Epifania

4 IV. Andantino


Notas iniciais
Boa tarde/noite para todos e uma feliz véspera de lançamento do sexto episódio de WandaVision! Voltamos em mais uma quinta-feira para uma atualização bem legal para segurarmos as pontas até amanhã. Como vocês estão, tudo bem? ;) espero que sim! Olha, quem me dera que todos os meus capítulos fluíssem bem como esse fluiu, viu? Eu comecei hoje com 200 palavras e terminei com 2k. Sempre digo que vou fazer capítulos mais curtos para as postagens semanais, e às vezes eu consigo, mas outras acabo me passando um pouco huhsauhsuahs. Por mais que eu tenha planejado o capítulo de um jeito, mais uma vez, ele saiu meio diferente das minhas expectativas. Para mim, foi uma grata surpresa, espero que seja para vocês também. O capítulo que vocês lerão a seguir é uma mudança de perspectiva que eu acabei curtindo muito escrever. Ontem e hoje foram dias muito corridos, mas achar tempo para escrever, ainda que pouco, tem me feito muito bem. Rox, os seus comentários são sempre um combustível que me impulsiona a escrever mais e melhor. Muito obrigada de verdade ♥ juro que vou responder com todo o carinho do mundo! Aproveitem a leitura ♥

Andatino: andamento musical mais ligeiro que o andante, agradável e compassado.

Quando Visão era criança, seu pai era bom para ele.

Quer dizer, ele era bom na maioria das vezes para a maioria das pessoas. Exceto quando ele tinha graves recaídas do alcoolismo, e se tornava violento com quem vivia ao seu redor, especialmente com o jovem filho.

A mãe do menino não aguentou muito tempo, e logo juntou seus pertences e deixou a residência, abandonando o marido e o filho para tentar a vida em outro lugar. Visão era tão pequeno à época que não conseguia se lembrar corretamente de seu rosto, somente de sua voz cantando para ele todas as noites antes de dormir. Provavelmente, o primeiro contato dele com a música veio dessa sensação de paz que a melodia de ninar lhe trazia.

Em sua carteira, havia uma foto da mãe no hospital com ele recém-nascido no colo, já amarelada pela ação do tempo, além de amassada pelas inúmeras vezes que Visão a segurava fortemente entre os nós dos dedos. Ele se sentia bem quando olhava o sorriso desbotado da mulher, e frequentemente rezava olhando para ela, como se ela fosse aparecer em sua vida novamente e tirá-lo das situações difíceis que enfrentava o ninando como um bebê.

Os primeiros anos sem sua mãe foram difíceis. Pesados. Seu pai bebia dia e noite, e o menino se virava sozinho pela casa na maneira que podia. Depois, quando Visão se descobriu adolescente, o velho homem decidiu tomar um jeito na vida e passou a frequentar um grupo de Alcoólicos Anônimos, buscando uma vagarosa aproximação com o primogênito.

Visão não sentia raiva, tampouco ódio, porém, também era incapaz de sentir a plenitude do amor pela figura paterna. No máximo, sentia empatia pela luta do pai em se tratar e deixar o vício de uma vez por todas. Logo depois que ele iniciou a faculdade, seu pai firmou união com uma mulher mais nova que conhecera nas reuniões do grupo, e havia pouco tempo que tiveram um filho chamado Victor, meio irmão a quem Visão procurava eventualmente mais por medo das recaídas do pai do que por qualquer outro motivo.

Foi na adolescência que a música se tornou a parte mais importante de sua vida, após mudar de colégio e descobrir um coral no contraturno da aula. Visão somente buscava ficar fora de casa a maior parte do tempo possível, e os rapazes dos grupos de esportes eram insuportáveis demais para ele. Na atividade de música, apesar de terem os prodígios que tocavam desde a tenra idade, ninguém julgou a falta de habilidade dele em um piano bastante velho e levemente desafinado que a maioria dos alunos passava bem longe.

Não demorou para ele ficar todos os dias até mais tarde na escola, procurar por livros de música e alunos veteranos que o ensinavam alguns acordes. Seu esforço era tamanho que o professor de música da escola lhe ofereceu aulas particulares e, por seu pai buscar a reconciliação, não foi difícil barganhar dinheiro para pagá-las, além de uma quantia extra “para um lanche no colégio”, a qual Visão guardava em um cofrinho com o intuito de sair dali um dia.

E esse dia chegou.

Quando foi época de escolher a faculdade, Visão só queria distância de sua casa e da sua antiga vida. Foi quando descobriu um programa para músicos que parecia ser perfeito para ele: o programa pagaria integralmente a faculdade de música, e o aluno retornaria parte dos valores trabalhando em uma orquestra, a outra parte depois de se formar, com outras despesas por sua própria conta, como moradia e manutenção dos instrumentos. A taxa de inscrição não era de valor exorbitante, e, principalmente, o curso ofertado era do outro lado do país. E foi assim que ele deixou os desconfortos de sua casa na ensolarada Califórnia para chegar de malas prontas na gelada Nova Iorque.

