Epifania
6 VI. Allegretto
Notas iniciais
Allegretto: andamento musical menos ligeiro que o Allegro.
Na tarde seguinte, Visão preparava um pão com muçarela de búfala e azeite de oliva, acompanhado de orégano, para seu lanche da tarde (uma tentativa de ser mais saudável depois dos diversos dias com comida congelada e refeições fora de hora) no momento em que escutou o desafinado violino vindo da casa vizinha. De repente, era como se o seu coração se enchesse de alegria, e ele largou o prato pela metade, buscou um casaco fino para esquentá-lo no início do outono, e saiu porta afora em direção ao quintal, se apoiando na cerca para observar o outro lado.
A menina que atendia pelo nome Vivian estava concentrada nas cordas do instrumento em seu ombro, movendo a vareta para cima e para baixo enquanto seus dedos pequenos seguravam fortemente no alumínio que revestia o material sintético das cordas, com as vibrações chegando até os ouvidos de Visão. Ele sorriu quando ela o encarou; e, dessa vez sem a plateia, ela deixou o instrumento musical na grama antes de se aproximar dele.
— Oi, moço.
— Olá. – Ele sorriu. – Qual o seu nome, menina? – Apesar de já saber, ele achou melhor perguntar para não a assustar.
— É Vivian... Achei que você sabia. Já que a minha mãe me chamou aquele dia pra lanchar.
... Ele esquecera do quanto crianças eram espertas.
— Adultos esquecem muitas coisas, Vivian. – Ele esticou uma das mãos, e a outra o sustentou na cerca. – Eu sou o Vis.
— Muito prazer, Vis.
Um momento de pausa precedeu mais uma fala da menina:
— É você que toca piano?
— Sim, sou eu. Eu trabalho tocando piano.
Vivian arregalou os olhos.
— Que legal! Eu quero ser atriz e médica quando crescer.
Visão acariciou as madeixas escuras de seus cabelos, sorrindo com calma e paciência, duas qualidades que tinha de sobra com crianças.
— Então, Vivian, a sua mamãe está aí? Posso falar com ela?
A menina balançou a cabeça afirmativamente, e correu para chamar sua mãe dentro de casa. Logo, uma figura feminina atravessou a porta, com o cabelo escuro um pouco mais claro que o de Vivian, os mesmos olhos verdes, e um avental cobrindo uma roupa presumidamente formal.
— Boa tarde. – Visão esticou a mão para cumprimentá-la. – Eu sou o Visão. Eu e a minha esposa nos mudamos há algumas semanas.
— Ah, sim, claro. Você é o moço de quem a Viv estava falando outro dia. – A mulher ofereceu um sorriso e devolveu o cumprimento após secar as mãos no avental. – Meu nome é Virgínia.
— Eu ouvi sua filha tocando violino uns dias atrás... Eu sou pianista, e achei incrível a paixão dela pela música, mesmo tão jovem. Eu e a Wanda, minha mulher, acabamos não conhecendo ninguém por aqui, e acharia maravilhoso se você permitisse a Vivian tocar um pouco comigo qualquer hora.
— Claro, ela com certeza iria gostar bastante.
— Esplêndido! Ela faz alguma aula de teoria musical?
Visão estava animado, principalmente com a possibilidade de ensinar a uma criança como ler partituras e facilitar seu aprendizado. Ainda que seus instrumentos não fossem os mesmos, ele tinha muitos livros da faculdade guardados no sótão, e poderia facilmente tirar a poeira e relembrar alguns conceitos básicos. Era uma distração mais do que bem vinda, naquele período tão obscuro de sua vida.
— Na verdade, não. – Virginia pôs uma mão sobre o queixo. – Ela não teve nenhum tipo de teoria com o professor, apenas despertou interesse na escola e pediu a mim para levá-la em uma aula. Eu levei achando que ela nunca mais iria querer voltar, mas, surpreendentemente, ela quis voltar. E posso dizer que, nas poucas vezes em que ela ouviu você tocar, sentiu ainda mais vontade de treinar.
