Entre suas asas
3 Como se não pudesse piorar...
Notas iniciais
Cheguei em casa por volta das 18:00 da noite. Joguei minha mochila em cima do sofá e fui para a cozinha pegar algo para comer. Abrindo a geladeira não encontrei nada que me agradasse naquele momento.
Eu não estava com fome. Eu estava com vontade de comer.
Às vezes eu dava graças a Deus pela a minha genética. Se não fosse por ela, eu provavelmente passaria dos 100 quilos facilmente.
Catei uma maça de dentro da fruteirinha que mamãe deixava no centro da mesa e me escorei na pia. Furtivamente meus olhos iam de encontro ao relógio, os ponteiros lentamente caminhando rumo às 19:00 da noite. Dei uma mordida na fruta e mastiguei lentamente enquanto ponderava minhas escassez de alternativas. 1) Eu poderia ir até o garoto do qual eu ainda nem sabia o nome e deixar meu orgulho escorrer por água abaixo. 2) Eu poderia simplesmente não ir, e na aula de amanhã propôr ao meu parceiro que trapaceassemos no trabalho. Tipo, poderíamos inventar, certo?
Não era tão errado assim. Provavelmente, os anjos que guardam a porta do céu não nos impediriam de entrar somente por conta disso, né?
Balancei a cabeça concordando comigo mesma. Terminei de comer a maça e joguei o caroço no lixo. Pegando minha mochila ao passar pela a sala, subi as escadas de dois em dois degraus, ansiosa para chegar no meu quarto e tomar um banho relaxante. Eu estava muito cansada, e precisava deitar na minha cama quentinha e dormir o máximo possível.
Depois do banho eu já estava embaixo das cobertas, somente meu rosto para fora. O vento uivava do lado de fora, e a única luz provinha do abajur que ganhei de papai há alguns anos atrás. Digamos que tenho receio do escuro, e sou levemente medrosa. O galho de uma árvore arranhou a minha janela e meu coração acelerou dentro do peito.
Suspirei zangada. Não deveria ter ido ver aquele maldito filme de terror sobre fanstasmas e dêmonios semana passada. Mamãe havia me alertado, mas Vee me convenceu do contrário, que seria legal e que não era muito assustador.
Meu celular tocou. Pus o braço pra fora das cobertas e o peguei em cima do criado-mudo.
–Fala, Vee.
–Você já está deitada?- Perguntou com a voz esquisita. Acho que estava comendo alguma coisa.
–Há muito tempo- falei ao dar uma olhada no relógio. Já passavam das 21:00 e eu ainda não conseguira pegar no sono.
–Não conseguiu dormir, né?
Balancei a cabeça em negativa, para depois me dar conta de que Vee estava do outro lado da linha e não poderia ver.
–Não- suspirei.- Culpa daquele filme que você me obrigou a ver- culpei-a.
Ela resmugou alguma coisa ininteligível.
–Eu também. Desculpa, juro que não te levo mais pra ver filme de terror.
Sem aviso prévio ouvi Vee dar um grito do outro lado da linha telefônica. Sentei-me na cama em um rompante com a mão sobre o peito e a respiração alterada.
–Ai meu Deus, o que houve???
–Acho que vi um vulto, Nora- sussurrou ela, a voz esganiçada.- Ai. Meu. Deus.
–Para, Vee, isso não tem graça.
A maldita começou a rir ruidosamente, eu podia praticamente vê-la diante de mim se sacudindo toda, curtindo com a minha cara.
–Nora, você é a pessoa mais covarde que eu já conheci- falou entre risos.
Estreitei os olhos.
–Vou dormir, amanha tem aula. Boa noite, Vee.
–Não ficou brava, né?
–Não.
–Não?
–Não.
–Não mesmo?
–Não.
–Jura que não?
Eu ri.
–Não, idiota, agora vou dormir mesmo. Beijo.
Não quis comentar para ela que a dificuldade de pegar no sono era mais por conta do meu novo parceiro do que do filme. Ele tinha um sorriso condescendente muito bonito...e o corpo então, nem se fala. Eu me encontrava ansiosa e na expectativa quanto a aula de amanhã.
Lá pelas dez da noite, finalmente peguei no sono embalada por pensamentos assustadores por conta do filme, e pensamentos excitantes por conta do aluno novo.
