Enxergue o invisivel
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Clary prendeu a respiração enquanto assistia a expressão entediada do próprio, ele a olhava desgostoso esperando que a menina risse da própria piada e começasse a falar sério. No entanto, Clary manteve a expressão seria, seu coração martelava as suas costelas fazendo com que desejasse deitar na mesa e fazer uma série de respirações até conseguir se acalmar.
Porem, a menina manteve-se sentada, seu peito subia e descia devido a respiração rápida, uma de suas sobrancelhas estavam arqueadas em sinal de desafio, suas mãos agarravam a beirada da mesa como se fosse um salva vidas. Ansiosa observou o menino arregalar os olhos quando percebeu que ela falava a verdade, que aquilo podia ser tudo, menos uma brincadeira. Ele abriu e fechou a boca sem conseguir emitir nenhum som, a expressão incrédula era quase divertida.
Foi então que o loiro explodiu em uma gargalhada ruidosa, os pássaros que estavam pousados nos postes e arvores alçaram voo incomodados com o som, a menina só não tinha certeza se o que os incomodou foi a risada do menino ou o som de seu coração quebrando. Clary esperava várias reações de Justin, já havia criado e recriado esse momento muitas e muitas vezes em sua mente, ela até imaginou que o menino risse após ela confessar que gostava dele, só não previu que aquela atitude fosse doer tanto.
Uma dor a mais, uma a menos...
Clary estava mentindo pra si mesma tentando derreter as farpas de gelo que enterravam-se em seu coração, não deveria ou podia sentir tão triste por ser rejeitada por Justin Bieber, mas mesmo convocando todas as forças que lhe restavam não conseguiu controlar as lagrimas que lhe embaçavam a visão.
Apanhar daquelas vacas não é nada comparado a isso!
Dando um impulso desajeitado ela conseguiu descer da mesa, jogou a bolsa sobre os ombros e marchou para longe do menino que ainda ria. Porem, antes de conseguir dar dez passos sentiu uma mão firme a segurando pelo braço.
— O que você quer, porra? – Clary gritou para o Justin que a encarava em choque – já não se divertiu o bastante?
A menina puxava o braço no intuito de se livrar, mas sem sucesso. O menino continuava a segurá-la.
— O que aconteceu? – ele perguntou realmente confuso – o que deu em você?
Clary soltou uma risadinha incrédula, ainda tentava se soltar do toque do menino, sentir a eletricidade da pele dele em contato com a sua a fazia lembrar o quão patética era.
— Por favor, Justin me deixe ir – a menina soluçou já sem forças – você pode rir a vontade, só me deixa sair daqui.
Foi visível o momento que ele entendeu o que estava acontecendo. Em um piscar de olhos sua expressão confusa passou a ser horrorizada e culpada.
— Não, não – Justin a segurou pelos ombros, evitando o impulso de sacudi-la para fazê-la voltar a razão – você entendeu tudo errado.
Sim, desde o começo eu entendi tudo errado. Babaca ou não, você continua inalcançável.
Em um só movimento Clary estava nos braços de Justin, ele a abraçava forte como se quisesse protege-la de algo. Mas ele era a única coisa que a estava machucando. Nos primeiros segundos a menina ficou paralisada, sem saber o que estava acontecendo, sem entender o porque seu corpo queimava em todas as partes que estavam em contato com o dele, sem querer aceitar o fato de que aquele abraço era tudo o que precisava desde que aquele dia de merda começou.
Mas se Clary permanecesse ali seria bem pior depois, ao acrescentar a lembrança do abraço com todas as outras, a dor seria mais cruel. Juntando o restinho de forças que lhe restou a menina começou a espernear na tentativa de fugir do conforto de Justin. Porem, a consequência disso foi uma prisão firme ao redor de si. Quanto mais Clary tentava sair mais firmes ficavam os braços ao redor dela. Era como empurrar uma parede de tijolos. Justin ficou completamente calado enquanto a menina dava socos em seu peito, arranhava os seus braços, xingava até a sua ultima geração, até que o cansaço a venceu fazendo com que caísse em um choro sentido.
