Epifania
7 VII. Allegro
Notas iniciais
Allegro: andamento musical ligeiro e alegre.
Em uma cadeira executiva frente a uma escrivaninha, Wanda digitava em seu computador apressadamente, deferindo em bloco pedidos de orientação de monografia da graduação. Desde que passara ao cargo de Coordenadora de Pesquisa, os dias eram cheios de alunos procurando ajuda sem saber os temas e professores adequados para orientação. Vez ou outra, Wanda gostava de orientar alunos em sua área favorita, Direito Ambiental e Ecologia, onde possuía alguns trabalhos publicados, em especial sobre a poluição das indústrias bélicas em rios dos Estados Unidos. Mas, naquele semestre, ela resolvera se afastar um pouco das bancas e só auxiliar os estudantes desesperados com a falta de tempo para escrever.
Uma aluna, inclusive, havia acabado de sair de sua sala na coordenação, aflita com a rotina de escrever e apresentar o trabalho de conclusão de curso com o bebê de sete meses em casa precisando dela o tempo todo. Por baixo da mesa de madeira, ela cruzava as mãos e apertava os nós dos dedos, ainda incomodada de falar sobre crianças tão perto de seu aborto. A moça recém voltara da licença maternidade, e pedira a extensão do prazo para entrega do primeiro capítulo concluído. Wanda deferiu por pena, e para se ver logo livre de conversar tão cedo das alegrias e dificuldades da maternidade.
Um suspiro escapou de sua boca quando ela abriu a gaveta e observou uma prancheta com duas linhas legíveis:
Querido Vis,
Amar você provavelmente foi a coisa mais fácil que eu já fiz.
O restante do papel estava completamente rabiscado com tentativas falhas de externar o que a Doutora Rebecca Kaplan havia recomendado para a próxima consulta. Wanda batucou a maçaneta algumas vezes antes de escutar a voz animada de Monica em seu ambiente de trabalho:
— Olha, Wanda, você viu a revista da faculdade esse semestre? Está linda!
Wanda buscou algo dentro da gaveta e puxou um papel aleatório rapidamente, fechando com força o espaço pessoal para evitar que sua colega visse a carta e perguntasse algum detalhe pessoal.
— Recital de piano? É do Vis?
A pergunta de Monica, já parada ao lado de sua mesa, trouxe memórias à tona na mente de Wanda ao que ela observou o belo folheto, impresso com letras douradas e informando a data de um musical agendado para a semana seguinte. Sua vida estava tão confusa que ela deixou de prestar atenção nos compromissos de seu marido, sendo que o espetáculo estava agendado desde muito antes do aborto. Wanda disfarçou um sorriso, as pontas dos dedos sobre as teclas do panfleto, respondendo somente:
— É sim. Ele vai ser solista.
Quando ela se afastou tanto assim de Visão?
~.~
Duas mãos de porte masculino reviravam uma gaveta antiga, intacta desde a mudança, enquanto procurava partituras e livros antigos de teoria musical, já bem gastos e com as páginas um pouco comidas pelas traças, porém, que ainda serviam para o que o pianista desejava: relembrar a teoria para ensinar Vivian a tocar nos tempos certos.
Não satisfeito, Visão adentrou com os dedos e a palma das mãos ainda mais fundo no repartimento da cômoda, por ter nítida lembrança de ter guardada uma partitura para um dueto de piano e violino, oriunda de uma antiga série de apresentações com a orquestra da faculdade. Quando finalmente puxou o que parecia ser o objeto procurado, viu duas fotos caírem juntamente sobre o tapete.
Dois ultrassons. Duas flechinhas com a inscrição Billy e Tommy para quase imperceptíveis grãos de arroz em uma imagem borrada.
Visão levou as fotos até a altura de seu coração e deixou escapar um soluço, lembrando dos batimentos cardíacos apressados dos bebês no dia daquele exame. Wanda sorria e apertava sua mão com força, feliz, sem nem imaginar que meses depois teriam a terrível notícia da morte dos filhos tão prematuramente. Se Visão pudesse conversar com Deus, ele pediria algumas explicações.
— Viiiiiiiissss... – Uma voz infantil soou do andar de baixo.
— Já vou descer, Viv! – Visão gritou, deixando as fotos sobre o chão e pegando todas as partituras de uma vez só.
Ele desceu as escadas aos pulos, vendo a pequena menina com o violino nas pequenas e rechonchudas mãos, quietamente na soleira da porta de vidro que dava para o quintal. Já passava da metade da tarde, e ela ainda vestia a blusa do uniforme escolar, tendo trocado as calças por moletons cinza mais confortáveis para o clima ameno.