O que, obviamente, me fez ter sonhos esquisitos, do qual ele era um fantasma que queria possuir o meu corpo. Me remexi a noite inteira. Mais uma noite de sono mal dormida.
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Estava sentada na cantina ao ar livre da escola com uma bandeja de metal diante de mim. Estavam ali dois sanduíches tamanho grande um copo de chocolate quente.
Estavam, porque eu acabara com tudo em menos de cinco minutos.
–Não tem comida na tua casa não?- Indagou Vee ao erguer um espelho de mão e desizar o batom rosa pink pelo os lábios largos e volumosos. Ela juntou os lábios um no outro e deu um beijo no ar.
–Jantei uma maça ontem- dei de ombros.
–Estava ocupada demais conversando com o garoto misterioso, é?- Sua voz era extremamente divertida. Franzi o cenho.
–Não fui encontrá-lo.
Ela me lançou um olhar inquisitivo.
–Não estava disposta- concluí. Vee abriu um sorriso maroto.
–Seeeeei.
Ela inclinou-se para o lado, fixando os olhos em alguma coisa ou alguém. Virei-me para trás, a fim de verificar o que havia lhe chamado a atenção. Um menino moreno, com muitos musculos e capitão do time de basquete da escola estava olhando para ela. O celular de Vee piscou e ela leu rapidamente a mensagem de texto que chegara. Seu sorriso ampliou-se de orelha a orelha.
–Preciso que você me ajude- falou ao me puxar e levar em direção ao ginásio.
–O quê?- Questionei hesitante. Vindo de Vee, qualquer ideia seria possível, desde de cabular aula, até assaltar o Banco Central.
– O Jeremmy quer me encontrar no ginásio. E você sabe -ela aproximou-se mais de mim, como se fosse um segredo de estado- o diretor disse que se me pegasse aos beijos com outro garoto dentro da escola iria chamar meus pais para uma reuniãzinha que provavelmente não deixaria nenhum dos dois satisfeitos comigo.
Eu ia segurar vela e ficar parada igual uma estátua esperando os dois terminarem de se pegar. Em qualquer outro dia normal, eu teria me negado e inventado uma desculpa, mas como Vee me fizera um grande favor ontem, eu meio que me sentia na obrigação de ajudá-la agora.
Jeremmy e Vee estavam do outro lado da quadra, meio escondidos atrás da arquibancada, mas eu ainda conseguia vê-los. Olhei para o meu relógio de pulso pela a milésima vez. Já fazia uns 10 minutos que eu estava ali vendo praticamente um filme impróprio para menos de 16 anos.
–Pensei que a sua namorada era ciumenta- havia um ponto de interrogação imaginário na sua frase. Me virei para o lado, e assim de confirmar a presença dele, quis sair correndo até o vestirário feminino e me afogar na água da privada. Ele sorria de lado, um sorriso preguiçoso. Os olhos, como sempre, me analisando.
Pigarreei.
–Agora estamos mais liberais e tal- falei, olhando para as minhas mãos no sobre o meu colo.
–Ela parece estar gostando- cutucou ele, se concentrando para não rir da minha cara.
–A gente terminou.
–Por minha causa?
O fuzilei com os olhos. Ele ainda mantinha um sorriso no rosto, estava se divertindo às minhas custas e eu não permitiria isso.
–Óbvio que não, eu mal conheço você.
O garoto esticou-se todo no banco, diminuindo de forma dissimulada o espaço entre nós.
–Podemos mudar isso.
–Não, obrigada.
–Estou falando referente ao trabalho do professor Nathanael. Por quê não foi me ver ontem?- Perguntou. Sua expressão não mostrava ressentimento ou raiva. Ele estava achando graça, e eu não conseguia entender o por quê.
–Não estava me sentindo bem- menti.
–Mentirosa.
Me remexi no banco e me levantei, jogando os cabelos para trás e torcendo para que ele não estivesse uma juba de leão.
–Então, eu não te conheço e nem sequer sei o seu nome.
O menino permaneceu sentado, ou melhor, jogado na arquibancada. O sorriso preguiçoso estendeu-se pelo o seu rosto inteiro.
–Me chamo Patch.
Pisquei algumas vezes antes antes de responder.
