Epifania
13 XIII. Presto
Notas iniciais
Presto: andamento musical veloz e animado.
A manhã seguinte chegou com toda a sua glória, iluminando a cama onde Visão pacificamente dormia, provavelmente a noite mais tranquila que tivera nos últimos dias. Acordar com o sol brando de outono era uma de suas partes favoritas da estação. Sob os lençóis finos, ele esticou totalmente as pernas e os braços, cobrindo o lado vazio do colchão. Suspirou ao sentar e remexer nos cabelos amarelos, claros como fios de ouro; apesar de entender a dor de Wanda, não podia negar que sentia sua falta.
Olhou de relance para o relógio na cabeceira, notando ser ainda cedo. Porém, não estava mais com sono, e uma espiada no calendário ao lado do letreiro digital o qual mostrava as horas o lembrou do concerto que aconteceria naquele dia. Um novo suspiro, seguido de um bocejo. Ao invés de ficar deitado, resolveu levantar e colocar sua vida em ordem, o quanto era possível.
Começou por um longo banho na ducha da suíte. Permitiu que a água corresse por seus músculos e desfizesse nós de tensão acumulados pela extensão de suas costas, levando todas as suas preocupações junto dela. Quando rotacionava os ombros, sentia que a musculatura estava rígida, talvez pela falta de exercícios após semanas carregando as caixas da mudança para cima e para baixo, ou pelo estresse constante. De qualquer forma, precisava mudar seus hábitos o quanto antes.
Vestindo somente um roupão, Visão desceu as escadas e ligou o rádio para escutar algumas notícias enquanto preparava seu café. Surpreendentemente, seu concerto, com a Orquestra Sinfônica local, era destaque no tocante a cultura para aquela noite. Mais um motivo para deixá-lo ansioso. Bebericou seu café com calma enquanto repassava as notas da música em sua cabeça, eventualmente caminhando até o piano e dedilhando os acordes com a mão que não segurava a xícara.
Depois de finalizar a refeição, e tomar um minuto para relaxar com o concerto iminente, trocou de roupa e pegou as chaves do carro para ir até o teatro. A apresentação estava marcada para iniciar às 18h, e seu solo ocorreria exatos trinta minutos depois, sendo que ele sabia da fama da orquestra em ser extremamente pontual. Realizar o ensaio de palco cedo era ideal para evitar problemas futuramente.
Ao atravessar as cadeiras vazias e seguir em direção ao palco, Visão se sentiu estranhamente em casa. Depois de anos indo e vindo de apresentações de piano, aquela adrenalina das apresentações era uma parte indissociável de si, algo que não conseguiria viver sem. Observou o piano preto de cauda ocupando grande parte do palco; sentou-se na banqueta e dedilhou algumas teclas. Perfeitamente afinado, como sempre. Viu algumas pessoas da produção o observarem de longe e apontarem, provavelmente se questionando a respeito do parto de emergência de sua esposa – um suspiro pesado afastou os olhares curiosos.
Quando se viu sozinho, tocou a parte inicial da música, a qual havia decorado após tantos dias ensaiando, e recebeu uma salva de palmas de Ross, o agente musical que era responsável pela orquestra.
— Bravo, Visão! – Falou, animado. – Não esperava menos de você. Mesmo com todos os... Problemas... Segue incrível com sua música. Parabéns.
— Obrigado. – Ele agradeceu secamente.
— Estou ansioso para ver a peça inteira à noite. – Ross deu um tapinha no ombro de Visão e sorriu por baixo do bigode. – Mande lembranças para sua esposa, está bem?
Visão assentiu com a cabeça e se afastou, seguindo na direção do carro que restava estacionado do outro lado da via pública. Sentou-se no banco do passageiro e, ao colocar o cinto de segurança, deixou a mente divagar por um momento.
Lembrou, em silêncio, da conversa com Vivian, e do que dissera para Wanda na noite anterior. Pensava nisso quando ligou o carro e seguiu na direção do alfaiate em que seu fraque estava pronto há algumas semanas. Semanas em que ignorara a existência do concerto, e até mesmo a sua própria existência, soterrado no amor que sentia por sua esposa.
