Entrevista com um garoto
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Notas iniciais
— Me liga quando chegar do cursinho?
— Eu não vou pro cursinho hoje. Gustavo disse que tinha uma surpresa pra mim.
— Uau, é a segunda vez que você falta nessa semana. Aposto que se fosse pra ficar comigo, você me deixaria na mão.
— Nem dá pra comparar porque eu te vejo todo dia e ele não.
— Okay, vai lá com seu boy. Usa camisinha.
— Você é tão besta Carol.
— Carolina pra você.
— Então tá, Carolina. Quando eu chegar em casa te mando mensagem.
— Não precisa não. Vai estar tão fudido que nem conseguirá segurar o celular nas mãos.
— Que exagero, pelo amor de Sia. Tchau. – dei um beijo na bochecha dela que estava relutante.
Depois que Gustavo me pegou no cursinho semana passada, estamos definitivamente tendo um lance. Falamos por mensagem todos os dias e o encontrei na terça. Novamente faltarei o cursinho pra vê-lo. Terça e sexta são os dias em que considero as aulas menos importantes. Por isso combinamos nesses dias.
Na sexta ele me levou pra praia e foi incrível. Ele ficou de cueca na minha frente e olha... Terça eu conheci a casa dele e ficamos sozinhos lá porque a mãe trabalha o dia todo. Não perguntei sobre o pai porque se ele não falou, pode ser que tenham história trágica por trás e eu não queria estragar o clima. Vimos um filme que eu nem lembro o nome. Acontece que nem terminamos o filme porque rolou aquilo.
Eu já tinha ficado com outros caras, mas sempre algo do momento. Conhecia numa balada ou festa de amigos, ficávamos e depois sem nenhum contato. Não me lembro de ter me apegado real a nenhum dos meninos com quem transei. Gustavo é realmente o primeiro em vários aspectos. Mesmo sabendo tão pouco dele, já fui completamente fisgado.
Cheguei em casa, esquentei o almoço que minha mãe sempre deixa pronto e tratei de responder as atividades. Combinamos de que ele viria me buscar em casa às 14:30. Acredito que exagerei um pouco no perfume porque eu mesmo estava a espirrar.
14:45. Nada. 15:00. Eu já estou impaciente e mandando várias mensagens. Mensagens que me arrependo logo depois de ter mandado. E se ele pensar que eu estou o sufocando?
Uma buzina de moto soou na frente da minha casa. Era por volta de 15:15. Confesso que estava chateado com o atraso, mas resolvi deixar pra lá. Coloquei o celular no bolso, tranquei a porta e subi na moto.
— Se atrasou um pouco hein? – juro que tentei, mas não consegui controlar.
— Desculpe.
— Sem problemas. Pra onde vamos?
— Minha casa. Algum problema?
— Nenhum. Qual o filme de hoje?
— Hoje eu vou te comer.
— Que engraçadinho. Quem te deu toda essa liberdade motoqueiro. – “motoqueiro” virou o apelido dele.
— Tô falando sério. Esse é o nome do filme.
Não, não era. Mal chegamos a casa dele e ele começou a beijar, me prensando contra a parede. Eu queria ir mais devagar, ao mesmo tempo em que estava dominado pelo desejo que eu tinha por ele. Resolvi ligar o foda-se e me entregar com tudo. Acredito que isso que estávamos tendo era algo com grandes chances de se tornar sério.
— Que horas são? – perguntei após acordar na cama de Gustavo. Ele se remexeu, sem abrir os olhos.
Tínhamos dormido após a transa, que por si só, durou umas duas horas ou quase isso. A gente dava um tempo e depois continuava até cansarmos. Procurei pelo meu celular e lembrei que ele estava no short da minha bermuda. Olhei ao redor do quarto e não tinha nenhuma roupa.
Encontrei minha bermuda na sala e quando olhei no celular eram 18:45. Minha mãe já tinha chegado do trabalho e deve estar preocupada por eu ainda não ter chegado. Juntei minhas roupas e as vesti. Peguei as roupas de Gustavo e voltei pro quarto para acordá-lo.
