Epifania
11 XI. Largo
Notas iniciais
Largo: andamento musical espaçado e severo.
Uma suave batida na porta tirou Visão de seus devaneios no dia seguinte, enquanto esperava Vivian para a aula. Não que tivessem combinado de véspera, mas havia aquele entendimento não traduzido em palavras de se verem novamente na tarde seguinte. Em verdade, as tardes em sua ausência eram completamente maçantes, então, ansiava vê-la atravessar o vão na cerca para aprender mais teorias relacionadas à música e treinar suas dificuldades.
Por esse motivo, ele estranhou a batida na porta, já que ela só aparecia após a aula matutina em seu quintal. Também checou o relógio, que marcava duas e quinze da tarde; a menina só chegava da escola aproximadamente uma hora depois. Wanda tinha a chave para retornar quando se sentisse confortável, Carol estava viajando e Natasha não queria vê-lo nem pintado de ouro. Uma nova batida sucedeu, novamente atrapalhado os seus pensamentos.
Visão se arrastou até a entrada da casa, abrindo a porta devagar para ver uma figura conhecida na soleira da porta, sorrindo para ele.
— Pai?
Um senhor baixo, com a barba rala e os cabelos brancos, abriu os braços e se aproximou do homem, abraçando-o carinhosamente e rindo, feliz por reencontrar o filho. A última vez que se viram foi quando Wanda anunciou para a família que estava grávida, na última Pessach, a Páscoa para pessoas de origem judia, ainda na antiga casa; e, honestamente, Visão não tinha planos de vê-lo tão cedo. Por isso, não esboçou qualquer reação, se mantendo imóvel por certo tempo até tomar coragem para perguntar:
— O que faz aqui? Onde está o Victor?
— O Victor está com a mãe dele, lá na Califórnia. – O homem se afastou e segurou os ombros do filho com ternura. – E um pai não pode visitar o primogênito de vez em quando?
Visão disfarçou um sorriso, notadamente desconfortável. Por um momento, ele pensou que o pai não lembrava do aborto, ou que andasse bebendo quando escutou a caixa postal, porém ele estava há alguns anos sóbrio e se orgulhava disso nos poucos feriados de Ação de Graças que passaram juntos. Ele abriu espaço para o pai entrar na residência, e ele deixou uma mala de ombro pequena no chão próximo da escada.
— Está tentando se esconder, menino? Se não fosse pela Wanda, não saberia para onde tinham se mudado, e teria ido lá na casa antiga ainda.
— O senhor falou com a Wanda?
Havia espanto em sua voz, e o homem de meia idade estranhou a reação.
— Quer dizer... Ela é minha nora, então não tem nada de errado nisso? – Ele deu uma gargalhada sincera. – Entrei em contato com o trabalho dela, falei diretamente com ela, e consegui o endereço. Inclusive, disse que ficou animada em conversar. A sua esposa é um doce, mesmo.
Enquanto esquentava uma chaleira de água para preparar um café, Visão escondeu um sorriso ao lembrar de Wanda. Sua gentileza inata. As palavras de amor na carta a qual segurara entre os dedos até a hora de dormir. Saudade. Em um sussurro, somente disse:
— Digamos que não estamos nos nossos melhores dias.
— É, meu filho, isso eu percebi. – Seu pai se acomodou em uma cadeira na mesa de jantar. – Ela falou que estava dormindo na casa de uma amiga. O que houve?
Ele não respondeu, apenas abrindo os armários para pegar pão e a manteiga em cima do micro-ondas, servindo-os em seguida. Era estranho estar em sua presença; o silêncio, antes incômodo, se transformara em uma opressão desde a chegada do homem. Para tentar mudar de assunto, Visão questionou:
— Já viu algum hotel para ficar? Ou prefere ficar aqui? – Ele desligou a boca do fogão ligada assim que a chaleira apitou, despejando o líquido fervente sobre o pó aromático em um coador de café. – O quarto de hóspedes está ocupado, mas o sofá está livre.
— Ocupado com os itens dos bebês que vocês ainda não separaram?
Silêncio. Visão torceu o canto da boca.
— Por que você não me fala o que incomoda, filho?
— Eu não tenho nada para falar com você. – Respondeu Visão, ríspida e impacientemente, enquanto servia uma xícara de café para a figura paterna. – Inclusive, nem sei o que você está fazendo aqui. Já tem mais de um mês que a Wanda saiu daquela maca de hospital. – Ele mesmo tomou um gole da bebida amarga. – Se era para ter nos visitado, passou da hora.
O pai de Visão permaneceu imóvel, até levantar a cabeça e encará-lo nos olhos. Um era praticamente o reflexo do outro, o azul límpido fiel refletido nas írises do filho, todavia, já misturado com os olhos claros da mãe.
— Eu precisei trabalhar meio período como frentista durante a noite por dois meses para vir.
Dessa vez, o silêncio que sucedeu as palavras proferidas pelo homem passou a sensação intensa de vazio. O vácuo entre eles era abstrato, mas quase tangível, como se houvesse um precipício entre os dois homens onde deveria haver apenas a bancada da cozinha. Um pouco envergonhado, Visão murmurou:
— Desculpe. Só… Não esperava ver você aqui.
— Eu sei que não. É por isso que eu vim, meu filho. – Ele se levantou e parou ao lado de Visão, botando uma mão sobre seu ombro. – Os pais sabem quando os filhos não estão bem.
Visão queria chorar. Seus olhos ardiam por baixo dos óculos, a cabeça doía. Mas nenhuma lágrima, ainda que singela, caiu. Seu rosto apenas tomou uma coloração avermelhada e ele comprimiu os lábios em uma fina linha.