— Isso é maravilhoso. Eu planejo ensinar crianças da vizinhança a tocarem piano com aulas particulares, mas poderia ensinar um pouco de teoria para a Vivian, se vocês quiserem.
— É... Sim, claro. – Ela parecia um pouco desconfortável.
— Algum problema? Me perdoe se eu estiver me excedendo...
— Não, claro que não. – A mulher de nome Virgínia sorriu. – Eu só preciso ver sobre dinheiro, mesmo, a situação anda um pouco difícil...
— Eu não irei cobrar.
— Perdão?
— Eu gosto muito de crianças. E gosto de ensinar. Ficaria mais do que feliz em passar um pouco do meu conhecimento para a Vivian.
— Você realmente tem jeito com crianças. Tem filhos?
Visão encarou o chão sob seus pés, sentindo a terra firme sumir. Pigarreou e manteve o olhar baixo, sem saber muito bem o que dizer. Somente as pessoas que eram mais próximas sabiam do ocorrido, sendo amigos, a família de Wanda e o pai de Visão, o qual não atendeu as reiteradas ligações, mas eventualmente escutou a caixa postal do filho avisando do falecimento dos netos. Mudarem-se para um novo local era mais uma desculpa para não comentarem o passado com ninguém; porém, conversar com aquela mulher o compelia a dizer mais do que deveria. Por fim, desabafou:
— Eu tinha... Deveria ter. Sofremos um aborto.
Um peso caiu sobre seu peito, em especial ao observar o olhar de pesar de Virgínia.
— Sinto muito.
O momento, todavia, foi interrompido pela presença de Vivian, que viera do interior da residência com dois sanduíches de pão de forma com manteiga de amendoim cortados em cubos para sua mãe e o visitante comerem. Virgínia convidou Visão para entrar na residência, mas ele fez um sinal com a mão de que preferiria ficar ali.
— A propósito, eu preciso pedir desculpas. – Ele engoliu um pedaço do pão com recheio gorduroso antes de prosseguir: – Eu invadi o seu quintal antes de ontem e assisti à performance da Viv.
— Ele veio assistir meu show, mamãe!
Virgínia soltou uma gargalhada sonora.
— Tudo bem, está perdoado. Meu quintal está sempre à disposição, caso os dois queiram aprontar algo juntos. Eu trabalho em regime de teletrabalho, então posso não estar disponível para abrir a porta, em caso de reunião ou o chefe enchendo a minha paciência.
Ela parou de falar por um momento.
— Ontem à noite, nós duas escutamos você tocar piano de noite. Foi bem na hora que eu coloquei a Viv para dormir. – Ela se serviu de mais um pedaço do lanche. – Parecia uma canção de ninar, foi muito bonito. Parabéns.
Visão sorriu, e conversou mais um pouco com as duas antes de entrar em casa e lavar as mãos para preparar o jantar, sendo embalado pela música desafinada de Vivian enquanto separava os ingredientes.
~.~
Quando uma faminta Wanda chegou em casa, o jantar, composto de burritos de carne com guacamole (tudo cem por cento caseiro), estava servido sobre a mesa, e a mulher sentiu o estômago revirar em seu abdômen enquanto Visão observava seus olhos verdes brilhando. Ela deixou a bolsa e as sacolas sobre o sofá e, surpreendentemente, de todos os dias desde o aborto, aquele era o que ela mais parecia animada. Dentro de seu coração, o marido ficou feliz em vê-la daquele jeito.
De maneira inesperada, ela se aproximou de Visão, o qual estava em pé na bancada da cozinha, e o abraçou fortemente. Um pouco surpreso a princípio, entretanto, seus músculos ficaram menos tensos com o carinho, e ele acariciou as costas das mãos de Wanda usando a ponta dos dedos. Logo, estavam frente a frente, os braços ao redor da cintura um do outro enquanto sorriam, notadamente alegres.
