Notas iniciais
Novo capítulo liberado.

— Rolê amanhã na casa do Alex. Pode levar seu namoradinho. – Carolina parou em frente a mim sorridente.

— Pelo visto as coisas estão indo muito bem.

— Tenha certeza de que de amanhã não passa. Eu vou fisgar esse sapão de uma vez por todas. E você não pode faltar.

— Vai ser ótimo ir pra lá sabendo que você está transando em algum quarto.

— Por isso mesmo você vai levar o seu motoqueiro. Não quero ninguém segurando vela.

— Não sei se ele vai querer ir. Acho que é muito cedo pra apresentar os amigos e coisas assim. Estamos indo com calma.

— Tudo bem então. Mas não custa perguntar. E se ele não for, vai ter bebida grátis e música pop de qualquer jeito. Só tome cuidado com a bebida.

— Você nunca vai esquecer aquele episódio, não é mesmo?

— De você bêbado, beijando todos que estavam na festa e vomitando no cara depois de fazer um boquete? Acho que isso merece um lugar especial na minha memória.

— Por que eu sou seu amigo mesmo?

— Porque é impossível não me amar. Por favor, Beto, diga que vai. Você precisa sair um pouco. Relaxar, esquecer os problemas e a vida adulta batendo na sua porta.

— Okay. Eu vou chamar o boy, se ele quiser ir, ótimo. Se não quiser, vou me divertir mesmo assim.

— É assim que se fala. Torce por mim porque se algo der errado amanhã, vou mandar mensagem pro Diego no Whatsapp. Tô começando a achar que ele fez algo contra mim pra que eu não fique com nenhum outro garoto.

— Deixa de ser canceriana. Tá muito dramática, hein? – o sinal tocou e entramos na escola.

[...]

Tinha acabado de chegar à casa do Alex. Era pouco mais da 22:00 e não tinha muita gente. Conhecia a maioria por meio da prima da Carolina, Jéssica, que namora um deles. Gustavo disse que talvez aparecesse, mas eu sabia que isso era uma desculpa. Preferiria que ele dissesse a verdade, porém não quero me preocupar com isso agora. Estou aqui pra me divertir.

— Você veio. – Carolina me abraçou quase me derrubando.

— E você já tá um pouco alterada.

— O Gus não veio né?

— Desde quando o chamamos de Gus?

— Desde agora.

— Então tá. Ele não veio e nem vai vir.

— Tenho uma boa notícia pra você.

— Não compraram bebida barata dessa vez?

— Sei lá. Sabe quem tá aqui?

— Não.

— O Henrique. Aquele meu amigo que você acha maravilhoso e dá amei nas suas fotos.

— Finalmente o convenceram a vir pra um rolê?

— Sim, os meninos o obrigaram. Vem que eu vou apresenta-lo pra ti.

— Acho melhor não. Com o rolo que tô tendo com o motoqueiro, não sei se é uma boa ideia.

— Qual é? Vocês só vão conversar. – Carolina me puxou e me levantou pra onde os meninos estavam.

— Olha quem chegou. – Marcelo, o namorado de Jéssica, falou animado. – Se tem alguém que consegue beber até cair, é o Beto.

— E aí. – cumprimentei todos. Alex levantou e ficou ao lado de Carolina.

— Henrique, esse é o meu melhor amigo Beto. Beto, esse é o Henrique.

— Prazer. – ele estendeu a mão e eu apertei. – Eu queria mesmo te conhecer. Tenho que te perguntar sobre algo que você deve saber. A Carol me disse que quer ser jornalista. – balancei a cabeça confirmando. – Vamos pegar uma bebida e aí conversamos.

— Okay. – segui Henrique até a cozinha, onde estavam as bebidas. – Então, qual era a pergunta?

— Tenha um pouquinho de paciência porque eu tô tentando formular.

— Não existe nenhuma pergunta, não é mesmo?

— Aqui sua bebida. – o garoto estendeu o copo e eu peguei. Então ele colocou a mão por cima da minha. – Tem razão, não tenho nada a perguntar sobre isso.

— Sabe, não acho que...

