Entropia
4 Desejos
Notas iniciais

Bucky não herdou muito de Steve Rogers, nada tão substancial ou pesado quando seu escudo e título: apenas um apelido, hoje na boca de qualquer pessoa; um dissabor no peito que ele se limitava a descrever como saudades; e, por último, seu caderno de bolso com anotações e rascunhos.
Essa era a parte que a maioria esquecia sobre Steve; além de teimoso e potencialmente encrenqueiro, era artista — ou, quem sabe, essas características todas se interligavam. Steve poderia até ter sido um bom artista de guerra, um daqueles publicitários com propagandas icônicas, se não tivesse encontrado aquele cientista, Abraham Erskine, se tornando depois um herói quase literário em si. Mas tudo aconteceu como aconteceu e Steve não estava mais lá; apenas seu caderno com esboços em grafite, anotações nas bordas e listas de recomendações para essa nova — e curta — vida no século XXI.
Bucky também tinha seu caderno com anotações e listas. Na verdade, havia sido ele que deu o primeiro caderno com papel de maior qualidade e capa de couro a Steve, pois ele próprio tinha costume de anotar trechos de livros que gostava e ideias de flerte toscos que vez ou outra, em sua inocência juvenil, conseguiam se concretizar. Não podia ser mais diferente do que o presente caderno em sua mãos:
A lista de retificações.
Potenciais nomes para Alpine.
O telefone da terapeuta.
Cacos de devaneios.
Quando ainda jovem, não sabia muito bem o destino que desenharia para si, se conseguiria alguma profissão relacionada a escrita ou livros. Fantasiava a ideia de ser dono de uma banca de jornais ou de uma pequena livraria na vizinhança, nada muito maior do que isso. Meros pensamentos, assim como esses que anotava agora. Parte de si justificava que era mais seguro ser mais sucinto em tais devaneios, quase incompleto. Não deixava o caderno por aí, trazendo-o sempre consigo no bolso de casacos ou nos bolsos laterais de calças. Outra parte sua justificava que era apenas natural ser mais limitado em suas palavras; pois a terapia e a tecnologia wakandana não tinham apagado anos de servidão muda à HYDRA. James Buchanan Barnes inteiro, porém, entendia que existia algo mais do que desconfiança ou amargo costume que o impediam de escrever mais, mesmo que já existissem razões suficientes.
Naquele instante, escrevia nomes femininos: Valentina, Monica, Ava. Wanda. Sublinhou o último nome. Deu uma pausa com a caneta preta, batendo a ponta oposta na página. A partir do nome de Monica, puxou uma seta para I.M.A., depois para Latvéria. Outras linhas e associações, ele preferia fazer na cabeça.
Tinha usado o aparelho especial de Ava, o tal fonetasma, enquanto o restante do grupo se agitava pelo acontecido em Westview e o pelo deslocamento de Ava para um segmento médico. Ninguém tinha dormido e já passava do meio dia da data seguinte à missão. A Torre em Manhattan não tinha a tecnologia necessária para acomodar Ava, justificou Valentina. Qualquer pessoa sã desconfiaria das palavras dela, mas o receio de todos os cinco — refletido em uma hesitação tensa, em um argumento não-dito — permitiu que levassem-na. Esperavam seu retorno ou qualquer contato de uma equipe médica.
Bucky preferiu acompanhar por conta própria em seu quarto, com o fonetasma em mãos. Ele sabia que sua atitude não melhoraria a impressão que tinham dele, de alguém que desejava só virar as costas e não ser incomodado. Preferia ser mal visto e, ainda assim, conseguir alguma informação sem grandes comoções. Do contrário, o que aconteceria? E se Yelena ou Bob estivessem ao lado quando descobrissem que Ava tinha sido aberta e revirada como uma cobaia barata? Valentina não tinha escrúpulos quanto a isso e Bucky duvidava que não fosse acontecer com outra pessoa no futuro. Eles não tinham meios para ajudá-la e permaneceram reféns da palavra incerta de Valentina. Não, era melhor Bucky reservar a si os horrores. Depois, poderia contá-los.