— Gustavo! Precisamos ir agora, já é tarde. A gente acabou perdendo a hora.
— Então me deixa dormir mais um pouco, vai chegar tarde de qualquer jeito.
— Não! Minha mãe deve estar muito preocupada.
— Liga pra ela e avisa que tá na casa de um amigo.
— E aí eu vou ficar aqui vendo você dormir? Não, eu quero que ir pra casa agora.
— Então vai sozinho, porra.
Eu não esperava por essa reação dele. O que estava acontecendo? Definitivamente ele nunca me tratou assim e estou odiando isso. Eu odeio que falem dessa maneira comigo. Por isso larguei as roupas dele no chão do quarto e fui quando ia sair da casa, uma mulher abriu a porta. Suponho que essa seja a mãe dele.
— Boa noite! – ela disse surpresa a me ver.
— Olá! – respondi totalmente envergonhado, querendo fugir daquela situação. A mulher largou no sofá a bolsa que segura no ombro e sentou-se, dirigindo seu olhar pra mim.
— Você é amigo do meu filho?
— Sim, meu nome é...
— Esse é o Beto, mãe. Eu ia levar ele pra casa agora mesmo. – Gustavo surgiu do quarto, já vestido.
— Prazer, Beto! Meu nome é Valéria.
— Prazer, senhora. Vamos Gustavo?
— Eu não sei onde tá a chave da minha moto.
— Por acaso é essa? – Valéria apontou para o chão. Gustavo pegou e foi em direção à porta.
— Tchau. – praticamente sussurrei para sua mãe e o segui.
Não me lembro de ter passado por uma situação tão embaraçosa assim. Sem dúvidas eu estava completamente vermelho. Esperei Gustavo pegar a moto da garagem e quando ele apareceu, subi imediatamente na garupa para evitar qualquer outra situação com a mãe dele.
— O que você ia fazer?
— Você disse que eu podia ir sozinho.
— Não falei sério.
— Pareceu sério pra mim.
— Minha mãe vai achar que estamos namorando. – ele soltou isso naturalmente e pra mim foi como um soco no estômago.
Eu sei que o que temos ainda não é um namoro, mas planejo que se transforme nisso um dia. Pela primeira vez pensei seriamente se ele planeja o mesmo. E fiquei pensando durante todo o caminho até a minha casa. Nenhuma palavra a mais até que chegamos e ele disse que a gente marcava outro dia e tentou me beijar na boca, mas eu virei o rosto.
Entrei em casa ignorando todas as perguntas da minha mãe, como: “Por que chegou a essa hora?”, “Quem era o cara da moto?”. Disse apenas que estava bem e que ela não precisava se preocupar e me tranquei no quarto.
O que está acontecendo comigo? O que é que eu estou vivendo? Meus planos para esse ano incluíam apenas minha dedicação incondicional aos estudos, então aparece esse motoqueiro e me faz perder duas aulas do cursinho. Me faz perder a minha concentração nas aulas e me faz perder até mesmo um pouco da minha dignidade.
Eu tenho que dar um basta nisso antes que tome proporções ainda maiores. Gustavo tem quase vinte anos e não faz nada da vida. Vive sustentado pela mãe e não parece nenhum pouco preocupado em mudar isso.
Acho que não sou capaz de dizer que não quero mais nada com ele frente a frente. Posso ter uma recaída e continuar agindo como um idiota. Então é isso que eu vou fazer: vou bloqueá-lo no Whatsapp, por onde a gente conversava, e se ele aparecer eu vou juntar todas minhas forças pra dar um fora definitivo.
Na segunda, já na escola, o clima estava um pouco estranho entre mim e Carol. Nossas conversas eram formadas por frases praticamente monossílabas e eu queria tanto desabafar com ela.
