Gustavo levou-me para a praia. Exatamente o mesmo local da nossa primeira saída. Se aquilo significava algo? Talvez essa fosse a maneira dele de dizer que estava começando a sentir algo por mim, assim como eu.

O problema é que eu já criei essa barreira e repeti o final de semana inteiro que nada me faria quebra-la. E eu sei que o meu orgulho é enorme o suficiente pra passar por cima dessa paixão que está surgindo rapidamente.

Gustavo é o oposto de tudo que idealizei na minha cabeça. E por algumas experiências que vivenciei, os opostos podem até se atrair, mas vir a dar certo em longo prazo é exceção.

— Então você cansou de mim. Poderia pelo menos mandar uma mensagem antes de fingir que eu nem existo mais.

— Você foi o meu único pensamento nesses últimos dias. Mas acho que isso entre a gente é passageiro e quanto mais rápido terminar, melhor pra mim.

— Me acha tão pouco pra você?

— Não é essa a questão e você sabe. Sinceramente, você já considerou ter algo sério comigo?

— Eu sou um pouco diferente dos outros garotos com quem você deve tá acostumado. Não sou do tipo que explica exatamente o que quer, mas as minhas atitudes dizem tudo. Eu te levei pra minha casa, eu te trouxe aqui nesse lugar. Acho que isso quer dizer algo.

— Desculpe, mas não quero ter que ficar adivinhando cada passo seu. Não tenho cabeça pra isso agora, então é melhor cada um seguir sua vida e ir atrás do que quer. Eu tenho certeza que muitos vão adorar o seu jeito, ou vão gostar tanto de você que nem se importarão.

— Por que você não pode ser assim? Por que precisa colocar obstáculos em algo tão simples? Eu curto você, você também me curte e isso tá na cara, então só relaxe e viva.

— O modo como você me tratou na sua casa na sexta... Seja lá o que estiver pensando de mim, eu não sou do tipo que atura essas coisas. Não posso ser essa pessoa.

— Beto, eu não queria ter respondido daquela forma. Fui um imbecil mesmo e você tá com a razão por sentir raiva.

— Isso é só um detalhe. Nós somos muito diferentes e não vejo como isso pode dar certo. – Gustavo soltou uma pequena risada e eu o olhei sério.

— Sabe o que eu pensei quando vi você pela primeira vez? – neguei com a cabeça – Eu pensei: Esse menino parece ser muito inteligente, mas é tão medroso. Você tinha paralisado por causa daquele assaltante, deveria ter tirado uma foto.

— E o que esperava que eu fizesse? O cara tava com um canivete. É óbvio que eu tinha medo.

— Aí eu te conheci de verdade e sabe o que penso? Apesar de inteligente, você tem medo de viver. E acaba desperdiçando um tempo que não vai ter como recuperar depois.

— Isso deve ser a sua maneira de convencer a si mesmo que não está se autodestruindo. Mas eu tenho ambições e a vida não vai esperar pra que eu as conquiste. Preciso conquista-las agora ou o quanto antes, pelo menos.

— Então, agora que estamos sinceros um com outro, vamos falar tudo. Sem rodeios. Você me acha um vagabundo, sem futuro, sustentado pela mamãe. O que mais?

— Por acaso todas essas coisas são mentira? Eu ainda incluiria preguiçoso nessa lista e mais outras coisas que não consigo lembrar agora.

— Eu trabalho como entregador. Com o dinheiro que ganho, consigo ajudar em casa e gasto pras minhas necessidades. Demorei mais de um ano pra conseguir juntar o dinheiro pra comprar minha moto, que eu também uso pra fazer as entregas. Eu não tenho tanta ambição quanto você, isso é verdade, mas também não sou essa pessoa que você imagina. – isso foi um tapa na minha cara. Gustavo nunca me disse que trabalhava. Eu realmente apenas o julguei erroneamente.

— Agora estou me sentindo mal.

— Você é um pouco mesquinho Beto. Se fosse qualquer outro, eu já teria te esquecido completamente. Mas você nunca foi qualquer outro.

Essa última frase causou um impacto em mim que cheguei a suspirar. Acho que era essa a maneira dele de abrir suas portas e dizer que estava rolando algo. Não era passageiro, era uma correnteza que feio levar tudo de nós dois. Gustavo se aproximou e começamos a se beijar.

Ele ficou por cima de mim. Meu cabelo ficando sujo pela areia. Um calor subindo pelo meu corpo, até que percebi que se eu não fizesse algo, iria acontecer ali mesmo. Numa praia em que a qualquer momento alguém poderia aparecer.

— Ei, motoqueiro. – ele parou com os beijos em meu pescoço e me olhou – Aqui não.

— Mas não tem ninguém.

— Agora não. Mas pode aparecer a qualquer instante e eu não quero dar essa cena de presente.

— Tudo bem, vamos pra água.

— Claro.

Tiramos nossas roupas e ficamos apenas de cueca. Entrei na água gelada e tremi com o frio, mas recebi um abraço por trás. Eu não sei mais pra onde foi toda aquela determinação que eu tinha em me afastar. Talvez eu estivesse julgando Gustavo sem conhecê-lo e agora que soube um pouco mais sobre ele, percebi que exagerei um pouco.

Aos poucos eu saberia mais sobre sua vida. Já percebi que ele não é de contar tudo em um dia só e também não quero pressiona-lo. Tudo é uma questão de eu saber conciliar esse relacionamento com os estudos. Essa pressão toda está me matando e o motoqueiro é uma válvula de escape que eu não quero abrir mão. Se eu o perder, não sei o quanto isso pode me afetar emocionalmente e atrapalhar meu desempenho.

— No que está pensando?