— Podemos começar?
Visão espalhou os papéis e livros sobre uma mesa de centro em frente ao sofá, e fungou para retirar o excesso de choro do seu rosto. Curiosa, Vivian perguntou:
— Vis, você estava chorando?
— O quê? Não, querida, é claro que não. Só havia muita poeira nos meus livros de faculdade. Eles são verdadeiros fósseis.
Aproximando-se da mesa, ela pegou os exemplares entre os dedos, folheando atentamente cada um. Havia diversos rabiscos a lápis que sobreviveram ao tempo, com a letra juvenil de Visão indicando dúvidas, frases dos professores as quais ele gostaria de memorizar, bem como traços tortos com notas musicais indicando ideias brilhantes para suas composições originais. Vivian estava impressionada de ver um material tão avançado.
— Você estudou tudo isso?
— Sim. – Respondeu Visão, orgulhoso. – Eu li cada página disso.
Um baixo som de “uau” deixou os lábios de Vivian enquanto ela mexia nas obras, e ele pacientemente aguardava, repassando em sua mente as frases as quais deixara previamente ensaiadas para tentar dar uma boa aula. Quando ela parou em uma página com uma pauta em branco, ele começou:
— Então, Vivian, você sabe as sete notas musicais, certo?
— Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. – Ela enumerou as notas decoradas, acompanhada de um movimento de cabeça de Visão a cada uma.
— Perfeito. E você sabe que elas ficam nessas linhas, chamadas pautas?
— Isso eu sei... – Ela coçou a parte de trás do pescoço. – Mas fico perdida com o lugar de cada uma quando vou ler a partitura.
— É por isso que eu estou aqui.
De seu bolso, Visão puxou um lápis apontado e desenhou uma clave de sol.
— Você conhece esse símbolo aqui? – Ao que Vivian confirmou com a cabeça, Visão prosseguiu: – Quando você olha nessa linha aqui... – Ele seguiu com o lápis sobre a segunda linha, os olhos atentos da menina em sua explicação: –... Ela se transforma em um sol. Lembra da ordem que você citou antes?
— Dó, ré, mi, fá, sol, lá e si?
— Exato. Você sempre precisa seguir essa ordem. Ou seja, depois do sol vem o lá, nesse espacinho de cima. E, abaixo, vem o fá, aqui embaixo. O dó, que é a primeira nota, vem cá embaixo... Com um tracinho no meio. – Ele desenhou uma nota meio dedo abaixo da primeira linha, um risco em seu interior para diferenciá-la do resto. – Consegue entender?
Vivian balançou a cabeça, animada.
— Você gosta de colorir? – Ele perguntou, igualmente animado.
— Sim!
— Então eu vou buscar alguns lápis de cor para escolhermos uma cor para cada nota, e você começar a decorar a posição delas nessas linhas. O que acha de vermelho para o dó e verde para o ré?
~.~
A tarde passou tão rápido que Visão nem percebeu.
Eles escolheram duas partituras simples para colorir as notas, e depois Vivian treinou, acompanhada por Visão em seu piano. As teclas marfim soavam mais alegres em sintonia com as cordas de nylon do violino, mesmo eles se enrolando um pouco às vezes. Ele aproveitou para explicar os andamentos musicais, e os compassos binários, terciários e quaternários, de uma maneira lúdica o suficiente para ela compreender.
A partitura era o principal instrumento de estudo do músico, e, quanto mais cedo seus estudiosos a compreendessem, facilitaria seu entendimento posterior. Como aprendera tardiamente, desde a época da graduação tinha certeza que, em algum momento da sua vida, gostaria de ensinar jovens a lerem e dominarem as grades musicais.
Depois de algum tempo, Visão serviu uma jarra de suco com alguns biscoitos de sua despensa, percebendo que Vivian incessantemente encarava as paredes da casa, do lance de escadas até a entrada da cozinha. Quando notou que Visão a observava, a menina parou de olhar e sentou-se em uma banqueta para lanchar.
— Algo incomoda você?
Um minuto de silêncio precedeu a resposta:
— Não têm fotos. Nas paredes.
Visão mirou as paredes que Vivian olhara para constatar que, realmente, não haviam fotos espalhadas pelas paredes, somente alguns quadros de flores pintados pelas habilidosas mãos da mãe adotiva de Wanda, Magda. Subitamente, a já vazia sala de estar parecia ainda mais vazia, quando todas as memórias registradas não se encontravam mais na altura de sua vista.
— Realmente não tem. Eu e a minha esposa nos mudamos há pouco tempo, e não tivemos tempo de pendurar ainda.