Quando teve certeza de que a menina não o atacaria de novo, Justin passou um dos braços pela cintura dela e posicionou o outro em sua cabeça que estava enterrada em seu peito. E assim ficaram por um bom tempo, Clary despejando toda sua frustração e dor na camisa do menino, e Justin acariciando os cabelos negros dela torcendo que ela entendesse que ele estaria ali por ela, que tudo ficaria bem.
Clary sabia que estava sendo masoquista ao ficar ali nos braços do menino que há alguns minutos a rejeitou com uma sonora risada. Seu inconsciente estava batendo o pé impaciente com uma expressão assassina e apontando um taco de baseball para a menina, ela lhe respondeu com um dedo do meio, mesmo sabendo que se arrependeria depois. Fizera tanta merda naquele dia que já que estava no inferno, resolveu abraçar o capeta.
O cheiro de Justin a deixou embriagada e incrivelmente calma, aos poucos conseguiu controlar os soluços e respirar tranquilamente. O menino lhe deu segurança o suficiente para que ela chorasse toda a angustia daquele dia, e ao mesmo tempo conseguiu tranquiliza-la.
Ele continuava a acariciar o seu cabelo, os braços firmes a sua volta, e depois de muito tempo Clary sentiu-se visível.
— Você está bem? – Justin sussurrou próximo ao ouvido dela.
Arrepiada a menina só teve forças pra assentir com a cabeça, seu rosto ainda enterrado no peito do menino, aproveitando os últimos segundos antes que se separassem.
— Promete pra mim que quando eu te soltar, você não vai fugir?– ele pediu, o sorriso na sua voz era perceptível – ou tentar me bater?
Clary sentiu as bochechas corando, e novamente assentiu com a cabeça. Não teria forças para fugir, e estava morrendo de vergonha por ter batido nele.
— Promete? – Justin afastou a menina do seu abraço, e depois segurou o rosto pequeno nas mãos.
— Prometo – Clary murmurou sem jeito – e desculpa por ter surtado.
— Está tudo bem – o rosto do menino ganhou uma careta engraçada – eu fui um babaca rindo daquele jeito...
— Você não precisa se explicar...
— Hey, eu vou ter que pedir mais uma coisa – o loiro colocou a mão sobre a boca de Clary a interrompendo no meio da frase – você pode só me escutar? Prometo que depois te deixo em paz.
A menina deu de ombros em sinal de concordância. Apesar da sua desconfiança e certeza de que ficar mais tempo ao lado de Justin só pioraria as coisas depois, a sinceridade e nervosismo na expressão do loiro a deixou curiosa.
Pela primeira vez desde o inicio dessa confusão Justin parecia tenso. Sua mão estava gelada e suada quando ele conduziu Clary novamente até a mesa, com um movimento rápido a colocou sentada mais uma vez. Porem, ao invés de se acomodar entre as pernas da menina, o loiro começou a andar de lá pra cá, característico de uma pessoa ansiosa que busca inspiração ou respostas para algo.
O nervosismo do menino estava deixando Clary ansiosa, na tentativa de se distrair ela alcançou o chocolate que havia recusado anteriormente, com os dedos trêmulos abriu a embalagem colocando um pedaço pequeno na boca, e mesmo em meio aquele turbilhão de emoções a menina foi capaz de apreciar a endorfina proporcionada pela iguaria que derretia em sua língua, automaticamente fechou os olhos gemendo baixinho pelo prazer em comer o seu chocolate preferido.
Ao abrir os olhos encontrou Justin parado, ele a fitava curioso os olhos castanhos detendo-se em sua boca. Clary timidamente passou a língua entre os lábios para limpar qualquer vestígio de chocolate que pudesse ter chamado a atenção do menino.
— Quer? – a menina estendeu o pedaço na direção de Justin que ainda a encarava em silencio.
— Não, eu não curto muito chocolate – ele respondeu automaticamente.
— Como não gosta...
— Mas dependendo do modo que lhe é oferecido...
O flerte na voz de Justin ficou tão evidente quanto o vermelhidão nas bochechas de Clary, era difícil responder qualquer coisa quando ele olhava desejoso pra boca da menina.
Ainda em choque Clary observou Justin caminhar até a mesa, com um impulso sentou ao seu lado, estavam tão perto que suas pernas se tocavam.
