Entropia
2 Memorial

Os ombros de Bucky Barnes pesavam mais ao retornar para a Torre, mesmo aquele que não era feito de vibranium. Mas não era noite, e sim o dia seguinte e o sol ainda brilhava lá fora — bom, o máximo que o sol poderia brilhar em Manhattan. Ele não tinha dormido fora, porém. Apenas saído de novo cedo, para um compromisso que ficara remoendo na cabeça durante a madrugada. Talvez até Alpine, dormindo aos seus pés, tenha ouvido o ranger de seus pensamentos. O fato é que, naquela manhã, ele foi até o Memorial da Ausência.
Era mais compacto e alto do que o Mural dos Desaparecidos no outro lado do país, em São Francisco, mas o objetivo desses dois memoriais e tantos outros erguidos no mundo — à luz da mesma época — era igual: lembrar daqueles que haviam sumido em 2018, virado nada mais do que pó.
O local não recebia tantas visitas quanto antes, embora Bucky não pudesse comparar pessoalmente. Ele próprio tinha desaparecido na ocasião e seu nome também estava gravado lá, na imensa placa de aço inoxidável sobre concreto, ao lado de outras duas torres iguais. Seu nome tinha certa regalia, por ter sido alguém tanto nascido em Nova York quanto alguém que se envolveu diretamente no combate para evitar o pior. Tinha falhado, é claro. Obliterado em Wakanda. Mas lá estava seu nome destacado. Talvez fosse mais simples achar o nome de Wanda Maximoff assim, esperava que o nome dela recebesse o mesmo tratamento.
Ele rodou outra torre de concreto, desviando de flores e velas apagadas. Apesar dos esforços de Bruce Banner em trazer todos que tinham sido apagados por Thanos em segurança, era simplesmente gente demais de repente. Muitos se envolveram em acidentes; quem estava no hospital, ou parindo ou em cirurgia ou qualquer outra coisa, teve complicações de saúde ou morreu. Bucky enfim encontrou a seção de nomes iniciados por W.
E ali ficou seu pensamento, longe no espaço e no tempo, mesmo já tendo atravessado a cidade de volta até a Torre, onde uma voz grave despertou-o de supetão. Não raramente, Bucky ponderava se a potência da voz de Alexei Shostakov era relacionada com o cumprimento de sua barba grisalha. Talvez a acústica do ambiente favorecesse.
— Vejam quem apareceu! O lobo solitário... Estávamos te esperando, Bucky.
Estava prestes a oferecer uma resposta cortês, ainda que impaciente, quando John Walker apareceu no salão, quebrando seu ímpeto de permanecer paciente. Estavam no cômodo central do andar que habitavam, onde podiam passar o tempo e discutir coisas das missões. Por enquanto, Bucky gastava apenas o tempo necessário e ainda parecia muito. Yelena também repousava ali, sentada em um dos sofás e com os pés sobre a mesa de centro, enquanto Bob jazia na poltrona ao lado, com outro livro em mãos.
— Finalmente. — Walker suspirou e, para Bucky, foi um desperdício de oxigênio. — Já acostumamos com suas saídas à noite, mas de manhã é novidade. Por onde você e tua motoca estavam, hein?
— Estranho é me esperarem. Paciência não é bem uma virtude de vocês.
— Bom, nem a sua.
— Então não abuse.
— Não mexe com ele, Walker. Ele ainda tá puto com a Valentina e não é para menos. Não recebemos atualização sobre nosso último pedido, Bucky.
— Só o cardápio novo da Val.
O soldado parou com a última frase de Walker. Já tinha escutado muito barulho na rua, muito zum zum zum até chegar no Memorial da Ausência e muito zum zum zum depois. O barulho do elevador da Torres era baixo, mas de uma cadência insuportável. Ao menos era rápido e abria com um tsss. E ele não estava em excelente hora para ouvir muito blá blá blá. Segurou o dorso do nariz com as pontas do dedo, fechou as pálpebras e tentou colocar os pensamentos no eixo. Cardápio, Valentina, problemas.
