Entrelaços
4 Secrets.
Notas iniciais
ISABELLA
Uma semana havia se passado desde a suposta festa de noivado, os dias tinham sido corridos, não consegui achar tempo pra ver a Manuela e nem resolver as coisas com o Marcos, de fato, os problemas na empresa estavam me consumindo. Tudo aquilo era coisa do meu pai, eu tinha certeza, o temido doutor Carlos Ribeiro tinha me feito o favor de se ausentar da empresa a semana toda e me deixar encarregada de tudo; afinal, de nada serviam aqueles paspalhos que ele contratava.
Apesar de todas as responsabilidades que ocupavam minha cabeça, vez ou outra eu me pegava pensando nas coisas que Amanda tinha falado na ultima semana, eu acabei por pedir desculpas pelo meu comportamento naquela manhã e ela admitiu ter passado um pouco dos limites. Amanda era minha melhor amiga, me conhecia melhor que eu mesma, depois da morte do David e de a Manuela ter sumido no mundo, ela foi o meu único apoio. Eu apreciava seus conselhos até aquele dia, antes dela começar com essa história de que eu estava mentindo pra mim mesma e toda aquela baboseira, onde já se viu isso? Nós concordamos em não tocar mais naquele assunto, era a coisa mais absurda, um total disparate.
Era terça-feira, meu pai resolveu dar as caras na empresa e enfim eu podia ter um pouco de folga no dia, o resto da semana seria bem menos exaustivo e eu encontraria tempo pra resolver as minhas pendencias. Já passava das 15 horas e em menos de uma hora eu poderia ir pra casa, peguei o celular a fim de enviar uma mensagem de texto para a Manuela quando alguém entrou no meu escritório batendo a porta com força atrás de si, olhei assustada ao perceber a expressão séria e repreendedora que meu ex-noivo adotava.
– Você não acha que me deve explicações, Isabella Ribeiro? — Falou o homem alto a minha frente.
– Marcos, e-eu posso explicar, eu não queria que as coisas tivessem acabado dessa for — Tentava me explicar quando fui interrompida.
– Me poupe desse papo furado Isabella! Você não precisava ter me envergonhado daquela forma, podia muito bem manter seu casinho como eu mantenho os meus. — Marcos andava de um lado a outro da sala enquanto quase gritava as palavras.
– Eu nem posso acreditar que estou ouvindo esse tipo de coisa, você consegue ser repugnante. E a propósito, ao contrario de você eu não tenho nenhum "caso". — Falei alterando meu tom de voz.
– Não se faça de tola, me poupe desse seu falso moralismo! Você acha que eu não sei do seu segredinho sujo Isabella? Eu te faria um favor me casando com você! — Marcos cuspia as palavras me olhando com desprezo.
– Falso moralismo? Não me faça rir Marcos! Não sei de que se trata esse meu suposto segredo sujo, mas lhe garanto que não chega aos pés dos seus. — Retruquei.
– Vou ser mais claro então, eu me refiro ao seu caso com a Fernanda! Você provavelmente se acha muito esperta, acha mesmo que conseguiu esconder alguma coisa de mim durante esse ultimo ano? — Falou um pouco mais calmo, com um ar de vitória.
– Não sei do que você está falando! Se me dá licença, preciso resolver algumas coisas. — Disse virando de costas pra ele.
– Bravo Isabella, bravo! — Aplaudiu enquanto ironizava. — Você vai mesmo fugir do assunto? Logo agora que eu comecei a me divertir, olha, admite logo, porque se isso não acontecer, temo pelo emprego da Fernanda.
– Você é doente Marcos! Tudo bem, eu não nego o que aconteceu, mas o que eu tive com a Fernanda já acabou e não vai se repetir, não admito que faça ameaças a carreira profissional de alguém por motivos pessoais. — Alterei mais uma vez meu tom de voz enquanto me virava frente a ele.