— Você é casado? – Questionou inocentemente a menina, se servindo de mais um copo de suco.
— Sou... Com uma mulher muito linda. – Visão buscou o celular no bolso para mostrar a foto no plano de fundo da tela inicial. – O nome dela é Wanda.
Tirada em uma das últimas viagens feitas pelo casal, a foto em questão continha Wanda sorrindo em frente a uma praia, segurando um vestido branco por cima de um biquíni molhado enquanto, com a mão oposta, impedia seu chapéu de voar. Foi um pouco antes de tentarem novamente a gravidez, após algumas tentativas falhas. Diversas vezes, Wanda pediu para ele apagar aquela foto, porém ele não só a manteve, como fez dela o plano de fundo do celular, observando todos os dias aquele belíssimo sorriso, de felicidade tão genuína.
— Ela é muito bonita. – Concordou Vivian. – É a sua musa?
— Perdão? – Visão parecia confuso.
— O meu professor de história, Senhor Barnes, disse que os gregos tinham musas inspiradoras. Que, até hoje, os músicos e artistas têm. – Ela mordeu um biscoito. – A Wanda é sua musa?
Visão cogitou por um instante. Desde que conhecera Wanda, todas as músicas originais eram dedicadas a ela. Ele até criou um acorde, quase uma assinatura, em todas as melodias criadas, que ele batizou de “acorde Wanda”, sempre presente em suas grades, ainda que tocada de maneira diferente. Um dos presentes de casamento fora uma música feita especialmente para o casal.
Por isso, ele sorriu levemente com a dúvida da menina, e respondeu:
— Sim, a Wanda é minha musa. Eu escrevi muitas músicas para ela, inclusive no nosso casamento.
— Que romântico! – Ela suspirou, com as mãozinhas sobre as bochechas. – Pode tocar para mim?
— Qualquer hora dessas eu toco, sim. – Visão afagou seus cabelos e prosseguiu para guardar a comida. – Agora, precisamos voltar para o treinamento.
~.~
Wanda estacionou o carro na garagem e escutou com estranheza a dupla de piano e violino vinda da sala. Ela abriu a porta de madeira e seguiu por um estreito corredor entre a cozinha e o início da sala, até encontrar Visão absorto em seu piano ao lado de uma menina bastante jovem com a pele negra e os cabelos soltos em suas costas. Quando eles perceberam sua presença, ela meramente sorriu, um pouco sem jeito.
— Wanda! – Seu marido parecia cansado, mas incrivelmente feliz, com o lindo sorriso estampando seu rosto e as pontas douradas dos cabelos grudadas em sua nuca. – Conheça minha primeira aluna, a Vivian!
— Oi, Wanda, prazer!
Ao ver a alegria da menina em conhecê-la, Wanda sentiu uma pontada de culpa no peito, por ter ficado chateada com Visão pela possibilidade de dar aulas para uma criança. Ele parecia mais feliz do que ela o tinha visto nas últimas semanas. Por isso, ela meramente acenou em retorno, seguindo em direção à escada para o segundo andar.
Foi então que Visão lembrou das fotos sobre o chão.
Uma onde de medo atravessou seu corpo, da ponta dos pés ao alto da cabeça, e ele levantou correndo da banqueta do piano para alcançar sua mulher o quanto antes. O olhar de Wanda demonstrou surpresa quando ele a abraçou pelas costas, impedindo-a de subir as escadas.
— Por que você não espera um pouco aqui embaixo com a Viv, meu pedacinho de focaccia com alecrim?
Ela estranhou aquela reação repentina partindo de Visão, e disse:
— Algo errado lá em cima?
— Nada, nada, só... Viv, porque você não recomeça essa música para a Wanda ver como você toca bem? Tenta sem olhar a partitura!
Ainda confusa, Wanda assentiu e desceu as escadas, sentando na beirada de um sofá branco, na diagonal do piano do marido e de frente para a menina com o violino. Atrás dela, a noite começava a tomar forma, consoante visível pela porta corrediça de vidro.
Enquanto Vivian tocava desafinadamente, Visão correu para o quarto e pegou as impressões do ultrassom nas mãos. Olhou-as com carinho uma última vez e enterrou no fundo da gaveta, fechando-a com muita força, sem perceber que deixara um pedaço de si junto com aquele ato. Para Wanda não estranhar, ele buscou velas aromáticas, bem como um isqueiro, em uma caixa próxima, deixando os itens sobre a mesa de cabeceira e adentrando o banheiro para deixar a água da banheira enchendo juntamente dos sais de banho favoritos de Wanda.
Talvez, com aquilo, ele conseguisse preparar uma pequena surpresa para ela.
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