Primeiro, ele já estava com o humor estremecido. Sua visita ao Memorial da Ausência não apenas significou honrar sua conhecida, como também lhe trouxe aquele resquício amargo de refletir sobre tudo o que tinha perdido nesse meio tempo. Ele precisaria de muitas horas livres para se sentir nos eixos de novo, mas é claro que Valentina tinha que dar as caras naquele dia; ela e sua vontade de manter a aura de requinte enquanto era uma criatura faminta. Cada “cardápio” não era apenas um menu para o almoço ou jantar do dia. Não; em sua finíssima educação, Valentina categorizou as missões direcionadas aos seus Novos Vingadores igual às etapas de uma refeição francesa: Apéritif, Plat, Sorbet ou Fromage, Dessert.
Apéritif para as missões oficiais e pequenas para aprovação pública de Valentina.
Plat, o prato principal, era maior e mais sofisticado; mas no caso das missões, também secreto. Sempre para assegurar algo de interesse pessoal de Val. Nem sempre havia Sorbet ou Fromage, que eram as missões oficiais menores entre maiores; salgadas ou mais adocicadas.
E só então vinha o Dessert, que Valentina teimava em enunciar com sotaque não apenas francês, como parisiense; um prato que, na verdade, eram as missões de interesse do grupo: autorizadas, mas oficialmente consideradas clandestinas. Se descobertas, os seis ficariam por conta própria e sabe-se lá por quem seriam substituídos. Ártico? Um Plat frio e complicado. Gaza? Um Dessert amargo. O senso e a ironia de Valentina eram duvidosos, mas jamais deixavam de entreter James Barnes por seu cinismo.
Era pra ser apenas mais uma sexta-feira, mas talvez jamais existisse uma sexta-feira muito comum para uma pessoa como ele. Com um suspiro, ele encarou o “cardápio” posto sobre a mesa, longo, chique e acetinado. Precisava de uma pausa.
— Deixa eu… Deixa eu chegar primeiro.
Walker soltou um assovio baixo.
— Onde foi o piquenique pra esse mau humor todo?
— Você não tem tato mesmo, Walker.
— Ótimo! Clima tranquilo, positivo. Equipe reunida e cheia de sinergia para agir como um time!
Mas ele não achava que Yelena teria sucesso algum chamando a atenção do colega, nem a piadoca de Alexei seria capaz de amenizar a tensão. Era melhor jogar a bomba de uma vez:
— Eu fui ao cemitério. Bom, mais ou menos. Fui ao Memorial da Ausência.
Enfim, silêncio.
Ele andou pelo saguão, tirou a jaqueta e pegou Alpine no colo, pois a gata tinha acabado de vê-lo e veio com seus pequenos miadinhos em sua direção, defendendo-o como podia. Agora sim. Quietude, ou quase isso; só o ronrom discreto da gata.
Quem se arriscou a dizer alguma coisa foi Bob:
— Podia ter nos dado um toque, Bucky. Assim a gente… teria ajudado, não sei. Com flores.
Ele quase sorriu. A intenção era boa e ele não quis parecer debochado, nem duro com Bob, apesar da sugestão ter sido tola. Bucky havia deixado uma pedra pouco maior do que um botão sob a placa do Memorial, uma pedra que julgou bonita aos pés de carvalho no Central Park antes de seguir para lá.
— Negativo. Ela era judia. Nada de flores.
— Não quero ser cruel, Buck. — John insistiu, mesmo que Bucky já tivesse dado uns bons passos para atravessar o cômodo, em direção aos quartos. Em muitos sentidos, ele não guardava mais tanto ressentimento sobre John Walker, porém ele não parecia querer facilitar muito as coisas. Por exemplo, a insistência em usar uma variação de um apelido seu. — Mas a missão não espera e você sumiu. Logo a Mel, ou pior, a Val vai chegar e a gente não discutiu nada sobre a próxima missão. Todos temos quem prantear.
