Entrelaços
3 Home is not a place.
Notas iniciais
ISABELLA
Acordei no meio da noite um pouco atordoada, percebi que ainda estava nos braços da Manu e me permiti observa-la dormir antes de cair no sono novamente.
– Isa, meu bem, acorda. — Manuela falava baixo, ao meu ouvido.
Resmunguei alguma coisa e logo abri os olhos, ela estava deitada com o corpo frente ao meu e me olhava com um sorriso enorme no rosto.
– O que foi, eu estou tão feia assim a ponto de você ficar me olhando com esse sorriso idiota? — Questionei ainda tentando despertar.
– Muito pelo contrário, você nunca esteve tão linda. — Falava aumentado o sorriso.
Pela primeira vez em muito tempo eu me sentia feliz de verdade, a Manu era como uma irmã mais velha, era quem segurava todas as minhas dores e ia curando aos poucos, ela era como meu anjo da guarda, pelo menos até ter ido embora.
– As coisas mudaram tanto, eu não sei se ainda te conheço, mas, eu sei que te quero perto. — Falei afagando os fios dourados de seu cabelo.
– Eu ainda sou a mesma garota de sete anos atrás, mais madura, mais ainda assim, a mesma. — Respondeu me puxando para um abraço.
Cada contato com aquele corpo bronzeado me provocava sensações tão malucas que, por um instante eu cheguei a pensar que a desejasse. É claro que tudo aquilo era uma insanidade completa, devia ser a falta que eu sentia dela. Me pus a observar aquelas pupilas verdes e atentas , ela tinha uma olhar que parecia aprisionar todos os mistérios do mundo, como diria Machado de Assis: "Olhos de cigana obliqua e dissimulada!". Se eu fosse associar Manuela a algum personagem literário, com certeza seria Capitu. Manuela sempre foi um tanto misteriosa e reservada, se eu não a conhecesse tão bem, confesso que teria medo de entrar em seu mundo.
– Hey, no que você tanto pensa? — Questionou.
– Nada, eu só, estou feliz que você tenha voltado.
Permanecemos mais um tempo deitadas naquele quarto, até que eu tive que ir embora, Manuela me ofereceu carona até em casa, mas eu preferi pegar um táxi até a casa dos meu pais, afinal, eu tinha que pegar o meu carro. Por sorte os pais da Manu já haviam saído, seria menos uma explicação pra dar.
Assim que cheguei na casa dos meus pais as discussões foram inevitáveis, meu pai gritava alto sobre eu ser uma vergonha pra família, ainda insistiu que eu pedisse desculpas ao Marcos e continuasse com os planos do noivado. Depois que eu me recusei ele pediu para que eu me retirasse, e eu o fiz com o maior prazer. Fui até meu apartamento e tomei um banho demorado, mesmo depois de tudo que havia acontecido na noite anterior eu não tinha nenhum arrependimento, confesso que até me sentia mais leve. Liguei o meu celular que se encontrava desligado desde a noite anterior e mandei uma mensagem de texto para a Amanda:
"Mandy, acho que preciso da minha melhor amiga. Topa tomar café da manhã comigo naquele Café simpático que a gente foi da ultima vez?"
"Ufa, pensei que ontem tinha perdido o meu posto de melhor amiga pra Manuela! Claro que eu topo, te encontro lá em meia hora. Beijos ;* "
Estranho, eu não lembrava de ter falado nada sobre estar com a Manuela na noite passada, pensei. Me arrumei e segui para o lugar combinado, poucos minutos depois Amanda estava lá.
– Pronto, agora me conta tudo! — Falou eufórica.
– É mesmo necessário todo esse entusiasmo? — Questionei sorridente.
– Você fugiu da sua festa de noivado pra passar a noite com o seu amor épico! E você ainda quer que eu não fique animada pra saber?
– Q-que? Como assim? De onde é que você tirou essa história de amor épico? — Falei me engasgando com o café forte que tomava.
– Simples Isa, eu li o seu diário, você esqueceu? — Debochava ela.
– Mais que droga! todo mundo já leu aquela coisa, eu tinha 14 anos, mas ainda não sei o que isso tem a ver com essa história de amor épico, foi com a Manu que eu passei a noite ontem. — Fingi irritação.
– Isabella sua safada, você não perde tempo! — Disse dando um tapa no meu ombro.
