Entretenha-me, Sebastian
4 Vier
Notas iniciais
Chovia bastante naquela madrugada de sábado para domingo; e como o sono de Ciel era leve, logo acorda e não consegue mais dormir. O que lhe restava fazer era ficar sentado na cama e olhar para a cortina que encobria a janela. Poderia chamar Sebastian para ficar ali do seu lado e poder conversar para passar o tempo, mas ele poderia estar preparando os seus compromissos para a manhã seguinte. As horas passavam e Ciel ficava cada vez mais entediado, a vontade de chamar pelo mordomo o vencia aos poucos.
— Sebastian, venha agora.
Três toques na porta e logo em seguida os sapatos negros adentraram o quarto; a luz que as velas do candelabro que segurava refletiam em seus olhos castanho-avermelhados. Em lentos passos aproximava-se da cama, já tendo em mente um porque de ter sido chamado naquela hora da madrugada.
— Sim, jovem mestre? Não consegues dormir?
— É, se o sol ao menos estivesse no horizonte eu poderia ficar mais calmo e já começar meu trabalho.
— Bom, mas como não é o caso, trate de deitar e dormir.
— Acho que não entendestes; estou sem sono algum.
— Apenas deite, não são horas para estares acordado.
— Sebastian, eu não consigo virar de lado e dormir instantaneamente.
Pôs a mão no queixo e tratou de pensar.
— Então, queres fazer o que?
— Não faço a mínima ideia. — pensou em agarrar o mordomo pelo colarinho e dar-lhe um beijo, mas isso o fez ficar constrangido e puxar o lençol para esconder a sua face quente.
— Aconteceu algo, jovem Mestre?
— Nada.
— Queres que eu fique aqui até dormires?
— Se foi exatamente para isso que lhe chamei… — virou para o lado oposto do moreno.
Com um sorriso sarcástico nos lábios, Sebastian puxou o lençol e virou o garoto para si; inclinou-se até ele o suficiente para não cair sobre o garoto, apoiando seu braço nos travesseiros acima da cabeça dele.
— Que estás a fazer?
— O que sempre faço quando fica sem sono, o que me fora permitido desde aquela noite, lembras jovem Mestre? — acariciou sua bochecha esquerda — Ou vais dizer que não queres meu carinho? Se for o caso eu posso me retirar agora mesmo.
— Não! — apertou seus dedos nos braços do outro — Digo… quero que fiques sim, mas já sabes que tens de se retirar antes do amanhecer para evitar topar com os empregados.
— Sim.
Deu-lhe um rápido selinho e deitou-se por completo ao seu lado. As grossas gotas que batiam na janela não incomodavam mais o garoto, muito menos os relâmpagos e trovões; com Sebastian ali do seu lado, protegendo-lhe, dando-lhe carinho.
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Bard olhou para Sebastian de maneira esquisita assim que o moreno apareceu na cozinha já amarrando o avental e preparar o desjejum do jovem mestre.
— Por que estás me olhando assim? — procurou a faca para cortar em finas fatias algumas frutas já selecionadas — Tem alguma coisa na minha cara?
— Nada não… só estranhei em lhe ver saindo tão tarde do quarto do mestre. Aconteceu alguma coisa com o Conde?
A maçã que cortara caiu para os lados em duas partes, a faca arranhou de leve a mesa de madeira polida, sorte que fora uma porção mínima de força ali aplicada, caso contrário teria partido a mesa. E agora? Que fazer diante da pergunta daquele loiro enxerido, pois, naquele horário era para todos os empregados já terem se recolhido em seus aposentos. Franziu um pouco a testa, lembrou-se da promessa que fizera para o garoto.
— Tudo bem, só não repita. — fechou os olhos — E caso ocorra novamente, ao menos que sejas discreto.
— E se desconfiarem?
— Dependendo da situação, mate-os. É uma ordem! — puxou o cobertor mais para si.
— Sim, meu jovem mestre.
Suspirou.
— Bom… isso é algo que apenas o jovem mestre pode responder, a não ser que eu tenha a permissão para isso. Mas como não me fora dito nada; sinto muito, é confidencial.
E era o que tinha a falar. Não poderia simplesmente matar Bard, até porque ele era um ótimo empregado, mesmo com aquele terrível defeito de quebrar setenta por cento da louça, reduzir a pó as paredes da cozinha e pior, queimar a comida. Ele nem ao menos desconfiava da relação de ambos, apenas estranhou Sebastian estar saindo dos cômodos do jovem mestre as duas da madrugada.
Conformou-se com a resposta e voltou com a sua cara de quem acaba de acordar.
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Após perder mais um combate de esgrima para o mordomo, Ciel sentou-se em um banquinho de nobre tecido em cor escarlate. A mão direita latejava após desferir um forte golpe. Ainda tinha vontade de ver o demônio perder e deixa-lo a seus pés, sem precisar usar a explicação de lhe dar um beijo ou coisa do tipo, pois já seria golpe baixo. Deixou a espada ao lado já retirando as luvas de couro, Sebastian inclinou-se para arrumar-lhe o colarinho.
— Soube que Bard perguntou sobre a noite passada. — disse de repente.
— Sim.
— E o que lhe respondeu?
— Disse que era assunto confidencial. — pegou a espada e voltou a ficar de pé — Sei que ele não faria qualquer pressão para saber de assuntos que diz respeito apenas ao jovem Mestre.
— Muito bem. — passou a mão nos fios de uma insistente franja que caía em seu olho esquerdo — Prepare logo o chá, estou com fome.
— Temos um novo estoque de amoras, gostaria de uma torta de amoras para o chá das cinco?
— Pode ser.
Andaram até o salão, era hora do chá, e fora programado para ser na estufa. Ciel continuou rumando até o local sozinho, Sebastian fora até a cozinha preparar a bandeja.