A trégua com John evaporou naquela última frase. Sim, Bucky tinha notado que o outro ainda usava o anel de casado e que só fazia dois dias desde a última vez que vira a ex-esposa — na presença de advogados. Seus nervos também estavam à flor da pele. Ainda assim, era sorte dele que Bucky estivesse com sua amada gata no colo, não outra coisa que pudesse arremessar, pois não achava que sua consideração pelo sofrimento dele iria tão longe.
— Quer comparar dor, Walker? Porque vai perder. Fica na sua. E aliás, não sou o último a chegar. Cadê a Ava?
— Na estufa.
Antes de partir, inspirou fundo e instruiu os colegas:
— Vão abrindo o maldito cardápio de Fontaine.
***
De início, Bucky estranhou essa exigência de Ava Starr para morar na Torre: a instalação de uma estufa bem equipada. Talvez ele chamasse mais aquilo de laboratório botânico do que estufa, já que o clima não era abafado ou perceptivelmente mais quente, só muito bem controlado. Com o decorrer das semanas, admitiu que era exagero paranóico seu: Apesar da estrutura invejável com irrigação, sensores e sistema de nebulização, Ava não se ocupava com experimentos malucos naquele ambiente carregado de verde, vidro e metal. No máximo, tentava cultivar comida para Quiabo — como abobrinhas, couves, espinafre — e algumas ervas para chá.
Era só um passatempo; um bem apropriado para quem passou boa parte da vida também dentro de uma espécie de estufa. Diferente das plantas, porém, Ava não estava crescendo e sim tentando não se desintegrar no passado. Sem o traje, ainda hoje Ava não tinha uma vida livre e o mínimo contato com o verde dos vegetais ao menos trazia um pouco mais de vida para uma mulher sempre tão restrita aos espaços confinados e à frieza da tecnologia. E parte de Bucky se culpava por ter sido exatamente esse último aspecto que o levou a pedir ajuda da Fantasma.
— Ava.
Ela não se surpreendeu com a voz dele no ambiente, ainda concentrada na rega manual de alguns brotos na bancada de inox. Alpine, sempre muito à vontade, pulou do colo de seu dono para se aproximar dela, cumprimentando-a. E seu carisma não passava despercebido: Ava puxou-a para si com delicadeza, assim como fazia com Quiabo, e colocou-a perto de outras plantas. Estava cultivando erva de gato para a bichana também.
— Conseguiu aquilo que te pedi?
— Sim. Não é complicado pegar coisas do restante da Torre e parece que Valentina não teve muito interesse em instalar câmeras aqui. Acho que pela umidade. — E ela sorriu para si, pensando. — Mal prestou atenção na área mais seca para cactos.
Ela deixou o borrifador d'água e os brotos para trás, indo para uma seção da estufa diferente. Bucky surpreendeu-se em sequer ter encarado muito aquele ponto também, quem sabe por parecer um tanto sem graça: um canto separado por vidros e vasos com areia. Cactos de formas interessantes ocupavam aquele espaço e ele jamais esperaria que o aparelho que precisava estivesse dentro de um deles. Ava atravessou o braço intangível em um dos vasos e tirou uma maleta pequena dali.
— Esses cactos nem têm raízes tão profundas para precisar de vasos tão grandes.
Espaço suficiente para quinquilharias, ele pensou. E equipamento roubado. Talvez a jardinagem não fosse só um passatempo tão inocente assim. Soava como uma desculpa cabível para horas gastas à sós com tecnologia que havia surrupiado sem Val desconfiar. Ava tinha tanto talento em atravessar paredes e desaparecer diante dos olhos que era fácil esquecer da sua aptidão para eletrônicos; hardware e software. Bucky não esquecera.
Mas sabia que o preço era complicado.
Ela abriu a maleta na bancada e dali tirou um aparelho pouco menor que um tablet.