– Oi? Você perdeu o juízo? Eu não transei com ela, nós apenas dormimos juntas. — indaguei confusa.
– Não, eu não perdi o juízo, eu sempre soube que aquela história toda de sentimentos estranhos em relação a Manu, aqueles calores que você descrevi..- Ela foi impedida por mim de completar a frase.
– Primeiro, nós estamos em um lugar público! E em segundo lugar, me situa direito no que você ta querendo insinuar.
– Isabella, eu curso psicologia, caso você não se lembre! Eu sempre soube que existia uma ligação muito forte com entre vocês, mas só agora eu tenho certeza do que realmente é!
– Desculpa, mas eu ainda não entendi onde você quer chegar. — Arqueei a sobrancelha.
– Vou simplificar! Julgando pelo seu sorriso bobo quando chegou e todas as coisas que eu li e que você me contou, eu realmente acho que você está apaixonada pela Manuela desde aquela época, e olha que isso explica muita coisa. — Falou séria.
– Isso é um absurdo Amanda! Ela é como uma irmã pra mim, e além disso ela namorava o meu irmão. — Me defendi, indignada com o que tinha acabado de ouvir.
– Para de mentir pra si mesma Isa! No fundo você sabe que eu tenho razão. E o que o David tem a ver com essa história? Ele se foi Isa, não aja como se fosse uma traição. — Indagou.
– Já chega Amanda! Você está completamente fora de si. — Gritei, chamando a atenção das pessoas ao redor.
Levantei da cadeira, peguei minha bolsa e caminhei em direção a saída do estabelecimento, e antes de sair ouvi uma ultima frase de Amanda.
– Não Isabella, você que está fora de si.
Amanda tinha realmente passado dos limites, eu apaixonada pela minha amiga de infância? Claro que não. Adentrei meu veiculo e me pus a analisar o disparate que tinha acabado de ouvir. Apesar de todas as confusões sentimentais que eu passei na adolescencia, nunca tinha chegado a constatar nada do tipo, eu só tinha uma admiração muito grande por Manuela, era como uma irmã mais velha que me servia de exemplo, minha melhor amiga e namorada do meu irmão. De fato, eu e David brigavamos muito pela atenção dela, o que era absolutamente aceito já que eu dividia minha melhor amiga com o meu irmão. Me recordo de quando os sentimentos estranhos por Manu surgiram, e do quanto eu me arrependo de ter escrito certas coisas naquela maldita noite.
Flash-back: on
Eu estava caminhando no corredor em direção ao meu quarto quando ouvi um barulho vindo do quarto de meu irmão. Parei frente a porta e aproximei meu ouvido dela, a fim de ouvir o que se passava.
– Oh droga, eu acho que essa coisa estourou. — Meu irmão falava preocupado.
– O que? Isso não pode ter acontecido David, eu me recuso a engravidar aos 16! — Desta vez era a voz de Manuela que se ouvia.
Sai correndo para o meu quarto sem conter as lágrimas, a dor que havia se alojado no meu peito era correspondente a mil facadas. Como eles podiam ter feito isso comigo? Eles não podiam ter transado, ela era minha, Manuela era minha e David a tinha roubado de mim. Eu odiei meu irmão aquela noite, sem nenhuma logica para que o fizesse, mas odiei. Ele não a merecia, ela era tão linda e madura, e ele era um idiota que achava que sabia de tudo, eu a amava mais do que ele. Não que eu quisesse que ela ficasse comigo, nunca havia pensado nisso. E foi pensando nisso que eu começei a escrever em meu diário.
No dia seguinte a dor estava mais amena, e eu evitei ter que encarar David e Manuela o resto da semana, sempre criando alguma desculpa pra não ter que sair com os dois. Já havia se passado mais de duas semana, tinha chegado em casa tarde devido a uma festa na casa da Amanda, quando entrei no meu quarto me deparei com o garoto loiro que adotava um semblante sério.
– Senta aqui Isabella. — Falou apontando pra cama.
Permaneci em silencio e caminhei até o lugar indicado, fiz o que ele havia mandado e começei a falar:
– Seja lá o que você queira conversar, acho melhor deixar pra outro dia.
– Não Isa, vai ser agora! Você pode começar me explicando o porque de ter escrito essas coisas sobre a Manuela!
