Epifania
8 VIII. Vivace
Notas iniciais
Vivace: andamento musical rápido e vivo.
Wanda acomodou-se no sofá, com as pernas dobradas sobre o acolchoado e seu cotovelo apoiado no braço do assento. A palma de sua mão direita cobria parcialmente a boca enquanto os olhos miravam fixamente a menina parada no meio da sala de estar. Esta, por sua vez, virou as folhas da partitura com as pautas para baixo, se concentrando na memória para relembrar a mesma música que tocara tantas vezes durante a tarde.
Ela arranhou na maioria das notas, e até fez pausas maiores que as indicadas pela música, mas, eventualmente, chegou ao final e arrancou uma salva de palmas alegres de Wanda.
— Bom trabalho, menina! – Ela sorriu. – O Vis ensinou essa música hoje?
— Sim! – Respondeu uma animada Vivian. – Nós pintamos partituras e o Vis me ajudou a entender melhor. – Ela subitamente parou, e ficou um pouco corada.
— Tudo bem? – Questionou Wanda com o cenho franzido.
— É a primeira vez que eu toco para uma plateia sem minhas pelúcias. – Vivian pôs o violino estendido ao lado do corpo, preso pela ponta dos dedos. – O Vis, minha mãe e meu professor não contam. Você... Você gostou, Wanda?
O peito de Wanda foi tomado por uma sensação aconchegante, e ela esticou os braços com um sorriso fraco. Planejava fazer uma brincadeira sobre o “público” estar admirado com a apresentação, simulando um mágico com seu chapéu em mãos prestes a anunciar a próxima atração de um circo.
Porém, ela foi surpreendida por um abraço de Vivian.
A menina largou o violino sobre a mesa de centro e correu para os braços de Wanda, entrelaçando suas pequenas mãos nas costas da mulher e deixando-a sem palavras por alguns instantes, até finalmente ceder, envolvendo a menina que recém conhecera em um terno abraço.
Dos degraus iniciais da escada, Visão observou, admirado. Era difícil alguém, quanto mais uma criança, fazer Wanda demonstrar afeto daquela forma. Vivian possuía uma áurea angelical e, talvez, sua presença fosse o necessário para trazer um pouco mais de brilho para a casa tão vazia e cheia de fantasmas.
— Obrigada, Wanda.
— Eu que agradeço. – Ela respondeu em um apressado sussurro.
Sem entender nada, Vivian se afastou e acenou para Visão, dizendo:
— Eu vou para casa! Amanhã volto para a aula!
Ele acenou de volta e acrescentou, enquanto a menina pegava seu violino e as partituras:
— Não esqueça de reler as partituras, ainda que não toque a música! E mande lembranças para a sua mãe.
— Pode deixar! – E ela correu pela porta entreaberta para atravessar o pedaço de cerca entre o quintal de Visão e o dela.
Wanda levantou sentindo aquela sensação dissipar pouco a pouco, como se lentamente retirada por uma força superior. Repentinamente, se sentiu vazia, da mesma maneira que experimentara a perda dos filhos. Porém, não era a mesma sensação de não os ter visto nascer e crescer, tampouco o despreparo para manter uma conversa com uma aluna sobre maternidade, e, sim, algo que se assemelhava à esperança, indicando que logo tudo estaria bem.
– A Vivian assustou você?
Visão parecia preocupado, segurando os braços de Wanda e olhando em seus olhos com a expressão franzida.
— Não, nem um pouco. Ela é um doce. – Ela suspirou e deu um meio sorriso. – Será que agora eu posso subir e trocar de roupa?
Seu marido a puxou para perto e a envolveu em um abraço enquanto beijava o topo da sua cabeça, sentindo o aroma de perfuma emanado dos seus cabelos. Após, ele disse:
— Claro que pode. A banheira está quentinha e os seus sais de banho favoritos estão sobre a pia. Também deixei o seu roupão em um cabide no gancho da parede. – Seu tom de voz diminuiu. – Você merece um descanso.
Ela lembrou do dia corrido. Das dificuldades em manter a conversa a respeito de maternidade. Não se lembrar do concerto de Visão que aconteceria na semana seguinte.
— Realmente, acho que mereço um descanso. – Respondeu ao desvencilhar-se do abraço e subir calmamente as escadas.
~.~
A água quente da banheira cobria o corpo de Wanda até a altura do colo, e os sais especiais deixavam o banho ainda mais agradável. Ela puxou um shampoo sólido e delicadamente esfregou pela extensão dos fios, submergindo para molhar da raiz até as pontas do cabelo, depois emergindo para deixar o restante de shampoo pingar nos ombros.