— Não precisa mais se preocupar com o motoqueiro. Eu me enganei em achar que poderia começar algum relacionamento agora e fazer isso dar certo.
— O que aconteceu?
— Ele me levou pra casa dele sexta. Nós transamos, acabamos dormindo e quando acordei já era tarde. Então pedi pra que ele me levasse pra casa, mas ele foi super grosso. Quando eu decidi ir sozinho a mãe dele chegou e foi o maior climão.
— Meu Deus, viado. E aí? – ela perguntou ansiosa e eu fiquei feliz por ter quebrado o clima estranho entre nós.
— O Gustavo me levou pra casa, mas isso me chateou tanto que eu acabei percebendo que ele não é o que eu procuro, principalmente agora. Eu preciso de alguém que me dê segurança e o motoqueiro é uma montanha-russa. Bloqueei o número dele e se ele aparecer, eu vou terminar tudo. Nem sei realmente o que vou terminar, já que oficialmente não somos nada.
— Realmente eu nunca vi você agir como tem agido desde que o conheceu. Mas às vezes você é muito Beto, então até que não achei tão ruim essa sua versão inconsequente.
— Pra ser um grande jornalista, terei que abrir mão da fase da inconsequência. E eu vou ficar bem. Me apeguei, mas com uma dura rotina de estudos logo consigo colocar a cabeça no lugar.
— Não duvido nenhum pouco que ainda te verei numa emissora internacional. Meu orgulho! – Carol me abraçou de lado. Estávamos sentados debaixo de uma árvore, aproveitando o intervalo. – Mudando de assunto, acho que vou pegar o Alex nesse fim de semana. Vai ter um rolê sábado e nem Anahí avisando turnê no Brasil no mesmo dia vai me impedir de fisgar aquele peixe.
— Já sabe que minha torcida está viva. – o sinal tocou e nós bufamos e andamos de volta para sala.
Pela tarde, segui normalmente minha rotina e fui para o cursinho. Não pretendo perder uma aula a mais, mesmo se eu estiver me sentindo mal. Vou focar inteiramente no meu futuro a partir de agora e qualquer coisa que possa interromper isso será ignorada por mim.
Tudo normal, até o momento em que eu estava em frente ao prédio do cursinho e uma moto parou ao meu lado. Eu imaginava que ele ia aparecer em algum momento buscando por explicação, ou talvez eu apenas esperasse que ele fizesse isso, mostrando que se importa. O que eu não sabia é que seria tão rápido.
— Sobe na moto. – ele falou com um tom agressivo.
— Não. – continuei a andar e ele saltou rapidamente e segurou um braço. Virei para encará-lo, tentando manter uma postura rígida.
— Que palhaçada é essa? Resolveu brincar comigo agora?
— Eu não estou brincando Gustavo. Se me der licença, eu tenho aula agora.
— Você não vai assistir a essa aula.
— Desde quando você me diz o que eu vou fazer?
Gustavo pôs seus braços envoltos da minha cintura e me puxou pro seu ombro, segurando-me fortemente. Eu comecei a gritar e bater nas costas dele, pedindo para que me soltasse.
— Eu posso te carregar pra algum lugar ou você resolve subir na minha moto e poupamos tudo isso.
— Não posso perde essa aula. Diferente de você, eu tenho ambições na vida e pra alcança-las não posso perder meu tempo contigo.
— Foi por isso que me bloqueou? Por queria se foder de estudar pra depois talvez nem passar.
— Você não sabe nada de mim.
— Vai comigo ou eu vou ter que te carregar até sabe lá onde?
— E você vai abandonar sua moto assim? Sem falar que vai acabar se dando mal porque alguém vai perceber que você está me carregando contra minha vontade e vai fazer algo.
— Pois é, posso acabar me fudendo. É isso que você quer, não é mesmo?
— Idiota. Tudo bem, eu vou contigo. Mas é a última vez que eu perco uma aula por sua causa e também não vamos transar na sua casa e nem em qualquer outro lugar.
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