Uma pena que sua convicção não fez doer menos quando viu Yelena encará-lo uma última vez, antes de adentrar seus aposentos, com o olhar ferido pela frieza dele. Um olhar resoluto de quem traça uma linha para jamais atravessá-la de novo.
Talvez fosse bom. Talvez assim, ele jamais conseguisse decepcioná-la de novo.
Só com Alpine de companhia no quarto, investigou o paradeiro de Ava: Valentina não tinha mentido, ela estava em uma base na costa do rio Hudson, onde havia a maior base dos Vingadores; aquela mesma onde o dr. Banner fizera o estalo para toda a metade da vida retornar. Segundo os dados que consultou, foi transferida uma papelada sobre o histórico de saúde — e da constituição física — de Ava para o prontuário local, junto com fichas dos médicos e cientistas designados para avaliar o caso. Ninguém parecia suspeito, não mais do que o normal. Apenas continuava a ser surpreendente como Valentina tinha recursos. Testar o circuito das câmeras de segurança tinha se mostrado eficaz, mas inútil até então, já que Ava jazia deitada em uma das salas, entre a consciência e a inconsciência. Respondera algumas perguntas corretamente — nome, idade, nome dos pais, ano, país — e então apagara. Depois ultrassonografia, raio-X, hemogramas e demais testes para conferir sua integridade física.
Esperando também pelos resultados, Bucky decidiu ocupar seu tempo investigando melhor o nome Monica Rapaccini. Tinha adiado por tempo demais aquela tarefa mas, para sua confusão, os dados eram inconsistentes. Sim, era ex-integrante da I.M.A. e bioquímica; sim, tinha trabalhado naquela base no Ártico e, antes disso, estava em Doomstadt, Latvéria. Um lugar… Nada usual de se partir. Ou de existir alguma célula da I.M.A. Seus documentos básicos eram recentes também, como identidade e visto estadunidense. Nada antigo, como se não existisse nenhuma documentação daquela Monica Rapaccini em algum lugar do mundo. Nada. Ele não sabia bem como procurar o restante de dados sobre a cientista, pois apesar dos acessos liberados por Ava, era necessária uma estratégia de busca mais específica para se encontrar o que estava procurando. Nenhum arquivo era nomeado “Plano_Vilanesco_parteII_Fontaine, ValentinaAleggrade. Rapaccini, Monica”, o que era uma pena. Passou um tempo pensando nisso. Um tempo a mais refletindo como se encaixava com Wanda. Até que se lembrou do relógio no pulso esquerdo de Monica.
E as coisas começaram a se aprofundar.
Encontrar os projetos e desenhos técnicos do relógio não foi difícil; só seus olhos que estavam já cansados. A tecnologia era semelhante ao do traje especial de Ava, modulando a constituição quântica de quem fosse o usuário; mas apresentava certas modificações pela natureza estranha e específica de tal instabilidade: tratava-se de instabilidade dimensional. O embasamento científico era ainda muito incipiente, aproveitando as contribuições teóricas de Jane Foster, mas não apenas as mais famosas sobre buracos-de-minhoca e portais; e sim algumas equações fragmentadas do período que ela foi “infectada” pela Joia da Realidade — item cósmico que a ciência humana não teve acesso direto para largos estudos além do objetivo prático de trazer pessoas de volta para a existência. Ainda que fossem incompletas segundo os relatórios, pois Bucky não era nenhum astrofísico para poder avaliar, as equações traziam implicações para além da menor dimensão da partícula elementar e como ele poderia ser estabilizado — ou moldado.
Aquilo lhe deu arrepios.
E a sensação de mau agouro piorou quando ele teve a curiosidade de ler mais citações sobre as tais Jóias do Infinito naquela base de dados. O Tesseract fazia uma tangente com sua história pessoal — já que o Caveira Vermelha estava atrás de tal relíquia — e as outras também causaram outras tragédias conhecidas, como o Cetro de Loki, de onde foi extraída a Joia da Mente que, por sua vez…
Foi usada nos experimentos da HYDRA, envolvendo os gêmeos Maximoff.
Ficou em posse do sintozóide Visão, hoje reconstruído.
E serviu de base para os experimentos do Projeto Sentinela.