— Em como a vida tem situações irônicas. Eu daria tudo pra encontrar algo assim ano passado, mas esse ano que eu já tinha uma grade bem planejada...

— Se você quiser... Se você realmente disser que não quer mais nada, eu sumo e você nunca mais vai me ver. – virei-me para olhá-lo.

— Não é justo fazer essa pergunta agora. Está tentando me seduzir pra que eu não consiga negar. – falei em tom de brincadeira.

— Cada um joga com as armas que têm. – nos beijamos e curtimos um pouco a praia.

Depois de já estar cansado, pedi para o motoqueiro que me levasse para casa. Ele conseguiu se redimir tão facilmente que eu não sei em quem realmente está o problema. Minha esperança é não estar errado em dar uma nova oportunidade.

Chegamos à minha casa e tirei o capacete, já pronto para descer. Porém, sua mão parou em minha perna, apertando um pouco. Gustavo tirou o capacete e eu desci da moto, parando em frente a ele.

— Quando eu vou conhecer a sua casa? – não soube distinguir se era uma brincadeira ou se ele estava falando sério.

— Se quiser entrar...

— Eu quero.

Peguei a chave no bolso da minha calça jeans e abri a porta. Gustavo entrou logo atrás, enquanto eu abria as janelas para entrar ar.

— É bonita.

— Não mais que a sua, mas dá pra viver bem. – ele riu.

— E onde fica o seu quarto?

— Por que a curiosidade?

— Quero conhecer alguém que deve tá lá. – o olhei com dúvida.

— Quem? Você tá louco menino?

— Mostre o seu quarto e eu te digo quem. – andei até o meu quarto e abri a porta. Gustavo riu e eu tava me mordendo de curiosidade pra saber do que ele falava.

— Aí está ela.

— Do que você tá falando?

— A cama. Você dorme com ela todos os dias e por isso ela tá rindo da minha cara.

— Você não pode estar falando sério.

— Sabe o que devemos fazer? Mostrar que formamos um casal melhor. Vamos rir bem na cara dela. – agora eu entendi qual era a intenção dele.

— Não consigo acreditar que isso tudo foi uma maneira de dizer que quer me foder.

— Qual é. Eu tenho várias maneiras de chegar em alguém e aqui vai uma curiosidade: a maioria funciona.

E funcionou mesmo. Em poucos segundos já estávamos nos beijando loucamente. Era um empurra pra cá, empurra pra lá. Costas na parede. Roupas caindo no chão. E a famosa cama observando até nos acomodar. Tudo isso era de uma loucura que eu nunca pensei que fosse acontecer na minha vida, apesar de já ter desejado algo mais selvagem, no ponto certo.

Era a primeira vez que eu transava no meu quarto, na minha casa. Espero que minha mãe nem desconfie do que aconteceu aqui hoje porque nem quero saber qual vai ser a reação dela. Nunca tivemos um papo sobre isso, a não ser quando ela me alertou que eu sempre usasse camisinha. Disso, eu não precisava me preocupar, já que o motoqueiro sempre andava com uma. Ele já deve ter em mente que vai descolar um sexo, não é possível.

— Você é incrível. Caralho hein, haja fôlego. – eu ri da reação do moleque.

— Eu deveria ter desconfiado das suas intenções quando quis entrar aqui. Já tava querendo isso desde a praia. Sou muito inocente mesmo.

— Não consigo resistir. O seu corpo é a minha perdição. – olha, não tem coisa melhor que se sentir desejado por alguém.

— Se puder não babar na minha cama, eu agradeço.

— De qualquer jeito você vai se lembrar de mim quando dormir. Esse cheiro que ficou...

— Eu vou colocar esse lençol pra lavar. Minha mãe não pode nem desconfiar do que aconteceu agora. Inclusive, tá na hora de você ir. Ela pode chegar a qualquer momento e não quero repetir a cena do outro dia na sua casa.

— Sua mãe não gostaria muito de mim.

— Felizmente, você não precisará conhecê-la agora. Vamos vestir a roupa. –sentei na cama, mas fui puxado de volta.

— Só um tempinho. Quero sentir você ao máximo, antes que tente fugir de mim de novo.

— Eu não irei fugir. Só se me der motivo. Agora levanta porque você tem que ir.

— Okay mãe.

Pegamos nossas roupas e vestimos. Demos um último beijo antes de sair da casa e o motoqueiro partir. Quando ia entrando novamente, percebi minha mãe se aproximando. Comecei a preocupar no que diria para ela, mas tentei disfarçar ao máximo.

— Quem era aquele menino na moto?

— Ãn? Ah, o Gustavo. Ele é um amigo da Carolina que ela me apresentou, veio pegar um livro que ela me pediu.

— Não o vi sair com nenhum livro.

— É porque você tava longe mãe. Como foi no trabalho?

— Cansativo. E você, estudou muito hoje?

— Nem imagina o quanto. Vamos entrar né, ficar aqui na porta pra quê?

— Tá tudo bem? Você tá estranho.

— Eu tô normal mãe.

— Gosta desse menino?

— Quê? – o som da minha voz saiu um pouco estranho – Claro que não. Quase não o conheço. É só um amigo da Carol.

— Tudo bem Humberto, vamos entrar.

Minha mãe me chamou pelo nome e não pelo apelido... Ela não acreditou em nem uma palavra do que eu disse, só espero que não desconfie do que aconteceu.

Nem sei bem porque eu menti. Acho que não tô pronto pra dizer pra minha mãe que estou num relacionamento. Não consigo imaginar como seria isso se nem eu sei bem o que tá acontecendo entre mim e Gustavo. A única coisa que eu sei agora é que tô entrando num caminho sem volta e espero que isso não me derrube.

Notas finais
Capítulo novo na sexta.