— É modelo único, vai ter que servir para todos nós. Bem, se quiser dividir, é claro. — Ela mexeu os ombros, não particularmente interessada no que Buck decidiria. — Vai mimetizar o ID de algum aparelho oficial que estiver conectado nos softwares internos, mas sem deixar rastros. Mas eu faria pesquisas rápidas e não ficaria perto de câmeras.
— E como você chama isso aqui?
Ava achou a pergunta absurda.
— Coiso. Fonetasma? Fantablet? Fala sério, sou tão boa com nomes quanto Alexei. Chame do que quiser.
Ele anuiu, preferindo fonetasma mentalmente.
— Falta encontrar um armazenamento seguro para cópias.
— Tem certeza que é só isso que falta?
Bucky apertou os lábios, baixando o olhar com certa irritação. Não precisava de cobrança. Mas encontrar quem poderia estabilizar completamente a forma física de Ava Starr era particularmente complicado se ele não tivesse acesso seguro à comunicação com outras pessoas. E ele tinha plena certeza de duas coisas: quem selecionou mentalmente para ajudar não era fácil de achar e nem mesmo era sensato Valentina acabar sabendo que eles estavam atrás de uma solução para seu poder.
— É claro que não, Ava. E não banque a impaciente comigo. Você sabe que não é simples e é só parte da questão. Você vai precisar de um plano muito… — Ele evitou a palavra “sólido” para não mexer com as sensibilidades de Ava sobre sua instabilidade de matéria. — Muito ajustado. Sumir de vez, sem rastros. Até porque… Na ausência de suas habilidades, não sei se Val não vai encontrar utilidade para você.
— E aqui eu sou só minhas capacidades, Barnes?
— Um tanto injusto questionar isso para mim. — Ele quis ser gentil com ela, mas firme. Não era a única com problemas ou com receio sobre essa estranha camaradagem entre eles, nem de longe. E não era a única que seria descartada com facilidade — de novo — por Valentina de Fontaine. Nenhum dos seis integrantes daquele grupo tinha intenção de permanecer juntos se não fosse o acaso e a conveniência; e agora, cada um deles tentava tirar o melhor da situação. — Você se daria ao trabalho dar um alô para qualquer um de nós cinco depois que estiver em segurança?
Ela bufou, cruzando os braços. Não contrariada, mas cansada. Apoiou o quadril na bancada e recebeu mais um agrado de Alpine, que deitou-se de barriga para cima. Admitiu:
— Eu tenho medo disso nunca acabar.
Apesar de não saber se ela se referia à sua instabilidade quântica ou ao fato de ser difícil escapar das garras de Valentina, Bucky concordava. Temia também. Temia acordar no dia seguinte e saber que outra pessoa era seu dono, que tal repetição seguiria de novo e de novo. Mas temer e se lamentar não faria muita coisa, nem por ele e nem por ela. Ter aquele aparelho em mãos era um começo, mas não era a solução definitiva. E isso era um problema secundário no momento.
— Temos outro cardápio da Val. Quanto mais rápido a gente for até lá, mais cedo chegamos na… sobremesa.
— Ah, sim. — Ava revirou os olhos, imitando o jeito que Val falava. — Le dessert.
***
Para o horror de Bucky Barnes, houve muito blá blá blá na leitura do cardápio. Era outro Plat complicado, com ingredientes não muito palatáveis.
O destino da missão causou estranheza geral no grupo logo de cara, mesmo que ninguém soubesse de grandes detalhes confidenciais do que tinha acontecido no local alguns anos antes. Se tratava de Westview, Nova Jersey. Não muito longe e, ao que parecia, não oferecia grande perigo. O objetivo era apenas acompanhar fenômenos estranhos que aconteciam em um terreno vazio, onde só existia o fundamento ou contorno de uma casa. Crianças e adolescentes arruaceiras descobriram que, por vezes, algo que desejavam apenas... se materializava ali. Um paco de cigarro. Um brinquedo perdido. Um celular. Era raro o bastante para não causar uma calamidade, mas esperado com ânsia suficiente para causar comoção nos jovens e preocupação de pais.
Afinal, era onde havia existido a casa da bruxa.
