Notas iniciais
NICO
Nico também estava feliz por terem em fim encontrado Leo. É claro que ele tentava não demonstrar, mas ficara satisfeito ao saber que o garoto estava bem. Jason os conduzira até ele, domando cavalos da tempestade e fazendo-os lhes levarem até o filho de Hefesto. A força do filho de Júpiter, ou Zeus, era impressionante. Nico já estava até quase se acostumando a fazer parte daquela tripulação... Quase...
Mas Leo também estava diferente. Até mesmo para ele, quem não conhecia o garoto direito, era obvio que algo acontecera enquanto esteve fora. Primeiro, porque ele não quis falar a respeito, em segundo porque ele podia perceber os constantes olhares vazios que ele direcionava ao horizonte. Como se esperasse por alguém. Ou alguém o esperasse.
Leo concertara o navio com velocidade espantosa, mesmo para ele. Restaurara os remos e libertara Nico de ter que dormir nos aposentos de Percy. Ele tentara evitar, mas todas as noites recorrera à foto em que Percy aparecia sem camisa... Quando terminava, se odiava pelo o que fizera. Achava que estava livre do que sentia, mas aparentemente estava errado. Começava até a se questionar se Jason não estaria certo e ele devesse contar aos outro o que se passava. Aquele segredo era um fardo que se tornava pesado demais para ele carregar sozinho. Já se escondera por toda a sua vida. Até quando continuaria mentindo para todos, incluindo a si mesmo?
—Ah... — Leo falou recuperando o sorriso sarcástico de sempre. — Para Jason e Piper, fiquem a vontade para usarem o banheiro... Concertei a fechadura.
Nico sentiu seu sangue gelar ao relembrar a vergonha que passara alguns dias atrás. Piper e Jason ficaram vermelhos e Leo soltou-lhes um sorriso. Como ele soubera? Hazel ou Frank devem ter comentado com ele. Era a única explicação.
—O que isso significa? — perguntou o treinador Hedge furioso. —Do que está falando, Valdez?
—Ah... —Leo desconversou ao perceber a presença do sátiro. — Nada não... Devo estar delirando. Acho que foi o esforço repetitivo.
O treinador não pareceu acreditar.
— Não me enrole, Valdez. Está sabendo de alguma coisa? Quem esteve usando esse banheiro?
Piper escondia o rosto no corpo de Jason, quem a abraçava e olhava para o chão envergonhado.
—Todos nós. — disse Leo em tom bem humorado. — É um banheiro, treinador. O que pode acontecer de ruim em alguém utilizá-lo.
Aquilo pareceu confundir Hedge.
— Ah... certo. Mas se eu pegar alguém fazendo algo suspeito...
Nico poderia rir daquilo. Quão ingênuo era aquele sátiro? O Argo II estava repleto de eventos que ele poderia considerar “suspeito”. Outro dia, pôde ouvir claramente quando Piper fora ao quarto de Jason e os dois... continuaram o que haviam começado no banheiro. Foram cuidadosos para não chamar atenção, mas Nico passara tempo demais no silencio para perceber qualquer distúrbio em suas proximidades.
Todos desviaram o olhar como se já tivessem tido alguma das experiências “suspeitas” mencionadas.
— Eu vou vigiar. Devemos estar nos aproximando da Casa de Hades a qualquer momento...
Aquilo fora só um pretexto para se isolar no seu lugar preferido do navio, o mastro. Ficava vigiando na torre coberta e observando a paisagem se mover. Ali não precisava se esconder de ninguém. Podia ficar a sós com seus pensamentos, do jeito que gostava. Na verdade, foi exatamente o que aconteceu... Sua mente vagueou nas lembranças de alguns meses atrás...
...
Nico estava passando, como de costume, no Acampamento Meio Sangue. Não gostava de ficar por lá muito tempo, mas também não conseguia ficar longe. Vez ou outra fazia uma visita ao local a fim de observar como as coisas andavam. Ele foi num dos compartimentos do celeiro reservado à Sra O´leary. Gostava de visitar a cão infernal. Era uma das poucas coisas ali que, como ele, pertencia ao mundo inferior.
Ao chegar lá, viu Percy, um saco com uns dez quilos de ração pendurado em suas costas, quantidade que ela comia numa sentada só.
—Puxa... É difícil saciar esse seu apetite, garota.
A cadela latiu animada, olhando para Nico.
Percy se virou para trás e o fitou.
—Nico... Desculpe. Não tinha te visto aí...
