O céu estava límpido, e o sol mais claro do que nunca, parecia iluminar, também, a mente de Sher Solarys. Shor Lummus a observava atentamente; não conseguia pensar em nenhuma estratégia.

– Minha amada, por que os Sete da Noite lhe parecem tão importantes? — ele indagou, cauteloso.

As expressões de Solarys eram quase imperceptíveis, sob o rosto brilhante e harmonioso, mas Lummus a conhecia muito bem, e notou uma onda vermelha faiscando em seus olhos amarelo reluzentes.

– Lummus, eu já lhe pedi, não questione minhas ações. Nosso reino é um reino de equilíbrio, tal como nosso casamento. — ela explicou, mantendo a voz firme e doce.

– Não, não, meu bem. — ele começou a dizer, se aproximando e fitando-a nos olhos. — Não questionarei nunca suas decisões. Eu apenas queria saber por que isso tanto a abala. Estou preocupado, você está inquieta e se eu souber, quem sabe... — suas palavras morreram quando uma lágrima deslizou em sua face. Ele a envolveu em um abraço e ela entregou-se, afundando a face em seu peito.

– Venha comigo ao Lago, por favor, meu amado. Eu lhe mostrarei ao Pôr do Sol. — ela sussurrou e disse-lhe que ia arrumar as coisas para eles passarem a noite fora.

Solarys não interferia nos ciclos naturais, por ser Sacerdotisa do Sol. Lummus, o Guardião da Luz, a adorava por isso. Que seria a Luz, se não fosse a escuridão? Alguns guardiões o repreendiam por tal conceito, mas a verdade é que o Supremo Deus, o Deus Criador, ordenou que houvesse luz e nunca impediu a noite, pelo contrário, fez-lhe estrelas e luas.

Ao pôr do sol, Lummus estava no portão do castelo, com dois cavalos alados, esperando sua dama. O primeiro cavalo, chamado de Shaddis, era branco, porém suas asas, nas pontas, eram levemente douradas. Queter era preto, com a crina e o rabo vermelhos.

Solarys chegou, vestida para montar, carregando uma bolsa de lado. Ele a ajudou a montar, depois montou em Queter e puseram-se a voar pelos céus.

Descendo em um bosque que Lummus nunca vira antes, ele pensou ouvir murmúrios, mas deixou de lado qualquer pensamento que não fosse centralizado em Solarys. A mulher afagou as crinas dos cavalos alados, permitindo-lhes voar para longe. Ela despiu-se lentamente, sem nunca levantar os olhos. Lummus sentiu-se chocado; sim, partilhavam da mesma cama, porém, as carícias limitavam-se a leves beijos e abraços. Nunca a havia visto sequer de roupas íntimas, somente vestimentas nobres ou camisolas. Virou-se, temendo constrangê-la. Ela nada disse, cobriu-se com um véu branco, de seda e linho fino. Aproximou-se do lago cristalino, afrouxando o véu.

Me kitlen xtorn morrishu – ele murmurava em clarianis, a língua de todos os Clarins.

O som de harpas e vozes cantando em uníssono retumbou no silêncio. Era uma canção solene, mas soava ameçadora.

Uma voz, porém, destacava-se das outras, sussurrando. Começou quase inaudível, e cada vez mais alta, até poder ouvir-se somente a voz, suave e doce, mas que dava a impressão de ser um aviso. O som de tambores enfeitava a estranha canção.

Logo, saiu do lago, uma mulher. Tinha a face distinta ao mesmo tempo que nenhuma palavra poderia lhe descrever. Era uma bela mulher, mas transparente. Através dela via-se árvores e emaranhado de arbustos.

– Concedo-lhe a minha presença, semideusa, Filha do Sol, descendente das Primeiras Luzes, Sher Solarys. Faça sua petição.

E rainha, ajoelhada, pediu que repetisse a profecia. E ela a repetiu.

Eis que a última gota Escarlate,

há de esvair-se,

e o sangue de holocausto,

um dia sacrificado pela noite, evaporará pelo calor do sol.

E o mal feito,

em bem se converterá.

Mas e Era de Sofia tem que acabar. — E pronunciadas as palavras, ela já não estava mais lá.

– Meu amado, Sofia é a Grande Sacerdotisa da Sabedoria Santa. Ela não toma partido entre reinos, mas serve à todos com conselhos. Nos últimos anos ela se retirou para uma caminhada solitária. A gota de sangue é Escarlate, a Rainha da Noite, que a tal altura deve ter morrido. A sua linhagem foi de um holocausto, ou seja animal queimado vivo, com o sangue sugado pelo calor. Foi um sacrifício para consertar um antigo mal feito, que não convém os detalhes. Eu não quero aprisionar os Sete, mas eles não virão por vontade própria. E precisamos encontrar Sofia; existe outra profecia, mas creio que basta por hoje. Você está cansado, meu bem.

Ele pensou, pensou, andou um círculo raciocinando seriamente. Por fim, disse:

– Dividirei em grupos as raças, e cada grupo em quatro, juntando diferentes raças com iguais armas. Humanos, centauros, caurinos, minotauros, metamorfos e outros a leste lutando com facas e espadas. Arqueiros ao oeste, juntamente com as Ninfas Guerreiras. No lago que cerca o castelos, posso infiltrar as sereias e metamorfos. Norte e sul, sairemos marchando. Eu ataco o portão sul.

– Eu lidero as tropas do norte. — ela interrompeu.

– Por precaução, deixarei os menthis em casa, governando, e os triviris para cuidar do povo. Partiremos amanhã.

Ela soltou o véu, e lançou-se para ele, na margem do lago, entregando para seu marido o amor que há anos deveria ter sido entregue.