Epifania
12 XII. Lento
Notas iniciais
Lento: andamento musical lento.
— Você vai tocar piano amanhã?
O panfleto estava ao lado do telefone. Visão nem lembrava de tê-lo mudado de local. Provavelmente fora ao arrumar a mesa para o jantar algumas noites atrás, e ele permanecera ali, intocado, esquecido pelo curso do tempo. Em verdade, se não fosse o comentário de seu pai, talvez o próprio Visão esquecesse do seu concerto no dia seguinte.
Aquilo significava buscar o fraque na alfaiataria, realizar o ensaio de palco na manhã subsequente, e, principalmente, deixar a música pronta para apresentar no solo na noite seguinte. Ele havia rabiscado vários acordes os quais, juntos, faziam sentido nas teclas do piano, porém questionava sua validade aos ouvidos do público.
Após observar a data no panfleto do recital por cima de Vivian, respondeu:
— Sim. Amanhã eu vou tocar piano junto com uma orquestra no teatro.
— Isso é legal! — Comemorou ela. — A Wanda vai lá ver você?
Visão suspirou.
— Torço que sim.
Vivian colocou um pé atrás do outro e o mexeu devagar enquanto olhava para o chão. Parecia desconfortável ao lembrar dos problemas ocasionados pelo seu pequeno comentário. Ao perceber, Visão logo questionou:
— Viv, quer escutar a música que eu compus para tocar amanhã?
Ela levantou a cabeça e sorriu, animada, sentando no sofá enquanto olhava o piano. O homem cumprimentou sua plateia de uma pessoa só com uma reverência antes de se sentar na banqueta e mover a ponta dos dedos para cima das teclas marfim e pretas. A partitura já estava lá, haja vista ter prometido de treinar um pouco antes dos problemas com Wanda irromperem, por isso, com rápidas visualizadas para relembrar das notas, a música fluiu sem problemas.
Mas faltava algo.
Ainda que mantivesse as mãos firmes nas teclas, e os pés pressionassem os pedais com vigor, a música parecia fora de entonação. Pelo menos para ele, porque Vivian levantou ao final da apresentação e pulou no próprio lugar enquanto aplaudia, animada.
— Que música linda, Vis!
— Você acha? – Ele questionou, inseguro.
— Sim! Todo mundo no teatro vai amar. – Ela puxou o violino. – Posso tentar acompanhar você?
— É claro, menina. – Ele sorriu. – Vou dar uma ajeitada na partitura para você.
— Como você faz isso?
— Ajeitar a partitura? — Ela confirmou com a cabeça. — É algo que aprendi na faculdade. Você pega uma melodia simples ao piano e compõe para cordas orquestrais, como violino, violoncelo, enfim. É até comum o compositor fazer primeiro a música no piano para só depois passar para os demais instrumentos. — Debruçado sobre s bancada da cozinha, ele começou a anotar alguns acordes em outra folha pautada. — Só um minuto que já vamos treinar, tudo bem?
A menina se afastou e começou a ler suas próprias partituras. Um silêncio confortável preencheu o ambiente, somente com eventuais cantorias de Vivian e alguns comentários sobre o dia de aula, em que ela costumeiramente mencionava suas amigas Kamala e Fernanda, suas brincadeiras e conversas. Aquela sensação de paz era um alívio para o coração machucado de Visão.
~.~
Visão se posicionou na banqueta frente ao majestoso instrumento preto, e fez um sinal com a cabeça para Vivian se preparar com seu violino. Ao tocar o primeiro acorde nas teclas marfim, ela deslizou a vareta sobre as cordas de nylon. O som arranhou um pouco, porém, tocando em conjunto, a falta de entonação havia sumido. Mesmo em instrumentos tão diferentes, a música se completava tendo a presença de outro instrumento.
Quando terminaram, Visão aplaudiu e Vivian fez uma reverência antes de perguntar:
— Posso tocar com você amanhã, Vis?
Ele deu uma gargalhada sincera.
— Certamente me deixaria muito mais calmo, porém vou tocar um solo, Viv. Sinto muito.
Ela pareceu um pouco abalada, então Visão remendou:
— Mas podemos fazer um sarau em breve. Em que podemos chamar a vizinhança e tocar uma música juntos. O que acha?