Os nós e conexões começaram a se formar com mais clareza na cabeça de James Barnes, mas antes que pudesse chegar a alguma conclusão, ribombaram batidas na porta do seu quarto de jeito brusco, forte, sem ritmo. A voz de Alexei Shostakov atravessou as paredes sem necessidade daquelas batidas, falando rápido em russo — e o motivo fez Bucky levantar-se da cadeira em um único movimento.
Ava tinha voltado.
Deixou o fonetasma, suas anotações e Alpine no quarto, andando rápido até o cômodo central daquele andar na Torre, já com as lâmpadas acesas com o avanço do entardecer. Em um átimo, a mente de Bucky Barnes notou mais de um ponto que quase tirou-o do eixo:
Ava parecia bem, apenas exausta — e sem seu traje especial. Só roupas que mais pareciam pijamas.
Yelena, para sua estranheza, não estava no cômodo.
Já Wanda Maximoff, sim.
Parecia que o tempo tinha desacelerado, quase interrompido pelo susto: a sokoviana estava perto de Ava, sem cerimônias ou introduções, com seu vestido preto e casaco vermelho. Elas sequer se conheceram, não? Não de verdade. Mas Wanda encarava-a com certa atenção, talvez até genuína preocupação de conferir se estava bem. E depois de um longo suspiro, Ava confirmou:
— Tô inteira, gente. Mas não foi por falta de tentativa. A equipe médica daquela vaca é cheia de açougueiros. Me furaram cinco vezes para tirar sangue, inferno.
Bucky, John, Bob e Alexei demoraram para esboçar alguma reação. Alexei foi o primeiro:
— Você não está sentindo nada? Bem, nada além de… frustração?
— Cansaço. E vontade de conhecer a praia, eu acho. — Ela moveu os ombros, depois deu mais passos a frente, saindo de perto do elevador. Movia-se devagar, embora não parecesse com dor. Talvez só incerta de qual passo lhe traria a possível tortura da desintegração, mas isso não aconteceu. Bucky esperava que não acontecesse, de fato. — Mesmo que seja uma praia feia aqui da costa Leste.
— Isso pode esperar.
— Pode? Eu não sei, John. Não sei se tudo isso é uma maldição ou uma bênção da bruxa. E não sei quanto tempo vai durar. — Ela suspirou de novo. Ninguém conseguia escolher palavras de consolação, nem promessas vazias. Nem Wanda, ainda acompanhando-a enquanto Ava caminhava lentamente. De esguelha, Bucky notou que Bob também tinha atenção especial para as duas. — Alegrias são curtas, porque Val me avisou que vêm para cá ainda hoje.
Ava lhes ofereceu um sorriso breve, resoluto. Sequer se permitia uma pequena esperança. Bucky compreendia aquela sombra no rosto dela e não seria capaz de poupá-la da dor. Sentia apenas o ímpeto de guiá-la até os dormitórios, para que ela pudesse descansar sem a preocupação de estar rodeada dos tais açougueiros. Mas notou a troca de olhar entre Wanda e Bob; notou os lábios de Wanda se movendo. E logo veio a tradução de Bob para o restante do grupo:
— Acho que… Se é uma benção ou maldição, depende do que você desejava, Ava. Você queria que fosse temporário?
— Não é isso, só… — Ela suspirou mais uma vez e ainda mais fundo. — É complicado. Acho que faz muito, muito tempo que eu não sei ser eu sem saber que estou no risco de me dissolver no ar.
Quase como para reforçar seu argumento, Ava cambaleou. Não era fingimento algum e logo todos lhe ampararam, para que não caisse de boca no chão ou na quina de algum móvel. John sustentou-a pelo braço direito, Bucky pelo esquerdo; e então os dois a auxiliaram caminhar até o próprio quarto com segurança. No trajeto, ela fez alguma piadoca sem graça e riu sozinha, depois sua tentativa de amenizar sua própria exaustão evaporou. Dos fundos, ouviram Alexei gritando que iria comprar ingredientes para uma sopa-levanta-defunto com receita de uma velha babushka. Ela riu e autorizou a entrada no quarto com sua senha numérica do painel ao lado da porta — embora estivesse mais acostumada a atravessar paredes — e então se deixou cair na cama, entre diversos travesseiros e um edredom impossivelmente fofo.
