Entre suas asas
15 Como você quer que eu mantenha a calma?!
Notas iniciais
POV PATCH
Nora está deitada perfeitamente em sua cama desarrumada, os cabelos indomáveis sobre seu pescoço aparentemente macio, onde uma hora atrás meus lábios se encontravam. Tão delicadamente quanto poderia ser, deslizei minha mão pela a lateral do seu rosto, lamentando-me por não poder senti-la fisicamente.
Scott pigarreou do outro lado do quarto. Me escoro na poltrona, ao lado da cama, e cruzo meus braços. O olho de cima.
–Algum problema, estagiário?-Pergunto desdenhoso. Não fosse por Nora, o mataria naquele exato momento.
Ele franziu o cenho e deu um passo em minha direção. Permaneci parado, apenas meus lábios movendo-se em um sorriso. Estou torcendo para ele me atacar, assim terei um motivo razoavelmente convinciente para arrancar seu coração fora.
Abro e fecho as mãos. Scott parou, os olhos tornando-se fendas.
–Não me chame de estagiário- praticamente rosnou para mim. Pego um pedaço de madeira do açoalho sem esforço algum, ciente de que ele me observa atento.
Ouço seu coração acelerar-se dentro do peito. Meu sorriso se amplia.
–Sou melhor do que você. Sou de primeira linhagem, estou sendo treinado para me tornar um Arcanjo futuramente, e você não passa de um anjo caído, que não sente, que é menosprezado por todos no céu.
Suas palavras cutucaram alguma coisa dentro de mim, mas não dei importância. Sutilmente, me ergui da poltrona. O pedaço de madeira girava na minha mão.
–Você se acha superior?- Eu pergunto, arqueando as sobrancelhas, analisando todas as reações e emoções que volta e meia ficavam evidentes para mim.
Scott ergue minimamente o rosto, numa óbvia postura de superioridade, porém, não se deu conta de que seus ombros vacilaram um pouco. Ele está com medo, deve ser a primeira experiência dele aqui na Terra. Não, com certeza era. Provavelmente nunca tinha visto um anjo caído ou nefilins na sua ridicula e celestial existência.
–Nós, verdadeiros anjos, somos superiores.- Murmura com um leve tremor no lábio inferior. Ah, como eu me divirto.
–Realmente, estou surpreso- digo, repousando as mãos atrás da nuca.
–Com o quê?- Sua voz é ríspida. Uma coisa eu não podia negar, apesar de estar claramente com medo, ele não fugia. Louvável até.
–Que mandaram você para proteger Nora. Você deve ter sido treinado por alguém lá em cima, mas é claramente um estágiario. Sabe o óbvio, mas não consegue entender e prever coisas subjetivas. Aqui, na Terra, o seu conhecimento não vale de nada. O Arcanjos estão decaindo. Que irônico- eu sorri de lado.
Sua pele ficou vermelha, e antes mesmo dele sair em disparada na minha direção eu joguei a madeira que segurava na mão certeiramente no seu peito, muito próximo de seu coração pulsante.
Cocei meu queixo e o som que produziu por conta da minha barba por fazer ressoou surpreendemente alto no quarto. Scott retirou a minha arma improvisada, deixando sua camisa manchada de sangue e a jogou no chão com raiva. Vermelho definitivamente era a minha cor preferida.
Ui, ele está bravo.
–Você não merece Nora. Você só vai fazê-la sofrer- ele fala entre os dentes, claramente sentia dor e apesar disso estar perfeitamente claro para mim, ele tenta esconder. Sua respiração está irregular.
Respiro fundo.
–Scott, eu não vou fazer mal algum à Nora, será que isso não é evidente? Poderia ter a matado antes de você chegar, antes de você receber informações previligiadas dos Arcanjos. Seus inimigos, agora são os meus também.
Ele endireitou o corpo, parece que o ferimento começava a se cicatrizar. Estranho, apesar de saber que nos recuperamos rápido, Scott me deixou intrigado. Talvez tenha feito um estrago superficial...deveria ter jogado com mais força.
–De quem está falando?
Cruzei os braços e bufei.
–Damon, Elena e boa parte da classe Não Humana da Terra. Nora é valiosa, é a única ligação que temos com o pai dela. Se eu fiquei sabendo de sua existência, não é óbvio que outros também desconfiem?- Minha voz está entediada. Eu estou entediado.
–Você está blefando- murmurou, pousando a mão no local ferido.