— Fica mais fácil me concentrar se não estiver olhando pra você – o garoto explicou com a voz serena, ele olhava para o chão enquanto Clary não conseguia tirar os olhos dele – eu vou tentar resumir toda essa loucura, acho que você não vai demorar pra entender. Daqui algumas semanas vai fazer um ano que meu irmão morreu.
A menina arregalou os olhos sentindo o familiar peso no estomago. Ela sabia o quanto era difícil falar sobre perdas, ela mesmo ainda tinha dificuldade em falar sobre a morte de seu pai. A surpresa e compaixão ao ouvir Justin falando de algo tão pessoal fez com que ela gostasse ainda mais dele.
— Com certeza você já deve saber disso, ou já ouviu alguma fofoca – o menino continuou – Josh era um cara foda, era fácil gostar daquele otário, e ao contrário de mim ele sempre fugiu da popularidade, tinha horror de ser algo só pra agradar os outros, não ligava pra opinião alheia, sempre fez o que quis, segundo ele a vida era uma merda, mas se torna incrível quando você se permite enxergar o invisível.
— Enxergar o invisível... – Clary sussurrou impressionada. Já tinha lido aquela frase em um dos milhares armários na escola, aquelas palavras nunca mais saíram de sua cabeça.
— Sempre fomos opostos um do outro, mas nos amávamos apesar das diferenças. Josh era o irmão mais velho, nunca admiti isso pra ele, mas eu queria ser ele quando crescesse, ele sempre foi meu herói, ele foi mais meu pai do que meu próprio pai – sem se conter Clary pegou a mão do menino, o amor na voz dele ao falar do irmão foi quase um soco na boca do estomago, a menina se esforçava pra engolir o choro.
— Infelizmente nem todos os heróis são imortais – Justin fitava a mão pequena da menina segurando a sua, a sensação era tranquilizadora – então em uma madrugada eu cheguei de uma festa, fui até meu quarto e esperei. Em todas as noites que eu chegava, não importava a hora, Josh invadia meu quarto e começava o seu monologo. Ou era algum sermão, ou comentava sobre o seu dia, sobre as coisas que ninguém enxergava, teve até uma noite que ele sentou no chão do meu quarto e começou a recitar uma peça de Shakespeare, o fato era que ele sempre falava, e eu ficava lá em silencio, ouvindo qualquer coisa que ele dissesse. Pra falar a verdade eu adorava aquele momento, virou um momento só nosso, teve até dias que eu ficava ansioso pra saber qual seria o tema do monologo. Foi então que chegou a noite que não teve monologo, não teve invasão do Josh, só teve o silencio, um silencio tão ensurdecedor que eu comecei a me sentir mal. Já era quase de manhã, eu não tinha conseguido dormir, quando recebemos a noticia de que Josh havia sofrido um acidente de carro e morreu no local, até hoje me pergunto qual seria o tema do monologo daquela noite.
— Uma parte de você morreu junto – a menina murmurou acariciando a mão do loiro.
— Sim – Justin confirmou surpreso – eu achei que diria o famoso “sinto muito”.
— E sinto, ninguém deveria passar por algo tão cruel – Clary sorriu tristemente – mas eu realmente ficava puta da vida quando alguém me dizia o obvio. E é isso que a perda faz não é? Ela vai matando a gente aos poucos.
— Nem me fale – o menino riu sem humor – esses momentos sempre foram os piores, eles despertavam o que há de ruim aqui dentro. Depois da morte de Josh eu não conseguia ficar perto de ninguém, eu não queria fazer nada além de ficar no meu quarto esperando por ele. Até o dia que minha mãe disse que eu teria que seguir em frente, voltar pra escola, receber meus amigos. Eu respondi batendo a porta na cara dela, destruí meu quarto e me isolei ainda mais. A noite era pior ainda, eu não suportava ouvir os choros pela casa, minha irmã tinha apenas dois anos e seu choro não era de fome, dava pra sentir a saudade no lamento dela. Meu irmão Jaxon já tinha 6 anos, entendia mais as coisas ficava perguntando sobre Josh pra minha mãe, era então que eu saia de casa pra não explodir.
Justin suspirou ao lembrar-se daqueles momentos, sua cabeça estava longe dali, a única coisa que o mantinha no presente era a mão pequena na sua, que ficava cada vez mais firme a cada palavra do menino.
