Epifania
3 III. Andante
Notas iniciais
Andante: andamento musical com a velocidade do andar humano, amável e elegante.
— E agora, o Jimmy inventou de fazer ensino à distância. – Wanda se serviu de mais uma taça de vinho. – Juro que não sei por que isso, já que o EAD não vai atrair novos alunos.
O barulho do líquido ao encontrar o vidro do cálice, apesar de baixo, trouxe um leve desconforto para os ouvidos de Visão. Principalmente por já ser a quarta taça daquela noite.
— Amor, acho que podemos parar com o vinho, não é mesmo?
— Pfft. – Wanda riu, perceptivelmente alta. – Vai quebrar a nossa tradição agora...?
Ela fez uma longa pausa, e bebeu mais um grande gole da taça de vinho, o cenho franzido acompanhando olhos meio fechados que miravam o horizonte. Diversas continuações para aquela frase vieram à cabeça de Visão: “agora que os nossos filhos morreram”, “agora que nosso casamento esfriou”. Ele não disse nenhuma em voz alta.
Por isso, enquanto terminava de colocar a louça suja de macarrão penne ao molho branco na pia, o homem fez um esforço absurdo para voltar ao assunto anterior:
— E por que você acha que o EAD não vai dar certo?
O rosto de Wanda se iluminou em um sorriso.
— As pessoas nos procuram por causa dos cursos presenciais. Já tem curso à distância demais por aqui. – Ela finalizou o líquido e colocou a taça sobre a bancada da cozinha. – Por enquanto, vamos tentar a pós-graduação à distância, mesmo eu sendo terminantemente contra.
Visão assentiu e manteve a cabeça baixa enquanto ensaboava os pratos e deixava-os na fila para serem lavados. Era uma tradição deles jantarem juntos no início do ano letivo, em setembro, para Wanda contar as novidades do retorno ao trabalho. Algumas vezes, eles estendiam uma toalha xadrez no quintal para aproveitarem o final do verão enquanto tomavam vinho e beliscavam aperitivos, enquanto em outras faziam o jantar e comiam na própria bancada da cozinha. A única regra é que deveriam estar sozinhos em casa.
No ano anterior, quando ainda estavam tentando engravidar, a noite teve um tom diferente. Foi regada por músicas, tanto no aparelho de som da sala de estar quanto no piano, receitas que deram errado, mas, ainda assim, estavam deliciosas, muito vinho e amor de sobra até a manhã seguinte.
Naquele momento, apesar dos esforços incessantes de ambos, o clima era de estranheza. Wanda tomava cada vez mais vinho, uma maneira de tentar manter o sorriso no rosto, e Visão havia feito o jantar com muito esmero, somente para achar a comida sem sal e escutar sua esposa falar incansavelmente sobre as conversas com Jimmy, Monica e Darcy, praticamente sem dar espaço para ele. Não que fosse ruim escutá-la, tampouco vê-la sorrir, todavia, estava claro que aquilo não passava de uma máscara para esconder a tristeza em seu coração.
Quando Visão virou o corpo para buscar uma toalha a fim de secar a louça, foi bruscamente parado por Wanda em sua frente, com a mão estendida e a ponta dos dedos em seu peitoral. Ele era mais alto que ela quase uma cabeça, então era fofo vê-la na ponta dos pés para alcançar seus lábios, utilizando as mãos como uma garra para se segurar e não pender para frente.
O primeiro beijo foi agridoce. Uma mistura de sensações que tanto Visão quanto Wanda estavam desacostumados, desde o carinho externado até o desconforto e tristeza reprimidos em seus corações. Eles se beijaram, lentamente, até finalmente seus lábios se apartarem e seus olhos mirarem intensamente um no outro.
O segundo beijo foi intenso. A mulher, dessa vez, passou os braços ao redor dos ombros largos de seu marido, entrelaçando os dedos em sua nuca. A sapatilha que calçava quase escorregou do pé direito quando ela se inclinou mais ainda para frente, empurrando Visão contra a bancada da cozinha, fazendo uma das taças cair na cuba de alumínio destinada a lavar a louça.
— Wanda, acho que não é uma boa ideia...
— Shh... – Respondeu ela, movendo um dedo em direção a sua boca.
O terceiro beijo foi frenético.
A respiração do casal ficou entrecortada após reiteradas buscas por ar entre os toques de seus lábios. Logo, as mãos de Visão acariciavam as costas de Wanda pelo tecido do vestido verde claro que ela vestia, e os beijos desceram para seu pescoço, arrancando suspiros de prazer.
Apesar dos toques certeiros, os dedos de Visão estavam trêmulos, como se na dúvida entre continuar e pedir permissão para encostar em Wanda. Ela, contudo, não mudou de ideia e insistiu nas carícias, utilizando suas próprias mãos para encostar nele – em locais perigosos, diga-se de passagem.
Não tardou para Visão sentir um volume nas calças casuais que vestia, e era uma reação esperada pelos amassos com a esposa, especialmente após tanto tempo sem esse tipo de estímulo. Wanda era uma mulher belíssima; muitas vezes, ele se flagrava observando ela fazer o mais simples dos afazeres domésticos, e pensava consigo como era sortudo de ter se casado com uma mulher tão linda.