–Você é burro. Investigue. Peça auxilio do céu, mas faça algo de útil pela a vida de Nora.
Ele piscou, olha para a Nora e depois para mim. Não gosto da ternura que vislumbrei em seu olhar quando fitou o rosto dela.
–Vou verificar, e se você estiver mentindo...- a ameaça pairou no ar. Arqueio as sobrancelhas.
–Você o quê?
Scott deu um passo convicto em minha direção quando nós dois percebemos, ao mesmo tempo, uma respiração irregular no recinto. Olho para a cama. Nora está sentada, os olhos muito abertos. Olha de mim para Scott a todo momento.
–O que estão fazendo aqui?-Ela pergunta, a voz um tanto esguaniçada. Ela cora um pouco e pigarreia. Amo a tom avermelhado que toma o seu rosto por conta de pouca coisa, era tão fácil deixa-la constrangida.
–Nora, você está bem?- Scott indaga, aproximando-se da guarda da cama, fitando-a preocupado.
Ela assenti com a cabeça, mas mal prestava atenção em Scott na sua frente. Seus olhos estavam grudados em mim. Sorri para ela. Nora baixou o olhar e mordeu o lábio. Infelizmente, sabia que não havia esquecido do que acontecera no Delphic.
–Scott, me deixa sozinha com o Patch- pediu, encolhendo um pouco os ombros. Scott me fitou de soslaio.
–É melhor não...você precisa ser cuidada.
–Estagiario, por favor. Não complica.- Falo, revirando os olhos.
–Ele não vai fazer nada. Saia por favor.
Claramente irritado e tenso, levanta-se a saí pisando forte no chão, mas sem antes lançar-me um olhar de ódio. Eu desconfiava de que ele ficaria no andar de baixo, escutando a nossa conversa.
Estávamos sozinhos no quarto agora. Segui até a beirada da sua cama, sentando-me ao seu lado. Seus olhos acizentados tentavam me analisar, e não demorou muito pra uma ruguinha de frustração surgisse entre suas sobrancelhas.
–Eu sonhei, né?- Indagou, a voz fraquinha.
Naquele momento eu desejei ser um cara normal. Ser humano e poder ter uma vida com ela. Desejei isso mais do que qualquer coisa que já tenha desejado na minha vida.
Eu suspirei e, ao vê-la ali, tão frágil (apesar dela achar o contrário), não tive coragem de pronunciar uma palavra sequer.
Balancei a cabeça em negativa. Nora ficou séria por um momento e depois sorriu. Mas não era o seu sorriso normal, era mais nervoso, menos autêntico.
–Isso não existe. Vocês estão chapados- diz ela, gesticulando com as mãos, agitando o ar entre nós. Percebo com pesar que ela se afasta de mim, tentando ser discreta.
Nora era tão óbvia, que eu duvido muito que algum dia na sua vida consiga ser realmente discreta e esconder seus sentimentos. O meu oposto ingavel.
–Não. Tem coisas que você não sabe.
Ela ergueu uma sobrancelha e cruzou o braço. Está me desafiando.
–Tipo o quê?
–Eu não sou bom, nunca fui.
Nora baixa o olhar por alguns segundos. Agora me olha nos olhos por um tempo considerável e balança a cabeça num gesto insconciente.
–Eu não duvido- sua voz soando um pouco mais alta que antes.- Mas você não me fará mal, eu sinto.
No seu rosto havia esperança.
–Não farei mal algum a você.
Ela puxou um fio de linha do cebertor e pôs uma mexa de cabelo atrás da orelha.
–O que você já fez de tão ruim?
–Matei.
–Por letígima defesa?
–Por interesse pessoal, simplesmente.
Nora ergeu ligeiramente o corpo e sua postura esperançosa vacilou.
–Você se arrepende?
Houve uma pausa desconfortável.
–Nem um pouco.
Nora levanta da cama com pressa e fica no outro extremo do quarto.
–Vocês estão mentindo pra mim. Por quê?- Seu rosto se contorce em confusão e frustração. Logo ela cairia em prantos, já a conhecia. Meu peito se apertou.
Não me importo com ninguém, mas com ela é diferente. Se ela se sente mal, eu também me sinto. Isso é extremamente irritante e desconfortável.
Retiro a minha camisa mais uma vez para ela naquela noite.
–Encoste na minha cicatriz.