Como em todo bom início, ele passou por mais dificuldades do que poderia imaginar; o alojamento que dividia com dois outros músicos era minúsculo, o banheiro era compartilhado entre todos do prédio, e Visão precisava trabalhar em dois empregos para garantir sua estadia. Somente durante a noite ele encontrava tempo para estudar as partituras das músicas com seus grandes óculos de grau e uma lanterna debaixo das cobertas para não incomodar os colegas de quarto. Não era raro ele acordar atrasado para a aula, mas chegar com a teoria musical na ponta da língua após horas estudando sem parar.

Ele jamais fora um talento nato, todavia, floresceu de maneira extraordinária nos anos que treinou com afinco. Quando a orquestra passou a exigir mais dele, deixou um dos empregos e passou a atuar somente como barista de meio período em uma cafeteria próxima à faculdade. Nos momentos livres, tocava por diversão, em um lindo piano de cauda em uma área compartilhada entre todos os alunos.

Até que, repentinamente, seus dias solitários se tornaram mais alegres.

Um dia em que estava atrasado para a aula após sair do trabalho, ele corria pelo campus até sentir que esbarrara em alguém, trazendo as suas partituras, juntamente com seus óculos e os livros de outra pessoa ao chão.

— Eu sinto muito.

Com a cabeça abaixa, a fim de juntar os papéis caídos sobre a grama, ele era incapaz de notar a beleza da moça a apenas alguns passos de distância. Somente viu sua foto na carteira de estudante junto dos livros e, ao olhar para frente, foi surpreendido por olhos verdes que o encaravam com curiosidade, seguido de um lindo sorriso e o cabelo ruivo ondulado emoldurando perfeitamente um rosto angelical que fez o jovem Visão suspirar. O suspiro foi alto o suficiente para provocar uma rápida risada antes dela se despedir e seguir para a sua aula de direito constitucional.

Aquele encontro fora apenas o primeiro de muitos que sucederam.

Nas várias vezes em que Visão tocou piano na área comum dos estudantes, ele espiava por cima dos óculos para a porta, esperando rever a moça daquele dia. Logo, ela passou a frequentar a área, frequentemente com uma lata de cerveja na mão, sentada do outro lado da sala apenas espiando enquanto ele tocava. Depois, ela passou a ser uma cliente frequente do café em que Visão trabalhava, curiosamente nas mesmas horas e dias de seu meio período, a ponto de ele decorar como ela queria sua bebida. Ainda, após alguns meses somente se cumprimentando, ela aproveitava momentos mais vazios do estabelecimento para puxar assunto, às vezes trazia seus livros e estudava até tarde da noite, em especial quando ele ficava para fechar a cafeteria.

Não seria delicado da parte dele deixá-la sozinha à noite, por isso, ele a levava de volta para o dormitório antes de voltar para seu alojamento; e, depois de um período razoável de tempo, passou a levá-la para o apertado apartamento que alugara nas proximidades, após seus colegas de alojamento se formarem e precisarem ir embora dali. Somente para conversarem no começo, mas não tardou para trocarem um beijo, dois, e pararem na cama de solteiro dele, fazendo amor a noite toda e acordados pela luz do sol tocando seus rostos na manhã seguinte, geralmente atrasados para alguma aula.

Visão passou, portanto, a deixar um espaço na banqueta do piano em que ele tocava no local de reunião dos estudantes, e Wanda Maximoff, aluna de Direito ainda nos períodos iniciais, quando possível, se sentava ao lado dele, abraçando sua cintura enquanto suas mãos deslizavam pelas teclas, produzindo música que primeiro dedicou à sua mãe, depois à sua liberdade e, naquela época, ao grande amor da sua vida.

Quando ele se formou e efetivou o emprego na orquestra, Wanda se mudou para o pequeno apartamento, devidamente arrumado para duas pessoas, trabalhando incessantemente em suas pesquisas enquanto Visão se virava como podia para manter o apartamento e sua namorada, além de preparar músicas para os primeiros convites de solos em concertos que apareciam para ele.

Deitado na cama que dividiam, com Wanda ressonando ao seu lado, Visão observou a grossa aliança de ouro na mão esquerda, um símbolo do casamento com a mulher que conhecera ainda na faculdade, uma jovem rebelde querendo fugir das muitas responsabilidades que sua família adotiva lhe impunha. Um professor de Visão, certa vez, dissera que o anel é redondo pelas pessoas não sabem onde começou o sentimento, mas não querem que ele acabe, sendo o amor infinito como o círculo. Ele concordava com aquela explicação. Não sabia dizer se havia se apaixonado por Wanda no primeiro beijo, em alguma das vezes em que eles conversaram no café, nas espiadas discretas no salão dos estudantes enquanto ele tocava piano, ou quando ele esbarrou nela sem querer e seus destinos foram traçados para sempre; todavia, ele sabia, em seu coração, que não queria jamais deixá-la ir.