Bucky jamais tinha entrado naquele quarto e, sendo honesto consigo, nunca se preocupara com o jeito que cada um personalizava seu próprio espaço. Ainda assim, a constatação de que aquele quarto era cheio quase o fez esquecer de toda a estranheza da situação — como o fato de que uma outra fantasma jazia na sala além do corredor. Tecidos pendurados. Dúzias de almofadas. Cortinas. A cama de Ava até mesmo tinha um dossel. Ele quase quis estar descalço para sentir a maciez daquele tapete bonito, e isso o fez entender as razões por trás da decoração: texturas. Elementos táteis suaves para quem se desintegrava.
Outro elemento chegou ao quarto, mas era vivo: Um gato. Alpine miou baixinho do corredor e, aproveitando a porta aberta, adentrou o quarto com naturalidade. Quem sabe ela não estivesse apenas escondida durante algumas tardes e sim muito bem instalada no quarto de Ava sem que ele soubesse. Com um pulo, a gata subiu na cama e começou a afofar o edredom. Ava sorriu, cansada demais até para abrir os olhos, e John também deu uma breve risada enquanto se sentava na ponta da cama.
— Quem diria, hein? A bruxa realmente realiza desejos. — Ele soltou um estalo com a boca, desacreditado. A declaração pegou Bucky de surpresa. — Se eu soubesse…
— E o que você desejou, John?
— Nada novo. Que o dia escorresse logo. Besteira, né?
Bucky não respondeu, nem mesmo ofereceu uma resposta ácida que geralmente tinha na ponta da língua para John Walker. Era como se enxergasse outra camada nele, não uma camada externa, mas sim uma mais funda. Incomodava-o. Incomodava-o porque refletia uma característica tão ordinária, tão patética e simultaneamente muito semelhante ao cansaço que Bucky carregava nos ombros. Incomodava-o entender que existia parte de si que era parecida com aquele homem que representava o que ele deveria repudiar; incomodava porque despertara uma enxurrada de devaneios que os aproximava. John escondia bem naquela sua casca de homem tolo, mas era alguém exaurido. Alguém que, em um momento de desespero e impotência, ardia para a própria arrogância e para uma entidade qualquer para que o dia simplesmente acabasse, escorresse de suas mãos.
Que homem triste, Bucky refletiu, e não sabia mais se pensava nele ou em Walker.
Não importava, afinal. Sua cabeça estava acostumada a becos sem saída e ele se voltou para outras direções, para pensamentos mais pragmáticos. Aquele ponto em Westview era pesquisado por atender desejos e, aparentemente, de fato eles se realizaram. Qual foi o desejo de cada um naquela missão? Ava queria ser sólida, John queria que o dia acabasse, e Bob? Ele também tivera contato direto com a luz vermelha. Será que, mesmo apenas perto de tal lume agourento, os desejos eram válidos. Esperava que não, pois mais pessoas poderiam ter seus pedidos atendidos, como Yelena — e o maior desejo dela era claro: que Natasha estivesse ao seu lado. Isso seria… Complicado. Alexei, o que aquele homem desejaria? Monica?
Por fim, Bucky só sorriu como John tivesse dito uma bobagem leve e apertou seu ombro, convidando-o a se retirar do quarto para que Ava e Alpine descansassem. Os dois se separaram no corredor, pois John seguiu para o próprio quarto e Bucky decidiu voltar para sala para conferir se Wanda ainda estava lá. Pensou na sua busca no fonetasma, nas especulações sobre modulação da realidade, sobre as equações de Jane Foster. E afinal, o que ele próprio tinha desejado?
Ao chegar na sala, só existia uma pessoa lá e não era Wanda.
— Bob. E Yelena?
— Treinando.
Os dois sabiam que aquilo não era necessariamente verdade e nenhum deles arriscou a explorar o assunto naquele instante. Era um tópico necessário, mas Bucky preferia evitar, ao menos naquele dia horrível. Antes que pudesse questioná-lo sobre o próximo assunto, quem o questionou primeiro Bob:
— Você a viu, não viu? Aquela mulher, ontem. Na luz vermelha.
— Wanda Maximoff. — Respondeu rápido o nome dela, mas demorou para elaborar o resto. Difícil elencar prioridades naquela conversa. — Sim, eu a vi. Mas não ouvi, Bob. O que você estava pensando naquela hora?