– Muito bem, eu só queria uma confissão. Não se preocupe, você vai encontrar a sua amada no posto de sempre! Eu só espero que não vá se arrepender das escolhas que fez, e a propósito, eu te entendo, eu também te trocaria pela Fernanda. — Disse Marcos, se dirigindo até a porta e saindo.
Eu estava consumida pela raiva naquele momento, aquele homem era repulsivo! Como é que tinha passado pela minha cabeça me casar com alguém como ele? E ele ainda tinha que colocar a Fernanda no meio da conversa, como diabos ele tinha descoberto sobre a gente? Era algo recorrente, então eu realmente não sabia se de fato ainda havia algo entre nós, de qualquer forma não seria algo duradouro. Peguei minha bolsa e sai do escritório, fui até minha casa e depois de um bom banho e de a raiva do Marcos ter amenizado, me recordei do que ia fazer antes daquele idiota entrar, antes que eu pudesse pegar o aparelho, ele havia começado a tocar mostrando a foto da Amanda na tela.
– Hey! — Atendi.
– Você tem 1 hora pra chegar na minha casa! — A voz do outro lado da linha era autoritária.
– Ah não, Mandy! Não é foi um dia legal, não pretendo sair de casa. — Falei desanimada.
– Pretende sim, a Manuela e o Filipe virão jantar aqui hoje à noite e a sua presença é de fundamental importância. Pensei em chamar a Fê, mas lembrei de que as coisas iam ficar um pouco estranhas.
– Tá Amanda, eu vou, mas só porque eu preciso ver a Manuela. E nem me fala na Fernanda, descobri hoje que o Marcos sabe da gente, mais tarde eu te conto tudo.
– Tenho duas coisas a dizer, a primeira é que você não vai sair da minha casa até me contar tudo sobre essa história do Marcos, e a segunda é que, pra quem jura não sentir nada diferente pela Manu, esse "só porque eu preciso ver a Manuela" soa meio controverso. — Falava eufórica.
– Já disse pra não insinuar nada desse tipo! É melhor a gente conversar quando eu chegar ai, tchau Amanda. — Falei sem esconder minha irritação.
– Calma garota! Eu só estava brincando, vai logo se arrumar e vem pra cá. Tchau estressadinha.
A ligação foi finalizada e eu joguei o celular na cama, não suportava ouvir qualquer insinuação que fosse sobre eu e a Manu, claro que o fato de ela ser uma mulher não era problema, depois dos 18 eu comecei a ficar com garotas e consequentemente me tornei bissexual, o problema era que eu a amava como uma irmã, e mesmo sem saber o porquê de ela ter ido embora, eu ainda a amava da mesma forma.
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MANUELA
Os dias que seguiram a noite da festa foram um pouco agitados, explorei os quatro cantos daquela cidade em busca de um apartamento, porém, todos os imóveis que encontrei pareciam não combinar comigo, "Se o Leonardo estivesse aqui, com certeza ele já teria achado um perfeito" pensei. Com tantos amigos corretores, seria fácil pra ele, e foi então que resolvi ligar.
– Alô, Manu? — Falou o homem do outro lado da linha.
–Léo, meu bem! Será que você poderia me fazer um enorme favor? — Perguntei cautelosa.
– Ora Manuela, não faça cerimonia, fale-me de uma vez o que quer. — Respondeu calmo.
– Você poderia me passar o numero de algum dos seus amigos corretores daqui?
– Você sabe que eu não gostei nem um pouco dessa tua ideia de se mudar pra ai, não é? Mas, mesmo assim, vou checar meus contatos e te mando alguns números por sms. — O tom de voz do Leonardo permanecia um pouco alterado.
– Você sabe dos meus motivos, não vou mais te explicar isso. Eu te amo Léo, sabe muito bem o quanto eu quero que você também se mude. — Retruquei, assumindo certa tristeza.
– E eu queria ir Manu, claro que eu queria! Falo isso pra o Arthur todos os dias. Mas, você sabe que eu tenho muitos negócios pra fechar no exterior, e a minha empresa é aqui, não dá pra administras os negócios do outro lado do país! — Explicou.