–Então Patch, eu não fui muito com a sua cara, se é que ainda não percebeu -enquanto pronunciava as palavras que decorara na noite anterior, eu gesticulava freneticamente e mantinha o cuidado de não olhar em seus olhos.- E sei que você não quer fazer esse trabalho tanto quanto eu não quero fazer.- Comecei a caminhar de um lado para o outro. — Daí eu tive uma ideia. A gente pode simular os gráficos...- o fitei e ele me olhava quieto, então continuei- tipo, a gente pode inventar os resultados diários, então nós dois não precisaremos nos suportar mais do que uma hora por dia.
Eu sorria esperançosa, nervora e ansiosa. Patch demorou alguns segundos antes de responder.
–Você quer trapacear, Nora?- Ele ergueu as sobrancelhas.
Eu corei fortemente. Podia sentir o rubor subindo dos pés até meu último fio de cabelo.
–Podemor ir, Baby?- Perguntou Vee atrás de mim. Me virei num salto, agradecida por ela ter finalmente aparecido.
–Eu sou Patch, novo parceiro de Nora- falou Patch antes que eu pudesse respondê-la. Ele levantou seu corpo esguio e estendeu a mão para Vee.- E você deve ser a namorada dela, certo?
Estava na cara de Patch que ele estava fazendo aquilo só para me constranger. Ele já sabia que eu menti a respeito do meu namoro ficticio com Vee.
Vee pegou a mão dele automaticamente e a soltou depois de um leve balaçar. Seu rosto estava tão corado quanto o meu e sua boca abria e fechava sem parar.
Patch forjou uma expressão confusa. Me imaginei batendo sua cabeça no chão.
–Você e Nora estão namorando?- Indagou Jeremmy, apontando o dedo de Vee para mim diversas vezes. Desabei na arquibancada, as mãos na frente do rosto. Isso é um sonho. Isso não está acontecendo.
Vee fitou-o com os olhos arregalados.
–Não, claro que não!
–Somos amigas, só- afirmei de forma humilhante.
Jeremmy olhou para Patch, que por sua vez ergueu as mãos até a altura dos ombros.
–Estou mais confuso do que você, amigo.- Disse franzindo a testa.
Mentiroso, pensei.
–Preciso treinar agora_ falou ele, virando as costas e partindo rapidamente.
Vee me olhou furiosa, balbuciando silenciosamente um "você me paga, Nora."
_Espera, Jeremmy!_ Gritou, saindo correndo desajeitada por conta do tênis de salto que usava. Observei eles passarem pelas portas gigantes do ginásio.
Patch agora não tentava esconder o riso. Ele ria alto e sacudia seu corpo todo. Me levantei, tentando esconder o constrangimento com irritação.
–Tá, vamos fazer o que eu te prôpus ou não?- Perguntei com as mãos na cintura, olhando-o com o nariz empinado.
Patch ainda tinha humor nas feições. Sentou-se novamente na arquibancada e cruzou seus braços compridos, fazendo com que seus musculos bem delineados e definidos se sobressaicem através da camiseta preta que usava.
–Eu não trapaceio, Nora.
–É essa a sua resposta então?
Patch afirmou com a cabeça.
Joguei as mãos pra cima, indignada.
–Okay. OKAY.
Já estava movendo minhas pernas em direção a saída, mas dei meia volta e parei diante dele. Parece que minhas reações eram engraçadas. Talvez se eu não conseguisse entrar para a faculdade, eu poderia trabalhar como palhaça.
–Não quero mais fazer dulpa com você. Vou pedir para trocar de parceiro.
Patch deu de ombros.
–Está com medo de mim? Acha que podemos ter um tórrido relacionamento do qual você poderia sair magoada? Ou tem medo de perder o controle quando está ao meu lado?- Zombou, mas havia um brilho sinistro em seus olhos. Meu pelos do braço de arrepiaram, então puxei a camiseta disfarçadamente para esconder.
Minhas bochechas ainda estavam vermelhas e minha expressão provavelmente era a de poucos amigos.
–Não. Você é um idiota- falei e parti.
Na última aula cheguei antes de Patch. Assim que me viu sentada ele abriu um meio sorriso e sentou-se ao meu lado, o mais próximo que a carteira permitia. Fiquei imóvel. Se Patch queria jogar, eu jogaria.
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