Evitou dizer “desejando” ou “querendo”. Os dois verbos traziam um quê de intencionalidade que não era necessário para a situação. John estava certo: se ele soubesse que poderia ter um desejo seu atendido, seria mais criativo.
— Eu... Eu estava com medo. Queria entender o que estava acontecendo, se não passava de... Alguma psicose minha. E ela me explicou. Ela não queria aquilo, a janela, a luz vermelha, a confusão em Westview. Disse que ajudou Ava, que... Ninguém deveria ser só rachaduras. E antes de eu voltar, ela perguntou se eu não queria mais algo. — Ele parou um pouco; encarou o chão e depois voltou-se ao rosto de Bucky. Seu olhar estava carregado. — Eu disse que era melhor que aquela anomalia sumisse. Melhor para quem ainda mora na região. Melhor para manter longe da Valentina. Melhor para ela também. E por que você a viu?
— Porque eu queria. — A constatação súbita surpreendeu ele mesmo. A verdade encontrara antes seus lábios do que sua cabeça. — Acho que eu queria vê-la porque antes queria entendê-la. Mas acho que para isso, eu tenho que escutá-la. Talvez por isso que ainda a vimos, Bob. É um fantasma que não terminou sua história.
— Eu temo... eu temo ser só uma aparição. Um eco. Afinal, ela realmente está morta, não?
Assim como fez com John, Bucky lhe ofereceu apenas um aperto no ombro e um sorriso cordial. Existiam mais coisas que sonhavam as vãs filosofias dos dois.
— Melhor descansar também, Bob. Ava disse que a Val vai passar aqui, mas ninguém vai conseguir mantê-la viva nessa privação de sono toda. Eu cuido da Yelena.
Bob assentiu e partiu para um canto perto da janela, onde gostava de passar um pouco da tarde lendo em silêncio. Logo chegaria a hora de alimentar Quiabo.
Bucky seguiu para o outro andar, onde existiam as salas de treino. Os equipamentos na Torre deixariam quase qualquer atleta com inveja — menos nadadores, pois lhe faltavam piscinas de dimensões olímpicas, apesar das outras disponíveis, incluindo com bombeamento de correnteza. Era outro andar que Bucky preferia frequentar sozinho, ainda que Alexei lhe chamasse para puxar halteres junto com ele quase toda semana. Bob ocasionalmente se juntava à ele e John; Ava preferia aprimorar seus socos nos pobres bonecos.
Existia também um cômodo especial com espelhos e barras, equipado para um treino funcional possivelmente em grupo. Ou para um ensaio de dança. Naquele momento, vinha o eco que lhe despertavam memórias geladas, com a suavidade de tutus.
A sinfonia era de Giselle, o final do primeiro ato. Apesar do enredo em si ser conhecido pela óbvia melancolia, aquele trecho era particularmente agourento de ouvir e encontrar Yelena ali, apoiada na parede e derrubada no chão por um inimigo traiçoeiro: uma garrafa vazia ao seu lado.
Vê-la assim lhe ardia os ombros como responsabilidade sua. Não; como uma falha sua, para ser mais honesto.
A música vinha de um aparelho de som nada novo, com o CD rodando. Bucky agradeceu por reconhecer como usar os botões e desligou nos acordes finais, mais estourados da sinfonia. Suspirou e agachou-se ao lado dela, observando sua roupa preta tão diferente daquela que certa vez a viu usando numa apresentação em São Petersburgo. Não era a prima ballerina, só uma das camponesas figurantes na época. E agora, ela não era mais apenas uma menina.
Yelena estava tentando parar com a bebida já há alguns meses. Algumas recaídas aconteceram e, embora ninguém fosse duro com ela, Bucky entendia que existia uma camada de vergonha que a tornava perigosamente discreta. Por isso, nenhum deles puxava muito o assunto quando ela se isolava e aumentava o som. Por vezes, ela realmente apenas se exercitava. Outras vezes, não.
Antes ali do que em qualquer outro lugar onde não poderiam cuidar dela. Até que Yelena conseguisse sustentar sua abstinência... Parecia uma alternativa segura, dentro do possível, mesmo que não fosse perto do ideal.
