Epifania

1 I. Silêncio


Notas iniciais
Boa noite, gente! Quase não postei esse capítulo hoje, mas acabei postando. Espero que gostem ♥ Bom, essa é a minha primeira tentativa de escrever um drama familiar, e honestamente gostei do resultado por ora. Vou trabalhar vários aspectos diferentes, então peço, por gentileza, que me acompanhem para conhecer um pouco mais dessa história! Desejo uma ótima leitura ♥

Silêncio: ausência completa de som ou ruído.

Sobre a mesa de jantar restava uma xícara cujo conteúdo já estava morno. O cabo afixado encontrava-se virado para uma figura escondida atrás de seu jornal diário, lendo cada manchete desinteressante como se realmente possuíssem alguma relevância para sua vida, morna assim como o café.

As paredes de tom bege absorviam os raios de sol da manhã que adentravam por uma porta de vidro a qual levava a um amplo quintal, coberto por heras e ervas-daninhas na superfície terrosa. Olhando por cima do papel amarelado, pensou que deveria aparar a grama mais tarde, enquanto, atrás da cerca de madeira, uma grande bola de fogo acendia mais um dia de completo esplendor. Ainda que as últimas manhãs, tardes e noites possuíssem para ele uma melancólica e estranha coloração cinza, o homem gostava de ver um pouco de luz nas oportunidades possíveis.

O barulho contínuo de saltos altos descendo a escada de madeira da residência tiraram o homem de seu transe, e ele ficou surpreso ao ver uma mulher com roupas de trabalho pronta para sair de casa. Quando ela chegou ao final do lance, não sorriu, nem desejou bom dia, somente suspirando e encarando o chão enquanto arrumava o cabelo ruivo atrás da orelha direita, as curtas madeixas batendo em seus ombros e levemente enroladas nas pontas.

A olhos comuns, eram somente mais um casal ordinário, dividindo a mesma casa, os mesmos planos e sonhos, como um dia já foram todos os casais. Contudo, muitas caixas de papelão espalhadas, o desgaste das paredes que precisavam de urgentes reparos e o cansaço no olhar de ambos demonstrava que algo estava fora do lugar; eles não eram mais jovens enamorados que estavam se mudando para começar a vida e, sim, um casal sofrido que buscavam o máximo possível se abster de pensamentos sobre um passado recente e doloroso.

— Wanda.

Pela primeira vez, o nome de sua esposa escapou dos lábios do marido, algo praticamente involuntário de quando viu-a pousar as mãos trêmulas sobre a bancada da cozinha. Em verdade, esta não possuía uma parede que a separasse da sala de estar, tampouco da mesa de jantar, estrategicamente posicionada no mesmo campo de visão de um piano alemão sem cauda, este, por sua vez, bastante próximo da porta corrediça de vidro e com um tapete colorido logo atrás, deixando que o sol iluminasse as ideias de um talentoso pianista, e a lua servisse de inspiração para jantares em que o casal recebia convidados, animados em ouvi-lo tocar.

As mãos de Wanda permaneceram sobre a bancada de madeira, sendo que ela somente voltou os olhos para a figura que a chamava. O homem largou o jornal sobre a mesa e levantou-se da cadeira, andando alguns passos largos em direção à sua esposa e colocando a palma da mão sobre seus dedos trêmulos.

— Você sabe que não precisa ir trabalhar. Ainda tem alguns dias de atestado. E, se você não estiver bem, pode ligar que eu vou te buscar imediatamente.

Os olhos verdes da mulher refletiam o azul límpido do olhar consternado dele. Ela meramente o encarava de volta, a vida se esvaindo de seu rosto. Ela mantinha o cinto do conjunto que usava apertado ao redor da barriga, já desinchada, e tão diferente do balão que carregava gêmeos apenas um mês antes. Mexendo os lábios devagar, sua voz soou baixa ao responder:

— Prefiro escutar as perguntas dos meus colegas do que ficar em silêncio tendo pena de mim mesma.