— Antes da morte de Josh eu já havia experimentado algumas drogas, apenas por diversão ou pra impressionar alguém – a vergonha na voz dele era quase palpável – e depois da morte do meu irmão eu usei as substancias pra fugir da realidade, eu me afundei nas drogas pra ter nem que fosse um segundo de paz. Mas é o que dizem essa vida é uma montanha russa, a droga te proporciona um nível de felicidade viciante e quando o efeito passa e a sua queda ultrapassa além do fundo do poço.
Clary lembrava muito bem do desespero em achar alguma coisa, qualquer coisa, que anulasse ou sobrepusesse a dor. Ainda em choque ela continuou ouvindo o relato do loiro.
— Todas as noites eu saia, ou melhor, eu fugia e me drogava só voltava pra casa tão chapado a ponto de não ter noção do que acontecia ao meu redor – a voz sombria de Justin fez com que Clary sentisse farpas de gelo em seu interior – não falava com ninguém, ficava a maior parte do tempo no meu quarto, não conseguia pronunciar ou ouvir o nome de Josh, só me alimentava pra manter o corpo em pé, fui afundando tão rápido como a súbita morte de Josh, e sem que eu percebesse, fui levando minha família junto, praticamente estava empurrando minha mãe e meus dois irmãos para um abismo sem volta. Durante um bom tempo eu pensei que estava sozinho em casa, não tinha barulho de criança, não tinha choro, minha mãe não tinha mais forças pra lidar comigo, e eu estava bem com aquilo, era algo que eu conseguia administrar.
— Parece que só nas tragédias que a gente se da conta de quantas pessoas somos capazes de afetar.
— Nem me fale, nos tornamos responsáveis por quem nos ama sem nos darmos conta disso – pela primeira vez Justin olhou para Clary, e a compaixão e empatia nos olhos negros da menina dispersou a escuridão do momento – E pra minha grande surpresa foi Jaxon, um menino de 6 anos que praticamente chutou meu traseiro e disse com todas as palavras que eu estava sendo um grande babaca. Você talvez lembre dele, já que já o ajudou uma vez.
Ela lembrava, como poderia esquecer?
—Jaxon, o garotinho loiro usando um óculos grandes sem lentes...
— Com boné branco de baseball, o próprio.
— Então ele é mesmo o seu irmão? – Clary perguntou maravilhada, e ao mesmo tempo espantada.
Foi na época em que Justin não voltou pra escola depois da recente morte do irmão. Clary fazia sua caminhada noturna quando deparou-se com um garotinho sentado no alto de uma pista de skate. Ele era muito pequeno para estar sozinho, ainda mais aquela hora da noite, o instinto maternal da menina a levou até a criança. O menininho não se afetou com a presença de Clary, não parecia enxerga-la. Sem dizer nenhuma palavra, ela sentou-se ao lado dele, notando rapidamente alguns traços familiares por debaixo do boné.
— Sua mãe deve ser muito legal – a menina começou na tentativa de saber o que a criança fazia ali sozinha.
O menino apenas virou a cabeça e a encarou sem dizer nada, o cansaço e tristeza nos olhos tão inocentes deixou Clary mais empenhada a ajuda-lo.
— Sim, porque se eu tivesse a sua idade e estivesse fora de casa a essa hora, minha mãe estaria surtando.
— Mamãe deve estar dormindo – a voz infantil soou na escuridão – ela está sempre cansada, tem que cuidar de tudo sozinha, mas eu sei que os olhos tristes e vermelhos não são de cansaço.
Ele parecia tão pequeno e ao mesmo tempo tão maduro, carregando um peso que não deveria estar em suas costas.
— Se você me mostrar o caminho, posso te acompanhar até em casa...
— Você acredita que quando as pessoas morrem elas viram estrelas? – a criança interrompeu a oferta de Clary – Acredita que após a morte eles cuidam da gente onde quer que estejam?
A menina ficou paralisada com a pergunta, jamais imaginaria que a criança perguntasse aquilo, justo pra ela que já tinha feito a mesma pergunta milhares de vezes.
— Eu não sei – a menina respondeu com sinceridade.
— Não acha que a pessoa deveria pedir permissão pra morrer? Tipo, a família decide se a pessoa pode ou não ir embora?
— Sim, acho – a inocência do menino estava partindo o coração de Clary, a sua sinceridade a encantava – mas assim não existiriam mortes no mundo.