— Já faz tempo que eu quero te conhecer Beto. Então pensei que poderíamos conversar a sós por um instante. Você me parece uma pessoa bem interessante e a Carol e os meninos falaram tantas coisas sobre você.

— Tudo bem, vamos conversar. Soube que você faz Marketing na UFRJ.

— Não quero falar sobre isso na verdade. Que tal conversarmos sobre os nossos gostos? Qual música você gosta de ouvir, as séries que você assiste, o tipo de filme que você ama.

— Gosto de pop e rap, assisto séries variadas, basicamente as mais famosas e amo de comédia romântica, drama e terror. Sou bem clichê.

— Acho que temos muita coisa em comum então.

— Pode ser que sim.

— Sabe outra coisa que penso que temos em comum?

— O quê?

— A vontade de... – Henrique se aproximou e eu virei o rosto a tempo de evitar que ele me beijasse na boca.

— Acontece que eu não tô livre, se é que me entende. Foi bom conversar contigo.

Fiquei um pouco nervoso e caminhei em direção à saída da cozinha, quando dei de cara com Gustavo. Meu Deus, sério que ele apareceu logo agora? O quanto será que ele viu dessa cena?

— Você veio?

— Acredito que sim. – ele respondeu friamente, então sim, ele viu o quase beijo.

— Sobre o que aconteceu ali, eu posso explicar.

— Não, tudo bem. Você pensou que eu não vinha e não queria ficar sozinho a noite toda. Eu entendo.

— Pois não deveria entender. Se me convidasse pra algum lugar e por eu não ter ido, ficasse com outra pessoa, eu não iria gostar. O que houve ali foi um mal entendido. O carinha achou que eu tava afim, mas eu o cortei a tempo. Eu peço desculpas por te fazer presenciar essa cena.

— Parece que não foi uma boa ideia eu ter vindo.

— Claro que foi. Eu tô muito feliz por ter vindo. Quero te apresentar a Carol e aos outros.

— Eu preciso ir embora agora. Só passei porque queria te ver hoje e dizer que vou viajar a semana inteira. Não nos veremos por um tempo.

— Posso saber aonde você vai?

— É uma viagem com uns amigos. Consegui uma folga no trabalho e tinha juntado dinheiro pra isso por um tempão.

— Por que só me disse agora que ia viajar?

— Não achei tão urgente pra ter dito antes. Enfim, não posso ficar. Quando eu voltar, a gente marca de se ver. Se divirta. – Gustavo me deu um rápido selinho e andou até a porta. Acompanhei-o ainda ser reação.

— Divirta-se também. Vou sentir saudades. – ele apenas sorriu e subiu na moto.

Mas que droga! Toda essa situação veio pra abalar algo que estava se consolidando. Agora tudo vai ficar estranho entre a gente. Até entendo ele se sentir mal pelo que viu e levar um tempo pra poder entender que não foi minha culpa, mas viajar sem me dizer nada até a última hora? Será que sou tão pouco assim que a mínima satisfação eu não mereço?

Quero dizer, isso é pedir muito? Talvez ele tenha esperado pra me contar, já que iria me ver pessoalmente hoje, mas não acredito muito nessa suposição. Nos vimos há uns quatro dias e essa viagem não parece ter sido planejada tão depressa. E quem são esses amigos? Será que ele vai “se vingar” pelo que viu e ficar com algum deles?

Não posso acreditar que estou agindo dessa maneira. Preocupado se vou ser abandonado ou traído. Eu não sou essa pessoa e não quero me tornar essa pessoa.

— Por que não está bebendo? – Carol se aproximou.

— Também quero saber. Já tá na hora do Marcelo começar a mistura as bebidas. Se não fosse pra beber até passar vergonha, eu nem taria aqui.

[...]

Antes mesmo de abrir os olhos sentir minha cabeça latejar como nunca. A medicina é tão avançada, mas não criou um remédio imediato para ressaca. Eu sabia que estava na casa do Alex, mas não exatamente onde. Era um local fofo, então chuto ser um sofá. Minha mãe já sabia que eu só voltaria para casa hoje, então com isso não tenho que me preocupar.