– Eu entendo, assim como eu espero que você me entenda! — Disse com o tom de voz baixo.
– Eu entendo Manu, só não gosto. Vou ter que desligar agora, beijos, se cuida. Ah, o Arthur falou que te liga quando chegar em casa.
– Já falei com ele hoje, ele já me avisou. Beijos Léo, se cuida também. — Finalizei.
Não demorou muito para que eu recebesse as informações de Leonardo, liguei para os números e marquei com o corretor que mais me agradou, agendei mais visitas a apartamentos e assim pude descansar. Na ultima semana eu tive oportunidade de sair mais vezes com o Filipe e a Fê, já a Isa, não conseguimos nos ver, ela estava ocupada com as coisas na empresa, e ainda tinha a situação com o Marcos. Mesmo com a confusão que eram os nossos horários, consegui manter contato por sms com a Isabella.
Era tarde de uma terça-feira ensolarada, eu estava na beira da piscina quando recebi uma ligação um tanto inesperada, era a Amanda. Foi uma conversa rápida, ela pediu pra que eu convidasse o Filipe para que fossemos jantar na casa dela, anotei o endereço e em seguida liguei pra o Filipe. Na hora marcada estávamos frente ao prédio da Amanda, Filipe interfonou algumas vezes enquanto eu estacionava o carro, e logo, a morena desceu para nos receber, ficamos um tempo no saguão até que Isabella entrou no prédio e veio a nosso encontro.
Sinceramente, algumas emoções estranhas pareciam ter me dominado quando o meu olhar se cruzou com aquela imensidão azul. Isabella estava linda, afinal, ela é linda. A forma como eu me senti não era habitual, ela me deixava sem graça, que nem quando éramos mais novas, e eu me deixei sem graça, eu não tinha de estar reparando naquele vestido colado e muito menos no corpo dela. Só foi tudo espontâneo.
Subimos até o andar de Amanda, enquanto eles falavam sobre algo da faculdade de Amanda eu me repreendia mentalmente por ter dado uma atenção exacerbada a aparência de Isabella, será que a Amanda e o Filipe tinham notado? Dane-se, e se tivessem, o que teria demais? Definitivamente, eu não tinha que me preocupar.
A cada minuto que se passava daquela noite, era como se eu me sentisse ainda mais em casa, me sentia acolhida perto dos meus velhos amigos. É claro que sem a presença da Isa, não seria do mesmo jeito. Falávamos sobre tudo, como tinha sido os últimos anos, planos pra o futuro, coisas do passado. Não éramos mais aqueles jovens imaturos de sete anos atrás, éramos adultos com suas próprias responsabilidades. É claro que o assunto "David" não pode ser evitado, todos o amavam muito, ninguém nunca soube ao certo os motivos de sua morte, enfim, esse assunto não cabia naquela noite.
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ISABELLA
Confesso que há tempos não tinha uma noite como aquela, conversamos tanto! Sim, aquilo era novo, estar feliz, era uma sensação maravilhosa. Durante boa parte da noite, o meu contato com Manuela foi um tanto superficial, ela me devia algumas explicações, mas percebi que aquilo não seria possível aquele dia. Juro, eu tentei, e como tentei! Mas, não conseguia tirar meus olhos dos da Manuela. Em certo ponto da noite, depois do jantar, decidimos por beber alguns drinks. Fui até a cozinha com a Amanda e me peguei observando a Manu, que conversava com o Filipe.
– Isa, você quer o babador agora? — Debochou Amanda.
– O q-que? Você falou alguma coisa Mandy? — Perguntei, voltando minha atenção pra ela.
– Eu perguntei se você quer o babador agora? — Repetiu.
– Para com isso Amanda, eu já falei! — Repreendi, enquanto dava um tapa em seu braço.
– Qual é a sua Isa? Você ta comendo a Manu com os olhos! — Falou entre risos.
– Eu não, eu não estava fazendo isso! — Me defendi.
