Epifania
2 II. Andagio
Notas iniciais
Andagio: andamento musical vagaroso, com a expressão terna e patética.
... Talvez ele devesse cortar a grama.
Sim, cortar a grama era a opção mais lógica a se fazer; o jardim frontal da casa havia sido lindamente remoldado antes da venda, contando com a grama baixa e roseiras adornando logo abaixo das janelas, todavia, o quintal atrás da residência possuía a grama alta e poderia atrair insetos no verão.
Visão se aproximou da porta corrediça e puxou-a para a direita, revelando seu terreno espaçoso na parte posterior da casa. Ao seguir pela esquerda, encontrou um espaço pequeno no qual guardava itens de jardinagem, e pegou o cortador de grama pronto para liga-lo na extensão.
O bairro era assustadoramente quieto. Nenhum vizinho havia aparecido ainda para dar as boas-vindas, sequer ouvira qualquer barulho dos quintais próximos. Era como se todos saíssem de casa pela manhã e somente voltassem à noite. Porém, Visão deveria admitir, ele quase não saíra de casa nas duas semanas que precederam aquele dia glorioso de outono.
O mês de setembro iniciara com toda a sua luz. Era época de retorno após as férias de verão em escolas e faculdades; Wanda, professora universitária que cuidava da parte administrativa da instituição, sempre ficava animada em ver os rostos dos alunos novos. Não era raro eles sentarem à mesa após o primeiro dia de seu trabalho, dividirem uma taça de vinho e comentarem todas as movidas, as quais Visão escutava atentamente e divagava com ela enquanto preparava o jantar.
Após finalizar a grama, limpar o jardim e aproveitar o momento para ajuntar algumas pedras soltas, com intenção de criar uma horta, Visão percebeu que não se passara tanto tempo assim. Talvez as horas demorassem ainda mais a passar quando ele não ia frequentemente ao quarto ver se Wanda estava bem. Inconscientemente, ele se viu subindo as escadas algumas vezes, somente para girar a maçaneta do cômodo no qual ambos dormiam e perceber que ela não estava lá.
Mais algumas tarefas mantiveram sua manhã relativamente ocupada, até que, na hora do almoço, ele esquentou uma das últimas marmitas congeladas trazidas por sua amiga de longa data, Natasha. Enquanto comia, encostado na bancada ao invés de sentado na cadeira, ele olhou o telefone restando sobre uma pequena mesa de madeira ao lado do sofá. Deixando o prato por lavar na pia, Visão se aproximou do aparelho e digitou alguns números que conhecia muito bem, sendo surpreendido por uma voz familiar:
— Alô?
— Mônica, é você?
— Vis! – Mônica Rambeau, colega de trabalho e amiga relativamente próxima do casal, olhou para os lados para confirmar a ausência de Wanda da sala e aumentou um pouco o tom de voz. – Que bom falar com você. Peço desculpas por não ter ido visitar a casa nova, mas o trabalho se acumulou nas semanas que substituí a Wanda por aqui.
— Não se preocupe com isso. Agradeço por ter ido ao hospital nos visitar. – O homem pigarreou antes de continuar: – Estou ligando porque estou bastante preocupado com a minha Wanda, Mônica.
A mulher com quem Visão conversava pediu licença e se levantou para fechar a porta, antes de encaixar o rosto no bocal do telefone e dizer:
— Visão, ela está bem.
Ele foi pego de surpresa pela resposta.
— Bem? – Repetiu, somente para ter certeza. – Como assim bem? Ela está bem em que sentido?
— Ela chegou completamente alegre aqui. Eu e a Darcy estranhamos no início, mas fomos dançando conforme a música para ela não se sentir constrangida. Até o Jimmy, que é mais parrudo, ficou conversando umas aleatoriedades com ela.
