Entretenha-me, Sebastian
3 Drei
Notas iniciais
Meirin atravessou a cozinha com uma montanha de fronhas cheirosinhas e brancas, seu sorriso contagiou Finny assim que este apareceu. Snake dava ratos rechonchudos para suas adoradas cobras em um canto.
— Soube que teremos visitas. — Finny perguntou com seu sorriso inocente; apoiou-se com os cotovelos na bancada em que Bard cortava um pedaço de carne com cuidado, ou teria problemas com Sebastian depois.
— Sim, e parece ser um homem muito importante para Londres. — o loiro soltou a afiada faca e enxugou as mãos em um pano limpo — Por isso Sebastian pediu para preparar com cuidado o jantar enquanto ele trata de arrumar o Conde.
— Os ratos estão ficando mais escassos, nesse ritmo ficaremos com fome; disse Emily.
— Não se preocupe, tem pequenos animais na clareira da floresta aqui perto. — retornou a Finny — E como está Pluto?
— Já o levei para passear.
Acenou e voltou sua atenção para a carne; logo imaginava como Sebastian a prepararia, provavelmente não as assaria com sua nova arma de lança chamas.
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O céu de Londres estava começando a ficar nublado, esfriara um pouco mais desde que saiu para as ruas. Havia pegado sua carruagem a mais ou menos uma hora; o sono parecia querer lhe pegar desprevenido, já que a estrada de terra e com alguns buracos fazia com que o veículo balançasse um pouco; se fosse descuidado demais e dormisse, com certeza, bateria a cabeça na porta.
Arthur olhou pela janela; já se podia ver a imensa mansão Phantomhive. Voltou seus olhos para suas mãos, assim, permitindo-se descansar por alguns minutos antes de enfim chegarem.
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Ciel desceu as escadas devagar; o mordomo já o esperava com o convidado recém-chegado.
— Senhor Kirkland, seja muito bem-vindo a mansão Phantomhive. — Sebastian se curvou.
— Obrigado! — retirou sua cartola e o grosso casaco, o moreno fez questão de segura-los.
— Muito prazer pela ilustre visita, Senhor Kirkland. — Ciel sorriu minimamente. Desceu do último degrau.
— Oh! Eu tinha de lhe agradecer pessoalmente pelos sucessos com as missões que a rainha lhe convoca.
— Obrigado. — mirou o Michaelis — Sebastian está tudo pronto?
— Sim, Jovem Mestre. — olhou para o loiro — Queiram me acompanhar, por favor? Os preparativos para o chá da tarde já estão prontos.
Lentamente os três se dirigem até a sala de estar.
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Os servos enfileirados do lado esquerdo do garoto; Snake tinha deixado suas cobras na cozinha, dentro da sua bolsa para evitar problemas na sala. O chá das cinco fora servido; o curto silêncio que ali havia se estabelecido fora quebrado com a voz do inglês.
Kirkland admirava cada detalhe do ambiente, sem dúvidas o jovem Conde tinha um bom gosto. Mas, Oh! — Esse chá está divino!
— Parabéns, Senhor Michaelis! Seu chá é ótimo, um dos melhores que já tomei. — sorriu para o moreno; dava muito valor em um bom chá.
— Fico honrado com o elogio, é o mínimo que um mordomo da casa Phantomhive faria.
Ciel fez uma leve mesura para que os empregados saíssem e se ocuparem com seus afazeres; assim que estes o fizeram, o inglês de olhos verdes voltou a falar.
— Aliás, não precisas de esconder sua identidade aqui, por favor. — fechou os olhos e um leve sorriso se formou nos lábios.
— Como? — foi vez de Ciel a se manifestar.
— Tenho o pleno conhecimento da tua natureza. Sebastian Michaelis, tu és um demônio, correto? — seus olhos viraram-se do garoto para o moreno ao lado, analisando cada um.
— Como sabes? Tu és um deus da morte ou um demônio? — o menino estava chocado com a descoberta do outro, fitava-o desconfiado tentando descobrir sua identidade. Seu autocontrole começava a fugir de seus dedos.
— Nenhum dos dois. — olhou para cada um novamente — Muito menos humano.
Sebastian e Ciel se entreolharam confusos. Que tipo era aquele que sabia tão bem de ambos dessa maneira?
— Meu nome humano é Arthur Kirkland, mas podem me chamar de Inglaterra.
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O choque fora certeiro ao menino.
— Como assim? — não podia ser.
— Eu sou um país, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Mas como é um nome demasiado grande, eu prefiro por apenas utilizar Inglaterra mesmo, ou também, por meu nome humano.
O mordomo pôs o dedo no queixo e ficou a ponderar.
— Então queres dizer que eres um país?
— Exato!
— Então… se eres um país, por acaso um homem chamado Héracles Karpusi também seria um?
— O Karpusi? Sim, ele é um.
O tom sério foi substituído por um sorriso satisfeito.