Em anexo, vieram documentos coletados do FBI e da S.W.O.R.D: fotos, resumos, nomes de envolvidos: Wanda Maximoff, Tyler Hayward, Monica Rambeau... Eles chamavam o que aconteceu como Anomalia de Westview, quando a pequena cidade foi acometida por um feitiço delimitado por um hexágono. Nomearam de Hex.
Apesar da intenção de Hayward em eliminar a ameaça — Wanda — o caso se resolveu com magia na época e o citado Visão Branco seguia até esse instante sem outras aparições. E apesar da morte da bruxa confirmada por outras pessoas notáveis como Stephen Strange e Wong, esses eventos atípicos começaram há seis meses.
Havia tanta coisa suspeita no caso inteiro que Bucky sequer conseguia pensar onde o problema começava. Preocupava-se com Wanda ou o que potencialmente tinha sobrado dela. Se havia sobrado, é claro. Nem Wong, nem Stephen eram dados à afirmações levianas para terem se enganado quanto à morte de Wanda. Mas não parecia mera coincidência aqueles casos estranhos acontecerem justo ali, onde havia sido sua casa construída à base da magia e do luto.
E por quê Valentina se importava com isso? Nenhum dos seis foi inocente para engolir a instrução vaga de "acompanhar" a pesquisa dos fenômenos no lugar. Bucky intuía que serviriam de bucha de canhão para o que quer que acontecesse ali.
A discussão entre eles se acirrou quando viram que, ao menos naquela missão, estariam subalternos à uma figura desconhecida de cada um deles até então: Monica Rappaccini, uma bioquímica.
E Bucky quis se jogar daquele andar da Torre quando Mel, a assecla de Valentina, chegou ao andar um tanto histérica por nenhum deles ter confirmado a presença na viagem de jato para o dia seguinte. Além de confirmar que John Walker estava certo, pois era pior quando ela vinha, a urgência dela por respostas atrapalhava a chance de discutirem as possíveis falcatruas de fazer tudo nos termos de Valentina. Mel não era exatamente má, mas questionava tão pouco as ordens de sua superior que Bucky não considerava mera ingenuidade — e precisava de uma estratégia diferente para lidar com ela.
— Na verdade, Mel... — Ele usou um tom mais afável com ela, aquele mesmo que a convencera a ligar para ele quando sequer eram aliados ou colegas de trabalho. — Seria tudo muito mais rápido se viesse logo a autorização daquele meu pedido, não se lembra? Me dei ao trabalho de fazer cálculos no último comunicado que enviei e me lembro de ser muito mais do que viável.
Com alguns toques em seu tablet, estava autorizado o envio contínuo de suprimentos e assistência à Gaza. A viagem deles, confirmada para o dia seguinte, logo cedo. Restara à Bucky só um sentimento parecido com indigestão.
Mal almoçou ou jantou naquele dia. Preferiu passar o resto da tarde sozinho, treinou um pouco para aliviar a tensão e refletiu se mexia ou não no tal fonetasma. Afinal, precisava pesquisar algumas coisas, algumas pessoas. Tinha levado o aparelho para o quarto junto com Alpine antes de se dirigir ao salão comum para ouvir a ladainha da missão e, se antes estava interessado em investigar o quanto possível sem levantar suspeitas, agora imaginava que não era uma boa hora. Seu cansaço não era físico, mas sim mental. Não precisava de mais nada naquela sexta-feira.
E é claro que foi contrariado.
Ele já estava se preparando para dormir; havia tomado uma ducha e se vestido com roupas leves: uma regata branca e calças. Alpine andava sobre o edredom na cama, usando as garras para achar o melhor ponto para afofar e se deitar. Até que duas batidas soaram na porta de seu quarto. Junto a essa interrupção do ritual noturno, uma voz abafada:
— O Quiabo quer dar boa noite para a Alpine.
Bucky sorriu e balançou a cabeça em silêncio. Não era exatamente uma estratégia sutil por parte de Yelena apelar para os bichinhos de estimação só para conversar com ele.
