Existia uma série de pontos que tornavam seu desentendimento com Sam Wilson ruim, mas o mais óbvio — e simultaneamente profundo deles — era o fato de que Sam estava… certo. Se aliar com Valentina de Fontaine para montar um pastiche cafona dos Vingadores era uma sacada política e comercial, tudo o que ele próprio, junto com Sam, lutou para evitar quando o governo laureou John Walker com o escudo e a alcunha do Capitão América. Depois disso, Bucky não apenas estava ao lado de Walker como os dois estavam do lado errado.

Uma voz dentro de Bucky sussurrava que as coisas não tinham sido bem assim.

Era mais acidental do que intencional e, tentando tirar proveito do desastre, ele mantinha a estratégia de dar um golpe certeiro em Valentina quando fosse conveniente. Torcia para que fosse logo. Sam não enxergava isso, infelizmente porque era muito justo, muito honesto. Queria fazer as coisas do modo certo, pelas motivações certas, pelos fins corretos. Bucky o admirava. E, ainda assim, concessões eram necessárias. Isso Sam entendia; se não entendesse, não teria ajudado a conceder redução na sentença em Allenwood para Seth Voelker, o Coral. Mas para as coisas corretas, existia o Capitão América; para coisas... moralmente ambíguas, talvez devesse existir mesmo aquele grupo.

Talvez, no futuro, pudessem se entender melhor quanto a isso. Bucky gostaria de voltar a frequentar mais festas dos Wilson, levar aquele bolo que os sobrinhos de Sam tinham amado e flertar com Sarah sem compromisso algum — apenas para irritar Sam.

Nenhuma daquelas considerações e nuances melhoraram sua irritação ao se deparar com Monica Rappaccini dando coordenadas próxima a aeronave, na plataforma de pouso da Torre. Não demorou muito para que ele experimentasse um pouco do sabor sobre ter “superiores” questionáveis, assim como Steve questionou na época do Tratado de Sokovia. Quem daria as ordens? Quem autorizava a ir aonde precisavam, quem impediria e quem seria apenas um pé no saco?

Pensamentos ásperos demais para um dia que ainda amanhecia. Ele se despediu de Alpine e viu Yelena e Bob se despedindo de Quiabo também, antes de seguirem para a plataforma. Não haviam requisitos tão específicos para essa missão, só roupas práticas e equipamento convencional. Até então, era o de sempre.

Monica era uma mulher nos seus quarenta anos, cabelos pretos e semblante sério, quase asséptico com seu traje tático num tom verde-esmeralda. Já estava no briefing da missão que seriam subalternos à bioquímica, mas era ingenuidade de Val achar que aqueles seis encrenqueiros iriam baixar a cabeça para uma desconhecida. O máximo que tiveram de informações dela no cardápio de Fontaine é que era ex-integrante da I.M.A. — Ideias Mecânicas Avançadas. Aquilo tinha acendido uma suspeita em Bucky, embora ele não tenha conseguido tempo para enfim investigar com detalhes no tal fonetasma que Ava programou para ele. Recentemente, haviam passado uma semana no Ártico para extrair dados da I.M.A. — e agora vinha uma ex-integrante do grupo colaborar com Val pouco depois? Ele não precisava ser um espião ou soldado tão competente assim para inferir algo mais. É claro que ela poderia apenas ter trocado de lado; uma ocorrência nada incomum no mundo de mercenários e cientistas daquele calibre, mas sua intuição insistia em alertar que existia mais coisa naquela história. Não lembrava de ter visto-a lá na base no Ártico e Bucky se julgava bom em lembrar rostos. E só pela lembrança do quanto Val tinha investido em laboratórios para o Projeto Sentinela, ele encarava a desconhecida com inevitável desconfiança.

Para seu mérito, Monica foi cortês ao cumprimentá-los. E só.

No instante seguinte, quando todos estavam a bordo, ela voltou seus olhos ao tablet em suas mãos e o relógio no punho esquerdo. Alexei assumiu a posição de piloto; Yelena de co-piloto, já Ava e John seguiram seus lugares costumeiros. Enquanto Bucky entrava e passava o olho pela estranha parafernália lotando a aeronave, Bob brigou um pouco com o sistema de som para acionar sua playlist. Monica desligou-o no momento seguinte.