O que realmente me preocupa é o fato de eu não lembrar muita coisa. As chances de eu ter pagado algum mico são altas e doem mais que a ressaca.

— Pode abrir os olhos porque eu sei que você já acordou. – Carolina falou perto o suficiente para eu querer mata-la.

— Eu sabia que tava no sofá. – murmurei quando abri os olhos e a vi com um sorriso enorme. – Que alegria é essa?

— Viado, você não tem ideia do quanto minha noite foi maravilhosa. Eu imagino que você esteja morrendo agora, então depois conto os detalhes pra você prestar muita atenção.

— Só preciso que me diga que não rolou nenhum mico.

— O que eu ouvi foi que o Henrique tentou ficar contigo, mas você recusou e deu o maior fora. Disseram que foi muito engraçado e ele ficou tão chateado que foi embora.

— Pelo menos eu não fiquei com ele.

— Acho que é válido dar uma chance pro garoto. Afinal, esse seu relacionamento com o motoqueiro é cheio de idas e vindas. O Henrique me contou que ele teve aqui.

— Numa hora bem inoportuna, inclusive. O Gustavo foi viajar com os amigos e veio me avisar ontem. Eu imagino que não tenha conseguido disfarçar a minha cara de triste e eu não quero falar sobre isso agora. Estou quase indo visitar o Michael Jackson.

— Já é quase meio dia e os meninos vão fazer churrasco. Vou pegar algum remédio pra você tomar.

— Tô morrendo de fome e de dor de cabeça, mas pelo menos ainda tenho a minha dignidade.

— Eu não sei mais o que é isso depois de ontem. – Carol disse e saiu para a cozinha.

Logo Carol voltou com um comprido e um copo d’água. Não demorou muito também para que os meninos começassem a assar a carne e comermos. Quando me dei conta já estava entardecendo. Alex me levou até em casa no carro dele e me despedi de Carol e de Jéssica, pois descia primeiro.

Dei uma olhada antes pelo reflexo do celular pra ver como estava a minha situação. A porta estava aberta e quando entrei, minha mãe assistia televisão deitada no sofá maior.

— Pensei que não viria hoje.

— Nós perdemos a noção do tempo depois do almoço.

— Se divertiu muito – acenei com a cabeça. – Ótimo, porque a partir de agora você vai usar os fins de semana pra estudar, não é?

— É o que eu faço na maioria deles.

— Na maioria pode não ser o suficiente. Nesses últimos dias tô percebendo que você muito distraído Beto. Você sabe que pode conversar comigo sobre o que quiser. É aquele garoto que te vi saindo daqui outro dia? Vocês estão namorando?

— Eu já respondi antes que não mãe. E não vejo como eu possa estar distraído, se estudo quase o dia todo. Agora todos os finais de semana também? Com tanto estudo eu vou acabar enlouquecendo.

— Você sabe que eu tô falando isso pro seu bem filho. Não quero que acabe tendo...

— A mesma vida que você tem. É eu sei de toda essa história. Tenha confiança em mim, okay? Eu sei administrar o meu tempo, então se me dou ao luxo de curtir um fim de semana é porque já programei tudo antes.

— Tudo bem então.

— Eu vou tomar um banho e cair na cama porque tô muito cansado. Boa noite!

Fui para o meu quarto antes de tomar banho. Tirei o celular do bolso e deixei na cama. Olhei-me no espelho e mexi no meu cabelo bagunçado. O celular começou a tocar e era o Gustavo.

— Alô! – falei ao atender.

— Vi agora a caixa postal que tinha me deixado e quis acertar de uma vez isso. Eu já tinha dito antes que se você quisesse terminar, eu não iria insistir. Então já que tomou essa decisão, tudo bem pra mim. Não voltarei a te procurar.

— Mas do que você tá falan... – a ligação caiu e eu sentei na cama, tentando entender o que havia acontecido.

Notas finais
E o próximo capítulo deve sair amanhã e já estaremos no meio da primeira parte. Se você estiver acompanhando apareça lá nos comentários pra eu cumprimentar.