Epifania
9 IX. Vivacissimo
Notas iniciais
Vivacissimo: andamento musical mais rápido e vivo que o Vivace.
Pela primeira vez, os dias foram tranquilos.
Diariamente, Vivian atravessava o buraco no muro durante a tarde, munida de seu violino e das partituras coloridas, eventualmente com as roupas sujas de terra pela travessia. De manhã, enquanto tomava seu café, Visão observava as estacas de madeira, e pensava na possibilidade de criar um portão para deixar a travessia mais tranquila para Vivian comparecer nas aulas. Era bom saber que ela se encontrava animada para aprender, e ele estava genuinamente feliz em ensinar.
Na quinta-feira daquela semana, Virgínia possuía uma reunião presencial em seu escritório e, para não ficar sozinha, Vivian apareceu de mochila após a aula na casa de Visão, acomodou-se em uma bancada e fez sua lição de casa enquanto Visão dedilhava seu piano antes de começarem a estudar teoria musical.
As tardes não eram mais solitárias.
Muitas vezes, Wanda voltava mais cedo do trabalho, e se acomodava no sofá para assistir Vivian demonstrar suas crescentes habilidades no violino. Aquilo aquecia seu coração de maneira inacreditável, em especial quando Visão a acompanhava no piano e precisava mudar a entonação da música quando a menina errava alguma nota.
No final de semana que antecedeu o concerto, folga de Wanda do trabalho na faculdade, Vivian não estava em casa, sendo que o absoluto silêncio reinava entre as duas casas vizinhas. Porém, depois de muitas semanas fechada no quarto, a esposa de Visão acordou cedo no sábado, preparou o café, e escolheu uma lista de filmes para eles assistirem durante os dois dias de descanso. O homem aproveitou para tentar distrai-la o máximo possível, evitando, desta forma, sair de casa, minimizando as chances de verem mães com carrinhos de bebê e slings carregando recém-nascidos. Aproveitaram para ajeitar o início de um canteiro de suculentas, e até possuíam ideias para começar uma pequena horta. Não fizeram mais amor, apenas trocando carícias e abraços — os quais, honestamente, já eram um grande passo para o relacionamento.
Durante a noite, Visão deixava uma grade de partitura sobre uma prancheta no chão, bem ao lado da cama para, quando a insônia não o permitia descansar, acender a luz do abajur e, mentalmente, pensar em acordes para testar durante a semana antes do concerto. Apesar de estar próximo da data aprazada, sentia-se confiante de conseguir finalizar uma peça original antes de seu solo.
Às vezes, no silêncio da noite, ao trancar os olhos e tentar, sem sucesso, cair no sono, ele escutava Wanda rabiscar algo em uma folha de papel a qual ele não saberia dizer o que era. Algo relacionado à faculdade, talvez? Uma investida de voltar ao projeto de mestrado, abandonado por conta da gravidez? Visão matutava para descobrir, e esse pensamento, via de regra, o embalava em um sono profundo até a manhã seguinte raiar com o sol diretamente em seus olhos.
A verdade era que a névoa densa sobre a residência parecia ter levantado, e ambos começavam a ver com clareza por trás do luto. Havia muito a ser feito ainda, em especial separar os itens dos bebês para doação, algo que Visão gostaria de fazer sozinho num dia de labor da sua esposa. Porém, as tardes junto de Vivian, ensinando para aquela alma alegre seu instrumento de trabalho e regulador de sua vida o faziam esquecer, ainda que momentaneamente, das roupinhas, brinquedos e naninhas emboladas nas caixas do andar de cima.
Todavia, como a calmaria a qual precede a tempestade, a boa maré que engana os marinheiros desbravadores dos sete mares, os momentos de paz estavam fadados a ter um fim.
Começou na terça-feira, em que Wanda tinha consulta com a psicóloga Rebbecca Kaplan, e, sem saber desse detalhe, sua amiga Natasha tocou a campainha no final da tarde, horário do seu retorno usual do dia de trabalho da faculdade. Visão abriu a porta, surpreso, e disse ao ver a mulher alta e com ar de superioridade parada na soleira da porta:
— Oi, Nat. Bom te ver por aqui. – Ele sorriu e ajeitou os óculos na ponte entre o nariz e a testa antes de abraçá-la. – A Wanda ainda não chegou...
— Tudo bem. Posso ficar por aqui esperando? Trouxe vinho! – Ela adentrou o corredor principal com os saltos pretos batucando no piso de madeira e o vestido comprido igualmente escuro enquanto balançava a garrafa no ar.