— São dez minutos da Torre até o pouso em Westview.

Walker se adiantou para defender o colega:

— Bob usa música para manter o equilíbrio antes das missões.

E ela prontamente redarguiu:

— Esse trajeto será mais útil repassando os detalhes abordados no plano.

Um novo argumento de John Walker permaneceu suspenso no ar, não dito, pois Monica sequer deu muita atenção: apenas arqueou a sobrancelha e encarou de soslaio, como se lidasse com um grupo de escoteiros preguiçosos — e não com a possibilidade de despertar um lado deveras sombrio de Bob Reynolds. Ou ela não sabia o que tinha acontecido em Manhattan há dois meses, ou não ligava.

E antes que Walker voltasse a falar ou Yelena jogasse um punhal em sua direção, Bucky só atravessou na frente de Monica e ligou o sistema de som.

— Só amadores precisam repassar o briefing, senhorita Rapaccini. — Ele deu duas batidas na estrutura interna da aeronave, provocando um som estalado. — Toca viagem, Alexei.

Decolaram sem demora.

Bucky suspirou fundo, pensando em voltar logo para Alpine, e se sentou do lado de Ava, que por sua vez encarava Monica com aquela sua expressão de quem a chamava de “vaca” internamente. Não foi necessária muita convivência com a Fantasma para saber que “vaca” e “corno” eram seus xingamentos favoritos e que aquela era sua expressão para quando pensava neles.

Bob sentou-se ao lado de Walker e na frente de Bucky, agradecendo com o olhar a breve intervenção. Ainda impressionava Bucky como ele continuava participando de tudo aquilo, no entanto, vivendo o que tinha vivido, seria difícil encontrar outra turma com trauma tão bem compartilhado assim. Ou terapia que adiantasse de alguma coisa. Era um sentimento que ele conseguia se identificar. Só não sabia se era prudente mandar Bob em uma nova missão, desta vez envolvendo magia. Já era de mau gosto a possibilidade de Monica ter sido parte de uma organização envolvida com os experimentos que culminaram em Bob, ou melhor, no Sentinela e no Vácuo. E estranhamente, aquilo parecia se encaixar também. Não foi Wanda também parte de experimentos, porém da HYDRA? Examinou o rosto de Bob de novo, vendo não um rosto melancólico ou vingativo, mas muito singelo. Assim como o Wanda; ou o que Bucky se lembrava dela.

Na maior parte do tempo, Bob continuava sendo tão simples quanto seu apelido de três letras. Por alguma razão, odiava “Bobby”, não aceitava muito bem “Robert”. Só Bob. E, felizmente, ele curtia música boa. A viagem seguiu pelos minutos seguintes, não em silêncio, mas ao som de “Roundabout", do Yes.

No percurso, o estranho relógio no pulso esquerdo de Monica não escapou da atenção de Bucky Barnes. Era discreto, mas grande demais para um relógio normal. E se Monica não era paranoica com horários, então outra coisa a motivava encará-lo com frequência. Pouco antes de pousarem, notou que Ava o encarava intrigada. Talvez ela soubesse quando existia alguma coisa passando por sua cabeça assim como ele sabia quando xingamentos martelavam seus pensamentos.

***

Bucky poderia reclamar mais sobre como ele, John e Alexei foram feitos de animais de carga para tirar toda aquela parafernália tecnológica da aeronave, mas não reclamou. Primeiro, porque não era como se fosse difícil, cansativo ou demorado; segundo, porque aquilo o distraiu do silêncio. Já havia um perímetro demarcado com algumas hastes, embora não existissem fitas pretas e amarelas de "não ultrapasse" ali. Não havia… mais ninguém lá. Nenhuma outra equipe de contenção, nem um civil curioso ao ver uma aeronave pousar ao lado do terreno. Era uma vizinhança pequena, o total oposto da Manhattan que haviam deixado. E parecia ainda mais vazia.