David jogou o diário com força encima da cama, me assustei com o gesto, meu irmão não era de agir dessa forma.
– Você não tinha o direito de ler essas coisas! — Retruquei, falando no mesmo tom de voz que ele.
– Eu já li o seu diário por menos, eu só queria saber o porque da sua mudança repentina. Nâo fuja do assunto Isabella Ribeiro! Onde diabos você quer chegar com isso? — David gritou.
– Eu não sei, tá legal? Eu não sei o que está acontecendo comigo! Eu só queria que isso tudo acabasse. — Falei lutando contra o choro que teimava em se fazer presente.
– Acabou, eu e a Manuela terminamos! Ela contou sobre o namoro pra os pais e o pai dela surtou. Satisfeita? O caminho ta livre pra você Isabella!
Meu irmão passava a mão nos cabelos, os olhos azuis me fitavam chorosos. Ele sentou do meu lado e segurou minhas mãos.
– Isa, eu entendo que você possa estar apaixonada por ela, quem não se apaixonaria por aquela garota? Mas, do mesmo jeito que eu não posso tê-la, você também não pode. — Ele falava baixo, ainda chorando.
– Eu não quero tê-la David! Eu não quero ela dessa forma. Aquelas coisas que eu escrevi foram só confusões da minha cabeça. Me perdoa, por favor, me perdoa? — Supliquei.
– Olha pra mim, você não tem que me pedir desculpas, eu sabia que uma hora isso ia acontecer. Você a ama tanto quanto eu, eu vejo isso nos seu olhos quando olha pra ela.
– Não David, é diferente, nós a amamos de maneiras diferentes, você sabe disso!
Abraçei forte o meu irmão e depois de um tempo o choro de ambos pareceu cessar. Olhei no fundo dos olhos dele, segurei o seu rosto e falei:
– Eu te amo David! Vai lá e consiga ela de volta, a Manu ama você. Ela ainda continua a ser minha melhor amiga, e o que eu sinto por ela nunca vai passar de um amor fraterno.
– Eu te amo muito, muito mesmo! Mas quanto a Manuela, não é a mim que o coração dela pertence.
Ele tirou minhas mão de seu rosto, beijou minha testa e saiu do quarto. Passei o resto da noite pensando no que ele havia dito, e depois de muito tempo me convenci de nunca mais pensar aquelas coisas novamente.
Flash-back: off
Dei partida no carro e em poucos minutos estava em casa, eu estava oficialmente confusa. Depois de muito tempo pensando a respeito, cheguei a mesma conclusão que eu havia chegado a sete anos atrás, era tudo confusão da minha cabeça, nada disso fazia o menor sentido. Eu amava Manuela, mas não daquela forma.
MANUELA
Depois que a Isa foi embora, eu voltei pra o quarto e fiquei pensando no quão irreal era aquilo tudo, eu nem precisei me explicar pra que ela se reaproximasse, é claro que ainda tinha muita coisa que ela precisava saber, mas tudo o que eu queria era aproveitar aquela felicidade absurda de ter ela novamente em minha vida.
Liguei pra o Filipe e pedi que ele viesse passar o dia comigo, tinha que explicar pra ele o que havia acontecido na noite anterior. Eu sentia muita falta de ter meus amigos por perto, os que cresceram comigo. Em menos de uma hora eu pude avistar o rapaz alto, forte, de cabelos e olhos castanhos entrando na casa. Eu me encontrava na área da pscina, trajando apenas um biquine azul, pude perceber que Filipe estava acompanhado e então reconheci a figura que seguia atrás dele.
– Fernanda! Eu não acredito que é você. — Falei correndo para envolver a garota em um abraço.
– Eu senti tanto a sua falta, garota! Ainda nem acredito que você voltou. — Completou, me abraçando ainda mais forte.
Fernanda era uma velha amiga, quando pequenas costumavam nos confundir devido a semelhança física, mas com o passar dos anos as diferenças ficaram bem aparentes, nossas personalidades eram opostas, toda aquela euforia era contrastante com meu humor reservado.
