou a se aproximar murmurando em uma língua familiar. Ele segurou seu braço, e Rylestha girou-o num ímpeto de medo e força, ouvindo-os quebrar. Ele urrou e deixou-se cair. Curiosa, carregou-o para longe, onde acendeu uma fogueira.
Ao observá-lo, notou o quanto era belo. Cabelo na altura da nuca, queixo forte. Másculo e torneado; alto e pálido como a lua. Ele abriu os olhos e ela recuou, assustada. Mas logo aproximou-se, vencendo o medo com a curiosidade. Seus olhos se encontraram com os dele, e ela buscou a mão quebrada do estranho.
– Quem é você? — sussurrou, invocando dentro de si a cura. Poderia, sim, ser um ato imprudente, mas além de mais forte, Rylestha sentia que podia confiar até sua vida a este humano.
E ali, sob a luz da fogueira, juntos pelo destino que, dentre outros tantos mundo, os colocara no mesmo prado, ambos estavam tão encantados, que nunca imaginariam a história que se desenrolaria; tão linda quanto terrível.
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