Ele já estava acostumado com isso. Aprendera a ser tão sorrateiro que raramente as pessoas o viam se aproximando, como se ele estivesse sempre camuflado nas sombras. Havia vantagens em ser invisível, mas as vezes isso o incomodava um pouco. — Como você tem passado?
Nico deu de ombros.
— Bem, eu acho.
Percy virou o saco de ração com certa dificuldade e limpou o suor da testa. Sua camisa laranja estava suja e molhada.
—Estava na captura à bandeira... — ele explicou notando sua expressão. — E o calor não ajudou muito... Mas ao menos ganhamos...
Ele ainda estava ofegante.
— Mas então... — continuou o filho de poseidon. —Precisa de algo?
Nico olhou para a Sra. Oleary que comia alegremente em sua tigela, que mais parecia um barril.
— Sim. Queria falar com você, na verdade. Tem tempo?
Percy colocou o saco vazio no chão.
— Claro. Se importa em me acompanhar até o riacho?
Pouco tempo depois os dois andavam ente a floresta do acampamento. Poderia até parecer tranquila, mas Nico sabia que em seu interior existiam inúmeros tipos de criaturas diferentes. Desde dragões perdidos à formigas carnívoras. Além de muitos outros perigos ocultos.
Percy chegou perto do córrego que formava um lago grande o suficiente para esconder um elefante. Nico nunca tinha visto aquela parte do rio antes, mas, como sabia, o acampamento era grande, e ele nunca ficava tempo o suficiente para notar paisagens como aquela.
— Então... O que queria dizer? Está tudo bem?
Nico demorou para responder. Não sabia ao certo o que o incomodava, mas sabia sim que algo estava errado.
— Pode não ser nada... —ele começou. —Mas acredito que algo estranho esteja acontecendo. Há rumores de que os deuses estão diferentes. Ficam a maior parte do tempo trancados no Olimpo e estão parando de receber semideuses lá. Além disso...
Nico parou de falar ao perceber que Percy havia retirado a camisa. Fitou o corpo do garoto e algo dentro dele acordou. Não se sentia assim há um tempo, mas ao vê-o daquela forma... Percy percebeu que ele parara de falar e o encarou.
— Pode falar, Nico. Estou ouvindo-o.
Nico fez força para se concentrar no que dizia...
—Então... Os espíritos também estão inquietos. Ouvi algumas coisas sobre “O Despertar da Terra” ou “A troca de Heróis”, mas não sei ao certo o que significa.
— Despertar da terra? — Percy franziu a testa e apertou os olhos verdes numa expressão pensativa. —Falou com Quíron?
—Ainda não. Não sei se é realmente motivo para alarde. Os espíritos gostam de complicar as coisas e...
—E os deuses estarem estranhos não é exatamente uma novidade. — Percy completou, sorrindo.
— É.
O garoto se abaixou e retirou a calça também, ficando apenas com uma boxer. Nico tentou não olhar estranho, mas falhou. Não sabia o que o filho de Poseidon estava fazendo, mas ele não estava preparado para aquilo.
—Ah... O que está fazendo?
Percy o fitou divertido, acomodando a roupa numa pedra próxima.
—Vou dar um mergulho. Acho que já deve saber que me sinto melhor na água... É onde consigo pensar. — Nico obviamente sabia daquilo. — Não quer vir também?
Nico quase ficou paralisado de surpresa. Não costumava a receber convites tão amigáveis assim. Na verdade, era meio que evitado por todos os outros. Era o “Filho de Hades”. Percy poderia até ser o mais próximo de um amigo que ele tinha, mas mesmo assim as coisas eram um pouco tensas entre eles. Provavelmente porque Nico o culpou pela morte de Bianca e jurou vingança. Já tinham passado dessa faze, mas as coisas nunca foram normais entre os dois. Além disso... Sempre que o via sentia algo estranho... Indecifrável...
— Ah... Não sou muito fan de me molhar.
—Posso te secar depois, se quiser. É uma das vantagens de ser filho do deus do mar, sabe?
Nico teve que pensar em outra desculpa para evitar a situação.
— E não to com roupa de banho... —assim que falou aquilo, percebeu que usara o pior argumento, pois Percy também não tinha traje específico, apenas a própria cueca.
Percy riu, mas não insistiu mais. Para ele aquilo poderia ser apenas dois amigos mergulhando num lago num dia de calor, mas Nico enxergaria de uma forma completamente diferente. Uma forma que ele nem mesmo compreendia. Apenas temia.