~.~
Visão ajeitou as abotoadoras do terno longo e perfeitamente ajustado em seu corpo. O sol já estava brando, e ele se preparava para sair quando escutou uma batida bem suave na porta de vidro corrediça.
— Oi, Viv. – Disse com um sorriso. Era reconfortante vê-la. – Hoje não posso te passar nenhuma aula ou exercício, mas semana que vem a gente...
— Eu sei. – Ela delicadamente interrompeu. – Vim dar boa sorte para você. Eu acho que no teatro dizem “quebre a perna”?
Ele deixou escapar uma gargalhada sincera.
— Está ótimo. Obrigada, menina. – Suspirou em seguida. – Vou precisar das duas pernas quebradas, eu acho.
Foi surpreendido, logo após, por Vivian correndo em sua direção e abraçando sua cintura. Ela apertou fortemente seu corpo esguio enquanto ele acariciava alguns fios de seu cabelo ondulado.
— Você vai arrasar. Eu sei disso. Porque você é o melhor professor de música do mundo todinho.
Seu sorriso foi ficando trêmulo, e ele sentiu duas lágrimas correrem pelos lados da sua face. Elas embaçaram seus óculos, mas não o suficiente para impedi-lo de ver a garota tão carinhosa em seu enlace.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Vivian prosseguiu:
— E a sua musa vai estar lá. Não se preocupe.
— Você acha?
— Eu garanto. – Ela olhou para cima e exibiu um sorriso sincero.
Visão pegou as folhas da partitura grampeada em suas mãos.
— Eu escrevi essa música pensando nela... E nas crianças. – Provavelmente era a primeira vez que falava dos filhos tão casualmente. – Estou nervoso para tocar. Como você deve ficar antes de um teste difícil. – Ele consultou as horas. – Hora de ir, Viv. Eu acompanho você até a cerca ali fora.
Quando chegou em sua casa, e escutou os passos de Visão indo na direção da garagem, Vivian sussurrou mais uma vez:
— Quebre a perna, Vis.
~.~
— Você tem certeza?
— Sim, Nat, eu tenho.
— Pode ficar mais alguns dias comigo se quiser, você sabe. Mesmo que a Carol volte, ainda tem espaço para você.
— Eu quero passar em casa... Aproveitar que o Vis não está... É difícil pensar no que falar ainda. Mas vou esperá-lo voltar do teatro para conversarmos.
Do banco do motorista, Natasha abraçou fortemente sua amiga.
— Qualquer coisa, me liga, tudo bem?
— Claro. – Wanda exibiu um sorriso fraco. – Obrigada por tudo, Nat.
Após fechar a porta atrás de si, Wanda sentiu o ar frio do final de tarde enrolar seu corpo com o sopro de um vento fino balançando as folhas dos arbustos. Apesar de ser somente alguns dias desde que fora dormir na casa de Natasha, parecia uma vida desde a última vez que pisara na sua residência, na casa que dividia com Visão e que aproveitou pouco por conta do aborto.
Abriu a porta para encontrar o corredor escuro, e a ausência de carro na frente da casa, bem como na garagem, indicavam que Visão já havia saído de casa. A sensação doída de vazio invadiu seu peito; a saudade de seu marido inundava seu coração a ponto de transbordar pela borda, como um copo muito cheio de água. Acendeu as luzes em meio a um pesado e dolorido suspiro, se servindo de uma taça de vinho enquanto caminhava, ainda com os saltos que calçava para trabalhar na faculdade, até o quintal externo na parte de trás da residência.
A grama baixa roçava nos dedos da frente e, entre um gole e outro do vinho, ela observou o sol se pôr por trás das árvores. O tom alaranjado iluminava sua pele, branca como a neve do inverno, bem como os fios do cabelo ruivo, quase cobre, e o macacão de calças compridas quase arrastando no solo. O momento era pacífico, apesar de haver uma guerra interna, dela com seus próprios demônios e problemas, sendo atrapalhada pela voz fina de uma menina de oito anos dizendo:
— Não vai ver o concerto do Vis?
