Epifanias
5 Capítulo V
Darriane recusava-se a acreditar que mais um dia se iniciava. A luz da manhã invadia seus aposentos com uma alegria ameaçadora. Enrolou-se no seu manto e caminhou lentamente ate a janela. Fechou as cortinas, controlando sua raiva para não rasgá-las; pois, apesar de caras, eram presente de sua amada mãe e Rainha, que jazia no bosque do palácio. mandou sua serva acender as velas, e à outra, banhá-la.
Evitava pensar. Se pensasse, em qualquer coisa que fosse, surtaria. Era a primogênita, e teria de apresentar-se como exemplo, como sua mãe lhe pedira que fosse. Não, não pensaria naquele dia. Vestiu-se com seu melhor vestido, de seda, azul escuro como o céu da escuridão. penteou, ela própria, seu cabelo, pois a presença humana de suas criadas lhe incitava fúria. Trançou de lado seus fios negros como o véu da morte e calçou suas sandálias. Pensou no porvir, e dominada pela ira de estar desesperada lançou os archotes ao chão, com a força do Vento. E com o seu vento interior, invocou um tornado em seu quarto. Por que diabos sua mãe lhe fizera tal desgraça? Ergueu sua mão direita e tudo voava ao seu redor com uma velocidade que não podia ser calculada. Por fim, abaixou e fechou a mão com força massacrando todos seus móveis e objetos com o seu Vento. Disse às criadas que somente limpassem o quarto e trouxessem colchões novos.
Saiu, então, pronta para proceder como sua mãe lhe ordenara no leito da morte. Desceu as escadas íngremes, preparando sua postura autoritária, até o salão de jantar, para juntar-se à seus irmãos e irmãs, no desjejum. Nymeria — a mais nova — estava despenteada, com suas vestes amarrotadas e os olhos vermelhos e inchados. Vivianne estava arrumada, penteada, mas seus olhos vermelhos também a denunciavam.
Tahearys, porém, estava sentada, ereta, perfeita e bela. Demonstrava força e firmeza. Seu cabelo ruivo ondulado e em movimento como chamas do fogo, estava solto e penteado. Seus olhos não contavam que ela desatara a chorar, mas contavam que a donzela se regenerara como uma fênix o faz, e assumira finalmente, seu destino de Filha do Fogo.
Jordhron, o mais velho depois de Darriane, estava vestindo a túnica que a Feiticeira tecera, nas cores púrpura e azul marinho. Seus cachos negros lhe caíam sobre a testa, e seus olhos azuis anil marejavam.
Occisor estava vestido de sua armadura e braceletes de ouro branco, que o Rei de Atlântida lhe dera. Seu cabelo azul escuro lhe caía como uma cascata de águas furiosas, até a cintura. Seus olhos cinzentos não marejavam; sequer brilhavam.
Mordred parecia, finalmente, um verdadeiro filho da Rainha Escarlate com a Noite. Seu cabelo prateado reluzia como o brilho da própria Lua e seus olhos azuis, tão escuros que chegavam a parecer negros, tinham um brilho fosco.
Afinal, por exceção de Nymeria e Vivianne, a morte de sua mãe e Rainha resultou em grandes efeitos. Eles assumiram suas posições, como por vezes Escarlate implorou-lhes. Adiante, Nymeria e Vivianne também entenderiam.
– Perdoem meu atraso, por favor. — Darriane pediu, após os saudar.
Foi respondida com murmúrios e o balançar de cabeças. Fez menção aos criados para servirem a mesa. Depois da refeição, sentiu que devia falar-lhes como a Rainha lhe ordenara.
– Irmãos, irmãos. — Ela os chamou a atenção. — Pelo o que pude brevemente observar em vocês, a morte da nossa amada mãe e Rainha fê-los abrir vossos olhos. Por tantas vezes ela nos pediu para lutar, e distraídos pela luxúria de nossas posições, não a ouvimos. E a dor nos ensinou, ontem, a seguir a trilha de nossos caminhos. Sei que parece impossível, mas não abatam-se pela dor, mas atentem e aprendam com ela. Agora, temos, todos, que nos dirigir ao salão principal para a audiência.
Eles se levantaram e Darriane apressou-se a sussurrar para Tahearys.
– Depois da audiência, encontre-me no Bosque dos Quatro Ventos.
– Encontrarei, Darriane. — Ela assentiu docilmente, mas Darriane podia ver, no fundo de seus olhos, labaredas de fogo, ardendo e queimando, uma ameaça inflamável.
Eu poderia ignorar este olhar, pensou consigo, ou agitar-me o Vento, mas ambas atitudes me seriam imaturas. Occisor devia comparecer, pois somente a Água poderia apagar chamas insinuosas.