— Fique a vontade... —Percy se aproximou da beira do lago, mas antes de entrar, tornou a olhar para ele. —Mas sobre o que me contou... Talvez devamos realmente ficar atentos. As coisas estão bem demais para continuarem assim... E como sempre vem uma calmaria antes da tempestade...
Nico removeu os olhos do tórax dele e o encarou serio.
—Acha que está na hora da tempestade?
Percy não respondeu imediatamente. Deu alguns passos para trás e deixou a água cobri-lo até o peito.
— Não sei. Pode ser agora ou daqui a dez anos. Mesmo assim devíamos ficar com os olhos bem abertos... —Ele olhou para Nico que o fitava da margem e perguntou: — Tem certeza que não quer dar um mergulho?
Nico hesitou. A idéia começava a animá-lo. Olhava para o semideus à sua frente, a água circunscrevendo círculos ao redor de seu corpo a medida em que ele se movia. Os olhos verdes incentivando-o a pular. Talvez ele pudesse abrir uma exceção no seu modo de vida monótono. Poderia se comportar como um garoto normal, como se fosse para a piscina com um colega de escola (só que ao invés de piscina, lago no meio da floresta, ao invés de colega, companheiro de guerra e ao invés de escola, acampamento para treinamento em combate e defesa contra monstros...). Aquilo poderia ser bom para ele... Já estava prestes a remover a calça e a camisa quando ouviu uma voz às suas costas, passando pela mata e se aproximando do lago.
—Isso que chama de alimentar a cadela, Percy Jackson? —Annabeth apareceu com os braços cruzados, os cabelos presos numa trança e os olhos cinzentos furiosos. —Eu te procurei por toda a parte... — então ela viu que era Nico quem estava ali. Mudou o tom de voz e tentou soar mais simpática.
— Ah... Oi Nico. Não sabia que estava no acampamento. Vai ficar mais tempo dessa vez?
Ele se afastou desconcertado e quase caiu no lago com a roupa e tudo.
—Não. — falou mais seco do que pretendia. —Já estava de saída, na verdade.
E marchou para longe, passando pela mata densa e deixando os dois para trás. Antes que ganhasse muita distancia, parou para ouvir o que falariam às suas costas. Conseguia vê-los entre as arvores, mas eles não conseguiriam distinguí-lo.
—O que ele queria? — Annabeth perguntou.
—Apenas conversar. Trouxe ele aqui para dar um mergulho. Achei que ia ser bom para ele. Deve ser cansativo ficar no mundo inferior conversando com os mortos...
Houve silencio por um momento.
—Deve ser difícil para ele. —disse Annabeth.
—Eu sei, só não entendo o porque. — Percy parecia realmente frustrado. — Não sei porque ele se afasta tanto. Talvez ainda me culpe pela morte de Bianca.
Nico viu Annabeth se aproximar e tocar no rosto molhado do namorado.
—Não foi sua culpa ela ter morrido. Semideuses morrem em missões e Nico sabe disso. Se soubesse que ele estava aqui não viria atrapalhar...
Percy a puxou para perto, abraçando a namorada, um sorriso atrevido já se formando em seu rosto.
—Você nunca atrapalha, sabidinha...
—Percy, você está me molhando... — ela soltou uma risada
— É mesmo? Não tinha percebido.
Ele ia puxando ela para perto da margem.
—Me solta...
Mas ele a beijou na boca e se jogou com ela em seus braços nas águas esverdeadas do riacho.
Nico virou de costas. Não gostava de ser visto como alguém digno de pena. Tudo bem que não era ao certo o que eles demonstraram, mas mesmo assim. Não havia lugar para ele ali. Sabia disso. Sempre soube disso. Voltou a caminhar, mas dessa vez não parou, muito menos olhou para trás...
... Aquela foi a ultima vez que viu Percy Jackson antes de ele aparecer no acampamento Júpiter...
...
Nico abriu os olhos, fitando o mar. Aquelas lembranças o atormentavam desde que as ganhara. Não sabia o porque, pois tinha a noção de que não ocorrera nada demais, mas... Talvez fossem uma lembrança do que sentia por Percy. Momentos como aqueles tornavam difícil esquecê-lo, ou aceitar o que sentia. Talvez Jason realmente estivesse certo. Talvez ele precisasse se abrir com alguém ou iria explodir. Mas antes precisava abrir a porta para que Percy e Annabeth voltassem ao mundo mortal. Depois poderia ter uma conversa com o filho de Poseidon...
...
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