Wanda olhou para os lados, estranhando, até notar Vivian pendurada na cerca. Ela utilizava de uma caixa alta para ficar da altura da madeira e poder olhar a mulher da casa ao lado – precisava ficar na ponta dos pés, também, mas ela preferia esconder aquilo.
— Adultos... Adultos têm problemas às vezes, Vivian.
— Mas você é a musa dele! E ele está nervoso. – Protestou ela. – Você precisa ir.
— Viv, eu...
— Ele escreveu a música para você e para as crianças, e você não vai assistir?
Wanda arregalou os olhos.
— Ele escreveu?
Vivian concordou com a cabeça.
— Você precisa ir. Por ele.
A mulher deu dois passos para trás, ainda com a taça de vinho nas mãos. Ela sabia que Visão constantemente dedicava músicas para ela, mas aquela, possivelmente, era a primeira para as crianças também. Wanda sabia que não podia deixá-lo sozinho, e com uma música inédita.
— Viv. Presta atenção. – Disse, afoita. – O Vis levou só uma partitura para o teatro?
— Sim. Eu vi. Foi uma só.
Wanda respirou pesadamente.
— Obrigada, Viv. – Ela sussurrou e correu escada acima para o segundo andar, o quanto seus saltos a permitiam.
Agachada em frente a uma cômoda em seu quarto, abriu a última gaveta para procurar uma peça que sabia estar ali. Tinha certeza absoluta de que guardara exatamente ali, tempos antes, enquanto fazia uma limpeza na casa antiga. Ao sentir uma espiral sob vários livros de faculdade, ela puxou fortemente o conjunto de folhas para observar seu título:
VALSA PARA WANDA MAXIMOFF.
Ela sorriu, contente com a sua descoberta, e quase não notou um papel, muito pequeno e quase imperceptível, cair ao chão.
Era o ultrassom dos seus filhos.
Com os dedos em pinça, Wanda buscou a foto, trêmula, observando-a com cuidado, quase como se ela fosse se despedaçar diante de seus olhos. Talvez, o que caísse ao chão e partisse fosse seu próprio coração, refletido nas lágrimas brotando nos olhos e nos soluços iminentes em sua boca.
Mas não foi o caso.
Ao contrário das outras vezes em que minimamente mencionava a gravidez, ela não sentiu tristeza ou desconforto, sendo abraçada pela sensação de luto pela primeira vez como a saudade. Melancólico, porém, infinitamente menos dolorido.
Foi assim que Wanda Maximoff teve a sua epifania: a sensação de perda que se transformara em amor. Ela abraçou com carinho a foto e novamente a guardou onde estava, fechando a gaveta com um estrondo antes de trocar o calçado por uma sapatilha e seguir rapidamente na direção da porta de entrada. Deveria chamar um táxi? Uma corrida pelo aplicativo de caronas? O que seria mais rápido?
Enquanto cogitava suas hipóteses, olhando fixamente a ideia do celular, ela ouviu uma buzina, e se surpreendeu com o carro de Darcy na frente de sua porta.
— Vamos lá, menina! – Ela buzinou de novo. – Temos um concerto para ir.
— Darcy? – Perguntou, atônita.
No banco de trás, Monica abriu a janela e gritou:
— Tá esperando o que, menina? O show já começou!
— Mônica? – Wanda gaguejou enquanto se aproximava e sentava no banco do passageiro. – Vocês conseguiram ingressos?
— Claro que não, já esgotou tudo! Mas você disse que não ia, e a gente achou melhor te levar à força, mesmo. – Darcy deu a partida no carro. – Vamos escutar o show da porta.
Wanda riu, levando a partitura em mãos e secando o restante das lágrimas na face marcada.
— Pisa fundo! – Brincou Monica antes dela irem na direção do teatro.