Eles se beijaram apaixonadamente. Não era mais um beijo de cautela, com o peso dos sentimentos não ditos externados naquele simples toque de lábios; era o beijo de um casal que, mesmo com adversidades, ainda se amava. Seus corações baterem em suas caixas torácicas firmemente, e praticamente no mesmo ritmo.
Era bom saber que as coisas estavam voltando ao normal.
~.~
— Não, deixa eu te contar! – Wanda disse entre uma risada e outra, um pouco de guacamole escorrendo de sua boca e sua tortilla enquanto Visão, gargalhando, servia mais um burrito em seu prato. – O Jimmy deixou escorrer café pelo nariz. Na frente do reitor.
— E vocês não fizeram nada pelo coitado?
— A gente até queria, mas estávamos rindo muito para fazer alguma coisa de útil. Eu e a Monica perdemos o ar, e a Darcy dizia várias vezes para a gente parar, só que também estava rindo. No final, a Doutora Jane ajudou ele, tadinho.
— Pobre coitado. – Visão degustou um pouco de seu burrito. – Como está a Darcy? Faz tempo que não tenho contato com ela.
— Ela está muito bem!.. – Wanda parou com os talheres no ar. – ... Faz muito tempo que você não tem contato com a Monica também.
Ele engoliu em seco. Esquecera da conversa que tivera com Monica aquele dia ao telefone, e Wanda não poderia saber daquela conversa de maneira alguma. Então, declarou:
— Mas a Monica nos... – Visão trancou a boca, temendo citar a visita quando estavam no hospital. – ... A Monica está sempre bem. Ela ainda está com o Adam?
— Sim! – Wanda parecia não ter notado seus embaraços. – O relacionamento deles está bem sério.
— É, acho que me preocupei um pouco com a Darcy, só. Ela tinha terminado com o idiota lá, não é?
— É verdade, eles terminaram mesmo. Só que a Darcy fica muito bem por conta própria, melhor do que acompanhada.
Visão suspirou, aliviado por conseguir contornar a situação e manter sua esposa em um bom humor. Ele sorriu para ela através da mesa, e esticou uma mão.
— Preciso contar algo do meu dia, também.
— Ooh, adoro uma novidade! – Wanda encostou a ponta dos dedos na palma de Visão.
— Conheci a menina que mora ao lado, Vivian. Ela toca violino, e vou tentar dar algumas aulas de teoria musical para ela. Acho que é um bom começo, para ficar mais conhecido no bairro, antes de voltar com as aulas de piano.
A expressão de Wanda se contorceu no que Visão inicialmente julgou ser desprezo. Aos poucos, porém, ela sorriu novamente, batucando os dedos da mão oposta na madeira da mesa antes de dizer:
— Eu fico feliz, Vis. De verdade.
Os dois estavam juntos desde a faculdade e, portanto, Visão conhecia a sua esposa bem o suficiente para saber quando ela estava mentindo. Aquele semblante, com toda a certeza, não era falso. Wanda estava genuinamente feliz, ainda que com alguma resistência oferecida à princípio.
Por um momento, Wanda sentiu o coração apertar ao pensar que seu marido iria voltar a lidar com crianças tão pouco tempo após o aborto, mas, ao mesmo tempo, era o que ele fazia de melhor. E, além disso, poderia ser uma distração para as tardes em que ele ficava sozinho em casa.
Visão sorriu e se levantou da mesa, beijando suavemente a testa de Wanda antes de sentar-se na banqueta de seu piano, novamente deixando espaço suficiente para sua esposa o acompanhar. Ela logo o acompanhou, passando os braços finos abaixo de seu peitoral e recostando a bochecha em seu ombro enquanto observava as teclas tom marfim. O homem suspirou e, observando a hora — mais ou menos perto de quando Viv iria dormir, segundo a informação de Virgínia, puxou da memória uma linda canção de ninar, tocando fortemente cada tecla para que, além da porta corrediça entreaberta, o som encontrasse seu caminho até a janela somente encostada do quarto da menina, e a música ajudasse em seu sono tranquilo de criança.
Uma singela lágrima escorreu pelo rosto de Visão. Ele se sentia embalado por sua mãe novamente.
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