• • •
O bosque do Quatro ventos era como uma fronteira; ao norte, uma coluna de pedras erguida por Djerta, a Alta Sacerdotisa do Céu, apontava uma trilha para a Capela do Espírito, ou Capela do Vento de Deus. A coluna era consagrada e qualquer filho ou filha, sacerdote ou sacerdotisa, profeta ou profetiza, e aquele que tivesse o dom de ventar, tocasse a coluna e invocasse o Supremo Vento, com pureza e sinceridade, perder-se ia em grande gozo de ter o Vento em si, abundantemente. Ao sul, árvores altas e majestosas dançavam e curvavam-se, ao ventar sereno.
Porém, ao ocidente, uma estrada sem vida guiava quem a seguisse, à ruínas de civilizações antigas que a provocaram a Fúria. O Vento dali era audacioso, destruidor
Ao oriente, uma névoa espessa e acinzentada de movimentava, com agito, sob a força do Vento do Espírito. Impetuoso, mas majestoso, ele cirandava emanando ao ar, um frescor puro e diferente de qualquer outro no bosque, árvores caídas serviam de assento para Darriane. As nuvens mais espessas do que nunca nublavam o céu ameaçando o clima com prováveis tempestades. O chão era bruto e feito de pedras antigas. Com a ausência do sol e sua luz, e com a sombra das gigantescas árvores que escondiam os Quatro Ventos, Darriane esperava seus irmãos em plena escuridão. mexia seus dedos, entrelaçando o Vento em suas mãos, e soprando-lhe agradecimentos.
Logo sentiu o ruflar de asas e um calor confortável se aproximar soturnamente.
– Fênix do Prado das Estrelas, Filha do Fogo Vermelho Escuro e da Rainha Escarlate, Tahearys Fyheagon, da Tormenta Flamejante, meus cumprimentos. — Darriane a saudou, levantando-se, pelo nome de batismo da irmã.
A ave em chamas pousou e curvada, veio a levantar-se como a donzela vermelha que era.
– Sempre cordial, Darry. Que previsível. — Ela provou, irreverente. Percebendo a expressão de desapontamento de Darriane, Tahearys concertou-se, maliciosamente, sarcástica. — Filha do Vento Nórdico, Tempestade do Ocidente, Guerreira dos Céus Tempestuosos, Darriane Elsydeon, O Novo Vento da Fúria, eu a saúdo.
O som de galhos secos sendo pisados e o cavalgar rápido de um cavalo irrompeu uma tensão entre as donzelas. Em um salto, O Caçados dos treze mares, Occisor de Twingion, Cavaleiro da Noite, Luz Negra da Terra, A Água da Lua, desceu de seu cavalo e cumprimentou suas irmãs com beijos.
Sentaram-se, os três, no chão.
– Penso que devíamos entregar o trono nas mãos dos Juízes de Bailes . — Darriane desabafou.
– Então, desapontará os súditos da noite por causa de sua fraqueza. Ou seria, se me permite, melhor chamar de incapacidade? — Tahearys atacou sua irmã com ferocidade.
– Cale-se, tola. Temos caminhas a seguir. Incapaz é você, que não consegue acompanhar a lógica de sua irmã. — Occisor retrucou-lhe, astucioso.
– Ora, vocês. Tahearys, não seja inconsequente, e Occisor, por que dá ouvidos à uma criança? Até Nymeria, em sua tenra idade, é mais sábia; antes calada do que estúpida.
– Antes idiota do que assassina! — a outra gritou acusando-a. Seus olhos consumiam-se de fogo e Tahearys esticava os braços abrindo suas mãos.
Occisor pôs-se entre Tahearys que tentava fulminar sua irmã, e Darriane, que flutuava com os olhos brancos, ventando sua ira. Convertido em Água, choveu forte e a água que caía dos céus, levantavam-se empurrando -as para trás.
Tahearys Fyheagon, vá-se embora. Conquiste suas terras e reine com sua tolice longe dos domínios de Darriane, a primogênita de Escarlate.
– Irei, juro pelo fogo que conquistarei meu reino, e construi-lo-ei com esforços, sem matar inocentes, como o Vento o fez. — Ela declarou, retirando-se, orgulhosa.
– Que acusação é essa, minha irmã, meu amor? — Indagou, gentilmente, Occisor, levantando Darry quando Tahearys voou para longe.
– Occisor, meu querido, ela me acusa por eu saber da profecia. — Ela contou, enterrando seu rosto no peito gelado do irmão, que a embalava num abraço.
– Conte-me. — Ele apenas sussurrou.
– Existe uma profecia. E certa vez eu entrei no quarto de nossa mãe sem lhe avisar. Encontrei-a com um tablete de barro muito antigo, reluzente como ouro. "Quando a Última Gota Escarlate esvair-se na noite, a lua será aprisionada pelos raios de sol a alvorada." A Gota Escarlate é a Rainha que morreu, a Rainha da Noite. E nós e o reino estaremos em submissão ao Dia em breve. Eu sabia, mas nossa mãe fez-me prestar juramento com sangue, meu e dela, de que me calaria. E profecia não se finda aí, mas eis que a outra parte foi queimada sob a lua minguante. Agora, meu amado, terei de partir. Meu pai me ordena.
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