— Obrigado pela confirmação!
O grande olho azul do garoto vagava atento de seu mordomo para o convidado, não conseguia entender que tipo de conversa se desenrolava ali a sua frente.
— Tratem de me dizer o que está acontecendo?
— Héracles é um conhecido meu; é o nosso principal fornecedor de azeite de oliva da Grécia e dos melhores peixes do Mar Mediterrâneo.
— Além de ter a casa cheia de gatos. — Kirkland sorriu.
Entendeu o que o loiro quis dizer e fulminou o Michaelis com o olhar, este lhe sorria, como sempre. Suspirou, nada mudaria naquele demônio quando o assunto seriam gatos; era uma de suas principais fraquezas; se é que ele realmente teria alguma fraqueza. Arthur continuava a divagar consigo.
— Héracles é um bom homem, apesar de até hoje me reclamar pelas esculturas de mármore que estão na posse de Londres. — suspirou.
— Esculturas?
— Sim, elas foram feitas pelo escultor grego Fídias e seus discípulos, e faziam parte da estrutura do Parthenon; além de mais alguns objetos da Acrópole de Atenas. — tomou mais um pouco de seu chá — Héracles reclama que os quer de volta, já que eram partes de um precioso monumento, mesmo que danificadas, depois da munição que Turquia havia deixado lá tinha explodido. — mirou Sebastian — Creio eu, que ele tenha aumentado um pouco a sua antiga rixa com Sadiq, já que ele, Império Otomano, também apoiou a retirada das esculturas por Londres.
— Hm… — Ciel ainda o encarava desconfiado, mas nada temeria, com Sebastian ao lado — E países morrem? Ou são como os demônios, digo, imortais? — sentiu o olhar do mordomo sobre si, mas ignorou.
— Isso eu não posso lhe dizer com clareza, já que eu nunca desapareci ou morri. Mas posso lhe afirmar que podemos ficar doentes e frágeis. — fez alguma careta, lembrava-se de suas crises financeiras, até mesmo sobre as batalhas navais que tinha tido com Espanha.
— E como é possível?
— A nossa população, ela nos é base de tudo. — tomou seu último gole de chá — Em épocas de graves crises, a nossa saúde pode ser ou não gravemente afetada. — a xícara fora pousada no pires — Minha mãe se chamava Britânia, ela um dia desapareceu, do nada havia se dissolvido; o mesmo com os pais de Héracles e o grande Império Romano, avô dos irmãos Vargas, ou Itália; como queiram chamar. Os antigos impérios de séculos atrás desapareceram sem nem deixar pistas; é algo que até hoje venho tentando desvendar.
Um curto silêncio se estabeleceu; tentando digerir aqueles detalhes, Ciel fitou novamente Arthur. Este olhava para um ponto aleatório no teto, como se tivesse algo interessante ali.
— E neste momento, o senhor se sente doente?
— Não, sinto-me mais forte do que antes. Graças a minha querida Rainha, e tua também; Cão da Rainha.
— Obrigado! — entornou seu chá, lentamente fechou os olhos para apreciar melhor o sabor.
Após mais algumas horas de conversa o jantar fora servido, sem mais inconvenientes.
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A escuridão já tomara conta do vasto céu; o garoto tinha pedido para que Inglaterra pudesse passar uma noite ali, mas este recusou, pois tinha assuntos a resolver com a Rainha ainda aquela noite.
Já bem acomodado em sua cama, Ciel olhava para seus dedos enquanto Sebastian voltava do banheiro vestindo o fraque que tinha retirado para não molha-lo.
— Algum problema, jovem mestre?
— Sebastian, — virou — tu acha que os países são tão fáceis de desaparecer assim?
— Provavelmente, por quê? — aproximou-se.
— O que seria de nós se Inglaterra desaparecesse do nada, como os outros Impérios?
— Não acho que seja do nada, ele mesmo tinha nos dito que foram dissolvidos. Um Império quando cresce demasiado tende a cair por seu próprio peso, assim como o Império Romano, suas fronteiras acabam por ficarem sem proteção e expostas ao inimigo; um ataque por dentro acaba enfraquecendo ainda mais o país. Infelizmente é fora isso que aconteceu com esses antigos Impérios, e que provavelmente, poderá acontecer com qualquer outro. Inglaterra é um país importante e que fora uma grande potência no passado; sei que não irá se dissolver tão facilmente como achas. — sorriu.
— Hm… — puxou a ponta do fraque, aproximando-o de si — Assim espero.
— O Conde é o cão da Rainha, caso terceiros ameacem a seu trono ou seu povo, estaremos lá para intervir. É o nosso papel!
— Assim como tu irás me servir até a morte sendo esse o teu papel de mordomo e demônio da mansão Phantomhive.
— Sim, jovem mestre!
Sebastian acabou se sentando ao lado do garoto; a pequena chama do candelabro apagou-se.
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