A tarde já estava no fim quando resolvemos entrar na pscina, Fernanda estava encostada na beira da pscina ao lado de Filipe, de fato, ela tinha mudado bastante, o biquine permitia uma análise meticulosa de seu corpo, pernas bem definidas, seios fartos, um pouco maiores que os meus. Mas, o olhar, esse continuava o mesmo, sempre pronto pra um flerte, se eu não fosse hétero talvez me permitice seduzir por aquele par de olhos castanhos. Defnitivamente, Fernanda era uma das mulheres mais sensuais que eu conhecia. A loira interropeu a minha análise dando inicio ao diálogo.
– Me fala Manu, o coração da loira mais gata que eu conheço já tem dono?
– Não Fê, não tenho muito tempo pra relacionamentos. Mas e você? Duvido muito que esteja sozinha. — Perguntei, tomando um gole de meu suco.
– Acho que não, na verdade tem alguem, mas não é nada sério. — Confessou.
– Francamente, eu que pensava que as loiras eram as mais pergigosas, estou decepcionado. — Debochou Filipe.
– Ora, você fala como se você fosse um garanhão Filipe! — Retrucou a loira.
– Esse assunto já deu! Me fala Fê, onde você trabalha? — Questionei.
– Sou secretária do Marcos Monteiro, o seu primo Manu! Estou terminando a faculdade de admnistração e vou continuar na empresa até o fim do curso. — Respondia empolgada.
– E quanto a você Manuela, quando vai começar a advogar? — Filipe perguntava interessado.
– Já consegui um emprego antes mesmo de chegar na cidade, entrei em contato com um amigo do Léo e ele me convidou para estagiar a seu lado, é um grande advogado. — Respondi.
– Léo, e quem seria esse? — Fernanda questionava arqueando a sobrancelha.
– Leonardo, ele é.. uma longa história. Prefiro não conversar sobre isso agora. — Falei, tentando me esquivar do assunto.
– Tudo bem, tudo a seu tempo. O que importa é que você voltou e que nós estamos todos juntos novamente, como nos velhos tempos! — Dessa vez era Filipe que se pronunciava.
– Nem todos Filipe, nem todos. — Indaguei.
O resto do dia seguiu tranquilo, passamos a tarde inteira na pscina, Fernanda teve que ir embora mais cedo e quando isso aconteceu eu pude situar Filipe do que havia acontecido na noite anterior.
– Você é louca mesmo Manuela, ainda bem que não foi a festa de casamento. Já até imagino a cara do Marcos no altar e você fugindo com a noiva. — Filipe falava sem conter o riso.
– Para com isso, desse jeito parece que eu é que fui responsavél, prefiro dizer que eu apenas tirei a Isabella de um lugar onde ela não queria estar. — Disse, sínica.
– Muito simples né? Mas, você já contou tudo pra ela? — Questionou.
– Ainda não, ela preferiu não conversar ontem! Mas o mais breve possivél eu estarei explicando tudo a ela. — Falei adotando um semblante preocupado ao lembrar da situação.
Ficamos mais um tempo conversando sobre futilidades até que Filipe teve que ir embora, em pouco tempo os meu pais chegariam e ele sabia que não o iriam deixar sair antes do jantar. Acompanhei meu amigo até a porta e em seguida subi até meu quarto, tomei um bom banho e resolvi mandar uma mensagem de texto pra Isa:
" Isa, espero que esteja melhor depois de ontem, queria te ver ainda hoje mas temo que não vá ser possivél, tenho coisas a resolver e creio que você também tenha. Tenha uma ótima noite, beijos, e não esquece que eu te amo. — MANU"
Apenas poucos minutos depois e a resposta veio.
" Estou melhor sim Manu, realmente queria te ver logo, mas as proximas semanas estarão lotadas, tenho muitas reuniões na empresa e uma viajem de negócios, além de ter que resolver as coisas com o Marcos. Se cuida, também te amo, vê se não some de novo! Beijos ;* — ISA"
Céus, tudo aquilo era tão bom! Reencontrar meus amigos, a minha Isa. De uma coisa eu tinha certeza, eu não iria mais embora daquele lugar. Precisava mais do que nunca comprar um apartamento, em breve minha felicidade estaria completa, só restava explicar tudo pra Isabella e me mudar com ele pra cá. Peguei o telefone e disquei o numero conhecido, e em poucos segundos a ligação foi atendida:
– Finalmente! Pensei que você tinha me esquecido. — Falou ele, fingindo birra.
– Meu amor, é claro que eu não te esqueci, você não faz idéia do quanto eu queria que você estivesse aqui!
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