— E isso não seria bom?
— Eu não sei.
Novamente ficaram em silencio, as perguntas sem respostas rondando ambos como o vento da noite silenciosa.
— Alguem já te abandonou sem a sua permissão? – dessa vez foi o menininho que quebrou o silencio.
— Sim, o meu pai – por mais louco que parecesse, a menina se sentia a vontade falando sobre seu ponto fraco com a criança.
— E você conseguiu perdoar ele? – o garotinho virou de frente pra Clary, as perninhas cruzadas parecendo muito interessado nas respostas que recebia – você perdoou seu papai por ele ter te abandonado?
— Como você se chama? – a menina questionou, abraçando os joelhos . Ela estava tendo um deja vu, já tivera aquela mesma conversa com os seus irmãos.
— Jaxon.
— Jaxon, bonito nome – ela sorriu serena – você também teve alguém que se foi pra sempre?
— Sim, meu irmão.
O coração da menina se comprimiu, tão pequeno e já estava convivendo com as consequências que a morte trás.
— Jaxon, se seu irmão pudesse escolher, você acha que ele optaria por abandonar você?
— O que quer dizer “optaria”?
Clary não conseguiu segurar o riso, o menininho era tão fofo e maduro que ela esquecia que estava conversando com uma criança.
— Optar tem o mesmo significado que escolher.
O loirinho assentiu compreendo, ficou em silencio por um minuto inteiro pensando na pergunta, mesmo que a resposta estivesse na ponta da língua.
— Não, Josh jamais me abandonaria se tivesse outra escolha – Jaxon respondeu convicto, não tinha dúvidas de sua resposta.
— Então sim, eu perdoei o meu pai, porque sei que ele não teve escolhas – Clary sorriu na tentativa de confortar a criança – acredito que seu irmão mereça o seu perdão.
— Certo – o menininho pareceu pensar no assunto – mas eu sinto tanto a falta dele, não é justo.
— Eu sei, eu sei – Clary atreveu-se a fazer um carinho no pulso do menino – você é muito novo pra ouvir isso, mas a vida não é justa.
— A vida é uma merda, ela nos tira as pessoas sem a nossa permissão – Jaxon resmungou bravo – mamãe não pode saber que eu disse essa palavra, ela não gosta quando falamos palavrão.
— Não se preocupe, vai ser o nosso segredo – a menina o tranquilizou – mas algo que me diz que ela deve estar louca atrás de você.
— Mamãe está ocupada com meu outro irmão – o garotinho baixou a cabeça diminuindo o tom de voz – é por isso que vim pra ca, não queria ouvir mais uma briga entre eles, gritos, portas batendo, eu queria poder trazer Jazmyn comigo, mas ela é muito pequena.
Clary automaticamente lembrou de si mesma, do comportamento terrível que teve após a morte de seu pai. Ela havia tornado a vida da mãe e dos irmãos um inferno.
— Talvez seu irmão esteja com dificuldade pra superar a perda – a menina sentiu a necessidade de defender uma pessoa que ela nem conhecia. O que ela conhecia muito bem é a raiva, a angustia que talvez o irmão de Jaxon esteja descontando na família.
— E isso um dia irá acontecer? – o garotinho perguntou sem emoção – um dia vamos superar tudo isso?
— Ouvi falar que com o passar do tempo a gente se acostuma com a dor.
— Acostumar? – Jaxon fez uma careta – quer dizer que ela nunca vai embora?
— Não – a menina respondeu com um suspiro cansado – a menos que você consiga esquecer a pessoa.
— Nunca vou esquecer Josh, e a cada dia que passa sinto que estou perdendo Justin também – o menininho fungou deixando Clary preocupada – ele não fala com ninguém, não brinca mais com a gente, grita com a mamãe e quase nunca está em casa.
— Justin? – a menina perguntou. Estariam falando do garoto que estudava na mesma escola que ela?
— Sim, Justin é meu outro irmão – Jaxon levantou os olhos, mesmo encobertos pelo boné Clary percebeu a vermelhidão no castanho – você acha que ele vai melhorar? Acha que meu irmão vai voltar a ser bonzinho? Seria mais fácil se ele deixasse que eu segurasse a sua mão enquanto ele chorasse, eu juro que não contaria pra ninguém, assim como ele nunca contou sobre todas as noites que eu ficava com ele no quarto porque estava com medo do escuro.
