Epifania
10 X. Grave
Notas iniciais
Grave: andamento musical muito vagaroso e solene.
Na tarde seguinte, Visão, usando seu tradicional casaco fino tom caramelo, apoiou os braços na cerca entre a sua casa e a residência vizinha, lar da jovem Vivian e de sua mãe, Virgínia, tendo nas mãos um pequeno instrumento em um estojo de madeira acolchoado com veludo vermelho.
— Acho que isto é seu.
Vivian levantou o rosto das bonecas no quintal e encarou Visão. Seus olhos demonstravam certo pavor com a figura a qual, por muitos dias, foi o mais próximo de um “vizinho amigo” que poderia apontar em sua curta vida. Ela paralisou com o meio sorriso do homem; apesar de não saber identificar com palavras, notava sofrimento em meio à empatia misturadas como uma poção no caldeirão que era o seu par de olhos azuis.
Depois, recuou, incerta de como reagir. Não lembrava corretamente da noite anterior, somente da sua mãe dizendo que ela fizera algo terrível, e da ausência do calor da música a embalando para dormir. Temeu se aproximar e levar uma bronca, ao mesmo tempo em que gostaria de ter seu violino – e seu mestre – de volta. Permaneceu nessa dualidade com o silêncio do olhar de Visão fixo nela até uma voz quebrar o transe deles, advinda da porta dos fundos:
— Eu estava esperando por você. – Virgínia fez um sinal enquanto ajeitava o seu avental sobre as roupas de escritório. – Venha tomar um café.
Visão assentiu e fez menção de atravessar a cerca pela fenda abaixo, porém a mulher complementou:
— Dessa vez, peço para que venha pela porta da frente.
Com a maleta do violino em mãos, ele atravessou a sala vazia da residência até chegar na entrada, trancá-la e atravessar um espaço de grama entre uma casa e outra para alcançar a porta aberta com as duas vizinhas aguardando sua chegada. Contra a luz do sol, suas peles tom oliva e os olhos esverdeados praticamente iguais delas pareciam reluzentes.
Ele se ajoelhou na soleira da porta e exibiu um sorriso meigo para Vivian, a qual estava devidamente escondida entre as pernas de sua mãe, e esticou os braços com o estojo contendo o instrumento esquecido na noite anterior.
— Aqui está, senhorita Vivian. – Ele sorriu.
Ela agradeceu em voz baixa e tirou a caixa das suas mãos, correndo para o andar de cima da residência. Visão finalmente entrou, e observou o amplo espaço entre o chão de madeira e o teto, sendo as paredes completamente pintadas de branco com prateleiras suspensas cheias de artesanatos diferentes. À sua direita havia um sofá de dois lugares de frente para uma televisão ligada, a qual exibia desenhos infantis. Havia, ainda, uma pilha de desenhos infantis no chão entre o acolchoado e o eletrônico, junto de tarefas de casa inacabadas.
Sua casa deveria ser daquele jeito. Bagunçada, mas alegre.
Visão suspirou e engoliu em seco, sorrindo para Virgínia ao chegar na mesa de refeições, junto da cozinha. Ele se sentou em uma cadeira meio puxada para fora, e notou uma xícara de café fumegante em sua frente, uma fileira de torradas com tomate e queijo picados logo atrás. Ele se serviu de uma e tomou um gole de café; seu estômago ardia pelas horas sem comer, desde a noite passada. Não era a melhor opção tomar café naquele estado, mas silenciou o pensamento com a sensação de alívio sentida ao engolir a primeira fatia da bruschetta.
— Obrigada por ter cuidado da Vivian todos esses dias. – Disse Virgínia após um longo período em silêncio. Ela se sentou na cadeira na diagonal e se serviu de café. – Acabou me ajudando por tabela, pois eu pude sair sem me preocupar por deixar ela sozinha.
— Sem problemas. Ela é uma ótima companhia. – Visão bebericou o café, escondendo o rosto por trás da xícara.
— E eu assumo a responsabilidade e peço desculpas pelo ocorrido. — Virgínia cruzou os dedos na frente do corpo. Ela parecia ansiosa ao falar. – Eu dei uma bronca na Viv por ter sido indelicada desta forma.
— Por favor, não brigue com a menina. – Ele pôs a xícara sobre a mesa. – Ela realmente não tem culpa pelo comentário. É só uma criança.
Virgínia se serviu de dois cubos de açúcar e balançou a colher no líquido amargo para incorporar o doce e torná-lo um pouco mais agradável.
— Quer leite? – Questionou.
— Não, obrigado. – Respondeu Visão enquanto se servia de mais uma fatia do pão.
— Agradeço a sua compreensão, mas ainda devo um pedido de desculpas.
Ele nada disse, apenas encarando a xícara de café em sua frente. A voz de Virginia irrompeu no ar novamente depois do que pareceu uma eternidade em silêncio:
— Eu sei que me meti em uma seara que não deveria... Mas sabe por que eu falei disso com ela?