— Pode, pode sim, eu só...
— Quem é a menina?
— ... Estou dando aula. – Ele complementou.
Vivian, sentada no chão, levantou a cabeça das partituras coloridas para admirar a figura feminina adulta em sua frente. Não era comum estar próximo de moças tão bonitas além de sua mãe e, recentemente, Wanda. Ela abriu a boca levemente em surpresa, os olhos brilhando quando perguntou:
— Quem é ela, Vis?
— Vivian, essa é a Natasha, amiga minha e da Wanda há muitos anos. Nat, essa é a Vivian, minha primeira aluna de teoria musical desde que nos mudamos.
Natasha sorriu sem mostrar os dentes, colocando a garrafa de vinho sobre a bancada da cozinha.
— Vis, posso falar com você um minuto?
Ela parecia insegura, olhando de um lado para o outro ao relembrar que a cozinha e a sala eram unidas, e eles não possuíam um lugar para conversar longe da criança. Ao notar sua apreensão, Visão pensou por um momento e apontou para o quintal.
— Vivian, eu e a Nat vamos ali fora e já voltamos, tudo bem?
— Tudo bem. – Assentiu ela, e os dois seguiram para a parte de trás da residência.
O sol se punha no horizonte ao que Visão fechou a porta corrediça atrás de si, inundando a grama com uma áurea dourada etérea e o vento fresco de outono remexendo de leve a vestimenta comprida de Natasha e seus curtos cabelos soltos. Era comum daquela estação ter mudanças abruptas de temperatura, ainda que o frio fosse mais frequente mesmo sob o sol quente da manhã. A moça estremeceu; se arrependia de não ter trazido um casaco, porém, não imaginava a necessidade de precisar conversar na área externa por conta de uma criança desconhecida na sala.
— Está tudo bem com você? A Carol está bem?
Natasha colocou as mãos na cintura e manifestou, irritada:
— Com a gente está tudo bem sim, mas você ficou maluco, Visão? Está com uma criança dentro de casa depois que a Wanda passou por um aborto?
Visão arregalou os olhos, aterrorizado. Era difícil seus amigos o chamarem pelo nome completo, sendo comumente conhecido por “Vis”.
— Natasha, eu estou trabalhando! – Sussurrou em resposta, cuidando para a menina na sala ao lado não ouvir. – Você sabe que eu dou aulas desde sempre.
— Mas você pode ir na casa das crianças. Não precisa trazer elas aqui. – Ela franziu o cenho.
— Bobagem. A Vivian e a Wanda têm se dado muito bem, sabe? É até bonito ver a Wanda sorrindo enquanto nós praticamos.
Ainda assim, Natasha estava visivelmente preocupada, e somente torceu a boca para as explicações de Visão. Todavia, não havia nada que ele pudesse fazer, em especial porque Vivian queria mostrar o que estudara no final de semana, e Visão iria aproveitar para tocar um pedaço da música composta pela metade para apresentar no concerto sexta-feira. A visita de Natasha, porém, atrapalhou seus planos de maneira boa e ruim ao mesmo tempo; ele estava feliz pela visita da amiga, contudo, naquele dia em específico, ela aparecera em má hora.
— Vamos entrar, Nat? – Ele a convidou com um sorriso, buscando deixá-la responsiva. – Tenho uma aluna me esperando.
~.~
Wanda se aproximou da garagem para notar um carro conhecido parado na frente da casa. Sorriu ao notar que era a sedan de Natasha, surpresa já que ela não havia avisado previamente sua chegada. Ao estacionar seu veículo, conseguiu escutar música do lado de dentro da residência, e, buscando a maleta do trabalho e um livro que pegara emprestado da psicóloga, com um pedaço de papel completamente rabiscado dobrado ao meio entre a capa e a primeira página. O pouco legível de uma carta lida em voz alta no consultório cerca de uma hora antes.
Porém, ao chegar em casa e ver os cabelos ruivos de sua amiga da época da faculdade, e o sorriso dela ao virar o rosto com o som da porta batendo, Wanda deixou o livro sobre a bancada, sem notar que o papel flutuara até o chão, e correu para os braços abertos de Natasha. Não fazia tanto tempo assim que se viram a última vez, entretanto, era um alívio ver Wanda fora do estado de torpor que a acometia nos dias anteriores.
— Oi, Nat. – Ela cumprimentou. – Oi, Viv. Oi, Vis.
— Oi, Wanda. – Os dois responderam em uníssono, e Visão se aproximou para beijar sua testa antes de voltar para a companhia de Vivian e colorir partituras.