Darcy Lewis era a mais nova colega de trabalho de Wanda, uma estagiária que fora contratada logo após sua formatura. Ela possuía um carinho materno por Mônica e, em especial, por sua supervisora, a esposa de Visão, a qual lhe contara inúmeras histórias da menina de bom coração que orientava. Já Jimmy Woo era o diretor acadêmico da pequena faculdade, e sempre era distante com a maioria. Presumia-se que, assim como os demais conhecidos, ele tentava distraí-la com assuntos que não lembrassem a gravidez.
O pianista sentiu um pequeno aperto no peito. Por um lado, era um alívio ter notícia que Wanda não estava deprimida, contudo, dado seu comportamento em casa, Visão se preocupava de ela estar mentindo na frente dos colegas.
A confirmação não demorou a vir:
— Mas, Vis? – Continuou Mônica. – Acho que ela está feliz demais.
— Demais?
— Isso. Exageradamente feliz. É como se ela nunca tivesse saído de atestado. – A mulher olhou para a porta, uma maneira de garantir que o assunto não se aproximava. – Na verdade, ela parece ainda mais animada que antes! Admito que fico preocupada.
Visão sabia que a inquietação não era por acaso. Mônica poderia não notar, contudo, ele conhecia Wanda muito bem, fruto dos oito anos de convivência entre noivar e casar. A felicidade repentina de sua esposa era uma maneira de reprimir os sentimentos; e, em sendo assim, a possibilidade desses sentimentos engarrafados explodirem era cada vez maior.
— Mônica, escute com atenção. – Ele manteve o tom de voz calmo. – Caso a Wanda não se sinta bem fisicamente, ou não passe bem dos remédios, ou tenha uma crise de choro... Qualquer coisa, por favor, me ligue imediatamente. Você tem o número daqui de casa?
— Aham... – A mulher do outro lado da linha checou as anotações e constatou o número anotado em sua agenda. Escutando a voz de Wanda e Darcy no corredor, ela resolveu improvisar: – Sim, pode deixar que eu passo o recado para a Dra. Foster.
— Mônica, o que você está...
— Ah, sim, a assistente dela acabou de chegar. Vou deixar recado. Obrigada!
Wanda abriu a porta e adentrou o ambiente de trabalho juntamente com Darcy após o almoço. Curiosa com o fato de Mônica ter finalizado a ligação tão rápido, indagou:
— Quem era no telefone, Mônica?
— Ninguém importante. – Ela se levantou, aproveitando para desamassar o vestido branco com lilás que usava. – Só alguém querendo vender cursos para a Doutora Jane.
~.~
As mãos de Visão pairavam sobre as teclas do piano alemão. Ele respirou e tocou dois acordes desconexos. Contudo, não desistiu e correu os dedos por mais teclas, ao menos produzindo alguma espécie de som, ainda que incoerente. Algumas lágrimas brotaram em seus olhos e escorreram para as costas de suas mãos, ainda fixas nas últimas notas que produzira. Aquilo realmente não estava bom.
Apressado, levantou-se da banqueta em que tocava piano e caminhou para o quintal, abrindo a porta corrediça e andando em direção ao meio do terreno. A grama não mais tocava seus tornozelos, estando rés do chão como seus pés firmes no solo. Visão pôs uma mão na boca e deixou as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto.
Por que chorava tanto?
O piano permanecia intocado desde quando precisara levar Wanda às pressas para o hospital. Na véspera daquele dia, somente, ele tirara a proteção de tecido que usara na mudança, e a guardou juntamente com os demais equipamentos para a casa. Quando tomou coragem para tocá-lo novamente após algumas semanas, o pianista parecia travado. Rígido. Como se não conseguisse mais transmitir suas emoções através da música, como fizera desde a adolescência. Chorava ao lembrar de Wanda debilitada, do susto ocasionado pelo aborto, do medo de perder seus filhos se tornando realidade diante de seus olhos; lembranças confinadas em seu peito, e que torcia poder externá-las através da arte. Não foi o caso.
Após alguns minutos chorando baixinho, os soluços abafados pela mão que mantinha em sua face, ele ouviu um som diferente. Em verdade, o correto era desafinado. Não era um piano, mas um violino, sendo tocado na casa à sua esquerda. Secando o rosto com as costas da mão que antes cobria sua boca, ele quietamente se aproximou do muro o qual dividia as residências e pôs-se a observar.