— Eu pensei que aqui fosse só… um subúrbio. — Yelena também havia notado a quietude total enquanto casas perfeitas para famílias inteiras jaziam ali. Não era a falta de barulho que incomodava; muitos outros lugares eram repletos de silêncio. Mas o bairro deveria ser um palco para som e movimento e não era. Bucky sentia uma inquietação instintiva, comparável ao senso de perigo ao notar pássaros pararem de cantar. — No relatório dizia que crianças começaram a brincar no terreno.

— Bom, ninguém iria querer crianças agora, não é mesmo, senhorita Belova? Val comprou as casas aqui perto. — Rapaccini só suspirou e começou a organizar seu experimento, ligando botões e pedindo para John ligar os cabos no sistema interno da aeronave, para conectar numa fonte de energia mais potente do que as baterias internas de cada equipamento. — Se existia uma comunidade mais unida aqui antes, isso acabou depois da bruxa. Foi só oferecer a grana que eles fizeram as malas. Quem suportaria viver com a lembrança do Hex todos os dias?

Wanda não conseguiu, Bucky pensou. E nada disse.

Nenhum dos seis entendia completamente o que Monica estava planejando. Não era algo que vinha nos cardápios da Val, e a cientista em questão não parecia disposta a dividir seus pensamentos. O máximo que sabiam é que tinham que acompanhá-la durante os experimentos e intervir na possibilidade de imprevistos. A aeronave estava estacionada; cabos saiam de dentro dela iguais a entranhas esparramadas até os equipamentos na calçada e na grama. Dois desses equipamentos, em especial, foram posicionados em pontos específicos, como se devesse existir algo no centro. Até então, não havia nada. A eletricidade foi ligada e os equipamentos apitaram em uma cadência constante. Monica levou o pulso esquerdo para perto da boca e começou a falar em frente ao relógio; também era um gravador.

— Parâmetros estáveis. Acirrando probabilidades de acordo com relatórios Foster em três, dois, um…

Por um instante, só o horizonte vazio e quieto. E então, um lampejo fraco e vermelho no centro do terreno. Bucky achava que ou então tinha piscado os olhos, ou o cenário ao seu redor havia se desestabilizado por um segundo. Os pêlos na base da nuca se arrepiaram e ele sentiu a própria respiração. John Walker tinha xingado atrás dele. Yelena, ao lado de Bob, estava parada, encarando a luz piscando irregular. Alexei, mais próximo de Monica e de Bucky, soltou um assovio longo.

— Certo, doutora. Era isso que você precisava? Acender uma luz de natal?

Ela sequer o encarou. De frente para um painel, Monica mantinha os olhos cravados naquele ponto adiante e girou mais um botão. O som da estática virou um zumbido alto e a luz que queria nascer, pareceu entrar em colapso. Bucky quis protestar, mas aquilo era ridículo. Era só coisa da sua cabeça, imaginar que uma luz que nem deveria estar ali, sofria. No entanto, não conseguia deixar de pensar em Wanda. E se aquilo tinha a mínima possibilidade de estar relacionado com a bruxa…

A luz se estabilizou, mas era mais como um pedaço de vitral no lugar errado. Suspenso e com arestas, um vidro quebrado de cor rubra. Cintilava.

Ava, até então muito quieta, deu um passo à frente. Acostumada com a ciência quântica; com coisas se desmaterializando e voltando ao seu estado original; talvez aquilo então também fosse uma descoberta ou um avanço para seus próprios planos de não depender mais de um traje especial apenas para não desintegrar. No entanto, mesmo que Bucky não acreditasse que aquela luz vermelha fosse inerentemente má, não considerava prudente se aproximar. Com tantos equipamentos, com tanta fé de Valentina e Rapaccini, parecia apenas mau agouro. E antes que pudesse adverti-la a tomar mais cuidado, Monica pareceu satisfeita com aquela curiosidade da Fantasma.

— Sua expertise é necessária, agente Starr. Consegue inferir algo de suas observações?

Houve uma pausa. John saiu de trás e chegou perto de Ava, na distância de uns três passos. Um peso na altura do estômago de Bucky também lhe alertava que algo não estava certo. E Ava, embora costumasse ser uma pessoa desconfiada, de fato prestava atenção naquele estranho vitral.