Dessa vez foi Clary que desviou o olhar, mordendo o lábio ele olhou para o céu escuro e respirou fundo. Não ajudaria nada se começasse a chorar na frente da criança. Mas desde que resolveu sentar ao lado do garotinho estava segurando as emoções, as palavras e maturidade de Jaxon eram socos em seu estomago, fazendo-a lembrar de que a vida realmente é uma merda, mas felizmente o amor que as pessoas tem por nós pode ser usado como bote salva vidas.
— Escuta, Jaxon – sem se conter a menina passou um dos braços pelos ombros do garotinho, ele não pareceu se importar – quando meu pai morreu eu me tornei uma pessoa muito ruim, era malvada com a minha mãe e meus irmãos, eu ignorei a dor deles e tentava a todo custo enterrar a minha...
— Igual a Justin – o menino exclamou surpreso.
— Parece que sim – Clary continuou – eu ignorei o fato de que minha mãe também tinha perdido um marido e meus irmãos um pai, eu só queria ficar sozinha e ser deixada em paz, não queria olhar pra eles e lembrar que meu pai nunca mais voltaria pra casa.
— É assim que Justin se sente? – o menino perguntou baixinho.
— Talvez sim, talvez não – a menina respondeu – a gente nunca sabe o que realmente se passa dentro do coração de uma pessoa.
— Mas você não parece malvada agora.
— Não, não sou mais aquela pessoa ruim – Clary sorriu timidamente – mas foi preciso que eu escutasse umas verdades pra acordar, pra perceber o quão cruel eu estava sendo. Doeu muito, mas a consequência foi boa pra todos.
— Voce enxergou o invisível – Jaxon assentiu pra si mesmo – mas como faço pra Justin voltar a ser bonzinho igual aconteceu com você?
Enxergar o invisível. De novo essa frase.
— Voce já tentou dizer como se sente? – a menina perguntou gentilmente – Já tentou dizer o quanto a atitude do seu irmão machuca você? Mostre a ele que você também perdeu alguém que amava, diga com todas as palavras que você o ama e precisa mais do que nunca dele ao seu lado.
— Não, nunca chegamos a conversar sobre Josh – Jaxon murmurou pensativo – mas não acho que ele queira conversar comigo, vai dizer que sou um pirralho e não entendo as coisas...
— Deixa eu te contar um segredo – Clary disse séria – vai ter momentos em sua vida que você vai ter que fazer com que os outros te ouçam. É como entrar sem bater, invadir sem pedir licença...
— Mas mamãe disse que isso é falta de educação.
— São apenas metáforas e analogias.
— O que significa Metáforas e Analogias?
Não esqueça que ele é só uma criança, sua idiota.
— Não importa – a menina apertou o garotinho em um meio abraço – tudo que você tem que fazer é falar, contar a verdade, demonstrar como se sente. Por mais difícil que seja faça com que seu irmão ou qualquer outra pessoa te ouça, nem que pra isso tenha que obriga-lo. Mas tenho certeza de que Justin te ama e sente a sua falta, só não consegue enxergar isso.
— Certo – Jaxon falou motivado – e isso garante que eu tenha meu irmão de volta?
— Não – a menina falou com sinceridade – mas vale a pena tentar.
— Acha que Josh aprovaria isso?
— Claro – a menina respondeu prontamente – tenho certeza que ele deseja a família unida.
— Prometo deixa-lo orgulhoso, Josh – Jaxon sussurrou olhando para o céu – só peço que você esteja do meu lado.
— Ele vai estar – Clary suspirou – enxergue o invisível e verá que Josh está sempre ao seu lado.
E mais uma vez o silencio se abateu sobre aquelas figuras inusitadas. A adolescente e a criança mal se conheciam, mas compartilharam coisas tão intimas, sem que percebessem tornavam-se amigos apesar das circunstancias. Depois de alguns minutos em silencio Clary quebrou o silencio comentando novamente sobre a preocupação da mãe e que acompanharia Jaxon até em casa. Dessa vez o garotinho assentiu e de mãos dadas com a menina seguiu até a sua casa, que não ficava muito longe dali.