Visão levantou a cabeça, curioso.
— A Viv... Ela disse que não havia fotos nas paredes da sua casa.
— Ela perguntou isso para mim, realmente. – Constatou Visão, ajeitando os óculos.
— Olhe ao seu redor. – Virginia fez um sinal para indicar a sala e a cozinha, as quais eram praticamente juntas. – Você não vai encontrar uma foto nas paredes ou nas prateleiras.
O homem prontamente obedeceu e olhou para as paredes da residência, notando, realmente, não haver uma foto sequer pelas paredes, tampouco porta-retratos contendo fotografias da mulher e de sua filha.
— Eu não compreendo seu ponto, Virgínia.
A mulher suspirou.
— Eu sou divorciada. Saí de um relacionamento complicado e me mudei faz pouco tempo. – Ela deu um sorriso fraco. – Não consegui pendurar as fotos com meu ex na parede. E a Viv achava que só pais separados não tinham fotos na parede. Foi uma maneira de explicar que as pessoas têm traumas e motivos diferentes para não pendurar imagens pela casa.
Uma breve pausa sucedeu antes dela emendar:
— Mas eu não fiz menção dela comentar sobre isso com vocês, em especial durante um período tão delicado.
— Está tudo bem. De verdade. – Visão esticou uma mão e segurou seu pulso, dando um olhar condescendente por trás das olheiras e dos olhos cansados e tristonhos. – Parece estranho, mas é bom falar um pouco do luto. Tenho deixado isso entalado há várias semanas e, mesmo com os problemas que ocasionou, falar ajudou a colocar um pouco para fora.
Virgínia se sentiu um pouco sem jeito, mas respondeu com o mesmo sorriso fraco de antes, aliviada pela compreensão do homem, ainda que estivesse notadamente abatido. Ele apertou seu pulso mais uma vez, silenciosamente dizendo que sentia muito pelo divórcio, antes de lentamente se afastar e recostar novamente nas costas da cadeira.
Um agradável silêncio tomou conta do local, que somente foi interrompido quando Vivian começou a tocar seu violino, as notas levemente desafinadas vindo do andar de cima da residência e inundando o térreo com uma atmosfera tranquila. Visão se serviu de mais café e algumas bruschettas, e, em seguida, a mulher complementou em voz baixa:
— Por que não vai lá em cima dar um “oi” para a Viv?
Ele assentiu, finalizando seu café e deixando a louça sobre a pia. Logo após, pediu licença para subir o lance de escadas em direção ao andar de cima, literalmente seguindo a música para chegar ao quarto de Vivian. Não foi difícil identificar o quarto com a porta entreaberta, haja vista as flores entalhadas na madeira e adesivos os quais acompanhavam a decoração. Visão bateu suavemente na porta e entrou em seguida.
— É aqui que tem o concerto de violino? Me perdi um pouco.
As paredes do cômodo eram pintadas de lilás, e possuíam diversos adesivos de borboletas e jardins. Próximo da janela, havia uma escrivaninha, onde o sol do final da tarde batia, deixando o ambiente com aspecto pacífico. Vivian estava em cima de um tapete branco, a alguns passos de distância de um armário e uma caixa a qual ele julgou ser onde ela guardava seus brinquedos; em sua frente, havia uma fileira de bichinhos de pelúcia, sua plateia.
Ainda que ela tivesse parado de tocar, Visão se aproximou e se sentou ao lado de um urso branco com cachecol verde, cruzando as pernas e sentindo o aroma delicado permeando o quarto. Provavelmente era lavanda, um dos cheiros favoritos de Wanda. A menina hesitou antes de novamente colocar o instrumento sobre o ombro e arriscar as primeiras notas de uma música.
A partitura colorida estava em sua frente, e Vivian frequentemente abaixava a cabeça para consultar as notas, porém, não precisava parar a música para tal, como ela fazia no início das aulas. Apesar de ainda com dificuldades, o som estava fluindo ainda mais naturalmente; e, no fundo de seu coração, sentiu-se orgulhoso de ter dado início ao aprendizado daquela jovem criança.
Quando a música terminou, Visão bateu palmas em êxtase, lágrimas no canto de seus olhos indicando a emoção pelo momento. Ela disfarçou um sorriso, em especial ao lembrar da primeira vez em que se viram. Depois, se aproximou e se sentou à sua frente, dizendo:
— Desculpa por ter falado aquilo ontem.
Visão suavizou o olhar e segurou seus ombros.
— Está tudo bem. A Wanda só... Ficou chateada.
— Mas ela vai ficar bem?
A preocupação na voz de Vivian era perceptível.
— Vai. Ela só foi passar uns dias com a Natasha. Sabe, Vivian, é muito triste para os pais perderem os filhos.