— Eu não senti algo se alterando. Nada… Nada do que compõe a nossa realidade. Realmente é como se tivesse começado a existir agora. E isso não faz sentido algum. Não obedece a lei mais básica de conservação de energia, de massas.

Ava esticou a mão. Monica estreitou os olhos. E mesmo antes que a mão de Ava pudesse tocar no vitral vermelho, ela inteira foi puxada para dentro dele com um único só grito. John Walker foi junto, ao pular na direção dela e conseguir pegar seu tornozelo já no ar.

E de repente, mais silêncio.

Começou a correria. Alexei passou a discutir com Monica, Bob parecia petrificado e a luz vermelha continuava a cintilar. Bucky tinha que agir e já sabia qual era a primeira medida a se fazer naquela situação: conter Yelena. Não havia tempo sequer para xingar ou questionar Monica do jeito que ela merecia. Ele deu passos largos adiante e segurou Yelena pelo braço antes que se aproximasse mais do vitral, antes que sequer erguesse o braço para fazer o mesmo que Ava.

— Você fica.

— Bucky, ela é minha amiga. Eu acho. Eu preciso…

— Precisa ser sensata. Escuta, você é corajosa e faria de tudo por quem ama. — E isso é parte do problema, ele pensou, mas poupou-a dessa breve crítica. Ele sabia de outras pessoas que também sofriam das mesmas qualidades. — É diferente do que aconteceu em Manhattan. E se você não está mais sozinha, não precisa mais resolver as coisas sozinha. Fica com o Bob. Se algo falhar, vocês vão ser nossa saída. Último recurso.

Yelena curvou a boca, mas não discutiu. De novo, tinha aqueles olhos acesos e preocupados, embora a face permanecesse dura. Igual quando era criança, mas ela ainda não sabia que Bucky a conhecera anos antes. Levou-a até perto de Bob e seguiu para a próxima etapa, um tanto satisfeito por Yelena não ter discutido. Ele não queria apelar para o emocional e dizer que Quiabo ficaria esperando por ela.

Sem esperar que a discussão entre a cientista e o Guardião Vermelho terminasse, Bucky passou a arrancar os cabos da energia. Um, dois, três. Os cabos mais longos, enfim desconectados da base e do equipamento. Isso fez com que Monica Rapaccini perdesse qualquer interesse em vencer o argumento com Alexei e quase voasse até onde ele estava, já carregando os cabos no ombro do vibranium.

— O que pensa o que está fazendo?

— Prosseguindo a sua pesquisa. Anota aí.

Com um assovio entre os dedos, ele chamou Alexei. Por mais que o consenso era que aquele homem fosse apenas desastrado, a maioria das pessoas falhava em enxergar que um grupo geralmente necessitava de alguém assim; forte, leal, inquebrável. Por isso, ele seria uma bela âncora; tanto que Bucky passou a enrolar os cabos como se fosse cordas no torso de Alexei — já que não existia a bendita de uma corda em toda a tralha trazida até Westview, só parafernália que ele não sabia entender para o que servia e munição tranquilizante capaz de apagar alguém pelos próximos quinhentos anos. Nada daquilo serviria agora.

Atou um novo nó, dessa vez conectando a outra ponta daquela corda improvisada na sua própria cintura. Não existia uma única garantia que aquilo fosse dar certo, mas era melhor do que só pular atrás de Ava e John. Olhou fundo nos olhos de Alexei Shostakov e os dois não trocaram nenhuma palavra. O plano estava implícito, mas era muito claro: Bucky entraria atrás dos parceiros de equipe, Alexei faria de tudo para que ele não fosse simplesmente engolido por essa luz carmesim. A ideia era que, eventualmente, Bucky saísse ou Alexei o puxasse para fora.

E quanto menos demorassem, melhor.

Sem grandes cerimônias, Bucky ergueu o braço metálico, sentindo o calor morno da luz. Pensou em muitas coisas. Fragmentos estranhos. Focou-se em Alpine, pois queria voltar para a gata. E então, foi sugado para dentro do vitral vermelho.