~.~
As teclas do piano se embaralharam na frente de Visão quando a orquestra parou de tocar e os holofotes indicaram que deveria começar. Repentinamente, as notas na folha pautada não faziam sentido, e parecia que ele havia esquecido todas as aulas de piano que tivera na vida. Sentia-se pequeno, diminuto, enquanto arranhava alguns acordes desafinados, as lágrimas em seu rosto impedindo de ver com mais clareza. Parecia uma criança em seu primeiro recital.
Procurou apoio nas pessoas do suporte, indicando com a cabeça que precisava parar. Uma voz metálica anunciou, pelos alto falantes, que usariam de uma pausa de cinco minutos e já retornariam com o show. Antes das cortinas baixarem, Visão levantou e foi para a coxia atrás de si, desesperado para ver uma única pessoa, a qual parecia ter se materializado diretamente dos seus pensamentos para aquela parte escura do teatro. Um pouco assustado, sussurrou:
— Wanda?
Ela sorriu enquanto o abraçava fortemente, e ele finalmente se sentiu vivo.
— Achou mesmo que eu iria perder a sua estreia? Bom, na verdade eu precisei de uma ajuda da Monica e da Darcy, mas isso não importa muito agora.
— De alguma maneira... Eu sabia que você viria. Eu sempre soube que você viria – Visão beijou seus lábios, rosto e pescoço antes de dizer: – Wanda, eu não vou conseguir.
Ela demorou um pouco até responder:
— Vis, eu sei que não agi corretamente com você, e eu sinto muito. Mas você não pode deixar de tocar piano por causa disso. – Ela segurou o rosto de Visão com uma mão. – Não foi para isso que nossos bebês foram concebidos, ainda que por pouco tempo.
Visão soluçou e sentiu lágrimas caírem por sua face.
— Eu sinto tanta falta deles...
— Eu sei. – Wanda secou suas lágrimas com beijos suaves em sua face. Como ele era muito mais alto que ela, precisou ficar na ponta dos pés e apoiar seu corpo no dele. – Eu também sinto. Mas nós amamos eles e eles nos amam, tá bem?
Após Visão assentir, Wanda entregou a partitura para ele.
— Porque não tenta algo que lembre o nosso início juntos? – E sorriu com todo o carinho que conseguia externar.
Os cinco minutos estavam acabando; Visão beijou os lábios dela ternamente e correu de volta para o piano, ajeitando a partitura da valsa que criara para Wanda e, ao levantar das cortinas, pressionou as teclas com emoção. Ele passeava pelo piano como um velho conhecido, com uma música que tinha familiaridade e paixão. Era totalmente fora do tema da orquestra? Sim, porém ele estava tão feliz que nem pensou nisso.
Wanda Maximoff sorria, observando as costas do fraque de seu amor atrás da coxia. Ela esquecera de dizer o quanto Visão estava bonito naquele fraque, tanto quanto no dia que casaram; em poucas horas, ela não precisaria de palavras para elogiá-lo, sendo que despi-lo e beijá-lo certamente diriam mais sinceramente o que tão desesperadamente queria falar.
Quando a música finalizou, a plateia, junto de Wanda, irrompeu em aplausos. As lágrimas no rosto dela marcavam presença, em especial quando ele reverenciou as pessoas, esticando os braços para ela ir ao seu encontro em um abraço apertado. Depois, apontou para ela com as duas mãos, gritando alto o suficiente para todos ouvirem:
— A balada de Wanda Maximoff, pessoal!
Novos aplausos da plateia, e a orquestra voltou a tocar quando Visão e Wanda deixaram o palco de mãos dadas. No camarim, o pai de Visão esperava com flores, e eles conversaram brevemente até Ross aparecer, irritado.
— Aquela música não é a mesma que você estava tocando de manhã, Visão! O que aconteceu?
Ele apenas sorriu, beijando a mão de sua esposa.
— Mudanças de planos, Ross. Acontecem toda hora, sabe? – Ele se afastou. – Agora, se me dá licença, eu preciso ficar um pouco com a minha família.
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