– Oh não, claro que não, eu devo estar vendo coisas demais. — Debochou.
– Vem, pega logo essas bebidas e vamos pra lá! Chega de papo furado. — Finalizei me pondo a caminha em direção a sala.
Tomamos alguns, ou melhor, vários drinks. Ninguém apresentava sinais de embriagueis, até que a minha querida amiga Amanda, teve a brilhante ideia de que cada um contasse um segredo, vergonhoso ou não. O primeiro foi Filipe, tomou o restante da bebida que estava em seu copo e se pronunciou:
– Eu já fui preso! Duas vezes. Antes que vocês façam aquela cara de garotinhas assustadas, em ambas às vezes foram brigas em boate que o Fábio começou.
Todas rimos, o Fábio era o irmão mais velho do Filipe, um tremendo encrenqueiro, diferente do irmão. A segunda a falar foi Amanda:
– Eu não tenho muitos segredos, mas acho que esse vale. Eu transei com o meu professo de Sociologia! Ponto, falei.
– Mandy, sua vadia! — brinquei, jogando a almofada encima dela.
– E eu pensando que o meu segredo era interessante! — Acrescentou Filipe.
– Deus do céu! Olha só que companhias eu vim arrumar. — Falou Manuela com um sorriso nos lábios.
– Bem, acho que agora é a minha vez. Então, vou aproveitar o motivo da minha discursão com o Marcos mais cedo e vou simplificar. — Tomei um gole da bebida e prosseguiu. — Eu traí o Marcos com a estagiária dele!
Filipe e Manuela me olhavam incrédulos, como a Amanda já sabia, não fez alarde.
– O que diabos você fez? Você e a Fernanda? É muita informação pra processar. — Manuela falava em tom de acusação.
– Pois é Manuela! Eu e a Fernanda temos os nossos momentos. — Falei, com um sorrido lascivo nos lábios.
Amanda nos olhava confusa, e Filipe estava distante, triste talvez, meio a um estado de choque. Em um impulso o rapaz de cabelos escuros se levantou do sofá e caminhou em direção ao banheiro. Eu e Amanda nos olhamos cumplices e dirigimos o olhar a Manuela, que estava enfurecida.
– Ele a ama, o Filipe ama a Fernanda desde os 14 anos, será que vocês nunca perceberam isso? — Manuela falava com os braços cruzados.
Fizemos um gesto negativo, quase que sincronizado, e Manuela continuou:
– Desde quando você fica com mulheres Isabella? — Perguntou um pouco mais calma.
– Desde os 18, Manuela, mas não creio que isso é da sua conta. — Respondi.
– Claro que é, eu prometi ao David que cuidaria de você! — Retrucou.
Antes que a conversa virasse uma discursão, Amanda se pronunciou:
– Você ainda tem muito que conversar, não se exaltem. Vamos continuar com a brincadeira, ainda falta você Manu.
Concordamos com que ela dissera, em pouco tempo o Filipe retornou e demos continuidade.
– Vamos Manuela, o que você esconde? — Questionou Amanda.
– Eu já fui casada, por 3 anos! — Respondeu.
Todos a olhamos incrédulos, nenhum de nós havíamos recebido essa informação. Ela não podia ter sido casada! Não podia.
– Quem é ele, como vocês se conheceram? — Perguntei seca.
– O nome dele é Leonardo Bertan, o conheci em um acampamento de férias pouco antes de eu ir embora, eu ainda namorava o David na época. Reencontramo-nos no aeroporto assim que voltei da Austrália, saímos, namoramos, casamos. O divorcio foi há dois anos, somos grandes amigos hoje em dia. — Explicou.
Enquanto Filipe e Amanda a enchiam de perguntas, eu apenas observava. Não podia acreditar naquilo, não era o tipo de coisa que a Manuela faria, então era oficial. Eu não a conhecia mais!
Notas finais
De qualquer forma, comentem, criticas ou elogios, ta valendo tudo!
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