“Estávamos de sete meses. Não tinha sintomas. O médico disse para repetir os exames e reavaliar em um ano para tentarmos de novo.”

A resposta da última pergunta, de quando poderiam tentar outra gravidez, era certamente a que mais incomodava Wanda e Visão. Todo aborto dói, em qualquer época da gestação, mas estar tão perto e se dar de maneira tão repentina era excepcionalmente dolorido. Por isso, foram deixando as cortinas fechadas, evitando que vizinhos batessem na porta, buscando saber notícias (fofocas, diga-se de passagem) sobre a ambulância estacionada em seu quintal alguns dias antes. E, aos poucos, Visão foi encaixotando seus pertences, os pertences de sua esposa, os pertences de ambos e dos bebês, adiantando a mudança a qual só ocorreria após o parto.

Alguns amigos mais próximos foram de sensibilidade extrema. Clint e Laura Barton ligavam com frequência, mas optaram por não aparecer na nova casa, já que duas crianças intrometidas e um bebê de colo poderiam ser demais para Wanda. Ainda, Laura encontrava-se profundamente sentida; era verdade que, quando uma mãe perdia um filho, todas as mães perdiam um pouco de si.

Já Natasha apareceu um dia de repente, munida com várias caixas de comida congelada, deixando-as no freezer e correndo escada acima, trancando-se com sua amiga no quarto por bastante tempo. Visão, juntamente com a namorada de Natasha, Carol, aproveitaram para arrumar eletrodomésticos e móveis pendentes juntos, sintonizados com um desconfortável silêncio. Talvez porque, nessa situação, não havia nada a ser dito, nenhuma palavra de conforto a ser ofertada. Somente o silêncio e a dor compartilhada.

Devagar, Visão soltou a mão de Wanda, e observou-a se servir em silêncio de uma xícara de café, incerto do que falar. Pensou em comentar alguma notícia, talvez dizer que a previsão do tempo era de sol para a semana toda, e eles poderiam lavar a roupa de cama, ou ainda avisar que iria chamar o técnico para consertar o micro-ondas quebrado durante o transporte da casa antiga. Contudo, somente foi capaz de indagar:

— Pegou seus remédios?

A mulher acenou com a cabeça, dando-lhe um beijo na bochecha antes de sair porta afora e pegar o carro estacionado na garagem. Trocaram o carro antigo por um maior quando descobriram esperar gêmeos; agora, parecia só mais um elefante branco dentre os móveis, arrumações e espaços para brinquedos destinados a crianças que sequer viram a luz.

Ao ouvir o ronco do carro se afastar devagar pela distância, Visão observou a casa. A arrumação perfeita causava agonia, somente duas xícaras de café sujas as quais precisavam ser lavadas. Não havia a pressa de exames e repouso, não havia o barulho de choro que deveria acompanhá-los por muito tempo. Não havia nada que o fizesse lembrar de estar vivo além da própria respiração e um panfleto jogado sobre a mesa.

RECITAL DE PIANO

Com o canto dos olhos, mirou a data apontada no folheto. O concerto estava agendado para a semana seguinte, e Visão não planejara seu solo. Ainda que não usasse uma música sua, deveria treinar um clássico para não se embaralhar nas teclas do piano.

O piano estava somente a alguns passos de distância. Ele pôs a mão ao redor do queixo, considerando suas hipóteses, principalmente com o instrumento de madeira tão próximo, bastando abri-lo e dedilhar suas teclas até finalmente encontrar uma melodia que o trouxesse conforto, uma das poucas sensações realmente imprescindíveis naquele período.

Era só caminhar alguns passos...

Notas finais
Então, gostaram? Desejo boas-vindas para os leitores dessa história ♥ Vou tentar postar o próximo capítulo o mais rápido possível! Provavelmente vai ser antes do prazo de 15 dias. Críticas, sugestões? Estou aceitando BASTANTE já que é um estilo que não estou acostumada. Até breve! ♥