Novamente submersa, Wanda abriu os olhos sob a água, e observou o teto do banheiro, bem como alguns azulejos na parede branca. Sua vista estava embaralhada pelo líquido, mas permanecia com os olhos abertos. Envolta pelo calor, ela lembrou do abraço de Vivian e a sensação de esperança em seu peito; após alguns segundos, voltou a levantar a cabeça, desesperadamente buscando por ar.
Na beirada da banheira, havia um espelho para maquiagem. Wanda se olhou e notou os olhos cansados, mesmo com o banho relaxante, e percebeu que não estava se cuidando como já fizera. Seu rosto estava abatido, cansado, até um pouco marcado pelos inícios de rugas em sua testa e ao redor dos lábios. Com uma determinação desconhecida há tempos, ela terminou o banho e, após vestir o roupão, buscou todos os cremes faciais escondidos no armário do banheiro (felizmente, Natasha os havia guardado na última visita) para iniciar uma nova rotina de cuidados com a sua pele.
Visão, no andar de baixo, pré-aquecia o forno e separava alguns ingredientes para tentar fazer uma pizza. Apesar de ter ido ao mercado naquela semana, não conseguia pensar no que preparar para Wanda, em especial após inventar uma surpresa para distrair a esposa. Mesmo com muita comida nos armários, o tempo parecia correr contra ele no preparo daquela refeição.
Não tardou para Wanda descer as escadas para o térreo, vestindo somente o roupão por cima da pele, com os cabelos curtos enrolados em uma toalha retendo creme espalhado da raiz até as pontas úmidas. Lentamente caminhou até o sofá, sorrindo ao ver seu marido na cozinha. Visão logo se aproximou e se sentou ao lado dela.
— Descansada?
— Uhum... – Ela fechou os olhos e encostou a cabeça no recosto do sofá.
Apoiando o corpo sobre um joelho, Visão sentiu o coração disparar ao mirar sua esposa, o corpo escultural coberto pelo grosso tecido, mas ainda deixando à mostra o colo e as pernas torneadas. Ele recuou antes de investir em um beijo, temendo a rejeição por parte dela naquele momento.
Para a sua surpresa, todavia, ela correspondeu.
Wanda beijou Visão graciosamente, gentilmente apertando a ponta dos dedos em seu pescoço para puxá-lo mais para perto antes dos braços ele enlaçarem as suas costas e delicadamente puxar a esposa para o lado, deitando-se no acolchoado do sofá para pôr seu corpo escultural sobre o dele.
A mulher se equilibrou em cima de sua cintura, deixando suas áreas íntimas perigosamente perto ao abaixar-se para dar-lhe um novo beijo. Em seguida, uma das mãos de Visão apoiava o torso de Wanda, enquanto a outra soltava a toalha de seus cabelos e adentrava os fios juntamente de fortes beijos e lambidas em seu pescoço, que provocavam gemidos consideravelmente altos por parte ela.
Com as mãos livres, Wanda levantou a blusa verde que Visão usava, e, usando a ponta das unhas, arranhava seu tórax no meio das respirações entrecortadas. Logo após, as mãos habilidosas do homem desfizeram o laço na frente do robe escuro e observou-o escorregar pelas costas da moça até cair no chão.
Tomou de um momento para admirá-la, sentada sobre sua cintura. Wanda pôs as mãos sobre o rosto e questionou:
— Está tudo bem?
— Só olhando a deusa com quem me casei.
Quando respondeu, Visão colocou as mãos em sua cintura e novamente puxou a esposa para perto, distribuindo beijos em seu colo e seios, juntamente de movimentos de sucção no bico de suas mamas. Ele apertava o enlace ao redor das costas dela, enquanto Wanda abraçava seu pescoço e beijava o topo de seus cabelos, dourados como fios d’ouro. O pênis de Visão pulsava dentro de sua roupa íntima, e ela correu os dedos pelo corpo parcialmente desnudo para apertá-lo e acariciá-lo devagar, a melhor maneira possível para deixá-lo excitado.
... Mas eles não tinham preservativo naquele momento.
Ao perceber que o cômodo estava ficando muito quente, Visão segurou-a nos braços e levantou, subindo escada acima e, em seguida, jogando-a sobre a cama, tirando a roupa rapidamente e buscando uma camisinha dentro da gaveta em tempo recorde. Ela seguia sorrindo, completamente nua, e parecia um tanto mais confortável que a última vez.