Uma menina, que não aparentava ter mais de oito anos, tinha em seu ombro um violino de madeira clássico. Ela mantinha o queixo em posição, e movia suavemente a vareta sobre as quatro cordas. Pela luz do sol poente, ele conseguia ver sua pele negra, e os cabelos presos em uma trança, que ia do topo da cabeça até a metade das costas. Na frente da figura, restavam bichinhos de pelúcia, arrumados semelhantes à plateia de um concerto.
Ele tomou um minuto para se apoiar na cerca e fitar o pequeno espetáculo, a criança tão absorta nas notas iniciais e tão disposta em animar seus brinquedos, que, num primeiro momento, nem mesmo notou a presença do homem. Porém, ao parar de tocar e perceber que alguém a encarava, ela virou o rosto repentinamente e olhou Visão, os dois olhos verdes como esmeraldas fixos nele e, por conseguinte, deixando-o desconfortável.
Sua primeira reação foi lembrar de Wanda. Era inegável o quanto o olhar de ambas, tanto a coloração quanto a intensidade, era parecido. Mas, ao mesmo tempo, ele julgou que estivesse pensando demais na esposa e poderia facilmente ter confundido. Era bastante estranho, também, que ele ficasse observando uma infante através da cerca, e, se os pais dela descobrissem, iriam tirar satisfações com toda a razão do mundo.
Visão fez menção de se afastar, mas a menina fez um sinal com as pequenas mãos para que ele se aproximasse. Percebeu, então, um buraco na cerca, e, como nada mais tinha a perder, resolveu tentar passar por ele. Era bastante pequeno, e o homem era alto, contudo, era suficientemente esguio para atravessá-lo sem maiores dificuldades. Devagar, ele se aproximou dos bichos de pelúcia e sentou-se na ponta da fileira.
Logo, a menina reiniciou a música, um pouco menos desafinada desta vez. E Visão sentiu-se em outro planeta, apenas admirando a música performada por alguém tão jovem e com vontade de melhorar. Ele era professor de música particular antes de Wanda engravidar, e secretamente tinha vontade de voltar a lidar com crianças e ensiná-las desde cedo a arte de tocar um instrumento. Era um mestre paciente, e ficava feliz em ver seus alunos crescerem e aperfeiçoarem suas técnicas, por hobby ou por profissão. Mesmo que eles demorassem a entender os acordes mais simples, ele criava mil maneiras de facilitar o aprendizado e, sobretudo, de mantê-los motivados e se sentindo especiais.
Por isso, quando a criança que ele não sabia o nome terminou a bela música que tocava e reverenciou a plateia, ele aplaudiu, emocionado. Suas mãos ainda estavam um pouco sujas de terra por ter rastejado e se mantido sentado no chão por algum tempo, contudo, ele viu um pouco de seus antigos estudantes naquela menina. Viu um pouco do que seus filhos poderiam ter se tornado. Viu um pouco de si quando começou a aprender piano.
Antes que eles pudessem trocar qualquer palavra, uma voz feminina ecoou de dentro da casa:
— Vivian, venha fazer um lanche!
Ela prontamente obedeceu, virando as costas e levando o violino ao lado do corpo para dentro de casa. Antes de entrar, porém, ela voltou a olhar Visão, que voltava rapidamente para seu quintal, sem antes deixar de mirar a menina. No silêncio entre eles, pairava uma promessa tácita de que se veriam de novo em breve. Então, ele apenas acenou e sorriu, recebendo o mesmo em resposta dela, desaparecendo em seguida.
As energias ao redor de Visão pareciam renovadas quando ele entrou em casa novamente; e, percebendo a hora, colocou uma panela de água para esquentar, pensando no cardápio para aquela noite, sempre de olho no telefone de casa caso houvesse alguma emergência.
Contudo, a tarde cedeu espaço à noite sem qualquer ligação de Mônica.
Fale com o autor