— Eu sei que nunca fui um bom pai, mas eu também passei por perdas. – O velho homem prosseguiu. – Eu perdi a sua mãe. E eu sinto que perdi você também.
— Que diferença faz? – Questionou Visão, cético. – Você tem a Marinella e o Victor agora.
— As pessoas e os sentimentos não se substituem, meu filho.
Uma lágrima escorreu pela sua bochecha até molhar os fios da barba.
— Eu amo a Marinella e o Victor, mas não significa que eu esqueci a sua mãe e você. Quando você tiver filhos, não vai esquecer do William e do Thomas.
Era a primeira vez que os nomes dos meninos eram citados em voz alta desde o aborto, pelo menos em sua presença. Somente vira as inscrições dos apelidos alguns dias antes no ultrassom impresso, além de menções nos brinquedos e móveis entulhados no quarto de hóspedes. A sonoridade era diferente; da esperança de vê-los para o luto de não poder mais vê-los.
— Por que você deixou a mãe ir?
— Sabia que esse assunto viria à tona. – Ele deu uma risada amarga enquanto bebericava o café. – Muitas coisas não estão ao nosso alcance, filho. Eu não tive como impedir a sua mãe de ir.
— É claro que teve! – Esbravejou Visão, aumentando o tom de voz. – Porque você não procurou o AA antes, pai? Porque deixou tudo desmoronar diante dos seus olhos antes de procurar ajuda? Porque não manteve nós dois perto de você?
As lágrimas caíram quase instantaneamente após a fala, emaçando a vista e os óculos de Visão à medida que baixava o tom de voz para nada além de mero sussurro ao que suas palavras reverberavam pelas paredes. Aquilo não se tratava mais dele como pai de duas crianças natimortas, mas dele na posição de filho em um lar completamente despedaçado.
— Você tem quase trinta anos e eu nunca o vi chorar assim.
Depois de tanto tempo reprimido, em questão de três dias, Visão se mostrou vulnerável na frente de Wanda, Natasha, Vivian e, agora, seu pai. Não costumava ser tão sentimental ou violento, proferindo as acusações de abandono contra o homem da mesma forma que adagas afiadas prontas para perfurar seu peito. Era estranho despir-se daquela pesada máscara a qual cobria suas emoções. Não era reconfortante como o abraço o qual recebera de Vivian, e sim uma ação que o machucava ainda mais do que ele julgava ser capaz de aguentar.
Suspirando, o homem de meia idade continuou:
— Sabe porquê eu o batizei de Visão?
— Porque você estava bêbado e disse o nome errado para o cartorário?
Uma nova risada amarga.
— Engraçadinho. Eu estava perfeitamente consciente quando levei você para registro no cartório. – Seu olhar caiu para a aliança na mão esquerda do filho, depois foi em direção à própria aliança, e retornou para o rosto de Visão. – Eu queria que você fosse melhor do que eu fui.
— E, para isso, precisava me dar um nome ridículo?
— Era um recado. Caso eu não estivesse próximo quando você crescesse. – O homem pigarreou. – Mantenha seus olhos na estrada, o futuro vai ser melhor.
— A minha mãe concordou com isso?
— Ela apoiou isso. – Ele riu e buscou a carteira no bolso para entregar algo ao filho. Uma foto, antiga e amassada, mas ainda visível, de uma mulher de cabelos curtos com um bebê no colo e uma certidão na outra mão. – Desculpa ter ficado com a foto até agora, era a última lembrança que eu tinha de vocês dois. Mas ela pertence à você, mais do que a mim.
Visão pôs a foto na mesa, e buscou a própria foto da mãe que carregava para todos os lados para colocá-las lado a lado. A sua versão estava mais desgastada, porém, a de seu pai se encontrava amassada pelos anos dobrada na carteira. Um pensamento que cruzara sua mente foi se sua madrasta sabia da fotografia, guardada por anos pelo marido, que ele ocasionalmente tirava e analisava. Era provável sim, e respeitava esses momentos, porque eram parte da sua história.
— Foi no dia que o registramos. Eu nunca esqueço de você. E nem dela.
Analisando as fotos sobre a bancada, Visão suspirou enquanto sentia novas lágrimas brotarem nos cantos dos olhos.
— Não há fardo maior do que precisar ser uma pessoa melhor e fazer o bem só porque seu pai era alcoólatra e todos têm essa expectativa de você.
— Bem é algo que se faz. Bom é algo que se é. Você é uma pessoa boa, Vis. E isso já torna você melhor. – Ele segurou o ombro do filho novamente. – Não deixe esse medo de ser igual a mim corroer o seu relacionamento com a Wanda, ou a memória dos seus filhos. Por favor.
Com a ponta dos dedos, ele apertou fortemente os músculos tensos do rapaz antes de tomar o restante do café na xícara e buscar a mala de ombro no chão e se dirigir até a porta.
— Estou em um hotel no centro. Amanhã vou ao seu concerto. Por sorte ainda que consegui um ingresso. – O pai riu enquanto abria a porta. – Até mais, Visão.
Algum tempo depois, Vivian apareceu no quintal. Visão estava tão ocupado admirando a foto de sua mãe, imaginando sua voz o ninando para dormir, que mal escutou Vivian cumprimenta-lo:
— Oi, Vis.
Ele levantou a cabeça. A menina estava com o violino nas mãos.
— Oi, Viv. – Ele sorriu. – Já comentei que eu tenho um irmão chamado Victor?
— Não! Ele é legal? Onde ele está?
— Lá na Califórnia. Ele deve ter a sua idade. – Visão suspirou, lembrando da família quebrada e, no fundo, desejando que o meio irmão jamais passasse por aquilo. – Espero que vocês possam brincar juntos um dia.
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