Um beijo sucedeu a entrada de Visão e um gemido arfante de Wanda. Cogitou perguntar se ela estava bem, mas a expressão em seu rosto denunciava que se sentia bem à vontade. Ela permaneceu com as pernas abertas e as unhas firmes nas costas de Visão, gemendo cada vez mais alto com os movimentos rápidos dele dentro dela, e sua própria respiração ficando mais e mais pesada.
Apenas a luz do abajur estava acesa, haja vista o prestativo marido planejar acender as velas aromáticas depois. Mesmo com a baixa luminosidade, os olhos de Wanda brilhavam da mesma maneira que esmeraldas expostas em um museu. Visão trabalhava nela como um ourives empunhando o mais perfeito diamante, entrando e saindo cada vez mais rápido e prestando atenção aos pequenos sinais de seu corpo: as pupilas dilatadas, o gemido mais fino, músculos se contraindo, tremidas cada vez que ele posicionava as mãos na sua cintura. Eram detalhes que ele aprendera a admirar com o tempo, e ele buscava, de todas as formas, fazê-la se sentir ainda melhor.
Por um momento, era como se eles houvessem esquecido do aborto ocorrido há algumas semanas. Somente se concentravam no prazer, na troca de fluidos entre seus corpos, no amor brotando através da relação. Para Visão, aquilo era um alívio, enquanto para Wanda era uma ótima maneira de ignorar os pensamentos intrusivos e repetitivos.
Dali pouco tempo, o abdômen de Wanda se contraiu, e um gemido ainda mais alto que os outros sucedeu, assemelhando-se a um grito de prazer, e ela deitou-se na cama em seguida, arfando. Visão retirou seu membro dela e jogou a camisinha ao chão, deitando ao lado dela.
— Você não gozou. – Constatou ela.
— Não.
— Deixa eu retribuir o favor...
Visão fez um sinal com uma das mãos.
— Não precisa. – Ele a puxou e beijou sua testa, encostando seus corpos nus e sentindo uma felicidade que, há muito, não sentia. – Queria presentear você com algum momento de prazer. Bom trabalho, meu amor.
Wanda amuou, e seu marido sorriu, escutando o timer através do silêncio da casa vazia indicar que o forno estava pré-aquecido. Os dois estavam muito cansados para fazerem qualquer coisa naquele momento, por isso apenas se olharam, e Visão perguntou:
— Pizza?
— Pizza. – E buscou o celular na cômoda para buscar alguma pizzaria com entregas para aquela região.
~.~
Na casa ao lado, Vivian coloria partituras na sua escrivaninha, até ouvir uma suave batida na porta:
— Hora de dormir, Viv.
Virginia adentrou o quarto já vestindo seus pijamas e com os cabelos presos em um rabo de cavalo frouxo descendo por seu braço e tórax. A menina apagou o abajur e, calçando suas pantufas favoritas de unicórnio, seguiu para a sua cama, estranhando a ausência da música de ninar que ouvia todos os dias.
— Será que o Visão não vai tocar hoje?
— Ele deve estar ocupado, meu anjo. Você disse que ele era casado, não é? Pode estar ajudando a esposa em algo.
Ela se aproximou, caminhando pelo carpete azul escuro e sentando na borda da cama enquanto cobria a filha e beijava a sua testa.
— Achei que só pais separados tiravam as fotos da parede. Mas o Visão e a Wanda não têm fotos também.
Um sorriso fraco emergiu nos lábios de Virgínia.
— Olha, Viv, as pessoas tiram as fotos das paredes por motivos diferentes. A mamãe separou do papai, o Visão e a Wanda sofreram um aborto, e por aí vai...
— O que é um aborto?
Droga. Ela havia falado demais.
— Um aborto, meu amor, é quando o bebê vai para um lugar melhor antes de nascer. Os papais não o conhecem antes dele ir.
Vivian contraiu sua expressão em dor.
— Isso é horrível!
— É muito triste. E, talvez, seja por isso que eles não tenham colocado as fotos na parede. Porque cada tristeza é uma tristeza e, às vezes, olhar para as fotos da Wanda grávida poderia trazer ainda mais dor para eles. Não colar as fotos também é uma maneira de não ficar triste, entende?
Um bocejo sucedeu a confirmação dela, e os olhos da garota pesaram. Sua mãe beijou o topo de sua cabeça antes de desejar boa noite, se levantar e deixar o cômodo, fechando a porta atrás de si delicadamente para não acordar a filha. Vivian, porém, remexeu-se na cama por certo período de tempo, até o som distante de notas musicais de um piano colocá-la para dormir.
Naquela noite, ela sonhou que tocava violino para Visão, sua mãe, e Wanda.
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