— Eu imagino. Não quero deixar nem a mamãe nem o papai, mesmo que eles morem em casas separadas agora.
— Exatamente. Você ama seus pais e seus pais amam você. Eu e a Wanda amávamos muito os nossos bebês... E eles certamente nos amavam também.
A voz de Visão foi ficando cada vez mais embargada, e um nó se formou em sua garganta, que só foi desfeito por um abraço quentinho de Vivian. Ela deixou seu violino no chão e passou os braços ao redor de seu pescoço. Um pouco incerto, Visão se deixou abraçar e retribuiu o carinho segurando a pequena cintura da menina.
Depois de algum tempo em silêncio, Visão deixou as lágrimas descerem por sua face e molharem a blusa de uniforme de Vivian. Ela correu até sua escrivaninha para pegar alguns lenços em uma caixinha, e o homem agradeceu, secando seu rosto.
— Vis. – Ela chamou sua atenção.
— Sim, Vivian?
— Sabe, o meu papai não vive mais aqui comigo. E eu só vejo ele sábado e domingo uma vez por mês. O juiz achou melhor assim.
Ela dizia aquelas palavras com cuidado, como se as tivesse repetido várias vezes até decorar.
— E, mesmo eu não vendo ele todo dia, eu amo ele. E ligo para ele sempre. E tem dias que eu não consigo falar com ele, então só penso nele.
Visão arqueou as sobrancelhas, um pouco incerto.
— Você não pode mais ver seus filhos, nem falar com eles, mas pode pensar neles. Assim você sempre está com eles, e eles estão com você.
Novas lágrimas brotaram nos olhos de Visão a partir daquela fala inocente de Vivian. Mais uma vez ele a abraçou, dessa vez com mais força, e se deixou chorar no seu minúsculo ombro, que trazia conforto através da música e de palavras.
— Mamãe me ensinou a dizer que sente muito quando alguém morre. Então eu sinto muito.
Provavelmente, aquele fora o primeiro pedido de condolências dedicado a ele exclusivamente, e não a ele e a Wanda.
De certa maneira, era reconfortante.
~.~
Quando Visão voltou para casa, algum tempo depois, a noite começava a tomar conta do céu, com pequenas estrelas junto da lua. A residência estava totalmente vazia, e assim permaneceria por alguns dias, provavelmente. Antes de procurar algo para jantar, ele olhou os armários, para ter certeza de que Wanda não havia esquecido de levar algum remédio para a casa de Natasha, contudo, ela sempre os levava na maleta do trabalho, então as chances de ter esquecido algo eram ínfimas.
Olhou o balcão da cozinha, buscando algo que não sabia bem o que era, até achar um pedaço de papel dobrado no chão. Arqueou os olhos em surpresa, pois não sabia o que aquilo poderia ser. Um pedaço de partitura que voou com o vento de outono, talvez? De qualquer maneira, ele se abaixou e tomou o papel em mãos.
Instantaneamente reconheceu a letra cursiva de Wanda, e notou ser uma longa carta, bastante rabiscada, mas ainda legível. Ajeitou os óculos para começar a ler:
Querido Vis,
Amar você provavelmente foi a coisa mais fácil que eu já fiz.
Abaixo, havia várias palavras rasuradas, para depois o texto prosseguir:
Lembra aquela viagem que nós fizemos quando éramos casados de pouco, e você me perguntou se era um empecilho na minha vida ter casado com você tão nova? Se eu queria ter novas experiências e nosso namoro não deixou? Eu só ri naquele dia e joguei um travesseiro na sua cara, mas me peguei pensando esses dias novamente a respeito disso. A verdade é que você atrapalhou, sim, minhas experiências, pois você estabeleceu um novo patamar na minha vida amorosa. Se um dia nós não ficássemos juntos, eu não aceitaria ter um relacionamento que não fosse no mesmo nível que eu tenho com você. Sua compreensão, sua gentileza, bondade, todos os detalhes os quais tornam você minha verdadeira alma gêmea. Aquele dia, na faculdade, eu tive certeza de que, mais do que um encontro de corpos, nós tivemos um encontro de almas. Era divertido perguntar de você para as pessoas e descobrir seus horários, tomar café na cafeteria que você era barista, conhecer você devagar... E olha aonde chegamos hoje. Sei que entre nós dois existe essa barreira, essa distância, ocasionada pelo que ocorreu recentemente, mas só queria lembrar o quanto eu amo você, ainda que o sentimento, junto de todos os outros sentimentos da minha vida, esteja soterrado por baixo do luto.
Mas isso nunca vai me impedir de dizer: eu te amo, Vis.
— W.
Abaixo, havia algumas palavras circuladas, entre elas paixão, amor, luto e compreensão.
Visão abraçou a carta com carinho, sendo o único pedaço de sua esposa presente naquele momento.
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