Chegaram rapidamente em frente a uma casa grande que parecia ser luxuosa. Clary agachou em frente ao menino e lhe deu um grande abraço desejando boa sorte. Jaxon retribuiu o abraço e disse obrigada, prometeu que seria forte igual a ela.
— Sim, Jaxon é meu irmão – Clary voltou pro presente ao ouvir Justin – você lembra dele?
— Como poderia esquecer – a menina falou com carinho – foi a conversa mais doida, mais sincera e mais inocente que eu já tive.
— Ele me contou sobre essa conversa – o loiro sorriu com a lembrança – isso depois te ter chutado a porta do meu quarto, quebrado meu violão...
— ELE O QUE? – Clary gritou desesperada.
Ain porra, o que foi que eu fiz?
— Calma...
— Me desculpa, Justin – a menina lamentou envergonhada – eu não deveria me meter na vida de vocês, mas Jaxon parecia tão triste, eu insisti pra que ele conversasse com você, mas acho que ele entendeu errado, eu não queria que ele se rebelasse, eu deveria ter explicado melhor. Ain meu Deus, me perdoa...
— Hey, espere – Justin não conseguiu segurar o riso diante do desespero da menina – Jaxon não se rebelou, ele fez o que era necessário. Naquela noite que vocês conversaram eu estava em algum lugar me drogando, cheguei apenas pela manhã quando estava sóbrio pra voltar pra casa. Lembro de ter tomado banho, engolido qualquer comida e depois de ter ido para o quarto com a intensão de acordar só no dia seguinte. Curiosamente a porta do meu quarto estava sem a chave, na hora eu não liguei só queria deitar e dormir, foi então que uma criaturinha furiosa chutou a porta do meu quarto e entrou sem pedir licença. Na hora eu fiquei em choque, segundos depois fiquei furioso e tratei de enxotá-lo de lá, não foi uma boa ideia porque o garoto enlouqueceu e começou a bater meu violão no chão gritando que eu o escutaria nem que pra isso tivesse que quebrar meu quarto inteiro. Eu nunca tinha visto tanta raiva em uma pessoa tão pequena, Jaxon nunca tinha levantado a voz em seus 7 anos.
Clary ouvia tudo aquilo horrorizada.
— Justin, eu realmente...
— Não, escute o resto – o menino tocou a bochecha da garota interrompendo a enxurrada de desculpas – a reação de Jaxon me deixou curioso, então depois de quase um mês eu resolvi escutar o que ele tinha pra dizer. E eu escutei, Clary. Eu escutei cada palavra que meu irmãozinho disse, eu precisei que uma criança me falasse o quão babaca eu estava sendo, como aos poucos eu os estava matando, meu irmão disse que meu comportamento o entristecia mais do que a morte de Josh, porque segundo ele meu irmão não teve escolha, já eu tinha e mesmo assim escolhi magoar a ele e minha mãe.
— Se te conforta eu tive que ouvir meus irmãos falando que trocariam de lugar com meu pai, porque assim não teriam que me ver naquele estado – Clary baixou a cabeça reprimindo as lagrimas – logo depois eu fui até a minha mãe e implorei que ela me perdoasse, naquele dia eu fiquei abraçada aos meus irmãos até eles entenderem que eu precisava deles, prometi a mim mesma que jamais os magoaria novamente, prometi ao meu pai que faria de tudo pra cuidar deles.
— Não, não me conforta. Como você mesma disse ninguém deveria passar por isso – o menino secou uma lagrima fujona no rosto da menina – depois que Jaxon saiu do meu quarto naquele dia eu ficando sozinho pensando, pensei tanto que minha cabeça já estava explodindo. Então cheguei ao obvio, eu enxerguei o que estava na minha frente o tempo todo, eu só seguiria em frente se tivesse minha família ao meu lado. Eu fui até o quarto de Jaxon e perdi perdão, pedi perdão também a Josh que com certeza deveria estar puto comigo. Naquele dia eu me permiti chorar e agradeci por ser amparado pelo meu irmãozinho de sete anos.
— Jaxon deve ter ficado tão feliz – Clary disse carinhosamente, sentia uma pontada de orgulho pelo garotinho – a maneira como ele falou deixou claro a adoração que sente por você.