Bucky assobiou uma, duas vezes para despertá-la. A intenção era suave, mas Yelena acordou de repente, confusa e com os olhos arregalados.
— É você?
— É sim, rooskaya. Ava está bem e até roubou a minha gata. E acho que você também merece se deitar numa cama macia e não aqui.
Foram palavras demais para Yelena. Ela franziu a testa, balbuciou, limpou uma lágrima teimosa. Seu corpo não acompanhava a cabeça ou era o inverso? Bucky pegou-a pelo braço e tentou colocá-la de pé, mas quem sustentava-a era mais sua própria força do que a dela. Não era um incômodo, porém.
Ela só não deu conta de colocar a senha no painel da porta do próprio quarto, então Bucky decidiu levá-la até o seu e deixá-la dormindo. Guardou o fonetasma, colocou o caderno no bolso lateral da calça e deu uma última olhada em Yelena encolhida na cama, com a trança loira desarrumada e um laçarote tentando segurar cada fio. Até então não tinha notado, mas de novo ela usava meias coloridas e engraçadinhas.
Preparou uma refeição rápida na cozinha, depois partiu para uma volta na plataforma de pouso para espairecer um pouco. Ventava, entardecia. Qualquer pessoa sensata teria horror ao que Bucky fez por puro tédio, mas seus pensamentos estavam além da própria segurança quando ele foi até uma das pontas da plataforma só para agachar-se, prender as pernas nos canos da estrutura e deitar de barriga pra cima. Odiava não fazer algo, ainda mais com o esboço em mente da trama que se desenrolava: Valentina parecia precisar de Monica e Monica parecia precisar de Valentina para tratarem de instabilidades dimensionais e modulação da realidade. Se Val tivesse algo minimamente parecido com as capacidades do Éter, ou pior, com as capacidades da Feiticeira Escarlate... Não apenas Bucky teria problemas. Nenhuma realidade pensada por Val soava doce, exceto para ela.
O que não fazia sentido algum, é claro. Val já tinha muito. No entanto, sua influência, dinheiro e ardis não eram suficientes, pelo visto. Bucky não sabia exatamente como Monica se encaixava nisso tudo, mas duvidava que ela não tivesse seus próprios interesses. Pior era especular que ela sequer fosse daquela dimensão, o que extrapolava a noção de outros planetas e aliens que ele tinha, tipo aquele guaxinim que quis seu braço metálico.
Com a maioria dos colegas descansando, ele decidiu se dar uma chance de dormir também. Só fechou os olhos, sentindo a brisa e o som do tráfego distante. Gradativamente, foi se sentindo longe, longe, longe daquela Torre, daquela cidade. Naquele limite entre consciência e consciência, ele enxergou nuvens tingidas de um vermelho pálido e sentiu um aroma leve, fresco. E então, encontrou Wanda.
Igual como tinha visto-a antes, de vestido preto e cabelos mais castanhos do que ruivos. De pé. Mas agora, mais perto dela, conseguia ver melhor seus olhos verdes, o ar ligeiramente confuso — o que ele não estava esperando. Geralmente, para assuntos que não envolviam a certeza de uma arma em sua mãos, ele era a pessoa confusa.
— Você sabe o meu nome. É meu nome, né? E você queria me ouvir. Isso é real?
Bucky ponderou, sorvendo a voz dela devagar. Mesmo sotaque, mesma calma, embora ela parecesse um tanto desorientada. Seu tom parecia questionar como chegar na próxima estação de metrô, não se aquilo era uma alucinação. Ele próprio cogitou se era só um delírio, mas era tudo muito nítido — e os limites do que era ou não possível sempre eram menos óbvios quando se tratava de Wanda Maximoff.
— Bom, para mim é um sonho. Mas você é real.
— Desculpe, — Ela olhou para os lados. — Não tenho me sentido eu mesma. Não tenho me sentido coisa alguma.
— E você queria?
Wanda franziu a testa, como se estranhasse a pergunta, e enfim respondeu:
— Queria. Queria sentir que sou algo mais que um devaneio para alguém. Mais que um devaneio incômodo, ao menos.