Ao chegar, o garoto olhou ao seu redor a procura de alguma das cobras de Snake eu poderia estar repousando por ali. Como não achou, deduziu que o jovem tinha tirado o dia para caçar mais presas para seus amigos; já que a massa de ratos que habitava a mansão e ao redor dela fora meio que liquidada, pois contavam com a ajuda de Freya também. A gata e as cobras se davam muito bem, assim como Pluto.
Cinco minutos depois o Michaelis aparece com um carrinho de guloseimas.
— Aliás, acabo de ser informado de que Lady Elizabeth vem passar o final de semana com o jovem Mestre. Então alguns compromissos foram adiados. — franziu a testa — A aula de italiano terá apenas na semana que vem, e aquela reunião com um dos gerentes fora remarcada para daqui a quinze dias.
— O que? Logo amanhã?
— Sim, por quê? Tinha planos para o dia?
— Não… mas sabes muito bem que esses fins de semana com ela me tiram o sossego e paciência.
— Sinto muito por informa-lo.
— Esqueça. — comeu um pedaço da torta — Ao menos não deixe isso afetar nossos encontros.
— Encontros?
— Sim Sebastian. — fitou-o com um bico — Ou já esquecestes?
Com preguiça de explicar, tratou de comer o doce e tomar seu chá. Sentia uma ponta de raiva, mas ao menos a menina não poderia entrar em seu quarto pela noite. Tinha de lembrar-se de avisar a Sebastian para ser mais discreto ainda.
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Na manhã seguinte, a carruagem da menina já estava parada em frente à mansão Phantomhive. Ciel suspirou contrariado com a visita, mas a recebeu mesmo assim.
— Ciel! — um vulto rosa quase o derrubou assim que passou pela porta da sala de visitas — Eu estava com tantas saudades!
— Elizabeth, tu me visitastes mês passado.
— Eu sei, mas eu sempre estarei com saudades enquanto eu estiver em casa. — sorriu com as bochechas coradas.
Suspirou pesadamente e virou-se para Sebastian, com uma leve inclinação o mordomo foi em direção à cozinha para trazer chá para a garota.
— E como está Tia Francis?
— Mamãe está bem, ela não pôde vir porque teve que resolver uns problemas junto do papai.
— Então… por qual motivo decidistes vir me visitar?
— Para te convidar para uma viagem que faremos semana que vem. — disse eufórica e segurando a barra do vestido rosado.
— Desculpe, mas eu tenho tido muito trabalho ultimamente e não poderei aceitar.
— Mas, mas…
Sebastian adentrou a sala de visitas com o carrinho, uma bandeja prata com o bule e duas xícaras para chá, havia bolinhos recheados e pãezinhos. Delicadamente o moreno estendeu o pires com a xícara já com o chá de maçã para a moça.
— Sebastian… os dois estão realmente ocupados demais? — fez bico.
— Bem. — olhou rapidamente para Ciel, este lhe encarou sério — Sim senhorita; infelizmente temos muito a resolver para com a empresa. O dia das mães está chegando e as vendas aumentaram significantemente esta semana. Minhas sinceras desculpas.
— Tudo bem. — pegou um bolinho recheado e mordeu.
Ciel suspirou e levantou-se, Sebastian deu um passo para o seu lado.
— Agora terei de voltar ao escritório. — virou para o mordomo — Sebastian fique aqui fazendo companhia para Elizabeth.
Com um sorriso ele afirma. Seus olhos não desviavam um segundo sequer do garoto enquanto este seguia para seus aposentos.
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Ciel caminhava ao lado de Sebastian, em seu braço, Elizabeth agarrara como se sua vida dependesse do garoto. Sorrindo imensamente, ela o arrastou até uma ponte para ver melhor as gôndolas que passavam por baixo da estrutura.
— Como foi que eu aceitei isso? — sussurrou, fez um bico e olhou entediado para Sebastian, este apenas sorriu sarcástico e voltou à atenção para o outro lado da ponte.
— Ao menos suas pendências para com a empresa estão correndo como antes. — respondeu no mesmo tom de voz de seu amo.
— Espero que eu tenha algum tipo de proveito aqui nesta cidade, ou seria apenas mais uma perda de tempo de Elizabeth em me trazer para a Itália.
Ela realmente conseguira trazer o conde para a tal viagem, seria passar quinze dias em Veneza, como se fossem férias. No dia seguinte em que teve a sua proposta recusada, a garota foi até Ciel em seu escritório e fez novamente a pergunta, praticamente implorando. Como o menino estava com a cabeça para estourar de tanta irritação, não só com alguns problemas um sócio quanto à voz da menina que estava para lhe estourar os tímpanos, resolveu aceitar. Sabendo que teve de passar uma semana se preparando e tendo de aturar as crises de “fofura” dela, iria voltar com sua resposta, mas era tarde demais. Naquela noite Sebastian tentou lhe confortar de todas as maneiras que ele poderia relaxar um pouco nessa, maldita, viagem, pois estava ficando cada vez mais estressado com o trabalho.
— Só mesmo tu para me fazer ficar calmo em uma situação como essa.
O mordomo deu um sorriso satisfeito e aproveitou o momento que a menina largou o braço do outro e foi até a beirada da ponte receber uma flor de um barqueiro.
— Assim que descansar, eu tratarei de cuidar de sua pessoa como realmente se deve. — sorriu sedutor.
— Assim espero demônio. — devolveu o sorriso.
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A noite logo caiu, e o quarto em que se hospedaram já era o suficiente para deixá-los confortável para resolver seus assuntos pessoais pendentes. Sebastian estava certo, aquela viagem até a Itália teve sua parcela de aproveitamento.
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