Seus pés flutuaram escada acima quando ele a seguiu para o quarto, porém, com uma voz no canto de sua cabeça dizendo repetidamente que aquilo daria errado. Era muito cedo para fazerem sexo novamente, havia pouquíssimo tempo do aborto, e, principalmente, ele não estava preparado. No entanto, quando percebeu, Wanda o havia conduzido ao quarto, aparentemente disposta para aquele momento.
Sentado na beirada do colchão, Visão fechou os olhos quando sentiu o corpo dela sobre suas coxas, e as mãos de Wanda entrando em seus cabelos entre um beijo e outro, juntamente com os gemidos melodiosos externados por ela. Ele teve cuidado ao tatear as costas de sua esposa procurando pelo pequeno botão do vestido em sua nuca, abrindo-o com delicadeza.
O grande tecido deslizou pelo corpo escultural da esposa, permanecendo em seu colo na distância entre a calcinha dela e o cós da calça social preta que ele vestia. O movimento de Visão era duro, apesar de sutil, como um artesão que ficara anos sem mexer em suas estátuas e tivesse medo de quebrá-las devido à falta de prática. Wanda era tão sensível em seus braços que poderia se despedaçar diante de seus olhos a qualquer instante.
Com beijos ao redor de seu pescoço e colo, as mãos de Visão gentilmente examinaram o busto de Wanda, enquanto as mãos dela entravam por sua camisa social e desabotoavam gentilmente o tecido claro, deixando a blusa cair sobre o lençol de linho branco da cama. Em seguida, ele soltou o feche do sutiã da esposa e escorregou as alças vagarosamente pelos braços dela, jogando-o para o lado na primeira oportunidade.
Os seios da mulher ainda pareciam um pouco inchados após os meses de gestação, e Visão sentiu receio de prosseguir; contudo, Wanda sorria e se movimentava cada vez mais em seu colo, com arranhões e beijos em suas costas e tórax, praticamente um passe livre para ele tocá-la. Então, ele segurou o seio direito da esposa com cautela, e utilizou os lábios para beijar suavemente o mamilo oposto, com rápidas lambidas e sugadas que faziam-na gemer mais alto.
Ele utilizou a força de seus braços para sustentá-la e, devagarinho, deitar o corpo esguio de Wanda no colchão macio que dividiam. Visão aproveitou o momento para observá-la praticamente nua em sua frente, e sorrir admirando sua beleza enquanto abaixava a cabeça para beijar seu abdômen e chegar na barra de sua calcinha, que tirou usando as duas mãos e, ao fazê-lo, pensou no quanto eles deveriam usar preservativo, devido ao fato do médico tê-los proibido de engravidar naquele período.
Assim, ele se levantou da cama e buscou nas gavetas da cabeceira um pacote plástico viscoso, aproveitando para diminuir a intensidade da luz do abajur, bem como tirar o restante da roupa que vestia. Quando retornou à posição normal, por cima de Wanda, pôde perceber que o rosto dela estava de perfil ao mesmo tempo que o sorriso cedera espaço a uma expressão mais séria. Ele torceu os lábios, preocupado, ao que vestia o preservativo.
— Wanda. – Ele sussurrou. – Eu vou entrar, tudo bem?
Sem resposta. O pênis de Visão deslizou entre as pernas de Wanda, e ele reprimiu um gemido um gemido alto quando sentiu o prazer depois de tantos meses. Com movimentos lentos, ele respirava mais pesadamente, estabilizando o inspirar de seu peito com os sons baixos que saíam da boca entreaberta de sua esposa, ainda de perfil sem conseguir encará-lo propriamente.
O primeiro soluço foi baixo, quase inaudível. O homem estava tão absorto naquele momento que esquecera da preocupação latente em seu peito, o medo de fazê-la sofrer presente através daquela voz insistente avisando que daria errado. Ele abriu os olhos, sentindo que havia algo errado, e as lágrimas de Wanda escorriam livremente por sua face, molhando o travesseiro que ela recostava sua cabeça e formando uma pequena poça na fronha.
— Wanda. – Visão cessou os movimentos. – Está tudo bem?
O segundo soluço, o terceiro, e os demais, foram altos. Muito altos. Visão se afastou, assustado, e imediatamente removendo seu membro dela, enquanto observava aqueles olhos verdes marejados denunciando sua tristeza. Ela chorava cada vez mais alto, se encolhendo na cama enquanto dizia repetidamente:
— Vis... Ah, desculpa, desculpa...
Visão retirou a camisinha e jogou-a no chão. Se aproximou de sua esposa devagar e tomou-a nos braços, seu frágil corpo ajeitado com a cabeça em seu tórax.
— Você não tem nada para se desculpar.
Ele a aninhava no colo, sentindo uma arisca Wanda aos poucos se abrandar e corresponder seu abraço, suspirando pesadamente no ombro do marido. Ele estava ali por ela, e sempre estaria. O choro aos poucos foi diminuindo, se tornando apenas uma queixa baixa, para a qual Visão respondia com beijos em sua testa e olhos, juntamente de carícias nos agora curtos cabelos ruivos. Também cobriu seus corpos nus com o lençol, já que nenhum deles tinha condições de vestir um pijama.
Wanda dormiu após um tempo, talvez efeito do vinho em excesso. Visão consultou o relógio apenas para ver que ainda eram nove e meia da noite.
E aquela seria uma longa noite.
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