Doía ouvir a confirmação de suas preocupações anteriores. Sem túmulo, sem ninguém vivo a lamentar sua partida, igual Bucky refletira. Ela entrelaçou os próprios braços, quase como se sentisse frio ou precisasse de um abraço para se manter inteira. Não existia nada além dos dois e névoa ali, e Bucky se flagrou pensando nas palavras de Ava: não sabia se era maldição ou benção, muito menos a duração daquilo. Afinal, conforme Bob tinha lhe contado há pouco, ele desejou o fim daquele último resquício no mundo que se conectava a Wanda Maximoff. Estaria ela desaparecendo? Teria pouco tempo para conversar com tal espírito?
— O que você se lembra, Wanda?
— Eu me lembro… Eu me lembro do seu nome. James, não é? James Barnes.
Ele sorriu de lado. Esperava que ela fosse narrar o próprio fim, tão envolto em mistérios. No entanto, espíritos costumavam ser menos pragmáticos e ela só parecia um pouco menos triste e um pouco mais consciente. Talvez um pouco aliviada por se lembrar de um rosto amigo.
— Sim. Faz um bom tempo.
— Quantas coisas horrendas aconteceram desde então, James. Eu lembro… Oh, você pensou em mim. Por isso eu vim.
— E antes disso? Você estava em Westview?
— Não. Eu não estava em lugar algum. E eu estava em todo lugar. — Wanda franziu mais a testa, se concentrando. E de fato, encará-la ali, entre névoa e a cor rubra, a fazia parecer mais espírito do que humana. — Westview. Eu não queria. Eu não queria tudo aquilo, o Hex. E então eu parti.
— Mas eu te encontrei em Westview. Ou acho que você me encontrou lá, ontem.
— Oh. Sim. Mas esse não foi o último lugar antes de… — O brilho da compreensão alcançou os olhos dela. No lugar de alívio, existia horror. Dor. Ela segurou os antebraços de Bucky com urgência. — Não era para eu estar lá, James. Algo me invocou. Alguém. Aquele homem selou o feitiço ontem, ele quis acabar com a anomalia para o bem de todos. Para o meu bem. — Ela falava de Bob? Parecia que sim. — Então não há mais risco lá. Não se…
— Se o que, Wanda? Eu não entendo. Você realmente partiu para sempre?
A bruxa o soltou. Se antes seus olhos verdes estavam embebidos em leve desorientação, agora vertiam lágrimas silenciosas. Piscou e piscou, tentando engolir o choro. Bucky deu um passo para frente.
— Não. Não do jeito que você imagina. Pensei que ia ser melhor assim, eu juro. Eu juro, James. Eu não queria… Eu só não queria sentir dor.
— Eu não estou te condenando, Wanda. Só estou tentando entender. Onde você está? Eu vou te buscar.
Ela soluçou e se recompôs, lhe oferecendo um sorriso triste como quem diz docemente: “não, você não pode. Você não consegue.”
— Meu último feitiço foi na Montanha Wungadore, James. E há quem deseje atrapalhar esse feitiço.
Ele quis ouvi-la por mais tempo, consumir cada palavra etérea sobre magias que ele não entendia e que ele se flagrava na ânsia de entender. Entretanto, assim como sonho, a imagem de Wanda se apagou de súbito assim que ele sentiu uma mão em seu ombro direito.
Bucky acordou de repente.
— Ei, ei! Calma, soldado. Mais um pesadelo dos ruins?
Ele não respondeu, em respeito à vida de Alexei Shostakov. Usou toda sua energia para não jogá-lo da plataforma de voo da Torre. Inspirou e expirou, controlando a respiração e repassando cada frase e pausa de Wanda. Ela não tá morta, repetiu mentalmente. E eu vou encontrá-la.
— Bom, leve o seu tempo, Bucky. Só não muito. Val chegou e trouxe companhia.
Bucky quis gritar lá do alto para toda Manhattan ouvir. O céu já estava escuro e o horizonte jazia polvilhado de luzes de prédios. Ao invés de estourar, só resmungou e disse:
— Me fala que não é a Monica Rapaccini.
Alexei riu daquele seu jeitão.
— Não é a Rapaccini, realmente. É a dra. Karla Sofen. E ela é terapeuta.
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