Se deixou enganar, já abrindo a porta. Estava intrigado.
Ela entrou sem muita cerimônia, com seu moletom largo e escuro. Trazia seu porquinho-da-índia em mãos e delicadamente mostrou-o à Alpine. Colocou Quiabo na cama e permitiu que eles se cheirassem um pouco.
— Vocês ainda são amigos, não são?
Nem gata, nem roedor responderam à Yelena. Só se cheiravam com certa curiosidade, o que aliviava os nervos de Bucky, pois seus instintos diziam que, mesmo que a gata não tivesse intenção de matar Quiabo, bastava o estímulo certo para isso acontecer — e, ainda que isso tardasse a ocorrer, não parecia justo com Quiabo submetê-o ao estresse de ficar cara a cara com um predador de sua espécie. Alpine era maior que ele e muito bem equipada para encerrar sua breve vida de pet.
Ele cruzou os braços, caminhando descalço pelo carpete limpo. Yelena usava meias coloridas e sentou-se na beirada da cama.
— Sabe, Bucky… Eu sei que não é a mesma coisa, mas dá pra notar que você não passa muito tempo com a gente exceto… — Ela mexeu os ombros. — Exceto nas missões. E daí você sai, talvez para beber e é melhor mesmo eu não te acompanhar nisso, mas…
Yelena levantou os olhos.
— Há dois meses, para salvar o Bob. Foi real. Eu senti. Eu lembro de você falando que não tava certo o jeito que o Bob tava batendo no Vácuo. Batendo em si mesmo. Você se importa.
Ele sentiu a própria mandíbula tensionar. Anuiu, esperando mais alguma palavra. Andou para mais perto da parede de vidro. Quase todos os quartos tinham paredes de vidro, ou imensas janelas, para o lado de fora. Se por um lado parecia muita exposição, por outro duvidava que alguém conseguisse adivinhar pelo lado de fora que aquele era o andar dos dormitórios. Um bom projeto arquitetônico, dava para contemplar o horizonte; Manhattan e suas dezenas e dezenas de prédios. De fato, uma visão bela, ainda que urbana. Iluminada demais à noite, talvez. Agitada. Bucky não demorava a fechar as cortinas.
Queria poder fazer o mesmo com o olhar luminoso de Yelena, que continuou falando:
— Eu não sabia que Wanda significava algo pra você. Minha irmã a conhecia. Pareciam ser amigas. — Houve uma pausa. — Eu sinto muito. Nós… nós podemos ir juntos ao Memorial, da próxima vez. Se quiser.
Quem sabe os outros não estivessem cientes daquela conversa, mas Yelena parecia querer falar por eles também. Dizia que Bucky se importava. Queria dizer que os outros se importavam com ele também. Ele tinha suas dúvidas, mas de qualquer modo, a boa intenção o preenchia de sentimentos mistos, pois existia um limite até onde poderia ser sincero com ela.
— Na verdade, eu não a conhecia tão bem. — Admitiu. — Ela era jovem. Melancólica, mas nada frágil. É só que… O mundo se importava enquanto ela era útil. E então Wanda morre sem grandes explicações e ninguém liga se está enterrada ao lado do irmão. Daí eu me pergunto, Yelena… — Ele sustentou o olhar dela, direto. — Quando vai acontecer isso conosco?
Yelena baixou o rosto. E ele, em seguida, fechou as cortinas da janela, aproveitando a pausa da conversa.
— Não vai acontecer. — Ela disse firme, mais para si do que para ele. Sua expressão serena não o enganava: estava tão preocupada com uma nova onda de morte ou abandono que seu raciocínio escapou por outra tangente. — Vamos vencer a Val no jogo dela, você vai ver. Não somos descartáveis. E não vai acontecer nada conosco.