***

Para sua surpresa, Bucky não se sentiu muito diferente naquela espécie de travessia. Foi como piscar os olhos e estar em outro lugar: um tanto desconcertante mentalmente, mas nada que tenha tirado-o do eixo. Embaixo de suas botas, grama e terra; ao seu redor, uma espécie de espelho do terreno onde estava antes. O mundo havia sido tingido por uma leve tonalidade vermelha, como se de fato tivesse adentrado um vitral e sorvesse de sua luz colorida.

Pouco adiante, pessoas. Ava gemia de dor no chão, John estava ao seu lado. O que causou certo atraso na resposta de Bucky não foi observá-la sofrendo pelas visíveis alterações de fase quântica, tremeluzindo e desaparecendo a cada instante; não foi assistir John desesperado ao seu lado, sem ideia do que fazer. Foi ver um fantasma.

E o “fantasma” que Bucky estava vendo não era Ava Starr. Era Wanda.

Ajoelhada perto da cabeça de Ava, a Feiticeira Escarlate tinha os olhos baixos e a expressão serena, porém dolorida. Os cabelos ondulavam com uma brisa fraca; mais castanhos, não ruivos. E suas mãos, suas delicadas e sempre ágeis mãos, também se moviam devagar; dedos que podiam dobrar a realidade, agora pareciam apaziguá-la. Wanda não cruzou seu olhar com Bucky. Diferente de John, sequer parecia ter notado-o ali ainda. Mas Bucky continuou a encarar por mais um momento à distância.

Tão acostumado à fantasmas, estivesse dormindo ou desperto, agora estava sem palavras. Mal lhe sobrara ar. Mas ela estava ali, não estava? Não. Mesmo com magia, aquilo era… Improvável. Sua cabeça lhe pregava peças, de novo e de novo. John estava tranquilo demais para saber que havia uma bruxa ao seu lado; ela simplesmente não deveria estar ali. Ele deu um passo para frente, sentindo o nó dos cabos em seu torso.

John tentou encostar nos ombros de Ava, em vão. Seus dedos alcançaram o solo.

— Eu… Eu não consigo levantar a Ava, Buck.

Ele esperava uma ordem astuta. Uma intervenção. Um milagre. Era assim que qualquer soldado leal ficava ao ter um colega abatido. E Bucky não tinha muita certeza de que podia fazer algo. Sentou-se no lado oposto de John, avaliando o estado dela: Ava continuava a alterar sua fase quântica sem controle. Isso não deveria acontecer dentro do traje especial que vestia. Ela gritava, lutando para respirar. Vez ou outra, seus braços procuravam as mãos de John Walker, mas atravessavam sua carne completamente.

Estava desaparecendo.

— Precisamos chamar alguém que entenda isso. Janet van Dyne. Ou o marido, Hank Pym. Infernos, eles devem ter consertado aquela maldita van deles.

— Ela não pode esperar. Mesmo que não aconteça nada, sei lá, quântico com ela. O corpo não aguenta tanta dor.

Bucky encarou Wanda. Ela parecia concentrada, como se estivesse montando quebra-cabeças no vazio. Nesse instante, ele viu algo além do rosto da sokoviana: um brilho carmesim atravessou o ar, rápido como um lampejo sobre cacos de vidro. E nesse cacos, figuras diferentes se moviam: Ao lado de John, espelhos de outros Johns. Johns felizes. Johns piores. Johns com o escudo do Capitão América. Bucky quase deu um pulo para trás, mas só voltou a encarar Ava no chão. Ao redor dela, outras versões de si: criança, adulta, presa, desintegrada, má. Era como observar um fraco caleidoscópio.

Wanda inclinou mais o corpo sobre Ava. Seus lábios sussurram algo que ele não pôde ouvir. E no momento em que Ava gritou mais, Bucky e John sentiram a firmeza da mão da colega sobre seus braços.

Agora, era uma versão completa dela mesma.

Bucky cruzou o olhar com o John, os dois incertos sobre o que fazer em seguida. Ava, ainda no chão, parecia seguramente estável, palpável e visível, mas seu corpo estava mole pelo cansaço; sua testa suada e as pálpebras fechando. Perto de um desmaio.