Enquanto a respiração pesada da esposa tocava gentilmente seu ombro, ele observou a casa ao lado através da janela, lembrando da menina que vira mais cedo com suas primeiras notas de violino. Provavelmente, vê-la tão jovem e cheia de esperança o lembrara de sua própria trajetória até chegar até ali.

O pedido de casamento. A festa. A primeira casa.

O dinheiro começou a pingar quando Wanda começou a dar aulas e Visão se destacou em solos de piano, com a renda extra de ensinar crianças a tocarem o grande e magnífico instrumento. A vida de casados deles se manteve estável até a descoberta da gravidez de Wanda.

Quando as duas listras vermelho escuras marcaram o fundo branco do teste de farmácia, Visão sentiu medo. Medo de a criança estar fadada a ter a mesma infância difícil dele, de Wanda abandoná-lo. De acabar se tornando como seu pai. Por isso, junto das lágrimas de alegria, vieram as lágrimas de desespero, calmamente enxugadas por uma paciente esposa e futura mãe.

Ele voltou a sentir o gosto das lágrimas de desespero quando descobriu que seria não um, mas dois meninos. E quando Wanda foi levada às pressas para o hospital.

Visão abraçou Wanda com cuidado, sentindo o doce aroma de seus cabelos, ainda úmidos do banho que havia tomado ao chegar. Seu corpo era frágil, esguio, e branco como mármore. Ele a admirava com carinho, o mesmo carinho da época em que fizeram sexo as primeiras vezes, e ele deixava a luz do abajur acesa para poder admirar seu corpo enquanto ela não olhava.

Todas aquelas lembranças iriam levar, eventualmente, à morte dos bebês.

Talvez fosse pelos anos escondendo suas emoções perante os ataques de violência do pai, ou os dois anos que passou sozinho em uma cidade desconhecida, mas, após qualquer trauma pesado, Visão se fechava para o mundo e era incapaz de chorar na frente de outras pessoas, incluindo sua amada esposa. Ele deixava as lágrimas fluírem na solidão, quando dedilhava seu piano procurando a resposta para os seus problemas, como procurava a voz da mãe o colocando para dormir no fundo de suas memórias.

Após uma quantidade razoável de horas com tentativas infrutíferas de cair no sono, sua mente foi embalada da voz suave de sua mãe e ele finalmente conseguiu descansar. Seus sonhos via de regra eram conturbados, nos quais ele se encontrava nos corredores do hospital, procurando por Wanda até descobrir que ela havia morrido junto com os bebês.

Mas, naquele dia específico, ele sonhou com a faculdade. O piano no salão de estudantes. Wanda com as mãos ao redor de sua cintura. O sorriso de seu meio irmão Victor, e de seu pai durante as raras visitas. A menina tocando violino para uma plateia inanimada. Pequenos detalhes que tornavam sua mera existência uma vida.

Quando Visão abriu os olhos pela manhã, percebeu que sua esposa não mais restava pacificamente ao seu lado, nem as roupas estavam espalhadas pelo chão; curioso com as ausências, ele levantou e buscou uma vestimenta para o dia, e se surpreendeu ao perceber que já eram quase dez horas da manhã.

Ele voou escada abaixo para encontrar o café pronto em uma garrafa sobre a mesa, e um prato de waffles já frios sob um prato. Ao lado da xícara ainda vazia, havia um bilhete com letras femininas:

Desculpa pela última noite. O café está pronto para alegrar um pouco o seu dia. Vou à terapia depois do trabalho, volto mais tarde.

Beijos, Wanda.

Visão se serviu de café e sorriu. Ela finalmente havia voltado para a terapia.

Notas finais
Então, o que acharam da história do Visão? Confesso que muito da história dele eu inventei na hora da escrita, e realmente fluiu de uma maneira inacreditável. Aceito críticas e sugestões caso não tenham gostado, para eu não mais escrever dessa maneira! uahsuahs. Gostaria de saber o que vocês querem ver nos próximos capítulos! Gostariam de ver um pouco mais da relação do Visão com o pai dele? Por mais que eu sempre diga para mim mesma que vou focar na versão dos filmes, eu acabo pendendo para os quadrinhos. Victor, o meio irmão do Visão, é na verdade Victor Mancha, que é criado pelo Ultron nos quadrinhos e é, realmente, um irmão do Vis. Essa semana estava lendo Avengers A.I, cujo foco é nas inteligências artificiais da Marvel, e os dois têm umas interações muito precisas, tanto que decidi na última hora colocá-lo na fic haushauhsuhas. Nos vemos sábado, e bom WandaVision amanhã para nós! Mil beijos e um abraço bem quentinho em vocês ♥