Mas Bucky só suspirou. Compreendia-a: Yelena era a pessoa que ficava, que de fato se importava, que esperava. Quantas vezes mais aquela mesma dor a atravessaria para fosse a vez dela compreendê-lo? Se preparando para o pior, de novo e de novo. Com esperança, talvez a história dela fosse diferente. Torcia para que sim. Recolheu seus argumentos de sofrimento e lhe ofereceu apenas um conselho gentil:
— Tente descansar. Amanhã vai ser um longo dia… E vai começar cedo.
Ela concordou. Pegou Quiabo de volta no colo, acariciou Alpine e se despediu de um jeito tímido antes de atravessar a porta e seguir pelo corredor escuro.
— Boa noite, Bucky.
Enfim, silêncio.
Mal sabia Yelena a força que Bucky fazia para não deixar escapar que a conhecia há muito tempo. Ela não se lembrava perfeitamente, é claro. A Sala Vermelha cuidou para que isso não acontecesse. Natasha não se lembrava além da ocasião em que recebeu um tiro dele, em Odessa. Ou ao menos achava que não.
Mas, com o tempo, Bucky se lembrou: O inverno na Sibéria, os serviços de treinamento que prestou para aquela organização, as pequenas bailarinas. Não se referiam a ele muito mais do que soldat; por vezes, a pequena Yelena chamava-o apenas de amerikanskiy, americano. E ele respondia rooskaya, russa. As memórias eram esparsas, mais nítidas quando havia um intervalo maior entre uma sessão de lavagem cerebral e outra. Não levavam-no para a base de eletrochoque todos os dias. Cuidava das meninas, orientava-as sobre o coice de recuo de armas e como segurar lâminas; não permitia que estranhos se aproximassem das coxias antes das apresentações. Ainda podia sentir a maciez dos cabelos dela, quando ajudou-a a trança-los. O gesto não era vago, nem o tom dos cabelos loiros daquela menininha. Era cristalino.
Ele se sentia assombrado por pessoas mortas e vivas, por vidas que viveu e não viveu, por tudo o que ficou para trás — incluindo parte de si mesmo.
— Nada como uma bela sexta-feira, hein, Alpine?
A gata respondeu com um miado baixo e foi para os pés da cama enquanto Bucky se deitava, ciente de que demoraria para dormir. O cansaço era imenso e não somente resultado daquele dia. Como concordar com Yelena e se permitir a mais laços se os perderia de novo? E nem era exatamente a perda que lhe trazia peso ao coração, não. O sofrimento era familiar e lidar com ele também: nada mais do que parte da vida. Mas era de um humor amargo tentar se restabelecer da melhor forma possível para cair de novo. E de novo. E de novo. Se reerguer era possível, no entanto, quantas vezes mais ele seria derrubado?
Seus pensamentos o levaram a Wanda Maximoff de novo. Órfã. Ativista. Perdeu o gêmeo. Se tornou Vingadora. Viu seu par ser assassinado e morreu. Voltou à vida, assim como Bucky. Perdeu mais um pouco da sanidade e, de novo, Visão. E então, notícias de sua morte definitiva. Silêncio. Quantos outros eventos desastrosos distanciavam Bucky de um fim semelhante? Sentia que talvez não existisse algo para si no futuro. Nenhum túmulo, assim como ela. Ou então algo falso. Algo abandonado. Mas túmulo para quem? Existia já um para si no Brooklyn, de 1945. Quantos outros adeus teria que dar para si próprio? Ele permaneceu em silêncio, ponderando.
— Vamos ver o que restou de você em Westview, Wanda.
Minutos escorreram depois dessa afirmação boba feita para si e, gradualmente, uma sensação ligeira o fez a abrir as pálpebras. Sentia-se observado, embora estranhamente não de um jeito negativo. Era mais como se sentir... Acompanhado. Velado? Talvez por um olhar que entendia quem ele era, mesmo nos pedaços que ele sentia um enorme pesar. Um olhar que não queria nada dele, exceto sua existência ali, do jeito que era. Ele não se mexeu. Apenas observou de volta Alpine encarando um ponto perto da janela, sem desviar sua atenção.
Embora não houvesse nada lá.
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