— Meu amor! – Natasha passou os braços ao redor da cintura dela. – Como você está?
— Levando. Alguns dias são melhores que outros – Wanda deu de ombros. – Acabei de sair de uma consulta com a Doutora Kaplan.
Foi então que Vivian, atentamente ouvindo a conversa, fez um comentário alto o suficiente para todos os adultos presentes escutarem:
— É a médica que cuida do aborto?
Wanda piscou algumas vezes e sentiu a boca ficar seca ao tempo que seus olhos ressentidos buscavam o olhar de Visão.
— Vis...
Natasha se encontrava notadamente furiosa, pois sabia, desde o início, que aquela história não iria acabar bem. Vivian ficou confusa e imediatamente se levantou. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Wanda prosseguiu:
— Você contou para a Vivian sobre... Sobre o nosso aborto?
— Na verdade, foi para a mãe dela. – Visão respondeu com a cabeça abaixa. – Vivian, acho melhor você ir embora. – Continuou com a voz baixa e calma, temendo assustá-la ainda mais.
A menina assentiu e correu porta afora, deixando até mesmo seu violino em cima da mesa, só com o coração minúsculo batendo fortemente dentro do peito quando atravessou o buraco no muro correndo e abraçou fortemente as pernas de sua mãe.
Na casa ao lado, Wanda sentia as lágrimas arderem por seu rosto ao acusar:
— Você contou para nossa vizinha sobre o aborto? – Soluçando, emendou: – Eu não conheço a nossa vizinha e você falou do aborto para ela?
Natasha permanecia com o olhar duro em Visão e, em verdade, ele não sabia o que dizer além de se encolher cada vez mais dentro de si e da sua culpa. Não podia encarar Wanda sem sentir lágrimas presas em seus olhos, que se recusavam a descer.
— Foi sem querer. – Sussurrou ele.
— Sem querer? – O tom de voz em resposta de Wanda era ameaçador. – Você contou um detalhe íntimo da nossa vida sem querer? O que mais você está fazendo sem querer, hein? Transando com ela?
— Você não pode me acusar de algo assim!
Pela primeira vez, em anos de casamento, Visão aumentou o tom de voz ao olhar nos olhos de Wanda, sentindo as lágrimas reprimidas de repente caírem por suas bochechas.
— Vis, você...
— Natasha, por favor. – As mãos de Visão tremiam ao que ele as levava até o rosto para enxugar o choro por baixo dos óculos. – Você não pode me acusar de transar com outra mulher, o que não é verdade, pois eu não saí do seu lado desde que você chegou do hospital. Mesmo quando você não me queria no quarto, eu estava aqui, não a deixando sozinha nem por um instante. Ainda que você quisesse ficar sozinha.
— Foi o meu corpo que passou pelo aborto.
— Sim, mas também eram meus filhos! – Gritou Visão, dessa vez sentindo a totalidade da pressão na parte de trás dos seus olhos empurrando as lágrimas para fora. – O Billy e o Tommy eram meus filhos, e enquanto você estava no quarto, eu arrumei as coisinhas deles. Roupas. Brinquedos. Tudo para proteger você.
Ele caminhou até encará-la totalmente de frente, as mãos trêmulas ao lado do corpo. Notou, somente, solidão estampada naqueles olhos verdes; se pudesse ver seu reflexo, veria a culpa no seu próprio rosto.
— Eu não senti o luto porque estava cuidando de você. Cuidando da casa. Da mudança. Para deixar tudo em ordem para quando você resolvesse sair. Eu negligenciei meu sofrimento por você, e você me acusa de transar com outra?
Wanda suspirou entre um soluço e outro, com Natasha puxou seu rosto para perto do seu ombro.
— Você não poderia ter falado sobre isso com ela. – Enunciou Wanda após alguns segundos em silêncio. – Eu não dei permissão para falar com uma desconhecida sobre o aborto.
Visão nada disse, apenas virou de costas e pôs a mão sobre a boca, deixando as lágrimas fluírem enquanto a dor inundava seu peito. Natasha puxou Wanda, a qual da mesma forma estava abalada, e caminhou com ela em direção à porta.
— Vocês não vão conseguir definir nada hoje. A Wanda vai ficar uns dias na minha casa, certo, Vis? – Ela virou para Wanda. – A Carol está viajando, você pode usar algumas roupas dela.
Ele novamente não respondeu, apenas permaneceu atormentado no chão da sala, para, depois que o carro de Natasha se afastou, levantar e jogar a metade da música que compunha no lixo.
Naquela noite, ele não embalou o sono de Vivian.
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