Um sorriso emergiu nos lábios de Vivian, e ela confirmou animadamente com a cabeça, para depois questionar:
— O que mais poderia deixar você calmo para tocar no concerto amanhã?
Apesar de demorar alguns segundos para enunciar, a resposta já estava na ponta da sua língua:
— Ver a Wanda.
— Ela é mesmo a sua musa... – Viv suspirou enquanto olhava para cima. – A Kamala vai adorar saber disso. Posso contar para ela?
— Pode, claro.
— Obrigada. – Ao perceber que o sol estava quase se pondo no horizonte, ela se preparou para ir embora, guardando o violino de volta no estojo enquanto dizia: – Por que não chama a Wanda para ir ao concerto?
— Ela não quer falar comigo, Vivian.
A menina chegou na porta corrediça e, antes de pisar no gramado e seguir para a sua casa, falou:
— Mas você quer falar com ela, não quer?
Aquelas palavras, tão simples, reverberaram no coração de Visão; e, ao que Vivian saiu da casa, ele sabia exatamente o que deveria fazer. Vestiu uma calça jeans e um casaco por cima da blusa, buscou as chaves do carro sobre a cômoda, e olhou a casa antes de apagar as luzes, indo na direção do veículo em seguida.
~.~
O caminho até a casa de Natasha encontrava-se estranhamente tranquilo para aquela hora do dia. Eram ruas que ele conhecia muito bem, cruzado diversas vezes com Wanda ao longo dos anos de casamento. O horizonte estava cor-de-rosa, reflexo do céu se pondo por trás das nuvens, uma paisagem pacífica por cima do concreto da cidade a qual Visão adorava contemplar.
Uma casa de dois andares com janelas redondas se destacou no centro da cidade, sendo o carro estacionado na subida da garagem denúncia, junto do horário, que ambas Wanda e Natasha já estavam em casa. Sentiu um aperto no peito quando chegou na porta de entrada, escutando as risadas de ambas do lado de dentro; quando tocou a campainha, elas viram sua figura parada na soleira através de uma janela, e as conversas animadas cessaram instantaneamente.
— Wanda. Pode me ouvir?
A primeira tentativa de Visão parecia ter falhado, já que não houve resposta de nenhuma das duas.
— Wanda? – Ele insistiu.
— Vis, acho que a Wanda não está bem para voltar ainda. – Natasha interveio, e ele soube que sua voz era ouvida do lado de dentro.
— Nat, obrigada por cuidar da Wanda esses dias. – A amiga parecia surpresa do lado de dentro. – Só queria falar um pouco com ela. Não precisa... Não precisa nem abrir a porta, Wanda.
Sua esposa se escorou na porta, mas nada disse. Passados alguns segundos, ele prosseguiu:
— Eu li a sua carta. Sei que era algo pessoal, mas estava ali, na minha frente, e eu não pude evitar de ler. As suas palavras... Elas me atingiram profundamente, meu amor. E eu sou muito grato em saber dos seus sentimentos por mim.
Com as mãos trêmulas, ele deu um passo à frente e se encostou na madeira da porta antes de seguir com sua fala:
— Peço desculpas pelo que disse aquele dia para você. Não queria ter falado que negligenciei meu luto por você. – Sua garganta ficou seca, porém ele continuou: – Você disse que seu amor por mim foi soterrado pelo luto. Eu soterrei o luto com o meu amor por você.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Wanda, quase ritmado com uma lágrima manchando o rosto de Visão.
— Eu só queria dizer isso, e pedir para você ir amanhã no concerto. Eu sinto a sua falta. Mas, se não estiver confortável, volte quando quiser. Com certeza a Nat está cuidando muito bem de você.
Uma breve pausa sucedeu, e a esposa fez menção de abrir a porta, contudo, deixou a mão no meio do caminho. Ao perceber que realmente não iria vê-la, Visão só desejou boa noite e seguiu de volta para o carro, sentando-se atrás do volante no banco do motorista. Observou a casa de Natasha, esperando ser surpreendido por Wanda e uma vontade súbita de acompanhá-lo, antes de descartar a possibilidade e dar a partida para ir embora.
Seu coração estava mais leve para o concerto no dia seguinte.
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