Nora se abraçou e ergueu uma sobrancelha.
–Que cicatriz?- Ela quer saber.
Me viro de costas, deixando com que ela visse a cicatriz escura e fina em formato de V de cabeça para baixo nas minhas costas, onde, um dia, minhas asas costumavam estar.
Sentia meus ombros subindo e descendo. Eu devo estar muito louco para deixar alguém me invadir dessa forma!
E eu estou louca pela a Nora, e faria tudo para vê-la bem. Talvez isso conte no dia do Juízo Final ao me favor.
Ouço os seus passos tímidos, caminhando até mim. Ela está bem atrás de mim. Será que ela já enconstou?
POV NORA
Minhas costas estavam úmidas, eu sentia o suor pegajoso colando minha blusa no corpo e fios de meu cabelo no rosto. O ar abafado dificultava a minha respiração. Meu coração parecia que cavalgava dentro do peito e uma vertigem terrível tomava minha mente e corpo.
Fiquei em alerta quando ouvi passos na minha direção. Não havia percebido até então que estava numa floresta fechada, e o sol quente queimava a minha pele exposta. Rapidamente percorri uma trilha sinuosa, em direção a um arbusto muito frondoso.
Me encolhi ali, fazendo força para respirar. Meu Deus, que merda é essa agora?
Os passos se fizeram mais presente e pararam de repente. Pus a cabeça para o lado, me contorcendo toda para poder vislumbrar quem estava ali sem correr o risco de ser pega. Meu senso de perigo gritava alto.
Dois homens altos e estranhamente atraentes. Uma garota de estatura média e longos cabelos castanhos.
Patch, Damon e Elena.
Damon parecia irritado e exasperado, assim como Elena, mas Patch se mostrava relaxado e indiferente.
–Não tente me fazer de idiota!- Ele exclamou.
–Você é idiota, Damon- respondeu Patch ao coçar a lateral do seu rosto.
Elena grunhiu e, de repente, as veias ao redor de seus olhos tornaram-se grossas e roxas. Seus olhos foram envoltos numa escuridão assustadora, e os caninos afiados foram expostos. Coloquei a mão na boca para reprimir um grito.
O que era aquilo?! Por quê Patch não saia correndo?
Meu Deus, eu preciso sair daqui, eu preciso. Me esgueirei para mais além do arbusto, ainda escondida pela a grama alta. Quase me rastejando, me obriguei a ir até o próximo arbusto.
Não tinha visto um espinho enorme entre as folhas secas e gritei alto. O sangue começou a escorrer pela a palma da minha mão. Meus olhos se arregalaram. Eu seria descoberta.
Esperei, abraçando meus joelhos até que alguém aparecesse, mas ninguém veio ver quem é que estava bisbliotando a conversa alheia.
–Patch, sabemos porque você veio para essa cidadezinha rídicula, você quer a cura tanto quanto nós. Podemos dividir. Onde o pai de Nora escondeu a merda da cura?- Indagou a voz de Elena.
Que estranho. Será que não tinham me ouvido?
Me levantei cambaleante, me expondo completamente. Ninguém me deu bola. Caminhei até estar entre os três. Era como se eu fosse invísivel, e foi então que me lembrei que tinha encostado na cicatriz de Patch minutos antes.
–Não sei onde o pai de Nora colocou as anotações que fez, e nem mesmo ela sabe. Deixem-na em paz- a voz de Patch era calma e baixa, porém, o tom ameaçador estava implicito.
Elena olhou para Damon com a sobrancelha erguida.
–Essa conversa é inútil, ele sabe, mas quer a cura só pra ele- resmungou, parecendo uma criancinha mimada e contrariada.
Damon balançou a cabeça em negativa e suspirou fundo, seus olhos grudados em Patch.
–Você está apaixonado por ela- não fora uma pergunta, era óbvio, mas mesmo assim Patch abriu um sorrisinho sinisitro e respondeu:
–Está tão na cara assim? Que pena, pensei que tinha conseguido esconder- disse com a voz debochada.
–É inútil- murmurou Elena mais uma vez, mas não sabia dizer se se referia a tentar tirar alguma informação de Patch, ou sobre o próprio Patch.
–Vamos conseguir com ou sem a sua ajuda. Também temos cartas na manga, temos pessoas do nosso lado- falou Damon.
Patch revirou os olhos e massageou a ponte do nariz.
–Ameaças vazias a essa hora da tarde não, por favor- disse.