— Também adoro aquele pirralho – Justin sorriu – minha mãe respirou aliviada quando percebeu que eu não seria mais aquele babaca escroto. Eu parei de sair todas as noites e definitivamente parei com as drogas. Aceitei a sugestão da minha mãe e até hoje tenho sessões com o psicólogo. Ainda é muito difícil lidar com a perda, mas aprendi que quanto mais você permite sentir a dor mais forte você vai ficando.
— Por favor, mande um abraço a Jaxon – a menina exclamou – diga que estou orgulhosa dele.
— Pode deixar, ele vai ficar louco quando souber que eu encontrei você – o loiro confidenciou – depois de alguns dias ele me contou sobre a conversa de vocês. Até que um dia estávamos passando de carro em frente a um parque e vimos você com dois garotinhos, suponho que sejam seus irmãos, na hora Jaxon gritou dizendo que você era a garota que o havia ajudado, e então mais uma vez eu enxerguei o invisível, na hora que olhei pra você sabia que estudávamos na mesma escola. Foi então que encontrei um motivo pra voltar.
— Voce voltou pra escola por minha causa? – Clary perguntou cética. Aquilo tudo era muito doido pra ser verdade.
— Foi um dos maiores incentivos – o menino pulou da mesa voltando a ficar de frente pra menina – eu precisava agradecer pela conversa que teve com meu irmão, eu precisava conhece-la pelo fato da perda ser algo em comum entre nós, você virou minha distração preferida, eu meio que fiquei viciado em observar você, não sou nenhum pervertido nem nada, mas cada vez que eu via você sorrindo eu tinha mais certeza de que eu também podia seguir em frente.
— É por isso que você sabia todas aquelas coisas sobre mim – a menina sussurrou encantada e ao mesmo tempo assustada.
Ela observava Justin Bieber, mas nunca imaginou que ele a observava de volta.
— Por mais que isso parece mentira, falso até, espero que acredite em mim quando digo que passei a gostar de você – nesse momento o menino estava entre as pernas da menina mais uma vez, mais uma vez estava tão perto que seu perfume a embriagava – confesso que mal a conheço, você praticamente era invisível pra mim, mas desde que me permiti enxergar o invisível, permiti ser eu mesmo, assim como meu irmão eu descobri que a vida pode ser incrível.
— Você gosta de mim? – Clary perguntou encarando os olhos castanhos. A qualquer momento tinha certeza de que acordaria e lamentaria por tudo aquilo ser apenas um sonho.
— Eu acho que gosto de você mais do que imaginava – sem se conter o menino ergueu a mão e acariciou desde a têmpora até o queixo da menina – todo esse tempo eu estava criando coragem pra ir falar com você, até que hoje eu a encontro nesse estado. Você não tem noção do quanto eu fiquei preocupado ao ver esses machucados, fiquei maluco só de imaginar alguém lhe fazendo mal. Então por algum milagre você deixou que eu a ajudasse e ainda explicou o motivo dos machucados.
— Voce pareceu meio bravo quando eu disse que me meti em uma briga porque estava defendendo um cara – Clary riu nervosamente, ainda não sabia lidar com o fato de que Justin Bieber gostava dela.
— Bravo? Eu fiquei puto, na verdade acho que fiquei com ciúmes – o loiro falava como se descobrisse algo novo – e isso foi bem estranho, nunca tinha sentido ciúmes de ninguém.
— Eu realmente gosto de você – a menina murmurou de cabeça baixa – eu também passei a te observar desde que voltou pra escola.
— Não fui alguém agradável de se observar.
— Discordo, você parecia verdadeiro, parecia ser você mesmo.
Clary levantou os olhos e derreteu com o sorriso tímido que se espalhava no rosto do menino.
— É tarde demais para pedir desculpa? – Justin se aproximou tanto da menina que ela conseguia enxergar pintinhas douradas nos olhos castanhos.
— D-desculpa? Por que? – a menina gaguejou desconcertada.
Muito perto. MUITO PERTO. MUITO.PERTO. Não consigo respirar.
— Por eu ter reagido feito um babaca quando você disse que eu era o cara que você estava defendendo – o menino falava alternando o olhar entre olhos e a boca de Clary – eu fiquei tão aliviado quando você falou o meu nome, na verdade estou fazendo um esforço do caralho pra não beijar você.
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