— Ah, dane-se!

John enlaçou um braço sob o pescoço dela, o outro abaixo de seus joelhos. Bastou só se concentrar um pouco para levantá-la em um único movimento, carregando-a no colo. A situação parecia um pouco mais sob controle, embora Bucky ainda se perguntasse o que diabos tinha acontecido, se Wanda era um delírio particular seu e se o caminho de volta era possível. Para trazer mais uma camada de incerteza àquele desastre, o ponto vermelho por onde os três vieram — por onde também cabos ao redor do torso de Bucky ainda jaziam suspensos — brilhou mais um pouco e trouxe ninguém mais do que…

— Bob?

O rapaz ofereceu um aceno tímido, olhando para trás com desconfiança ao vidro vermelho. Deu um passo para frente, cauteloso com a magia que lhe trouxera até ali. Trouxera consigo aquele seu jeito um tanto arredio.

— Bob, eu disse à Yelena que vocês dois seriam nosso último recurso.

Não queria brigar com o rapaz. Mas vê-lo ali causou um arrepio em sua coluna. Não precisava de alguma instabilidade extra e o tal Vácuo de volta. E lhe alfinetava a desobediência de Yelena.

— Mas já se passaram horas. O Alexei mal está aguentando. Os cabos estão puxando ele pra dentro.

Uh-oh. Bucky encarou os cabos amarrados em si, deslizou o olhar sobre eles até o ponto vermelho. Certo, jaziam suspensos, mas não distendidos. Não tinha sentido um único tranco. Trocou outro olhar confidente com John e, sem maiores debates, decidiram que era melhor dar o fora logo. Primeiro foi John, com Ava em seu colo. Bucky ficaria por último, por segurança.

Quando Bob estava a sua frente, quase alcançando a luz vermelha, Bucky não resistiu ao ímpeto de olhar por trás do ombro, para observar Wanda desaparecer mais uma vez de sua visão. Ela estava de pé e encarava de volta, talvez sem entender que Bucky enxergava-a ou talvez só estivesse muito calma porque julgava aquele fato sem importância. Ela inclinou o rosto daquele seu jeito doce, quase curioso. Ventava um pouco mais agora, balançando os cabelos dela e as barras de seu vestido preto. Mais uma vez, a Feiticeira disse algo que Bucky não ouviu.

Foi nesse momento que voltou-se para frente e viu Bob à sua frente dar o último passo, também lançando uma olhadela para trás. E ao contrário do que esperava, Bucky percebeu que Bob alternou o olhar entre ele e um ponto atrás de si.

Também tinha enxergado Wanda Maximoff.


Notas finais
Sobre o capítulo: * Tá sendo diferente escrever sob a perspectiva do Bucky. Ele é um homem de AÇÃO! Mal me deixa descrever muito. E enfim, a primeira aparição real da Wandinha hihi * Gosto de conversar sobre processo de escrita, mas as interações aqui no Plus estão menores pela falta de DMs kkk Vocês tem Substack? Me respondam se achariam legal ver detalhes do meu processo de escrita por lá ou se querem interagir mais também. * Fui num evento na minha cidade e simplesmente conheci a WANDA: a cosplayer Julia Peppers! Além de uma querida, ela faz parte do time winterwitch KKKK Conheçam o trabalho dela no insta: @juspmt Sério, ela é um amor. Quanta coisa aconteceu nesse meio tempo, né? O Freedom Flotilla foi atacado. (E eu tava acompanhando bem na hora, foi horrível) e os ativistas foram pegos; depois libertados. Até onde eu vi, o Thiago Ávila voltou ao Brasil. O comboio Soumoud por terra para levar suprimentos à Gaza foi impedido na Líbia. Começou a retaliação do Irã e envolvimento dos EUA. E, mesmo assim, palestinos continuam sofrendo em Gaza. Além de se informar e discutir o assunto com humanidade, considere fazer uma doação*: https://linktr.ee/doeagora *Não sou responsável pelos links e, apesar de ter dado uma verificada nas instituições, oriento que o ideal é confirmar se sua doação será feita de forma segura.