Damon sorriu de lado. Tive a impressão de que ele falava sério.
–Vou matá-la, Patch- disse Elena antes de desaparecer junto com Damon.
Fiquei parada, de frente para Patch. Pulei, fiz a dança da chuva, mas nada. Nada aconteceu.
Fui tomada por uma escuridão densa, a sensação de vertigem me tomou novamente, e em menos de duas batidas do meu coração, o cenário mudou completamente.
Meu quarto, a noite. As cobertas no chão, a poltrona ao lado da cama. Estava friozinho e Patch se encontrava de costas para mim.
–O que é que eles são?- Perguntei, minha voz saindo mais baixa do que eu esperava. Parecia que um nó havia se alojado na minha garganta.
Patch virou-se para mim, os olhos atentos como sempre, me observavam.
–O que você viu?- Quis saber.
–Damon e Elena na floresta. Ela me ameaçou...- não pude conter as lágrimas que, sem permissão, começavam a transbordar pelos meus olhos. Passei as costas da mão ali, tentando contê-las um pouco.- O que meu pai tem a ver com isso?
Ele assentiu, parecia que recordava perfeitamente do que eu dizia.
–Isso foi hoje mais cedo.
Legal, mas esse fato não me era reconfortante. Fiquei parada, olhando para o seu rosto, esperando mais alguma informação.
Patch desviou o olhar um momento e suspirou pesado.
–Seu pai era um Nefilin.
Pisquei. Meu peito doía, e eu fazia força para respirar com eficiência.
–Tipo...não entendi...o que é que...
–Nefilins são uma raça criada pelo ato sexual entre humanos e anjos caídos.
–Eu estou sonhando?- Dei um passo para trás. Fechei os olhos com força e depois os abri. Mas nada tinha mudado, Patch ainda estava na minha frente, com a expressão preocupada, como se eu fisse louca o suficiente para cometer suícido.- Isso é loucura.
–Você mesma viu.
Concordei automaticamente coma cabeça. Lembrei-me do rosto deformado de Elena.
Uma informação passou-me pela a cabeça. Abri a boca num grande O.
Havia visto diversas séries e filme com a temática sobrenatural. Olhei para a palma da minha mão, e não havia ferimento algum ali.
–Eles...eles são vampiros?
Me senti uma idiota por pronunciar em voz alta aquela pergunta. A ideia parecia ridicula, isso não existia. Ou pelo menos, não era pra existir.
–São.
–Tá, vai me dizer agora que existem fantasmas!- Quase gritei, minhas emoções estavam fora de controle. Eu me sentia completamente descontrolada.
Patch deu de ombros.
–Existem. Tem um outro plano além desse, onde os seres sobrenaturais habitam depois que morrem. Infelizmente, para os anjos caídos o lugar é bem menos glamuroso...- comentou, indiferente.
Como ele podia se manter tão calmo assim?
Chutei a minha escrivaninha. Os retratos caíram no chão e um frasco de perfume estava prestes a se espatifar quando Patch o pegou no ar e o repôs novamente no lugar.
–Você está muito nervosa, precisa de acalmar.
–Ah, sim. Você acaba de me dizer que existem anjos caídos, da guarda, vampiros, fadas e fantasmas e quer que eu fique calma?!- Berrei.
Patch mordeu o lábio para reprimir um sorriso e aquilo me deu nos nervos.
–Nunca falei que existiam fadas- retrucou.
Lhe mostrei o dedo do meio.
–Vai ficar tudo bem, anjo. Eu te prometo.
–Porque eles não te mataram? Eram dois contra um.
Patch sorriu com superioridade.
–Sou um anjo caído, é necessário bem mais do que dois vampiros para me deter.
–Se eles são perigosos, porque então VOCÊ não os matou?
–Eles tem informações, preciso deles ainda. -Ele franziu o cenho.- Não vou deixar ninguém machucar você, Nora- repetiu.
Dei de ombros, virando-me de costas. Sentia meu corpo inteito balançar por conta do meu choro convulsivo. Os braços de Patch me envolveram, me abraçando forte, mas sem me virar para ele. Talvez estivesse me dando algum tipo de privacidade, não sei dizer.
–O que eles querem comigo?- Sussurrei entre soluços.
–Antes de te fazerem algum mal, terão que passar por mim- murmurou convicto. E, apesar de serem apenas palavras, aquilo meio que me reconfortou.
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